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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Suicídios na Roma Antiga

É mesmo de chamar a atenção a quantidade de suicídios de que historiadores e cronistas da Antiguidade relatavam a ocorrência em Roma. Tanto mais notável,  ainda, por ser coisa de gente importante, da elite romana.
Por quê?
Sim, era, na lógica da época, uma questão de dignidade, quando alguém se encontrava em uma situação para a qual não via nenhuma outra solução honrosa. Foi o caso do general Quintílio Varo, por exemplo, quando percebeu que suas tropas estavam completamente derrotadas pelos bárbaros germanos em Teutoburgo. Para não cair prisioneiro dos inimigos, Varo cravou a espada em si mesmo. 
Isso era coragem? Talvez seja uma daquelas questões que dependem do ponto de vista e da cultura da época. Mas nem todos os suicidas de Roma estavam em situação extrema em um campo de batalha. Aliás, o método mais popular de suicídio entre os romanos era, geralmente, praticado dentro de casa - abrir as veias (dos pulsos), deixando que a perda de sangue se encarregasse do resto. Não foram poucos os políticos romanos que, metidos nas intrigas do poder, preferiram morrer assim, antes que uma formal condenação à morte os alcançasse. Houve uma verdadeira epidemia de senadores que decidiram abrir as veias durante os últimos anos do governo de Tibério. Tácito assim explica essa "preferência":
"Por medo do carrasco preferiam morrer assim, e também porque, aos condenados, recusava-se sepultura (¹) e os bens eram confiscados, enquanto que aos que tiravam a própria vida respeitava-se o testamento (²) e dava-se sepultura ao corpo, como recompensa." (³)
Ora, havia condenados que acabavam presos antes que tivessem tempo de fazer a opção pelo suicídio. Alguns, em desespero, conta-se, escapavam um instante aos guardas e arremessavam-se contra a parede mais próxima, fazendo a própria cabeça em pedaços...
Sêneca, professor de Nero, e Petrônio, escritor (⁴), são exemplos de romanos que abriram as veias; Oto, imperador, perfurou o coração com uma adaga, e Marco Antônio, o do Segundo Triunvirato e amante de Cleópatra, cravou a espada em si mesmo. Quanto a Nero, há controvérsias. Parece que tinha a intenção de usar a espada ou abrir as veias, mas acabou morto por um soldado, que (talvez) tenha obedecido a uma ordem do próprio imperador. Não era, no entanto, nenhum caso que levasse a humanidade a grandes lamentações.
Ah, duas coisas que devem ser lembradas: a prática de abrir as veias era também usual entre mulheres; a ascensão do cristianismo no Império foi, aos poucos, debelando, entre os romanos, a moda dos suicídios em nome da honra.

(1) Para os romanos era crucial um sepultamento digno junto aos antepassados, pois só assim seriam celebrados como lares por seus descendentes.
(2) Quanto à distribuição dos bens.
(3) TÁCITO, Annales. Tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.
(4) Autor de Satyricon, obra fortemente desaconselhada para menores. Quanto aos adultos, só é leitura para os que tiverem estômago para tanto.


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segunda-feira, 30 de março de 2015

Armínio

Para gregos e romanos, ele era um bárbaro - sua língua materna não era nem o latim e nem o grego. Ex-oficial no exército romano, Armínio liderou seu povo na luta contra as forças de Roma, e, em 11 de setembro de 9 d.C., na batalha de Teutoburgo, impôs às legiões comandadas por Quintílio Varo uma derrota de proporções brutais. O próprio Varo, agindo de acordo com o que se esperava de um romano honrado, cometeu suicídio para não cair prisioneiro dos germanos. Suas legiões foram estraçalhadas.
Armínio enfrentou romanos em diversos outros combates, alcançando sucesso em alguns, sendo derrotado em outros, mas sempre conseguindo escapar. Viria a morrer, de acordo com Tácito, historiador romano, em mãos de seus próprios parentes, aos trinta e sete anos de idade.
Não deixa de ser notável o fato de que Tácito, longe de considerá-lo um simples traidor, fizesse a ele uma série de elogios, como "libertador da Germânia", que "enfrentou Roma não em seus primórdios [...], mas quando o Império estava no auge." (*) Seus feitos, porém, segundo o mesmo historiador, eram ignorados, quase um século mais tarde, tanto pelos gregos como pelos romanos. Por quê? 
Escreveu ele:
"É desconhecido nos anais dos gregos, pois estes só olham para si mesmos; e também dos romanos, porque celebramos as coisas antigas e não damos atenção às recentes." (*)

(*) As citações do Livro Segundo dos Annales de Tácito são tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.


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