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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Terremotos no Império Romano

Parte expressiva do território até onde se estendeu o Império Romano estava em áreas sujeitas a tremores de terra mais ou menos frequentes. Não é surpresa, portanto, que, nos registros feitos por autores da Antiguidade, os terremotos fossem seguidamente mencionados.
Tácito (¹), por exemplo, citou vários incidentes relativos a tremores: um que atingiu Pompeia alguns anos antes que a cidade fosse soterrada pelo Vesúvio (²), uma sucessão de tremores sentidos em Roma no ano 52 d.C., provocando o desabamento de casas (³), e um grande terremoto que, nos dias de Tibério, arruinou doze cidades da Ásia Menor (⁴), entre outros.  
Plínio, o Velho (⁵), em extensa dissertação no Livro II de sua Naturalis Historia, afirmou que "os babilônios achavam que terremotos e rachaduras, como tudo o mais, eram consequência da ação das estrelas." (⁶) Sensatamente cético, Plínio procurava causas naturais para os tremores de terra, ainda que nada soubesse sobre a existência de placas tectônicas. Já entendia, porém, que alguns terremotos são seguidos por tsunamis (⁷): "Tremores de terra são seguidos por inundações que vêm do mar" (⁸), escreveu.
Mais enfático que Tácito em relação ao mesmo incidente, Plínio entendia que o terremoto ocorrido nos dias de Tibério fora o maior de que, até então, se tivera notícia:
"O maior tremor de terra de que os mortais têm memória aconteceu durante o principado de Tibério César, quando doze cidades da Ásia vieram ao chão em uma noite [...]." (⁹)
É claro que, para os supersticiosos romanos, tremores de terra, assim como outros fenômenos naturais, eram vistos como prodígios, manifestações da ira dos deuses que deviam ser conjuradas com sacrifícios. Tertuliano (¹º) referiu, na Apologia, que tremores estavam entre os pretextos que conduziam à perseguição de cristãos no Império:
"Se o Tibre alcança os muros da cidade, ou se o Nilo não transborda o suficiente para as plantações, se o céu, sem nuvens, não traz chuva, se há tremor de terra ou se ocorre escassez de trigo, ou se grassa a peste, o povo não tarda a gritar para que joguem os cristãos ao leão."
Voltemos a Tácito. Quando um terremoto de maiores proporções ocorria dentro dos limites do Império Romano, era usual que recursos públicos fossem oferecidos - e aceitos - para reparar os danos materiais. Bem, assim era na maioria dos casos. Prodígio, mesmo (¹¹), a ponto de merecer registro no Livro XIV dos Annales, ocorreu no ano 814 da fundação de Roma (¹²): "Naquele ano, a ilustre cidade de Laodiceia, na Ásia, que havia sido arrasada por um terremoto, foi reconstruída com seus próprios recursos, sem receber qualquer auxílio de nossa parte [de Roma]." (¹³) Pelo visto, esse fato foi novidade até para Tácito, tão acostumado às manhas de seus contemporâneos.

(1) 47 - 120 d.C.
(2) TÁCITO, Annales, Livro XV.
(3) Ibid., Livro XII.
(4) Ibid., Livro II.
(5) 23 - 79 d.C.
(6) PLÍNIO, Naturalis Historia, Livro II.
(7) Ainda que a palavra "tsunami" lhe fosse, como é óbvio, desconhecida.
(8) PLÍNIO, Op. cit., Livro II.
(9) Ibid. 
(10) 160 - 220 d.C.
(11) Até para os critérios do Século XXI.
(12) 61 d.C.
(13) Todas as citações das obras de Plínio, Tácito e Tertuliano que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Feriados e mais feriados

Os feriados, na Roma Imperial, chegaram a ser quase tão numerosos quanto os dias de trabalho


Um pequeno desafio para vocês, leitores: encontrem alguém que não goste de feriados. Talvez haja neste planeta algumas exceções, é verdade, mas a regra entre os mortais é que os feriados sejam da maior estimação.
De vez em quando, alguém diz que há feriados em excesso, que deveríamos ter mais dias de trabalho, que ter menos feriados seria bom para a economia do País - por certo quem atua no setor de turismo não há de concordar com essa ideia. Basta comparar o calendário brasileiro com os que vigoram em outros países para ver que não há tantos feriados assim.
Já na Roma Antiga o número de feriados ao longo do ano veio a ser problema sério. É que, com tantos deuses, e cada deus ou deusa (ou seus respectivos devotos) reclamando um feriado, tornou-se difícil haver uma sequência razoável de dias "comuns", ou seja, de trabalho. O problema era tão grave que virou debate no Senado em 59 d.C. (ou 812 da fundação de Roma, se preferirem). De acordo com Tácito (¹), Caio Cássio, defendendo a limitação das festividades, argumentou ser necessário "dividir os dias sagrados e de trabalho, de tal maneira que não se impedissem as celebrações dos deuses e nem as ocupações dos homens". Em sua lógica, se fosse o caso de homenagear os deuses por todos os benefícios para com os humanos, não haveria no calendário dias suficientes - algumas festas, portanto, bastavam (²).
Roma, porém, passava por tempos turbulentos, tendo o instável Nero à frente do governo. Desagradá-lo era perigoso, e não é surpresa que houvesse uma multidão de aduladores, inclusive entre a elite senatorial. O debate sobre os feriados fora desencadeado justamente em razão das seguidas festas para dedicar estátuas e outras homenagens ao imperador, e dar graças aos deuses que favoreciam a cidade com tão ilustre mandatário - não seriam muitos, portanto, os que ousariam dizer: Romanos, tratem de ir trabalhar!...

(1) Annales, Livro XIII; o trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Os membros da elite romana que pretendiam seguir carreira política aprendiam, desde muito cedo, a arte da argumentação. 


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os romanos tratavam os prisioneiros de guerra

As vitórias militares de Roma corresponderam, em muitas ocasiões, à completa ruína dos povos derrotados. O destino dos prisioneiros de guerra, como regra, resultava em uma das seguintes situações:
  • Execução sumária, em particular no caso dos chefes, como medida para impedir que as forças inimigas se reorganizassem;
  • Escravização para trabalho em obras públicas;
  • Muitos eram vendidos em mercados de escravos (a chegada de um grupo de cativos era vista como espetáculo público, especialmente se os escravizados tinham características físicas diferentes daquelas que eram usuais entre romanos);
  • Soldados vencedores recebiam prisioneiros como prêmio e podiam dispor deles como julgassem conveniente, quer conservando-os a seu serviço, quer vendendo-os para quem pagasse bem.
Embora os antigos não costumassem registrar as quantidades de escravizados segundo critérios que nós, hoje, reputamos corretos, é possível ter uma ideia aproximada do que acontecia a cada grande vitória, em virtude de relatos da época. O próprio Júlio César, em De Bello Gallico, deixou informações muito úteis, e é assim que sabemos que, em certa ocasião (¹), foram vendidos como escravos nada menos que cinquenta e três mil prisioneiros de guerra. Depois de derrotar gauleses em uma batalha naval, César julgou apropriado impor uma punição severa, por entender que embaixadores de Roma haviam sido desrespeitados: "Todos os líderes idosos foram executados e os demais prisioneiros foram vendidos como escravos" (²). E, ainda na mesma obra, é dito que, depois de derrotar Vercingetórix, César recompensou cada soldado romano com um prisioneiro de guerra (³).
Assim, guerra após guerra, Roma estendia seus domínios e multidões de prisioneiros eram trazidas para escravização, de modo que, com o correr do tempo, grande parte do trabalho passou a ser feito por mão de obra cativa. A população pobre, mas livre, já não encontrava ocupação remunerada. Outras multidões, dessa vez compostas por romanos desocupados, afluíam à capital. Os problemas sociais eram inevitáveis. Tácito, no livro quarto dos Annales, lembrou que, ao tempo em que Tibério era imperador, "os escravos [eram] uma multidão que crescia imensamente e pouco o povo de condição livre" (⁴). Era preciso, portanto, que o Estado assumisse a obrigação de alimentar e entreter os homens livres que andavam desocupados, sob pena de uma revolta social de dimensões catastróficas. Periodicamente, eram feitas distribuições de cereais. O exército ocupava uma parte dos homens livres, enquanto espetáculos públicos sangrentos divertiam multidões que tinham excesso de tempo e falta do que fazer.
Mas não era só. A entrada de tantos escravos estrangeiros ia, gradualmente, descaracterizando aquilo que se poderia chamar de "cultura romana", além de ser contínuo o temor de uma rebelião. Caio Cássio, falando no Senado romano em 62 d.C., sendo Nero o imperador, observou: "Temos fâmulos [escravos] de todas as nações, que vêm de costumes os mais variados, de religiões estrangeiras ou sem nenhuma religião, e é somente sob coerção que podemos mantê-los em obediência [...]." (⁵) 
Reconhecia-se a necessidade da força para manter tantos cativos em subordinação à minoria romana. No entanto, até mesmo o exército ia, gradualmente, admitindo estrangeiros, pois, do contrário, não haveria soldados em número suficiente para as tentativas de preservar a ordem nas fronteiras. Roma se tornara tão grande que já não conseguia ser Roma. As rupturas no tecido social que constituía o Império preparavam caminho para seu declínio e queda.

(1) De Bello Gallico, Livro Segundo.
(2) Ibid., Livro Terceiro.
(3) Ibid., Livro Sétimo.
(4) Annales, Livro Quarto.
(5) Ibid., Livro Décimo Quarto. 
Os trechos de De Bello Gallico e dos Annales aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lá se foram as lâmpadas incandescentes

Propaganda de lâmpada
incandescente, 1923 (²)
Tácito, historiador romano que viveu entre os Séculos I e II, escreveu: "Todas as coisas que agora achamos velhíssimas, já foram novas." (¹)
Duvida, leitor? Olhe para aquilo que, em seu conceito, é o máximo de tecnologia que está à sua mão. Tenha certeza de uma coisa: algum dia esse seu motivo de orgulho tecnológico terá o status de velharia, e, para tanto, nem será preciso muito tempo, se o ritmo atual de inovação for mantido.
No Brasil do começo do Século XX quase todas as casas, assim que anoitecia, precisavam de velas, lampiões ou lamparinas para que houvesse alguma luz - afinal, humanos não têm olhos de coruja. O máximo do luxo, só disponível em umas poucas localidades, era ter iluminação residencial a gás. Mas aí veio o uso da eletricidade e, com ela, as lâmpadas incandescentes entraram em cena. 
Agora que as lâmpadas incandescentes foram embora, substituídas por outras mais econômicas, como negar que o velho Tácito tinha razão?

(1) Annales, Livro XI
(2) O MALHO, 17 de março de 1923. O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Agripina, mãe de Nero, não era nenhuma santa

É sabido que Nero providenciou a morte de Agripina, sua mãe, primeiro com uma tentativa (fracassada) de afogamento, e depois, de um modo talvez mais prático e explícito, pela espada de seus subordinados. Mas, se o filho era péssimo, Agripina, por sua vez, não era nenhuma santa. "Tal mãe, tal filho", dirão alguns dos leitores, ou, sem prejuízo da causalidade, tal filho, tal mãe...
Apenas para contentar quem duvida da capacidade de causar dano que tinha a senhora Agripina, lá vai um episódio relacionado àquela mestra de intrigas, contado por Tácito no Livro XII dos Annales. Em poucas palavras, os leitores terão um exemplo acabado do que é perfídia.
Havia em Roma um sujeito muito rico, cujo nome era Estatílio Tauro. Esse homem era proprietário de um belíssimo pomar, que Agripina invejava e queria para si. A terrível mulher arquitetou então um plano para pôr as mãos na propriedade alheia, arranjando um cúmplice que acusou Estatílio Tauro de coisas gravíssimas, relacionadas a uma suposta improbidade quando havia exercido o cargo de procônsul na África; como se isso fosse coisa de pouca monta, juntaram-se acusações de envolvimento com magia.
Levado a julgamento, Estatílio Tauro cometeu suicídio, antes que o Senado desse o parecer final sobre o caso (em Roma, isso era muito comum). Se serve de consolo, diga-se que a decisão do Senado não foi favorável aos interesses de Agripina, mesmo porque, a essa altura, deviam ser poucos os senadores que tinham alguma simpatia por ela. De qualquer modo, é bom recordar que, pelas leis romanas, os bens de um sentenciado à morte, cometendo este suicídio, eram distribuídos segundo suas disposições testamentárias, em lugar de passar ao Estado, o que explica a atitude do ex-procônsul.


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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nero, os publicanos e a cobrança indevida de impostos no Império Romano

Como Nero perdeu uma das grandes oportunidades de sua vida


Era o ano 812 da fundação de Roma, mas se preferirem, leitores, podem dizer 59 d.C. Independente do calendário adotado, era Nero quem detinha o poder supremo no Império, em um momento de grande insatisfação popular. E, acreditem, não por obra e graça do ilustre imperador, e sim por causa dos desmandos cometidos pelos publicanos.
Ora, cabe aqui explicar que "publicanos" eram nem mais e nem menos que funcionários cuja tarefa consistia na cobrança de alguns impostos. Esses sujeitos eram dados a exigir mais dinheiro do que era devido ao governo romano, e, naturalmente, ficavam com o "excedente" para si mesmos. Simples assim. O registro de Tácito no Livro XIII dos Annales explica:
"Naquele mesmo ano, diante de tantos protestos da plebe contra os publicanos, Nero esteve a ponto de suprimir todos os impostos de entrada e saída, no que teria feito uma dádiva estupenda aos mortais." (*)
Digam-me, leitores, que lhes parece essa ideia de Nero? A proposta foi, conforme a praxe, amplamente debatida no Senado, que acabou por convencer o jovem mandatário romano de que, caso seu plano fosse adotado, o Império iria à falência. 
Talvez devamos lamentar que não tenham os romanos fabricado, aí, um precedente histórico (em mais de um sentido), ao mesmo tempo em que Nero perdia uma gloriosa oportunidade de tornar-se perpetuamente célebre, e por razão bem diversa de quase todas as outras que o fizeram notável. E, para quem está curioso por saber em que acabou o caso, basta voltar a Tácito:
"Chegou-se a um meio-termo com medidas para reprimir a cupidez dos publicanos, de modo que não viessem a repetir as extorsões que, por anos, se haviam tolerado."
Tácito, infelizmente, nada informa quanto à eficácia das tais medidas destinadas a manter os publicanos sobre controle.

(*) As citações dos Annales de Tácito que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dez fatos interessantes sobre guerras da Antiguidade

Estão aqui alguns fatos interessantes, registrados por cronistas e historiadores da Antiguidade, que podem ser úteis para quem quiser visualizar mentalmente como eram as guerras daqueles tempos remotos.

1. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando pretendia arrasar uma cidade ou não conseguia conquistá-la, mandava cortar todas as árvores que havia ao seu redor.

2.  Nas guerras da Antiguidade não era incomum a participação de fundeiros, ou seja, soldados que atiravam com fundas (como Davi contra Golias...). Ocorre que a técnica, por assim dizer, foi aperfeiçoada, de modo que, ao tempo dos romanos, já não eram atiradas pedras, e sim bolas de chumbo.

3. Uma prática muito comum nas guerras da Antiguidade, tendo em vista enfraquecer o(s) inimigo(s), consistia em roubar as colheitas e depois inutilizar os campos de cultivo enchendo-os de pedras.

4. De acordo com Júlio César, em seus Commentarii de Bello Gallico, os belgas eram os mais valentes de todos os moradores das Gálias, uma vez que não eram acostumados ao consumo de coisas delicadas, pois os mercadores raramente iam ao seu território.

5. Também de acordo com César, os gauleses, que eram muito altos, zombavam dos romanos, a quem consideravam "baixinhos".

6. Políbio de Megalópolis afirmava que as tropas comandadas por Cipião, o Africano, quando atacaram Cartagena (durante as Guerras Púnicas), eram compostas por vinte e cinco mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria, com seus respectivos cavalos, por suposto.

7. Ainda Políbio: as tendas dos cartagineses em seus acampamentos militares eram feitas de folhas e ramos de árvores.

Um soldado romano, de acordo com desenho
em uma parede de Pompeia (*)
8. Durante as Guerras Púnicas, percebendo os romanos que as vitórias dos cartagineses vinham em razão da superioridade de sua cavalaria, trataram de destruir os campos de onde provinham o feno e a cevada para os cavalos. A prática dava resultado porque era bastante difícil trazer de longe a forragem para os animais.

9. Tácito, historiador romano, no livro segundo dos Annales, afirmou que os germanos não eram, em relação aos romanos, menos valentes no combate; porém as armas e táticas dos romanos mostravam-se superiores, vindo daí sua vantagem.

10. As vitórias de César nas Gálias foram comemoradas em Roma durante quinze dias; segundo o próprio César, nunca antes havia ocorrido entre os romanos uma celebração assim, mas, posteriormente, outras comemorações ordenadas pelo Senado, também por conquistas de César, duraram nada menos que vinte dias.

(*) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 15. Este desenho teria sido feito provavelmente por um soldado romano, na parede de um alojamento militar em Pompeia (portanto, antes que a cidade fosse destruída pelo Vesúvio em agosto de 79 d.C.).


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segunda-feira, 8 de junho de 2015

O templo de Diana em Éfeso e o direito de asilo concedido pelo governo romano

Vai aqui uma história que bem merecia começar com um "há muitos e muitos anos..".
Pois bem, há muitos e muitos anos, no nono ano de governo de Tibério em Roma (¹), levantou-se uma polêmica no mundo governado pelos romanos quanto ao direito de asilo em templos e altares de diferentes deuses.
Explica-se: era crença geral que pessoas acusadas injustamente de alguns crimes podiam obter asilo, de modo que não fossem presas e punidas, se conseguissem adentrar certos templos, chegando ao altar consagrado a um certo deus. Não era todo e qualquer templo que detinha esse privilégio, e aí é que começou a confusão, porque todo mundo queria que deuses e altares de suas respectivas cidades fossem reconhecidos como locais de asilo. 
Está ficando complicado, senhores leitores? Vem mais: o privilégio de asilo tornou-se alvo da mais ignóbil corrupção, uma vez que reles bandidos de toda espécie, culpados de crimes comuns, corriam a buscar refúgio nos templos. Diante disso, o governo romano, que queria moralizar a questão do asilo, estipulou um prazo para que representantes das cidades cujos templos se pretendiam com o tal direito comparecessem a Roma para defender sua posição.
Através dos Annales registrados por Tácito, historiador romano, ficamos sabendo que os primeiros que chegaram à capital foram os enviados de Éfeso:
"Os primeiros homens que se apresentaram foram os de Éfeso, alegando que, contrariamente à crença popular, Diana e Apolo (²) não haviam nascido em Delos, mas sim no território que pertencia a Éfeso em Ortígia, às margens do Cencrium, onde, junto a uma oliveira, sua mãe, Latona, vendo chegada a hora do parto, apoiou-se para dar à luz." (³)
Ártemis ou Diana, Século V a.C. (⁴)
Acrescentando outras aventuras da mesma espécie, afirmavam os habitantes de Éfeso que o privilégio de asilo no templo de Diana jamais fora contestado, sendo, ao contrário, alvo de respeito por persas, macedônios e pelos próprios romanos.
Ora, sucede que outras cidades também arrazoavam com fatos (que nós consideraríamos mitológicos), reclamando para si o privilégio de asilo com base no culto da caçadora Diana. Tantas alegações cabeludas eram demais para os veneráveis senadores romanos. Repassaram o caso aos cônsules, que, não podendo terceirizar a tarefa, fizeram alguma investigação do assunto e responderam que era comprovada a antiguidade e legitimidade de asilo em um altar consagrado a Esculápio na cidade de Pérgamo. Tudo o mais era obscuro, perdendo-se na noite dos tempos:"ceteros obscuris ob vetustatem initiis niti..."
Algum leitor talvez esteja curioso quanto ao fim de tanta confusão. Fique então dito que os senadores, tendo considerado o caso, responderam de forma respeitosa, para que ninguém se ofendesse, determinando limites para que o privilégio de asilo fosse conservado, mas sem abusos. 
Prudente decisão, essa do Senado romano. 

(1) Ano 775 da fundação de Roma, de acordo com Tácito.
(2) Na mitologia grega, Diana era chamada Ártemis. 
(3) Tácito, Annales, Livro III. Tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.
(4) FAIRBANKS, Arthur.  Greek Gods and Heroes. Boston: Museum of Fine Arts / Houghton Mifflin Company, 1915, p. 23.


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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Soldados de Roma contra a fúria do Mar do Norte

No ano 16 d. C. as legiões romanas comandadas por Júlio César Germânico, um general destacado e irmão do futuro imperador Cláudio, alcançaram, por uma rota marítima, as terras dos bárbaros germanos que viviam além do Reno. Lá entraram em combate contra os comandados de Armínio e venceram. Do ponto de vista romano, lavava-se a honra das legiões lideradas por Públio Quintílio Varo, que em 9 d.C. haviam sido destroçadas pelos germanos.
A ação das forças de Germânico foi bem planejada. Sabendo que ir por terra resultaria em grande desgaste tanto para seus soldados como para os cavalos, o comandante romano preparou transporte pelo Mar do Norte, cuidando em viajar numa ocasião de clima favorável e, tanto quanto possível, buscando combater em campo aberto, uma situação mais propícia ao raciocínio militar de Roma do que os combates em meio a densas florestas, visivelmente preferidos pelos germanos.
Tendo alcançado a vitória, as forças romanas prepararam-se para retornar. Aí, porém, tiveram que enfrentar um inimigo poderoso, com o qual não havia a possibilidade de qualquer negociação: o mar em fúria. Tendo deixado a terra com tempo bom, logo as embarcações foram batidas por vento fortíssimo, acompanhado de chuva, de modo que ondas gigantescas jogavam as embarcações de um lado para outro. Em desespero, a soldadesca, que nunca tinha enfrentado nada semelhante, atrapalhava as manobras dos marinheiros, ao mesmo tempo procurando jogar ao mar tudo o que era possível - segundo Tácito, historiador romano, não foram poupados cavalos, animais de carga, bagagem, suprimentos e nem mesmo as armas.
Tudo em vão. Muitos morreram afogados, enquanto outros, com um pouco mais de sorte, foram arremessados em ilhas desertas. Ainda de acordo com Tácito, os que se recusaram a comer os cavalos mortos que eram jogados na praia pelas ondas simplesmente morreram de fome. O próprio comandante Júlio César Germânico sobreviveu a duras penas. 
Cessado o furor da tempestade, fez-se uma tentativa de reparar as embarcações que ainda existiam, com o uso de velas improvisadas. Uma busca em algumas ilhas permitiu reunir um número maior de soldados. Soube-se, posteriormente, que alguns tinham ido parar na Inglaterra. 
É certo que esses sobreviventes tinham muito a contar, e pode-se supor que não faltou quem quisesse ouvir. Diz o relato de Tácito, no Livro Segundo dos Annales:
"De quanto mais longe voltavam, maiores eram as coisas fantásticas que contavam sobre a violência da tempestade, a existência de aves completamente desconhecidas, de monstros marinhos e de seres que eram metade humanos e metade animais" (¹). E o prudente Tácito concluiu: "Coisas vistas ou coisas que o medo fazia crer" (²). 

(1) O trecho citado é tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.


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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pão e circo

Até batalhas navais eram realizadas para entretenimento dos romanos


Ouvem os estudantes em suas aulas de História que, para garantir que uma revolta social de grandes proporções não viesse a ocorrer em Roma, os governantes promoviam distribuições de trigo e espetáculos circenses de todo tipo, tais como corridas de bigas e combates de gladiadores, entre si e entre gladiadores e animais selvagens. Quanto mais sangrento o espetáculo, melhor. 
Isso tudo pode parecer um tanto simplista, mas é preciso recordar que, desde as grandes guerras de conquista durante a República, a entrada de muitíssimos escravos em Roma havia resultado em uma vasta população livre e desocupada. Havia gente sem fazer nada porque tinha escravos para fazer o trabalho, mas a a maioria dentre os ociosos havia perdido sua ocupação para os cativos. O temor de uma revolta social não, era, pois, descabido. 
Além disso, figuras que pretendiam ascensão política faziam realizar jogos e espetáculos às próprias expensas, com a finalidade de obter apoio popular. Geralmente funcionava (que o dissesse Júlio César). A morte de personagens ilustres também podia ser pretexto para circo. Em homenagem, claro, e não para festejar (oficialmente).
À medida que o tempo passava, simples lutas entre fortões escravizados já não pareciam ser o bastante - talvez estivessem cansando pela repetição - de modo que novos espetáculos foram inventados, sem muito limite à imaginação, apenas cerceada pelas condições tecnológicas da época (¹).
O fato é que cada novo imperador pretendia realizar jogos mais deslumbrantes que seus predecessores, tencionando fazer-se eternizar na memória dos contemporâneos, o que, convenhamos, não era grande coisa, sob o nosso ponto de vista, mas era essencial ao jogo político da época. A gastança era grande e a criatividade levou até à realização de batalhas navais para entretenimento dos desocupados. De acordo com Tácito (²), a primeira delas ocorreu nos dias de Augusto, mas o imperador Cláudio (³) foi mais longe, fazendo colocar duas esquadras, com milhares de homens (criminosos, não marinheiros "de verdade") para um combate sangrento no lago Fucino. Tudo foi arranjado para que os contendores não tivessem como fugir da batalha, e os mestres-pilotos viessem a demonstrar toda a habilidade em conduzir as embarcações, quer em uma abordagem para ataque, quer para escapar do contato com o inimigo. 
Para emprestar maior realismo à cena, a Guarda Pretoriana e muitos soldados a cavalo foram postados junto às margens, e, como se não bastasse, catapultas e outras máquinas de guerra, também instaladas junto ao lago, lançavam pedras e setas, como se esperava que ocorresse um uma batalha naval.
É quase desnecessário dizer que, para presenciar a luta, veio gente de toda a região, em tal quantidade que não se poderia facilmente contar, procurando lugar nas áreas mais elevadas, de onde o espetáculo podia ser melhor apreciado. O próprio Cláudio, acompanhado da imperatriz Agripina, assistiu a tudo. 
Resultado? Sucesso absoluto, de público e crítica. Não dá pra dizer que a banalização da morte é coisa apenas de nosso tempo.

(1) Que não eram tão limitadas quanto se poderia pensar: consta que, no coliseu, havia até mesmo um elevador para que animais selvagens de grande porte fossem colocados na arena.
(2) Annales, Livro 12.
(3) Ano 806 da fundação de Roma, ou 53 d. C.


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segunda-feira, 30 de março de 2015

Armínio

Para gregos e romanos, ele era um bárbaro - sua língua materna não era nem o latim e nem o grego. Ex-oficial no exército romano, Armínio liderou seu povo na luta contra as forças de Roma, e, em 11 de setembro de 9 d.C., na batalha de Teutoburgo, impôs às legiões comandadas por Quintílio Varo uma derrota de proporções brutais. O próprio Varo, agindo de acordo com o que se esperava de um romano honrado, cometeu suicídio para não cair prisioneiro dos germanos. Suas legiões foram estraçalhadas.
Armínio enfrentou romanos em diversos outros combates, alcançando sucesso em alguns, sendo derrotado em outros, mas sempre conseguindo escapar. Viria a morrer, de acordo com Tácito, historiador romano, em mãos de seus próprios parentes, aos trinta e sete anos de idade.
Não deixa de ser notável o fato de que Tácito, longe de considerá-lo um simples traidor, fizesse a ele uma série de elogios, como "libertador da Germânia", que "enfrentou Roma não em seus primórdios [...], mas quando o Império estava no auge." (*) Seus feitos, porém, segundo o mesmo historiador, eram ignorados, quase um século mais tarde, tanto pelos gregos como pelos romanos. Por quê? 
Escreveu ele:
"É desconhecido nos anais dos gregos, pois estes só olham para si mesmos; e também dos romanos, porque celebramos as coisas antigas e não damos atenção às recentes." (*)

(*) As citações do Livro Segundo dos Annales de Tácito são tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 16 de março de 2015

Medidas restritivas ao trabalho dos comediantes na Roma Antiga

Ator romano de comédia
usando máscara (¹)
É Tácito, historiador romano, quem conta, em seus famosos Annales: desde os dias de Augusto era proibido mandar castigar com açoites aos comediantes que, naqueles tempos, representavam as farsas. Isso lhes dava, por certo, uma grande liberdade, de que já não desfrutavam outras pessoas.
Ocorre que, nos dias de Tibério (imperador entre 14 e 37 d.C.), alvoroços ocorridos em Roma levaram a uma série de proibições relativas ao trabalho dos ditos comediantes. As medidas restritivas incluíam:
- Os senadores ficavam terminantemente proibidos de ir à casa de comediantes;
- Aos cavaleiros era vedado até mesmo aparecer em público ao seu lado ou andar em companhia de um deles;
- Proibia-se a representação de comédias em qualquer outro lugar que não nos teatros;
- Finalmente, já que, por graça do "divino" Augusto, os comediantes atrevidos não podiam levar umas boas chibatadas se ousassem atentar com suas troças contra a dignidade imperial, determinou-se que, aos pretores, era lícito ordenar que fossem condenados ao desterro todos aqueles que, destilando veneno em suas peças humorísticas, passassem dos limites, ou seja, ofendessem a dignidade, quer do próprio Tibério, quer de outra figura de importância.
A liberdade de expressão não era grande coisa na Antiguidade romana. Vê-se que ficou ainda menor. 
A propósito, restrição da liberdade era coisa em que Tibério tornou-se um especialista (²). Apenas para exemplificar, e ainda com base na obra de Tácito, sabe-se que o sucessor de Augusto tratou de limitar tanto quanto possível a liberdade de atuação dos pretores, que eram, em Roma, encarregados da administração da justiça. Sua prática era tanto mais efetiva quanto não se fazia tão explícita: ia assistir às audiências do pretor em atividade, mantendo-se em um lugar em que, pelo cerimonial, este não estava obrigado a levantar-se de sua cadeira devido à presença do imperador. Podia parecer uma atitude respeitosa, mas, de fato, não passava de uma sutil intimidação àquele que devia aplicar a justiça: sed dum veritati consulitur, libertas corrumpebatur, escreveu Tácito.

(1) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper &  Brothers, 1877, p. 22.
(2) No ano 776 da fundação de Roma os comediantes foram, por ordem de Tibério, expulsos da Itália.


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