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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Guerras Púnicas

As Guerras Púnicas, travadas entre Roma e Cartago entre 264 a.C. e 146 a.C. têm esse nome porque os romanos se referiam aos cartagineses como punos. Podem ser divididas em três grandes fases, assim datadas:
  • Primeira Guerra Púnica: 264 a.C. - 241 a.C.;
  • Segunda Guerra Púnica: 218 a.C. - 201 a.C.;
  • Terceira Guerra Púnica: 149 a.C. - 146 a.C.


Algumas curiosidades sobre as Guerras Púnicas


1. De acordo com Aneu Floro (¹) em Rerum Romanarum:
  • Ao final da primeira guerra púnica, em sinal de paz, "foram fechadas as portas do templo de Jano, pela primeira vez, desde o tempo de Numa". (²) 
  • Ao final da Segunda Guerra Púnica, "comparando-se o dano a ambos os povos [romanos e cartagineses], viu-se que era semelhante para vencedores e vencidos". (³)
  • No último cerco de Cartago, ao final da Terceira Guerra Púnica, a mulher de Asdrúbal, para não cair nas mãos dos romanos, abraçou-se aos dois filhos e juntos lançaram-se às chamas. O fogo na cidade somente se extinguiu depois de dezessete dias. Foram os próprios cartagineses que atearam fogo à cidade, para que os romanos nada tivessem para levar ao triunfo. (⁴)

2. De acordo com Políbio de Megalópolis (⁵) em Historiae:
  • Aníbal, general cartaginês, teria permanecido dezesseis anos na Itália com suas tropas. (⁶)
  • As tropas de Aníbal eram compostas por africanos, espanhóis, celtas, fenícios, italianos e gregos. (⁷)
  • As barracas dos cartagineses em seus acampamentos eram feitas de folhas e ramos de árvores. (⁸)
  • Referindo-se ao combate entre as tropas de Cipião e de Aníbal na batalha de Zama, em 19 de outubro de 202 a.C., Políbio afirmou: "Na manhã seguinte, ambos os generais aprontaram os exércitos para a batalha, lutando os cartagineses por si mesmos e por toda a África, e os romanos pelo império e domínio do mundo." (⁹)
  • Ainda sobre a batalha de Zama, Políbio escreveu: "Os romanos perderam  mais de mil e quinhentos homens, enquanto que dos cartagineses morreram mais de vinte mil, e outros tantos foram feitos prisioneiros. Esse foi o resultado da batalha entre Cipião e Aníbal, que deu aos romanos o domínio do mundo." (¹º)
(1) Contemporâneo do imperador Adriano.
(2) FLORO. Rerum Romanarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 
(4) Cf. FLORO. Rerum Romanarum, Livro II.
(5) Século II a.C.
(6) Cf. POLÍBIO. Historiae, Livro XI.
(7) Ibid.
(8) Cf. POLÍBIO. Historiae, Livro XIV.
(9) POLÍBIO. Historiae, Livro XV. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.  
(10) Ibid. 


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quinta-feira, 9 de março de 2023

Um rato por duzentos denários

As mortes em massa têm levado muita gente a pensar que as guerras de hoje são muito piores que as da Antiguidade. A seu modo, porém, as guerras sempre foram ruins, e nunca deixarão de ser. 
Uma das piores coisas que um exército invasor procurava fazer, se não fosse possível a vitória no combate em campo aberto,  era forçar a rendição dos inimigos, que se encontravam trancafiados dentro de uma cidade murada, levando-os à completa falta de víveres. A morte vinha pela sede, se a cidade não tivesse um suprimento confiável de água, e, mais provavelmente, pelo fim do estoque de alimentos. Mais sorte tinham os que morriam por ferimentos em batalha que os que enfrentavam os horrores da morte por inanição, precedida por dias ou meses em que os sobreviventes comiam literalmente quase qualquer coisa que pudessem encontrar, tal era o desespero. De acordo com Plínio (¹), autor romano do Século I, houve um incidente durante as Guerras Púnicas que ilustra muito bem esse fato:
"Um rato foi vendido por duzentos denários quando Casilinum estava sitiada por Aníbal, e o homem que o vendeu morreu de fome, mas o comprador sobreviveu, de acordo com os anais (²)." (³)
Ratos, como se sabe, não correspondem à dieta favorita de seres humanos. Só eram devorados como último recurso, quando já não havia nada melhor à disposição. O detalhe notável é que um murídeo foi vendido por nada menos que duzentos denários - lembrem-se, leitores, de que o denário era o valor pago, habitualmente, por dia, aos trabalhadores braçais assalariados. Ora, o ratinho em questão custou o salário de nada menos que duzentos dias de trabalho. Se a história contada por Plínio corresponder à realidade, esse foi o valor que garantiu a sobrevivência do comprador. Em termos absolutos, foi um preço muito alto. Considerando o assunto, tanto sob a perspectiva do vendedor como do comprador, pergunto: valeu a pena? 

(1) c. 23 - 79 d.C.
(2) Anais eram registros oficiais com os acontecimentos notáveis de cada ano.
(3) PLÍNIO, o Velho. Naturalis Historia, Livro VIII. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 6 de maio de 2021

Cabelos, longos cabelos na Antiguidade

Dama romana com penteado elaborado (¹)
Longos cabelos são um símbolo de força, certo? Ao menos na Bíblia parece que sim. É só notar o exemplo de Sansão, ou talvez de Absalão, o belo e complicado filho do rei Davi. 
Entre os romanos, conforme relato de Políbio de Megalópolis em sua História, quando a cidade sofria uma ameaça grave, era costume que as mulheres, indo em massa aos templos, fizessem promessas aos deuses e varressem o piso com os próprios cabelos. É dito que esse ritual teria acontecido, por exemplo, quando os cartagineses, sob a liderança de Aníbal, chegaram bem perto de Roma.
Por outro lado, as mulheres de Cartago, segundo Floro (²), teriam, durante a Terceira Guerra Púnica (³), cortado os cabelos para que fossem usados na confecção de cordas indispensáveis às máquinas de guerra. Em ambos os casos, pode-se atribuir ao patriotismo das mulheres a disposição em sacrificar os longos cabelos, mas, pela lógica vigente na Antiguidade, era também questão de sobrevivência, fosse para prover material bélico quando havia muita escassez, fosse pelo recurso aos deuses, quando os homens, na frente de batalha, não pareciam ser capazes de dar conta do recado.
Mais tarde, quando os romanos, pelo afluxo de riquezas decorrentes das conquistas, tornaram-se grandes amigos do luxo e do conforto, os cabeleireiros, que nos primeiros tempos de Roma não eram profissionais muito procurados, passaram a ser indispensáveis. Frequentando os banhos públicos, os romanos, fossem homens ou mulheres, aprenderam a gostar de ter os cabelos devidamente tratados, o que incluía não só o corte, se necessário, mas o uso de coisas supostamente favoráveis à beleza, além de perfumes, geralmente trazidos de longe por mercadores, como era o caso da canela, muito valorizada.

(1) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 244.
(2) Epitome rerum Romanarum, Livro II. 
(3) 149 a.C. - 146 a.C.


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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O Mediterrâneo foi uma via de fusão e irradiação de culturas na Antiguidade

No modo como jovens estudantes são, às vezes, apresentados aos povos da Antiguidade, pode-se ter a impressão de que egípcios, gregos, romanos, fenícios, hebreus, entre outros, viviam, cada um, em isolamento em relação aos demais. Teriam, portanto, cultura própria e exclusiva, quanto à língua, vestuário, escrita, religião, arquitetura, atividades econômicas e quase tudo quanto se possa imaginar. Ora, leitores, acontecia exatamente o contrário.
Embora o grau de intercâmbio entre os diferentes povos tenha variado de uma época para outra, pode-se, em linhas gerais, dizer que o mar Mediterrâneo foi, na Antiguidade, uma poderosa via de comunicação, que resultou em irradiação cultural e em fusão de ideias, a tal ponto que, para quem se dedica ao estudo dos povos estabelecidos ao seu redor, fica às vezes difícil determinar a origem de certos elementos. Querem um exemplo? Vamos ao mais simples. É comum que se diga que nosso alfabeto teve origem entre os fenícios. Será, mesmo? Há quem pense que pode ter começado na confluência de rotas terrestres que ligavam a Mesopotâmia à Palestina e, daí, alcançavam o Egito. Os fenícios, hábeis comerciantes, logo perceberam a vantagem de uma escrita alfabética, muito mais simples e fácil que os hieróglifos egípcios, e, apropriando-se dela, espalharam-na pela bacia do Mediterrâneo, durante suas incansáveis viagens de negócios. Não era preciso pertencer a uma classe sacerdotal ou ter a profissão de escriba para aprender umas poucas letras e fazer uso delas
Especialistas têm-se dedicado à análise do verdadeiro emaranhado de deuses que povos do Mediterrâneo, quase todos politeístas, desenvolveram. É inegável a equivalência entre muitas divindades, ainda que a mais clássica de todas as semelhanças, a dos gregos e romanos, seja alvo de questionamentos. Sabe-se, porém, que, nos primórdios, era generalizada a associação de divindades com forças da natureza, cujo culto, não raro, estava vinculado ao ciclo agrícola anual. Em termos práticos, variava o nome de deuses e deusas, mas os mitos guardavam semelhança e os rituais a eles associados também evidenciavam, ou uma origem comum, ou a inspiração em práticas alheias.
O intercâmbio cultural não foi, contudo, sempre de ordem pacífica. As guerras foram parte desse processo, resultando, eventualmente, em dominação de um povo por outro, mais forte militarmente, mas nem sempre superior quanto aos conhecimentos científicos, à arte ou à tecnologia. Atenas foi vencida por Esparta, a até então obscura Macedônia dominou cidades gregas poderosas e Roma subjugou a Grécia. Mas, como se sabe, a cultura grega exerceu tal encanto sobre os vitoriosos que, em pouco tempo, a elite romana passou a aprender grego e a imitar a arte grega em seus múltiplos aspectos. O maior confronto, no entanto, ao menos em se tratando de consequências, parece ter ocorrido entre Roma e Cartago, esta última, um poderoso império comercial sediado no norte da África. Não havia lugar para dois impérios tão próximos. Roma venceu e eliminou Cartago da concorrência.


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Por que Aníbal não atacou Roma?

Aníbal atravessando os Alpes, de acordo com
um cartunista do Século XIX (⁴)
A travessia dos Alpes (¹) em 218 a.C. por um exército de homens, cavalos e nada menos que trinta e oito elefantes, sob a liderança de Aníbal Barca, pode ser classificada como uma das maiores loucuras de todos os tempos. Mas aconteceu. E então, superadas dificuldades terríveis, a Península Itálica e o domínio de Roma pareciam estar à inteira disposição do general cartaginês e de suas tropas. Tito Lívio (²), historiador romano, escreveu: "Depois de incrível esforço e trabalho, chegou Aníbal à Itália, cinco meses após deixar Cartagena, tendo gasto quinze dias na travessia dos Alpes." (³)
Era a Segunda Guerra Púnica. Vencendo sucessivas batalhas, as forças de Cartago chegaram muito perto de Roma. A conquista da cidade se mostrava iminente. Aníbal, todavia, nunca desfechou o ataque decisivo. Por quê? 
É possível que o notável comandante cartaginês tivesse conhecimento de fatos que tenham permanecido incógnitos para os autores da época, a cujos registros temos de nos reportar. Não teria ele confiança suficiente em suas tropas? Teria sido vítima do medo do próprio sucesso? Ou, talvez, a conselho de algum oráculo, tenha protelado o ataque para uma data supostamente mais favorável, deixando passar sua única oportunidade real de conquistar Roma?
Tudo o que se pode afirmar, no estágio atual dos conhecimentos, é: não se sabe ao certo. 
Políbio de Megalópolis (⁵), cuja História cobre muitos acontecimentos relacionados às Guerras Púnicas, observou: "Qualquer um louvará a maestria de Aníbal na arte da guerra, podendo dizer, sem receio de erro, que se houvesse começado suas ações em outros lugares e finalmente concluísse atacando Roma, teria sido vitorioso; porém, como começou por onde deveria terminar, Roma foi berço e túmulo de seus projetos." (⁶) De acordo com Tito Lívio, Maharbal, um dos homens de maior confiança no estado-maior de Aníbal, teria dito: "Os deuses não dão tudo ao mesmo homem. Sabes vencer, Aníbal, mas não és capaz de fazer uso da vitória." (⁷).

(1) A controvérsia quanto à rota adotada tem alimentado polêmicas e preenchido muito papel, tanto manuscrito quanto impresso, mas, a despeito disso, parece estar longe de terminar.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) TITO LÍVIO. Ab urbe condita libri.
(4) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 173. (A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog).
(5) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(6) POLÍBIO. História.
(7) TITO LÍVIO. Op. citOs trechos citados das obras de Tito Lívio e Políbio de Megalópolis foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Como os antigos romanos descobriram que elefantes podiam morrer

Em luta contra o exército de Pirro, rei do Épiro, que se aliara aos tarentinos, os romanos enfrentaram pela primeira vez, ao que se sabe, os tanques de guerra vivos da Antiguidade: elefantes! Aneu Floro (¹), em Epitome rerum Romanarum, escreveu:
"Para defender a semigrega cidade (²) fundada por lacedemônios, [Pirro] trouxe homens do Épiro, da Tessália e da Macedônia, elefantes, até então desconhecidos, forças de mar, terra e cavalaria." (³)
Pânico geral entre os corajosos romanos. Quem ousaria enfrentar as terríveis criaturas que, sem mostras de caridade, pisoteavam os insignificantes soldados que esboçavam alguma oposição? O pavor campeou entre as forças de Roma até que Caio Minúcio, da Quarta Legião (ainda segundo Floro), ao cortar a tromba de um elefante, demonstrou que os ditos animais podiam ser mortos... 
Cortar a tromba - que ato de bravura! Não pretendo gastar tempo discutindo se os fatos foram mesmo assim. Afinal, Floro escreveu muito tempo depois da guerra contra Pirro. Mas podemos, de sua informação, extrair algumas conclusões:
  • Na memória coletiva dos romanos, a luta contra os elefantes na Batalha de Heracleia (⁴) tinha proporções exageradas (isso não é um trocadilho - mesmo!);
  • O episódio de valentia do soldado Caio Minúcio era reputado como real e notável, ou ninguém mais se lembraria dele;
  • O próprio Floro devia ter fé na autenticidade do episódio, ou não iria adicioná-lo à sua obra, correndo o risco de ser considerado mentiroso;
  • Os conhecimentos de zoologia dos romanos do Século III a.C. eram, no melhor dos casos, sofríveis, e a falta de informação quanto à existência de elefantes comprova que, nesse tempo, o contato de povos da Península Itálica com outras regiões não era expressivo - somos forçados a considerar que, para seus dias, o ousado golpe desferido por Caio Minúcio contra a tromba de um elefante significou, para Roma, mais que um feito militar, foi um grande avanço na ciência. Podem rir, leitores.
O caso é que, depois do susto inicial, os romanos gostaram tanto dos elefantes que, assim que puderam, trataram de incluí-los entre seus recursos bélicos. Mas tiveram problemas: consta que, tendo capturado alguns elefantes dos cartaginenses durante as Guerras Púnicas, os pobres animais acabaram morrendo de fome, porque seus novos senhores não tinham a menor ideia de como deviam alimentá-los. Na guerra ou na paz, o contato com outros povos serviu para ampliar os conhecimentos dos romanos. Posteriormente, elefantes seriam parte importante dos espetáculos circenses para o entretenimento de multidões na capital do Império.

Uma visão humorística do exército de Pirro (⁵)

(1) Este autor romano viveu entre os Séculos I e II d.C.; foi contemporâneo do imperador Adriano.
(2) Tarento.
(3) O trecho citado de Epitome rerum Romanarum é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) 280 a.C.
(5) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 138. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Embarcações que navegavam nas águas do Mediterrâneo na Antiguidade

Birremes, trirremes, quadrirremes, quinquerremes...


Embarcação grega da Antiguidade (¹)

"Não deves jamais colocar todos os teus bens nos navios..."
                                              Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias

As embarcações que cruzavam o Mediterrâneo e adjacências na Antiguidade eram dotadas de velas, mas não era só o vento que as impulsionava - havia também a força dos músculos de muitos remadores - primeiro gente livre e, mais tarde, escravos.
Quando uma embarcação tinha duas filas de remos (os remadores eram dispostos em dois "andares"), recebia o nome de birreme; se tivesse três filas de remadores, era trirreme, se fossem quatro as fileiras, era quadrirreme e, se tivesse cinco, seria então quinquerreme. Estas duas últimas só eram usadas em batalhas navais, e não eram muito numerosas porque suas proporções tornavam as manobras mais difíceis. Ainda assim, eram úteis para impressionar adversários.
Se pensarmos no Mediterrâneo como um gigantesco lago de água salgada, cercado por diferentes povos que falavam uma variedade de línguas e que desenvolveram diversas e notáveis culturas, será fácil entender que o desenvolvimento da navegação e, por conseguinte, das embarcações, não foi obra de um único povo. Um invento aparecia em um lugar, logo era adotado em outro, recebia aperfeiçoamentos que, por sua vez, eram copiados pela vizinhança. Qual era o melhor formato para um navio mercante? E para um navio de guerra? Quantos deviam ser os remos, e de que comprimento? E se dois remadores manipulassem um único remo? Velas quadradas ou redondas? Vê-se que o mundo mediterrânico vivia em efervescência, e a arte náutica se beneficiava disso. Fenícios, cartagineses, gregos, romanos e outros povos da Península Itálica, todos deram sua contribuição, ainda que nem sempre voluntária, conforme veremos.
Atenienses, na batalha naval de Salamina (²), impuseram notável derrota aos persas, provando a eficiência das trirremes gregas contra as desajeitadas, ainda que numerosas, embarcações adversárias. Isso aconteceu depois que Temístocles, segundo conta Heródoto, conseguiu que seus concidadãos acreditassem que uma estranha profecia vinda de Delfos, segundo a qual os gregos venceriam se, para sua defesa, fizessem uma muralha de madeira, era referência ao uso de uma frota que barrasse a passagem dos comandados de Xerxes, rei dos persas.
Mas como é que Atenas tinha prontas tantas trirremes com que enfrentar a poderosa frota persa? Heródoto, em suas Histórias, explica:
"O tesouro de Atenas tinha grande quantidade de dinheiro para uso público, como resultado de terem explorado as minas de Láurion, e os atenienses julgavam que deviam reparti-lo entre si; porém Temístocles convenceu-os a [...] construir duzentos navios de guerra para lutar contra Egina. Embora as embarcações não tenham sido usadas para seu primeiro objetivo, foram a salvação dos gregos, ao fazer de Atenas uma grande força naval."
Ainda segundo Heródoto, não satisfeitos com a frota que já tinham, os cidadãos atenienses fizeram mais navios, converteram embarcações mercantes em vasos de guerra e convocaram a participação de outros gregos que quisessem juntar-se a eles na luta contra Xerxes, convencidos que estavam de que, assim fazendo, obedeciam à determinação de Apolo. Venceram!

Combate naval retratado em um vaso grego da Antiguidade (³)

Tito Lívio registrou, em Ab urbe condita libri, que, durante a Primeira Guerra Púnica (⁴), os romanos perceberam que era grande desvantagem não dispor de uma esquadra que fizesse frente aos hábeis marujos cartagineses. Foi então que caiu em poder dos romanos uma embarcação do tipo quinquerreme. Seguimos com Tito Lívio:
"Sobre aquele modelo os cônsules determinaram a construção de uma frota, na qual tanto empenho foi posto que, passados sessenta dias desde que se preparara a madeira, já havia de prontidão uma armada de cento e sessenta velas."
Exagero? Talvez, mas salta os olhos o fato de que a gente de Roma, ainda neófita em questões navais, tivesse a capacidade de, rapidamente, copiar uma nau inimiga. Esse pragmatismo, é bom lembrar, caracterizou a Roma Antiga. Se alguma coisa era útil, devia ser admitida, independente de sua origem.
Ocorre que os romanos, percebendo que era agora possível chegar perto das embarcações adversárias, tiveram a ideia de inventar um maquinismo que permitisse prender os navios inimigos aos seus. Estendia-se logo uma ponte, de tal modo que soldados de Roma, passando por ela, podiam travar combate corpo a corpo com os homens de Cartago. Nesse tipo de luta os romanos levavam, quase sempre, enorme vantagem.
Para concluir, será interessante considerar se os navios que os povos mediterrânicos usavam tão bem em águas "domésticas" seriam igualmente eficazes em outros mares. Poderiam navios como esses fazer longas viagens? Heródoto, por exemplo, falou de uma viagem que marinheiros fenícios teriam empreendido a serviço de um faraó, na qual, tendo partido do Mar Vermelho, retornaram ao Egito pelo Mediterrâneo, depois de costear a África. Não há provas definitivas de que essa viagem tenha mesmo acontecido, mas sabe-se que não era impossível.
Por outro lado, o tipo de embarcações que os romanos usavam com eficiência no Mediterrâneo mostrou-se inadequado quando, comandados por Germânico, tiveram de enfrentar as águas revoltas do Mar do Norte, em meio a uma tempestade. Muitos soldados romanos morreram, enquanto sobreviventes foram arremessados a terras distantes, algumas delas ainda desconhecidas para os habitantes da Península Itálica.
Políbio (⁵), em sua História, explicou: 
"Faz-se muito pouco uso do mar das Colunas de Hércules, porque são muito poucos os que comerciam com povos que vivem nos extremos da África e da Europa, e também porque o mar exterior é desconhecido para nós." (⁶) 
Parece que, ao menos em seus dias, viagens além do Mediterrâneo não eram usuais.

(1) BUSCHOR, Ernst. Griechische Vasenmalerei. Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 142.
(2) Em 480 a.C., durante as chamadas Guerras Médicas.
(3) KNOWLTON, Daniel C. Illustrated Topics for Ancient History. Philadelphia: McKinley Publishing Company, 1913.
(4) As Guerras Púnicas foram guerras entre Roma e Cartago, travadas, com intervalos, entre 264 a.C. e 146 a.C.. Recebem esse nome porque os romanos chamavam punos aos cartagineses. 
(5) Políbio de Megalópolis (c. 203 - 120 a.C.) foi um grego que passou a maior parte da vida entre romanos; escreveu, entre outros assuntos, sobre as Guerras Púnicas.
(6) As citações de Hesíodo, Heródoto, Tito Lívio e Políbio que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Duas tempestades de granizo e uma batalha entre Roma e Cartago que nunca aconteceu

Quem conhece apenas superficialmente a história da antiga Roma será tentado a pensar que ela, por muitos séculos, permaneceu inexpugnável, soberana absoluta do mundo mediterrânico, até que, finalmente, veio a cair em mãos dos bárbaros. Mas não foi assim. Não foram poucas as ocasiões em que Roma foi severamente ameaçada, e que até precisou negociar uma rendição com os inimigos. 
Pois bem, se ouve uma ocasião em que Roma poderia ter caído e, como potência, teria até desaparecido, foi durante as Guerras Púnicas (¹), quando Aníbal (²) e suas tropas chegaram a estar a poucos quilômetros dos muros da cidade, não muito depois de terem os romanos conquistado Siracusa, aliada de Cartago (em 211 a.C.). Sendo este o cenário do confronto, a interferência de um elemento imprevisível trouxe mudança completa ao que parecia ser o rumo normal dos acontecimentos.
O relato de Tito Lívio é impressionante, permitindo a quem o lê visualizar mentalmente o que sucedeu, estando os dois exércitos frente a frente, em formação de batalha, cabendo "Roma como prêmio ao vitorioso":
"Caiu sobre ambos os exércitos uma pesada chuva de granizo, a tal ponto que os soldados, mal podendo segurar as armas,  foram forçados a retornar aos respectivos acampamentos, antes por receio da chuva que do inimigo. No dia seguinte ocorreu idêntica tempestade, separando os exércitos que, no mesmo lugar, estavam já prontos para o combate. Assim que todos retornaram aos acampamentos, o céu tornou-se miraculosamente sereno e tranquilo." (³)
Sabem os leitores que os povos da Antiguidade eram bastante supersticiosos, e,  nesse aspecto, nem romanos e nem cartagineses eram muito diferentes. Aníbal, que já desistira uma vez de atacar Roma diretamente, quando poderia ter obtido sucesso, de novo protelou o enfrentamento, dizendo que, para apoderar-se de Roma, era talvez mais importante a boa sorte que uma grande capacidade bélica. É possível que ele entendesse "sorte" como uma atitude favorável dos deuses, que as tempestades de granizo pareciam negar. De qualquer modo, a oportunidade perdida não retornaria às suas mãos. Depois de confrontos encarniçados, Aníbal foi derrotado, já em território africano, na Batalha de Zama (⁴). Posteriormente, na chamada Terceira Guerra Púnica (⁵), Cartago foi completamente arrasada, fazendo os romanos tudo o que podiam até mesmo para apagar a memória de sua existência. Coube então a Roma, como vencedora, a soberania em todo o Mediterrâneo Ocidental.

(1) Contra Cartago, uma colônia fenícia no norte da África, que, tendo alcançado grande desenvolvimento, veio a ser uma potência econômica e militar.
(2) General cartaginês. 
(3) Ab urbe condita libri, VI. O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) 202 a.C.
(5) 149 - 146 a.C.


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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Combate singular

Uma batalha, na Antiguidade, podia resultar em horrorosa carnificina. Políbio de Megalópolis, descrevendo a luta entre cartagineses e romanos em Zama (¹), observou que "o campo entre os exércitos ficou coberto de sangue, mortos e feridos, trazendo a Cipião (²) um grande problema, uma vez que os cadáveres, os feridos que se revolviam no próprio sangue e a confusão de armamentos dispersos tornavam a passagem quase intransponível às tropas que, em formação, aguardavam sua vez de entrar em combate." (³)
Muito bem, leitores, recuperem o fôlego, e vamos adiante. Às vezes acontecia que, em lugar de dois exércitos se enfrentarem com muitas perdas, cada um elegia seu campeão e estes dois heróis lutavam até que um vencesse, sendo o resultado válido (esperava-se) como se toda a tropa entrasse em ação. A essa luta entre dois soldados que representavam seus respectivos exércitos dá-se o nome de combate singular.
Além da possibilidade de evitar uma matança generalizada, havia outras razões que podiam levar à opção pelo combate singular. Na Antiguidade era comum que os exércitos inimigos acampassem um à vista do outro, mantendo, porém,  uma certa distância, e assim permanecessem durante algum tempo, aguardando a hora oportuna para o ataque. Todavia, uma longa espera, podia ser de todo inconveniente, pois:
  • Era, quase sempre, enervante para os soldados;
  • Aumentava a demanda por suprimentos (alimentos e água, principalmente), para os homens e para os animais;
  • Ampliava a possibilidade de que, durante a espera, sucedesse algum imprevisto, talvez uma doença entre os soldados ou uma súbita mudança nas condições climáticas, como uma chuva forte ou uma nevasca, acarretando uma alteração completa no cenário da guerra;
  • Dava tempo ao inimigo para solicitar e receber reforços.
Tudo isso, em conjunto, podia incitar à ideia de um combate singular, quando o enfrentamento tradicional não parecia muito sábio. Acrescentemos, ainda, um certo gosto por feitos heroicos - chamem de provocação, se quiserem - e teremos a explicação para que dois valentões se engalfinhassem à vista da soldadesca que, neste caso, devia ter uma atuação parecida à das modernas hordas de torcedores nos estádios de futebol.
Vejamos agora um exemplo bastante esclarecedor. Foi no ano 394 da fundação de Roma, ou 359 a.C., quando romanos e gauleses se enfrentavam. Um gaulês muito alto e forte apareceu e, nas palavras de Tito Lívio (⁴), propôs:
"Que venha o homem mais forte que há em Roma para que lute comigo, e aquele de nós que vencer, seja a sua gente a melhor na guerra."
Se o desafio parecer razoável, será útil recordar que os gauleses tinham por costume zombar dos romanos, a quem consideravam baixinhos (⁵). O que ocorreu em seguida foi assim descrito por Tito Lívio:
"Houve um longo silêncio entre a juventude romana, envergonhada de fugir ao combate, e, ao mesmo tempo, com receio da exposição a tamanho perigo." (⁶)
Afinal, Tito Mânlio, depois conhecido como Torquato, compareceu diante de seu comandante e, obtida a permissão, aceitou o desafio do fortão gaulês. Tomaram-se disposições para que a luta ocorresse com toda a lisura, o que incluía, por suposto, a escolha de um lugar que não favorecesse a nenhum dos dois. A um sinal, o combate começou e, se devemos crer no que disse Tito Lívio, não durou muito, já que o jovem Tito Mânlio, depois de dois golpes certeiros, jogou o gaulês ao chão - morto.
Nessas circunstâncias, o resultado do combate singular podia simplesmente ser acatado conforme o acordo, mas não era incomum que o exército ao qual pertencia o vencedor, tomado de brio, atacasse os oponentes na intenção de pô-los em fuga. No caso específico de que tratamos, a informação de Tito Lívio (⁷) é de que foram os gauleses que deram no pé: "Os gauleses, na noite seguinte, estando com muito medo, abandonaram os acampamentos e se foram." 
Pensem, leitores, como seria interessante se os gauleses tivessem registrado, também, a sua versão dos fatos, de modo que fosse possível confrontar os pontos de vista! 

(1) Em 202 a.C.; último combate da Segunda Guerra Púnica.
(2) Comandante romano.
(3) Políbio de Megalóplis, História.
(4) Ab urbe condita libri.
(5) Pelo menos foi isso que afirmou, em tempos posteriores, ninguém menos que Júlio César (em De Bello Gallico), que, ressalte-se, de tanto lutar contra eles, conhecia os gauleses muito bem.
(6) Ab urbe condita libri.
(7) Os trechos de Políbio (História) e de de Tito Lívio (Ab urbe condita libri) citados nesta postagem são tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Historiadores eternos

De acordo com Políbio de Megalópolis, historiador grego que viveu no Século II a.C., "Éforo (¹) afirmou que o melhor modo para conhecer os fatos seria que os próprios historiadores viessem a presenciá-los" (²).
Ora, senhores leitores, essa ideia de que historiadores, para bom desempenho de seu trabalho deveriam ser testemunhas oculares dos fatos de que tratam, dá muito o que pensar. Ao que parece, Políbio devia ser um adepto de tal ponto de vista, uma vez que boa parte de sua obra trata das Guerras Púnicas (264 - 146 a.C.), das quais foi, parcialmente, um contemporâneo. Nós, porém, podemos extrair disso ao menos duas possibilidades de interpretação:
Primeira - Os historiadores deveriam trabalhar apenas com a chamada História Contemporânea (a cada um deles, claro);
Segunda - Como nenhuma máquina do tempo jamais foi inventada, e para não ficarem restritos a uns poucos acontecimentos de intervalos de tempo muito curtos, os historiadores deveriam ser eternos.
Podem rir, leitores, que já retomo a seriedade que o assunto requer. Como a segunda hipótese jamais se verificou, vamos à análise da primeira, apenas.
É evidente que parte considerável da motivação para a pesquisa histórica está relacionada à curiosidade em relação ao passado remoto. Éforo e Políbio viveram em uma época na qual os recursos técnicos para a investigação de tempos longínquos não estavam, em grande parte, disponíveis, daí ser mais fácil para eles tratar de coisas que haviam presenciado ou para as quais ainda havia testemunhas vivas e que podiam ser consultadas. No entanto, para nós, hoje, é excelente que assim tenham pensado - investigamos o passado dispondo, dentre outras ferramentas, dos escritos que deixaram, forjados sob o calor dos acontecimentos, e que constituem, ao lado das obras de muitos outros autores, preciosos documentos de que ainda nos servimos. 

(1) Provável referência a Éforo de Cime, que viveu no Século IV a.C.
(2) O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dez fatos interessantes sobre guerras da Antiguidade

Estão aqui alguns fatos interessantes, registrados por cronistas e historiadores da Antiguidade, que podem ser úteis para quem quiser visualizar mentalmente como eram as guerras daqueles tempos remotos.

1. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando pretendia arrasar uma cidade ou não conseguia conquistá-la, mandava cortar todas as árvores que havia ao seu redor.

2.  Nas guerras da Antiguidade não era incomum a participação de fundeiros, ou seja, soldados que atiravam com fundas (como Davi contra Golias...). Ocorre que a técnica, por assim dizer, foi aperfeiçoada, de modo que, ao tempo dos romanos, já não eram atiradas pedras, e sim bolas de chumbo.

3. Uma prática muito comum nas guerras da Antiguidade, tendo em vista enfraquecer o(s) inimigo(s), consistia em roubar as colheitas e depois inutilizar os campos de cultivo enchendo-os de pedras.

4. De acordo com Júlio César, em seus Commentarii de Bello Gallico, os belgas eram os mais valentes de todos os moradores das Gálias, uma vez que não eram acostumados ao consumo de coisas delicadas, pois os mercadores raramente iam ao seu território.

5. Também de acordo com César, os gauleses, que eram muito altos, zombavam dos romanos, a quem consideravam "baixinhos".

6. Políbio de Megalópolis afirmava que as tropas comandadas por Cipião, o Africano, quando atacaram Cartagena (durante as Guerras Púnicas), eram compostas por vinte e cinco mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria, com seus respectivos cavalos, por suposto.

7. Ainda Políbio: as tendas dos cartagineses em seus acampamentos militares eram feitas de folhas e ramos de árvores.

Um soldado romano, de acordo com desenho
em uma parede de Pompeia (*)
8. Durante as Guerras Púnicas, percebendo os romanos que as vitórias dos cartagineses vinham em razão da superioridade de sua cavalaria, trataram de destruir os campos de onde provinham o feno e a cevada para os cavalos. A prática dava resultado porque era bastante difícil trazer de longe a forragem para os animais.

9. Tácito, historiador romano, no livro segundo dos Annales, afirmou que os germanos não eram, em relação aos romanos, menos valentes no combate; porém as armas e táticas dos romanos mostravam-se superiores, vindo daí sua vantagem.

10. As vitórias de César nas Gálias foram comemoradas em Roma durante quinze dias; segundo o próprio César, nunca antes havia ocorrido entre os romanos uma celebração assim, mas, posteriormente, outras comemorações ordenadas pelo Senado, também por conquistas de César, duraram nada menos que vinte dias.

(*) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 15. Este desenho teria sido feito provavelmente por um soldado romano, na parede de um alojamento militar em Pompeia (portanto, antes que a cidade fosse destruída pelo Vesúvio em agosto de 79 d.C.).


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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Elefantes de guerra

Imaginem esta cena: estamos andando por uma rua qualquer e, em dado momento, levantamos os olhos e vemos, à distância, uma manada de dinossauros que caminha em nossa direção... 
Absurdo? Claro que sim. Mas admitamos, só por um instante, que a coisa fosse real. A sensação seria, com enorme probabilidade, semelhante à experimentada pelos soldados romanos que viram os elefantes de guerra (¹) que marchavam à frente das tropas cartaginesas (durante as Guerras Púnicas, 264 a.C. a 146 a.C.). Não é sem causa que representações da Antiguidade mostravam romanos pequenininhos diante de elefantes enormes. Era questão de como os próprios romanos viam a si mesmos no campo de batalha.
Ora, meus leitores, com alguma prática, os romanos perceberam que era possível fazer frente aos elefantes de Cartago. Como? 
Bem, os elefantes lá estavam com o objetivo de causar terror aos cavalos. Portanto, antes de mais nada, era preciso evitar um confronto imediato entre a cavalaria romana e os elefantes de Cartago - pensaram que eu iria dizer "elefantaria" cartaginesa?!!!
O caso dos elefantes na guerra foi tão sério que
mereceu a cunhagem de uma moeda (²)
Perversamente, os comandantes romanos, estruturando a formação de suas tropas para o combate, começaram a colocar na linha de frente as forças auxiliares, compostas geralmente por estrangeiros pedestres, que acabavam muitas vezes massacrados, mas dando tempo para que os "romanos de verdade" fizessem cair uma chuva de setas sobre os elefantes. Conta Políbio de Megalópolis (c. 203 a. C. - 120 a.C.) que, a partir disso, os elefantes faziam um grande estrago, porque, feridos, tornavam-se incontroláveis, e o dano sobrevinha a quem estivesse por perto, fosse aliado ou inimigo. Ganhava-se tempo e os elefantes eram inutilizados. O combate retornava aos postulados clássicos, nos quais as forças romanas, muito bem treinadas, eram, naquela época, quase insuperáveis.

(1) Ao que parece, a primeira vez que os romanos enfrentaram elefantes em combate foi quando lutaram contra os exércitos de Pirro, rei do Épiro, no Século III a.C.; os cartagineses, porém, faziam uso maciço de elefantes na guerra, e isso causava forte impressão sobre o exército romano.
(2) LIDDELL, Henry G. A History of Rome. London: John Murray, 1865, p. 219. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Como os soldados romanos treinavam para o combate

Públio Cornélio Cipião foi um general romano. Lutou e venceu os cartagineses comandados por Aníbal durante a Segunda Guerra Púnica. 
Cabem aqui duas breves explicações. 
A primeira é sobre o nome "Púnica" - os romanos chamavam punos aos cartagineses, daí o nome dado a esse confronto que é, tradicionalmente, dividido em três grandes etapas, sendo a primeira entre 264 e 241 a. C., a segunda entre 218 e 202 a.C. e a terceira e última entre 149 e 146 a.C.. 
A segunda explicação tem a ver com o propósito desse notável confronto da Antiguidade. Roma, na Península Itálica, e Cartago, no norte da África, tinham um mesmo objetivo, queriam obter a hegemonia no Mediterrâneo. Era um daqueles casos clássicos em que os contendores se aproximam, olhando cada um nos olhos do oponente e dizem, pau-sa-da-mente: "Não há lugar para nós dois neste mundo..."
Ora, justamente por ter conseguido a proeza de derrotar ninguém menos que Aníbal, general cartaginês, Públio Cornélio Cipião acabou conhecido pelo apelido de "Africano". Mas era romano mesmo.
Ocorre que Públio Cornélio Cipião era filho de um outro Públio Cornélio Cipião, daí o apelido ser muito útil quando se quer distinguir um do outro. A complicação não para aqui, já que Públio Cornélio Cipião Africano também teve um filho chamado Públio Cornélio Cipião. Assim, o Africano é também chamado "o Velho", quando se quer distingui-lo de seu filho, chamado "o Jovem". Chega!
Vamos agora ao assunto principal da postagem de hoje. De acordo com Políbio de Megalópolis, uma das grandes virtudes militares de Públio Cornélio Cipião (Africano e Velho), era manter as tropas em contínuo exercício. Conta-nos que, depois de vencer em Cartagena, providenciou ocupação para seus homens em cinco dias de treinamento.
No primeiro dia fez as legiões marcharem, levando as armas, por uma extensão de trinta estádios (¹). No segundo dia ordenou que todo o armamento fosse polido e estivesse limpo para inspeção. Como ninguém é de ferro, o terceiro dia foi dedicado ao descanso. No quarto dia houve treinamento de combate, com uso de espadas de madeira com ponta cega e revestidas de couro, além de lançamento de dardos igualmente cegos. A precaução era plenamente justificável, para evitar a perda de homens para os combates que de fato contavam. Finalmente, no quinto dia de treinamento, os soldados fizeram marcha idêntica à do primeiro dia.
Vejam os senhores leitores que tudo era muito simples, se comparado ao treinamento militar da atualidade. Mas era eficaz para as necessidades daqueles dias, e contribuiu para fazer de Roma a potência única do Mediterrâneo, ao vencer e aniquilar Cartago, sua concorrente.

Representação de soldados romanos, datada do Século XIX (²) 

(1) A medida de um estádio variava um pouco de um lugar para outro na Antiguidade, mas é usual considerar que, entre os romanos, equivalia a 185 metros. Assim, a marcha dos soldados terá alcançado os 5.550 metros.
(2) MACAULAY, Thomas B. Lays of Ancient Rome. New York: Harper & Brothers, 1888. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Guerra tecnológica na Antiguidade

Arquimedes de Siracusa - um só homem pode fazer toda a diferença


No contexto das Guerras Púnicas (Roma contra Cartago), os romanos sitiaram Siracusa, pois esta se aliara aos cartagineses. Habituados a massacrar adversários com alguma facilidade, desta vez os romanos perceberam que tinham, pela frente, um autêntico desafio. Não, os siracusanos não eram melhores soldados, não tinham melhores generais que os romanos, nem tampouco tinham embarcações mais eficientes. Como os próprios romanos perceberam, a grande capacidade de Siracusa em resistir ao cerco estava nas infernais máquinas de guerra projetadas, ao que parece, por um único homem: Arquimedes.
Por certo os senhores leitores já devem ter ouvido falar dele em aulas de matemática e física (lembram-se?...). À época da guerra contra os romanos, Arquimedes era, já, um homem bastante idoso, mas ainda capaz de aliar conhecimento teórico à tarefa eminentemente prática de inventar e construir máquinas que frustravam, vez após vez, os intentos dos inimigos de Siracusa. Todas as máquinas de guerra que os romanos tinham por hábito empregar, eram neutralizadas por outras, que o velho genial inventava. Segundo todas as aparências, enquanto Arquimedes vivesse, as muralhas de Siracusa estariam muito bem protegidas.
Sabemos, por relato de Políbio de Megalópolis, que após oito meses de esforços inúteis, os cônsules romanos Marcelo e Ápio decidiram tentar outra tática: isolar Siracusa para que não recebesse qualquer ajuda de fora da cidade. Ápio ficou encarregado de, por terra e mar, impedir que os siracusanos recebessem ajuda externa, enquanto que os homens comandados por Marcelo trataram de inutilizar os campos adjacentes para a agricultura. 
Afinal, depois de dois anos, os romanos conseguiram vencer Siracusa. Queriam Arquimedes vivo - respeitavam-no e imaginavam ser possível tê-lo a seu serviço. Embora as narrativas do fato sejam um pouco contraditórias quanto aos detalhes, considera-se que Arquimedes foi morto por um soldado romano que não o reconheceu e que se mostrou impaciente com aquele ancião que não dava a menor importância às suas ordens. Se foi assim, ao menos o grande inventor terá escapado à humilhação de ver-se prisioneiro dos inimigos que, de forma tão inteligente e resoluta, havia combatido.


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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Os indígenas do Brasil e os antigos romanos tinham algo em comum

Sinal de combate para os índios coroados,
de acordo com Debret (⁴)
Em fins do Século XVI, Gabriel Soares descreveu assim o método usado pelos tupinambás quando iam à guerra contra uma aldeia inimiga (fosse de outros índios ou uma povoação de portugueses):
"Tanto que os tupinambás chegam a duas jornadas da aldeia de seus contrários, não fazem fogo de dia, por não serem sentidos deles pelos fumos que se veem de longe, e ordenam-se de maneira que possam dar nos contrários de madrugada, e em conjunção de lua cheia, para andarem a derradeira jornada de noite pelo luar, e tomarem seus contrários desapercebidos e descuidados; e em chegando à aldeia dão todos juntos tamanho urro, gritando, que fazem com isso e com suas buzinas e tamboris grande estrondo, e desta maneira dão o seus assalto aos contrários." (¹)
Gabriel Soares não foi o único a referir o hábito entre os indígenas de iniciar o combate com grande alarido. Sabermos, também, por outros autores, que esse costume não se restringia aos tupinambás, sendo antes muito comum entre os povos indígenas do Brasil.
No entanto, culturas muito distintas, grandemente separadas no tempo e no espaço, podem, às vezes, ter costumes semelhantes. Descrevendo os momentos que precederam o combate entre as forças romanas, comandadas por Cipião, e as de Cartago, comandadas por Aníbal (²), até que o confronto principiasse, Políbio de Megalópolis anotou:
"Neste momento, as duas falanges iam lentamente se aproximando com arrogância, exceto aquelas forças que, com Aníbal, tinham vindo da Itália (e que permaneceram no mesmo lugar que desde o início ocupavam). Já próximos, os romanos, com altos gritos - esse é seu costume - e fazendo barulho quando batiam as espadas nos escudos, atacaram." (³)
Os instantes que antecediam um combate deviam ser de grande tensão, quer os contendores fossem romanos e cartagineses, quer fossem povos indígenas do Brasil. Em ambos os casos, gritar e fazer barulho talvez ajudasse a liberar as energias severamente reprimidas. 

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 330.
(2) Durante as Guerras Púnicas.
(3) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Argumentos para um embaixador que deseja preservar a paz

Na Antiguidade havia povos muito briguentos. As guerras aconteciam pelos motivos mais fúteis, inclusive pelo prazer da contenda. Como veem os leitores, as coisas corriam mais ou menos como hoje, apenas com a diferença de que as armas então disponíveis não eram igualmente letais. 
Ainda assim, gente ajuizada compreendia que, na maioria dos casos, era prudente evitar a guerra, que, afinal, teria resultado imprevisível. 
Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre os romanos e foi contemporâneo de parte das Guerras Púnicas (¹), formulou alguns argumentos interessantes como sugestão aos embaixadores que, no exercício de sua funções, pretendessem a manutenção da paz. Escreveu ele:
"A guerra é semelhante à doença, enquanto a paz corresponde à saúde, de tal modo que, na paz, os enfermos se curam, enquanto que, na guerra, os saudáveis é que morrem; vigorando a paz, os velhos são sepultados pelos jovens, mas, na guerra, os jovens são sepultados pelos velhos; finalmente, na guerra, ninguém se acha seguro nem mesmo sob a proteção das muralhas, enquanto que na paz há tranquilidade até às fronteiras." (²)
Estas são boas ideias que deveriam ser consideradas pelos mandatários (e pelos mandões) que vivem sobre a superfície deste planeta já cansado de tantos conflitos inúteis e devastadores, não é mesmo? Principalmente porque, na hora dos grandes riscos, são os comandados que estão na frente da batalha, ao preço da própria vida, e não aqueles que ditam as ordens.

(1) Guerras entre Roma e Cartago, travadas entre 264 e 146 a.C., tendo como principal objetivo a hegemonia no Mediterrâneo ocidental.
(2) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nós e eles (Parte 3) - A curiosidade por animais "selvagens" e os primeiros zoológicos modernos

No século III a.C., durante as Guerras Púnicas, os romanos vivenciaram uma desastrosa experiência: foram confrontados em campo de batalha pelos elefantes que a audácia de Aníbal, general cartaginês, conduzira até a Península Itálica, depois de penosíssima travessia dos Alpes. Representações da época fazem crer que, para a maioria dos itálicos, os elefantes eram ainda animais desconhecidos, e sua aparição ocasionou não pouco pânico. Mas parecem ter gostado, porque viriam a ter, em seus espetáculos circenses, não apenas elefantes, mas muitos outros animais, como leões e ursos, que o público adorava ver em luta uns contra os outros ou contra humanos, os gladiadores.
Mais pacíficos que os circos romanos, os zoológicos, como hoje os entendemos, começaram a espalhar-se pelas principais capitais europeias em fins do século XVIII, generalizando-se no século XIX. Isso aconteceu porque, à medida que o mundo era explorado, crescia também a curiosidade por seres exóticos, tais como elefantes, zebras e girafas. Mais remotamente, consta que um elefante, trazido a Viena em 1552, causou comoção entre o povo, mas foi em 1828 que uma girafa, vinda recentemente do Egito, quase virou a cidade no avesso, pela onda de entusiasmo que provocou. O frenesi foi de tal ordem que as luvas das madames eram estampadas de modo semelhante à pele da girafa.
Leitor, é compreensível! Na época os meios de comunicação eram precários e as viagens por terras distantes eram coisa para poucos, endinheirados e muito corajosos. Diante disso, não causa espanto que a maioria das pessoas ignorasse completamente detalhes da fauna de outras terras. E, nesse contexto, vê-se facilmente que, contrastada às espécies típicas da Europa, uma girafa podia bem parecer quase um ser de outro mundo...