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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Embarcações que navegavam nas águas do Mediterrâneo na Antiguidade

Birremes, trirremes, quadrirremes, quinquerremes...


Embarcação grega da Antiguidade (¹)

"Não deves jamais colocar todos os teus bens nos navios..."
                                              Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias

As embarcações que cruzavam o Mediterrâneo e adjacências na Antiguidade eram dotadas de velas, mas não era só o vento que as impulsionava - havia também a força dos músculos de muitos remadores - primeiro gente livre e, mais tarde, escravos.
Quando uma embarcação tinha duas filas de remos (os remadores eram dispostos em dois "andares"), recebia o nome de birreme; se tivesse três filas de remadores, era trirreme, se fossem quatro as fileiras, era quadrirreme e, se tivesse cinco, seria então quinquerreme. Estas duas últimas só eram usadas em batalhas navais, e não eram muito numerosas porque suas proporções tornavam as manobras mais difíceis. Ainda assim, eram úteis para impressionar adversários.
Se pensarmos no Mediterrâneo como um gigantesco lago de água salgada, cercado por diferentes povos que falavam uma variedade de línguas e que desenvolveram diversas e notáveis culturas, será fácil entender que o desenvolvimento da navegação e, por conseguinte, das embarcações, não foi obra de um único povo. Um invento aparecia em um lugar, logo era adotado em outro, recebia aperfeiçoamentos que, por sua vez, eram copiados pela vizinhança. Qual era o melhor formato para um navio mercante? E para um navio de guerra? Quantos deviam ser os remos, e de que comprimento? E se dois remadores manipulassem um único remo? Velas quadradas ou redondas? Vê-se que o mundo mediterrânico vivia em efervescência, e a arte náutica se beneficiava disso. Fenícios, cartagineses, gregos, romanos e outros povos da Península Itálica, todos deram sua contribuição, ainda que nem sempre voluntária, conforme veremos.
Atenienses, na batalha naval de Salamina (²), impuseram notável derrota aos persas, provando a eficiência das trirremes gregas contra as desajeitadas, ainda que numerosas, embarcações adversárias. Isso aconteceu depois que Temístocles, segundo conta Heródoto, conseguiu que seus concidadãos acreditassem que uma estranha profecia vinda de Delfos, segundo a qual os gregos venceriam se, para sua defesa, fizessem uma muralha de madeira, era referência ao uso de uma frota que barrasse a passagem dos comandados de Xerxes, rei dos persas.
Mas como é que Atenas tinha prontas tantas trirremes com que enfrentar a poderosa frota persa? Heródoto, em suas Histórias, explica:
"O tesouro de Atenas tinha grande quantidade de dinheiro para uso público, como resultado de terem explorado as minas de Láurion, e os atenienses julgavam que deviam reparti-lo entre si; porém Temístocles convenceu-os a [...] construir duzentos navios de guerra para lutar contra Egina. Embora as embarcações não tenham sido usadas para seu primeiro objetivo, foram a salvação dos gregos, ao fazer de Atenas uma grande força naval."
Ainda segundo Heródoto, não satisfeitos com a frota que já tinham, os cidadãos atenienses fizeram mais navios, converteram embarcações mercantes em vasos de guerra e convocaram a participação de outros gregos que quisessem juntar-se a eles na luta contra Xerxes, convencidos que estavam de que, assim fazendo, obedeciam à determinação de Apolo. Venceram!

Combate naval retratado em um vaso grego da Antiguidade (³)

Tito Lívio registrou, em Ab urbe condita libri, que, durante a Primeira Guerra Púnica (⁴), os romanos perceberam que era grande desvantagem não dispor de uma esquadra que fizesse frente aos hábeis marujos cartagineses. Foi então que caiu em poder dos romanos uma embarcação do tipo quinquerreme. Seguimos com Tito Lívio:
"Sobre aquele modelo os cônsules determinaram a construção de uma frota, na qual tanto empenho foi posto que, passados sessenta dias desde que se preparara a madeira, já havia de prontidão uma armada de cento e sessenta velas."
Exagero? Talvez, mas salta os olhos o fato de que a gente de Roma, ainda neófita em questões navais, tivesse a capacidade de, rapidamente, copiar uma nau inimiga. Esse pragmatismo, é bom lembrar, caracterizou a Roma Antiga. Se alguma coisa era útil, devia ser admitida, independente de sua origem.
Ocorre que os romanos, percebendo que era agora possível chegar perto das embarcações adversárias, tiveram a ideia de inventar um maquinismo que permitisse prender os navios inimigos aos seus. Estendia-se logo uma ponte, de tal modo que soldados de Roma, passando por ela, podiam travar combate corpo a corpo com os homens de Cartago. Nesse tipo de luta os romanos levavam, quase sempre, enorme vantagem.
Para concluir, será interessante considerar se os navios que os povos mediterrânicos usavam tão bem em águas "domésticas" seriam igualmente eficazes em outros mares. Poderiam navios como esses fazer longas viagens? Heródoto, por exemplo, falou de uma viagem que marinheiros fenícios teriam empreendido a serviço de um faraó, na qual, tendo partido do Mar Vermelho, retornaram ao Egito pelo Mediterrâneo, depois de costear a África. Não há provas definitivas de que essa viagem tenha mesmo acontecido, mas sabe-se que não era impossível.
Por outro lado, o tipo de embarcações que os romanos usavam com eficiência no Mediterrâneo mostrou-se inadequado quando, comandados por Germânico, tiveram de enfrentar as águas revoltas do Mar do Norte, em meio a uma tempestade. Muitos soldados romanos morreram, enquanto sobreviventes foram arremessados a terras distantes, algumas delas ainda desconhecidas para os habitantes da Península Itálica.
Políbio (⁵), em sua História, explicou: 
"Faz-se muito pouco uso do mar das Colunas de Hércules, porque são muito poucos os que comerciam com povos que vivem nos extremos da África e da Europa, e também porque o mar exterior é desconhecido para nós." (⁶) 
Parece que, ao menos em seus dias, viagens além do Mediterrâneo não eram usuais.

(1) BUSCHOR, Ernst. Griechische Vasenmalerei. Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 142.
(2) Em 480 a.C., durante as chamadas Guerras Médicas.
(3) KNOWLTON, Daniel C. Illustrated Topics for Ancient History. Philadelphia: McKinley Publishing Company, 1913.
(4) As Guerras Púnicas foram guerras entre Roma e Cartago, travadas, com intervalos, entre 264 a.C. e 146 a.C.. Recebem esse nome porque os romanos chamavam punos aos cartagineses. 
(5) Políbio de Megalópolis (c. 203 - 120 a.C.) foi um grego que passou a maior parte da vida entre romanos; escreveu, entre outros assuntos, sobre as Guerras Púnicas.
(6) As citações de Hesíodo, Heródoto, Tito Lívio e Políbio que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Guardadores de porcos

A figura do pastor de ovelhas tem, no imaginário popular, um certo aspecto romântico. Não faltam lendas e histórias reais que ressaltam o cuidado e ternura dos pastores por seus rebanhos, sejam eles pouco ou muito numerosos. Civilizações do passado, principalmente nômades, surgiram e cresceram tendo o pastoreio como sua atividade econômica mais importante. Ainda hoje é assim em alguns lugares, nos quais populações deslocam-se com as ovelhas de acordo com as estações do ano - é a chamada transumância.
O que pouca gente sabe é que, no passado, não só as ovelhas tinham guardadores especiais. Havia também porqueiros - guardadores profissionais de porcos.
Cornetas de pastoreio usadas
pelos antigos romanos (³)
Políbio de Megalópolis (¹) escreveu:
"Na Itália os criadores de porcos não os colocam em cercados, tampouco os porqueiros seguem as manadas (como ocorre na Grécia), mas caminham adiante dos animais, tocando um instrumento de sopro, que a manada reconhece e distingue como sendo de seu pastor." (²)
O próprio Políbio admitia que, à primeira vista, isso parecia muito estranho e improvável, mas afirmava ser a verdade. E havia mais: quando duas ou mais manadas, caminhando juntas, chegavam a misturar-se, bastava que os porqueiros tocassem seus instrumentos para que os animais, sem mais demora, se aproximassem dos respectivos guardadores.
Esse costume da Itália, entendia ele, era muito útil, já que, como grego de nascimento, afirmava saber que entre os helenos, quando sucedia que manadas se misturassem, não raro o dono do maior número de porcos tentava reter para si os animais de outros donos. Vê-se que, como regra geral, a humanidade não mudou muito nesses pouco mais de dois mil anos.

(1) Falecido em c.120 a.C. 
(2) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) STRONG, Eugénie. Art in Ancient Rome vol. 2. New York: Charles Scribner's Sons, 1928, p. 22. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Os indígenas do Brasil e os antigos romanos tinham algo em comum

Sinal de combate para os índios coroados,
de acordo com Debret (⁴)
Em fins do Século XVI, Gabriel Soares descreveu assim o método usado pelos tupinambás quando iam à guerra contra uma aldeia inimiga (fosse de outros índios ou uma povoação de portugueses):
"Tanto que os tupinambás chegam a duas jornadas da aldeia de seus contrários, não fazem fogo de dia, por não serem sentidos deles pelos fumos que se veem de longe, e ordenam-se de maneira que possam dar nos contrários de madrugada, e em conjunção de lua cheia, para andarem a derradeira jornada de noite pelo luar, e tomarem seus contrários desapercebidos e descuidados; e em chegando à aldeia dão todos juntos tamanho urro, gritando, que fazem com isso e com suas buzinas e tamboris grande estrondo, e desta maneira dão o seus assalto aos contrários." (¹)
Gabriel Soares não foi o único a referir o hábito entre os indígenas de iniciar o combate com grande alarido. Sabermos, também, por outros autores, que esse costume não se restringia aos tupinambás, sendo antes muito comum entre os povos indígenas do Brasil.
No entanto, culturas muito distintas, grandemente separadas no tempo e no espaço, podem, às vezes, ter costumes semelhantes. Descrevendo os momentos que precederam o combate entre as forças romanas, comandadas por Cipião, e as de Cartago, comandadas por Aníbal (²), até que o confronto principiasse, Políbio de Megalópolis anotou:
"Neste momento, as duas falanges iam lentamente se aproximando com arrogância, exceto aquelas forças que, com Aníbal, tinham vindo da Itália (e que permaneceram no mesmo lugar que desde o início ocupavam). Já próximos, os romanos, com altos gritos - esse é seu costume - e fazendo barulho quando batiam as espadas nos escudos, atacaram." (³)
Os instantes que antecediam um combate deviam ser de grande tensão, quer os contendores fossem romanos e cartagineses, quer fossem povos indígenas do Brasil. Em ambos os casos, gritar e fazer barulho talvez ajudasse a liberar as energias severamente reprimidas. 

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 330.
(2) Durante as Guerras Púnicas.
(3) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 23 de março de 2015

A falange macedônica e o exército romano - uma comparação

A falange macedônica devia ter, para seus oponentes, um aspecto aterrador. Sim, talvez parecesse uma floresta de lanças pontiagudas, que bem podiam dissuadir muitos valentões de qualquer tentativa de enfrentamento. Sabe-se, porém, que, diante do exército romano, ela provou-se frágil.
Por quê?
Já na Antiguidade o assunto foi alvo de reflexões. Políbio de Megalópolis, por exemplo, percebeu que a falange podia ser considerada invencível enquanto fosse capaz de conservar a formação; essa ordem, porém, era difícil de manter. Além disso, como força de ataque, ela era eficiente apenas quando o adversário estava à sua frente. Era praticamente impossível aos membros da falange a inversão de posições, de modo a viabilizar o ataque a um inimigo que estivesse à retaguarda.
Mas não era só.
"A falange - escreveu Políbio - precisa de terreno plano, aberto e sem obstáculos, ou seja, sem valas profundas, sem fraturas, sem declives assinalados, sem ribanceiras e sem barrancos. A existência de apenas um desses obstáculos é suficiente para que perca a eficiência e haja quebra na formação." (*)
Ora, segundo argumentava Políbio, terrenos tão perfeitos eram quase inexistentes, principalmente em situações de combate. Por isso, a falange, imbatível diante de inimigos mais fracos, não tardou a mostrar suas deficiências ao enfrentar o ágil exército romano.
A título de comparação, o mesmo Políbio observou que "o soldado romano, armado para o combate, adapta-se a qualquer tempo e condições do terreno, independente do lado onde o inimigo apareça, e tem a mesma firmeza e ordem, quer tenha de lutar em conjunto com todo o exército, quer tenha de combater em pequenos grupos ou mesmo individualmente." (*)
A vantagem do exército romano estava, portanto, na versatilidade, coisa que faltava quase de todo à falange macedônica. O que teria ocorrido se, por obra do acaso, Alexandre, o Grande, à frente da falange macedônica, tivesse vivido nos dias de algum dos grandes generais romanos, tais como Cipião ou César, de modo que se enfrentassem em algum momento? Prevaleceria o exército mais versátil? Ou talvez o mais lúcido dos generais? Fica aí uma boa questão para gastar o cérebro dos senhores leitores deste blog.

(*) Os trechos citados de Políbio de Megalópolis são tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Argumentos para um embaixador que deseja preservar a paz

Na Antiguidade havia povos muito briguentos. As guerras aconteciam pelos motivos mais fúteis, inclusive pelo prazer da contenda. Como veem os leitores, as coisas corriam mais ou menos como hoje, apenas com a diferença de que as armas então disponíveis não eram igualmente letais. 
Ainda assim, gente ajuizada compreendia que, na maioria dos casos, era prudente evitar a guerra, que, afinal, teria resultado imprevisível. 
Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre os romanos e foi contemporâneo de parte das Guerras Púnicas (¹), formulou alguns argumentos interessantes como sugestão aos embaixadores que, no exercício de sua funções, pretendessem a manutenção da paz. Escreveu ele:
"A guerra é semelhante à doença, enquanto a paz corresponde à saúde, de tal modo que, na paz, os enfermos se curam, enquanto que, na guerra, os saudáveis é que morrem; vigorando a paz, os velhos são sepultados pelos jovens, mas, na guerra, os jovens são sepultados pelos velhos; finalmente, na guerra, ninguém se acha seguro nem mesmo sob a proteção das muralhas, enquanto que na paz há tranquilidade até às fronteiras." (²)
Estas são boas ideias que deveriam ser consideradas pelos mandatários (e pelos mandões) que vivem sobre a superfície deste planeta já cansado de tantos conflitos inúteis e devastadores, não é mesmo? Principalmente porque, na hora dos grandes riscos, são os comandados que estão na frente da batalha, ao preço da própria vida, e não aqueles que ditam as ordens.

(1) Guerras entre Roma e Cartago, travadas entre 264 e 146 a.C., tendo como principal objetivo a hegemonia no Mediterrâneo ocidental.
(2) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O laconismo dos espartanos

"...a diplomacia é a arte de gastar palavras, perder tempo, estragar papel, por meio de discussões inúteis, delongas e circunlocuções desnecessárias e prejudiciais."
                                          Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1865

Esparta tornou-se famosa pelo militarismo, pelo estilo de vida frugal de seus habitantes, pela educação severa ministrada à juventude. Mas também ficou conhecida pelo hábito que os espartanos eram levados a adquirir, desde a infância, de falar apenas o estritamente necessário. Esse costume recebeu o nome de "laconismo". Explica-se: Esparta ficava na Lacônia, que era parte do Peloponeso, que era parte da Antiga Grécia. 
Consta que Xerxes, soberano persa, enviou um embaixador aos espartanos, exigindo deles que lhe entregassem "água e terra", uma expressão que, na prática, equivalia a dizer: "Rendam-se, espartanos! Quero tudo, sem condições ou reservas". 
De acordo com Políbio de Megalópolis, ao invés de discutir com o diplomata (como fariam quase todos os povos, até como estratégia para ganhar tempo), os gregos de Esparta, que nunca foram paradigma de sutileza nas relações com estrangeiros, limitaram-se a jogar o embaixador dentro de um poço e, depois, cobriram-no de terra, dizendo ao sujeito que fosse relatar a Xerxes que já havia conseguido o que lhe mandara exigir.
Laconismo às últimas consequências.


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