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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Cidadãos romanos

O direito à cidadania era algo que os primeiros romanos reservavam ciumentamente para si, porque, além de ser considerado uma grande honra, incluía, também, uma série de direitos. Sêneca, o filósofo estoico, argumentou: "Causar dano à pátria é crime; portanto, causar dano a um cidadão, que é parte da pátria, também é crime. [...] O que seria se as mãos pretendessem causar dano aos pés, ou os olhos às mãos?" (¹)
Contudo, o título de cidadão romano, sob a pressão de questões práticas, foi, com o passar do tempo, estendido a um número crescente de pessoas. Durante a Segunda Guerra Púnica, por exemplo, escravos foram incorporados ao exército romano. Nas palavras de Floro, esses "libertos se tornaram romanos" (²). Um pouco mais tarde, em 89 a.C., os povos aliados da Itália obtiveram a cidadania romana e, ainda que no governo de Augusto as concessões tenham sido poucas, com Cláudio, em 47 d.C., o título de cidadão tornou-se disponível a qualquer estrangeiro que estivesse disposto a pagar por ele. 
Imperador Caracala (⁴)
Finalmente, sob o governo de Caracala (³), a condição de cidadão romano foi estendida a todos os homens livres que viviam dentro dos limites do Império. O motivo para tamanha generosidade não tardou a aparecer: os cidadãos estavam obrigados ao pagamento de certos impostos, cuja finalidade era manter o exército que, nesse tempo, coroava e destronava imperadores à sua vontade, às vezes de forma explícita, em outras ocasiões discretamente, mas, em quase todos os casos, mediante pagamento e com não pequena violência.

(1) SÊNECA. De Ira. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) FLORO, Aneu. Rerum Romanarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) 211 - 217 d.C.
(4) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 290. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
 

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Por que Júlio César foi assassinado

Júlio César (⁴)
Dia 15 de março de 44 a.C., os "idos de março", para os antigos romanos. Nesse dia, por volta das onze da manhã (¹), Júlio César foi assassinado. Fora avisado pelos áugures de que havia grave ameaça sobre ele, mas, supersticioso como era, ainda assim desprezou a advertência e, ao se apresentar para um compromisso público, foi morto com múltiplas punhaladas. Eram mais de sessenta os conspiradores (²). Por quê?
De acordo com De vita Caesarum, de Suetônio, o pretexto formal é que havia quem pretendesse dar a César o título de rei, sob o argumento de que nos livros sibilinos haveria uma profecia segundo a qual Roma somente conquistaria a Pártia se fosse governada por um rei. Ora, o povo romano tinha a mais ferrenha aversão à monarquia, desde que o último dos sete reis, Tarquínio, chamado "o soberbo" fora deposto. Mas, com profecias sibilinas ou sem elas, é fato que César flertava com a monarquia, ainda que afirmasse jamais aceitar uma coroa. Seu comportamento, àquela altura, mais parecia o de um rei que de um governante republicano. Não era, já, ditador vitalício?
O apoio popular, que Júlio César tão zelosamente cultivara, era instável. A plebe estava sempre ao seu lado, "sempre" significando, aqui, quando fazia distribuições de víveres e de dinheiro (³). Quanto ao patriciado, irritara-se com a decisão de César de introduzir gauleses no Senado. O ditador tinha, pois, inimigos à direita e à esquerda.
Seriam essas explicações suficientes para um assassinato público? Sêneca, que viveu no século seguinte - era filósofo estoico e foi professor de Nero - interpretou a morte de César sob outro olhar: "O divino Júlio", disse ele, "foi morto com a participação antes de amigos que de inimigos, por não ter concretizado suas pretensões ilimitadas" (⁵). Suas palavras sugerem uma reflexão útil aos poderosos de todos os tempos.

(1) À hora quinta. A correspondência com o sistema atual de vinte e quatro horas varia um pouco, de acordo com a época do ano.
(2) Suetônio, em De vita Caesarum, apontou Caio Cássio, Marco e Décimo Bruto como os líderes do complô.
(3) Sim, leitores, isso acontecia.
(4) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 156. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) SÊNECA. De iraO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


terça-feira, 23 de abril de 2019

O que é perda de tempo?

Vocês acham que a vida é curta, leitores? Isaías, um profeta hebreu da Antiguidade, pensava que sim, tanto que a comparou à vegetação efêmera da Palestina (¹). Contudo, Sêneca (²), o filósofo estoico dos dias de Nero, julgava que a vida não era breve, e sim mal utilizada: "A vida é longa, desde que saibamos aproveitá-la", afirmou. Vejamos, em suas palavras, a exposição daquilo que supunha ser perda de tempo, ao dirigir-se a Paulino, já centenário, com quem sustenta uma interlocução retórica em Da brevidade da vida:
"Quanto de tua vida gastaste com credores, quanto com algum amigo, quanto cuidando dos interesses da República, quanto com teus parentes, quanto em desentendimentos com tua mulher, quanto em castigar escravos, quanto andando às pressas pela cidade? Deves acrescentar a isto o tempo que estiveste doente e o tempo passado na ociosidade e verás que tens muitos anos a menos do que podes contar." (³)
Não é difícil perceber que a fala de Sêneca dá uma ideia das ocupações rotineiras de um membro da elite romana de seu tempo. Além disso, entre a população livre em geral, havia abundância de ociosidade, decorrente da multidão de escravos - prisioneiros de guerra - à disposição para todo tipo de trabalho. De fato, talvez não fossem poucos os que, tendo gasto muito tempo em espetáculos de gladiadores, corridas de cavalos e de bigas, representações nos teatros, além de horas e mais horas nas termas, chegassem, com o correr dos anos, a pensar que a vida ia-se escoando como areia entre os dedos, ou desaparecendo como a frágil vegetação das regiões semiáridas. 
Entretanto, se excluirmos da vida algumas coisas mencionadas por Sêneca, tais como o convívio com amigos e familiares, não estaremos desprezando parte daquilo que a existência tem de melhor? Curioso é que o filósofo estoico, que gastou uns bons anos em educar e aconselhar Nero, não tenha, em Da brevidade da vida, dito nada sobre o que é que, de fato, faria a existência valer a pena. 

(1) Cf. Is. 40, 7: "exsiccatum est faenum et cecidit flos quia spiritus Domini sufflavit in eo vere faenum est populus".
(2) 4 a.C. - 65 d.C.
(3) O trecho citado de Da brevidade da vida foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 26 de março de 2019

Por que o rei dos persas chorou

Xerxes, rei dos persas - foi o que disse Heródoto (¹) - chorou, ao pensar que, em um século, nada restaria da esplêndida máquina de guerra que formara. A choradeira real teria ocorrido antes que começasse a luta contra os gregos, em uma ocasião em que a vaidade do monarca persa resultara na exigência de um combate simulado, para que, em um trono de mármore branco colocado em um promontório, pudesse ver as forças a seu dispor, tanto no mar quanto em terra. Estava presente um tio de Xerxes, que ao perguntar pelo motivo de tal demonstração pública de abalo emocional, obteve esta resposta: "A visão de minha armada fez brotar em mim um sentimento de tristeza pela brevidade da existência humana, ao pensar que desta multidão nem um só homem existirá dentro de cem anos."
Não se enganem, leitores. Xerxes foi um típico monarca de sua época, ambicioso, prepotente e cruel. Embora não saibamos se em todos os detalhes os fatos foram assim, podemos considerar que o relato de Heródoto não é incoerente com a realidade contemporânea. 
Séculos mais tarde, Sêneca, o filósofo estoico do Império Romano (²), faria menção ao episódio do choro de Xerxes - certamente leu Heródoto - ao fazer suas próprias considerações quanto à brevidade da vida (³): "O rei dos persas, que era muito arrogante, espalhou seu exército por tão vasto terreno, a ponto de ser impossível saber a quanto chegava o número de seus soldados, e chorou ao pensar que dentro de cem anos ninguém, dentre tantos jovens, estaria vivo, embora fosse ele quem em breve iria conduzi-los à morte, quer em terra ou no mar, quer em combates ou em retiradas, e se acabrunhava pelo que sucederia um século mais tarde." (⁴)
Lágrimas de crocodilo, as de Xerxes. Chorava pelos que iam morrer, e era ele mesmo quem os mandava tão cedo para a morte. Ao rei persa, caberia apenas o atenuante de que, nesse sentido, não foi o único de sua espécie. Outros como ele continuam a aparecer até hoje.

(1) Histórias, Livro VII.
(2) Nascido na Espanha, foi professor e conselheiro do imperador Nero.
(3) Da brevidade da vida. Sêneca não achava que a vida humana era breve; entendia que não era devidamente aproveitada.
(4) Os trechos citados das obras de Heródoto e Sêneca foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Infanticídios na Roma Antiga

Um indicativo do grau de civilização de um povo é o modo como trata aqueles, dentre a população, que são mais frágeis ou têm alguma deficiência, de modo a prestar-lhes a assistência necessária, oferecendo oportunidades de educação e desenvolvimento pessoal. Mas saibam, leitores, que nem sempre foi assim. 
Façamos um breve passeio pela Antiguidade greco-romana, mas antes, preparem os nervos. Em Esparta, todos sabem, um bebê, tão logo nascia, era apresentado pelo pai à Gerúsia (¹). Se fosse julgado saudável, ficava com os pais, que deveriam cuidar dele até que tivesse sete anos.  A partir dessa idade, toda criança era entregue aos cuidados do Estado, que lhe ministrava uma educação verdadeiramente espartana (e não vai aqui qualquer redundância). Contudo, se o bebê fosse frágil ou apresentasse alguma deficiência, deveria ser imediatamente jogado no abismo de Taigeto. 
Busto de menino romano desconhecido (⁴)
Isso assusta? Passemos a Roma. A Lei das Doze Tábuas (²) era peremptória: "Um bebê severamente deformado deve ser morto de imediato". Notem, meus leitores, que, neste caso, não havia crime em tirar a vida de uma criança - conservar vivo um bebê reputado pouco saudável é que seria desobediência à lei romana. E, se isso parece coisa de tempos incultos, vamos ao Século I, quando Sêneca, filósofo estoico e um dos sujeitos mais instruídos de seu tempo (³), escreveu, justificando o proceder de seus concidadãos: "Matamos cães raivosos e touros que não conseguimos domar, degolamos ovelhas doentes para que sua enfermidade não se espalhe por todo o rebanho, asfixiamos recém-nascidos deformados e afogamos crianças fracas e defeituosas, não por ira, mas racionalmente, para apartar o que pode trazer doença àquilo que é saudável" (⁵). Percebam, leitores, que, nesta passagem, Sêneca teve ainda o cuidado (não intencional) de revelar, para o futuro, a informação relativa aos métodos de infanticídio que eram usuais em seus dias. Tudo racionalmente, como ele mesmo frisou.
É de congelar o sangue. Pergunto, apenas, como é que cronologicamente tão perto de nós, ideias semelhantes ainda encontraram terreno fértil para germinar. Digo isso, porém, sem a mínima convicção de que ideologias análogas tenham desaparecido por completo.

(1) Um conselho composto pelos dois reis e por vinte e oito anciãos cujo mandato era vitalício.
(2) Foram escritas em 450 a.C.; antes disso, as leis de Roma eram conservadas em segredo pelos pontífices (!!!), resultando, portanto, em inúmeros abusos dos patrícios contra os plebeus. As leis originais se perderam, de modo que apenas se sabe delas aquilo que foi citado em obras literárias da Antiguidade.
(3) Nunca é demais lembrar que foi professor de Nero.
(4) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 235. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) De ira. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Execuções "em boca de peça"

Apedrejamento, enforcamento, afogamento, decapitação, fuzilamento, cadeira elétrica, garrote, empalamento, injeção letal... A lista de métodos de execução já inventados pela crueldade humana é enorme. Alguns tinham o propósito de tornar a morte lenta e dolorosa; outros, com intenções supostamente humanitárias, queriam-na rápida e, tanto quanto possível, indolor. Em qualquer caso, a ideia é que a execução servisse (ou sirva) de exemplo.
Dentre os povos antigos, os assírios foram notáveis pela crueldade, e gostavam de empalar inimigos derrotados, mas também usavam outros métodos para execução que, quase sempre, só vinha depois de muita tortura.

Relevo assírio em que o rei é visto executando um prisioneiro de guerra (¹)

Sêneca, o filósofo estoico e professor de Nero, defendeu, nestes termos, a aplicação da pena de morte em Roma: "Aqueles que, com sua vida, não quiseram cooperar com a República, devem ser úteis com a morte" (²). E então, leitores, acham que ele estava certo?
Há tempos, tratei, neste blog, de uma ocasião em que Tomé de Sousa (³) fez executar um índio, amarrando-o à boca de um canhão que, ato contínuo, foi disparado. Ora, esse horripilante espetáculo, cujo objetivo era desencorajar potenciais delinquentes, não foi caso isolado no Brasil. Franceses que tentaram estabelecer uma colônia no Maranhão empregaram a mesma "técnica" - a informação vem de Yves d'Évreux, um capuchinho que esteve no Brasil como missionário nos anos de 1613 e 1614. Dentre outros episódios que registrou, examinemos um, bastante significativo, no qual o sentenciado à morte foi um indígena que, supostamente, se opusera à colonização e à catequese. Capturado, foi condenado à morte "em boca de peça" (⁴), como se dizia. Antes, porém, recebeu o batismo, embora o próprio d'Évreux tenha delegado a outro o ato de ministrar o sacramento, julgando que seria melhor para a imagem dos missionários se fossem associados à misericórdia e não à severidade. Pois bem, a execução assim foi descrita pelo religioso francês:
"Este infeliz condenado recebeu as consolações de muito boa vontade [sic], e antes de caminhar para o suplício disse aos que o acompanhavam: "vou morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de Jeropary (⁵) pois sou filho de Deus, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de água, e nem de ferramenta alguma para viajar além das montanhas, onde cuidais que estão dançando vossos pais (⁶). Dai-me porém um pouco de petum (⁷) para que eu morra alegremente, com voz e sem medo". 
[...].
Feito isso, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte de São Luís, junto ao mar, amarraram-no pela cintura à boca da peça, e o Cardo Vermelho (⁸) lançou fogo à escorva, em presença de todos os principais, dos selvagens e dos franceses, e imediatamente a bala dividiu o corpo em duas porções, caindo uma ao pé da muralha, e a outra no mar, onde nunca mais foi encontrada." (⁹) 
Vejam, leitores, que d'Évreux descreve a execução como se fosse a coisa mais natural deste mundo - não seria capaz de maior doçura se referisse a busca por flores silvestres ou por pequenas conchas marinhas em alguma praia. Será que os homens de seu tempo eram mesmo brutais, ou somos nós que nos tornamos demasiadamente sensíveis?

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853.
(2) Sêneca, De Ira. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(3) Primeiro governador-geral do Brasil.
(4) Referência a um canhão ou outra peça de artilharia.
(5) Figura da mitologia indígena que os missionários identificavam com um demônio.
(6) Lugar onde indígenas supunham ser a residência dos mortos.
(7) Fumo.
(8) Cardo Vermelho era um chefe indígena já catequizado.
(9) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, pp. 232 e 233.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Vinho e água

O consumo de vinho puro não era frequente entre gregos e romanos. "Misture uma parte de vinho para três de água", recomendou Hesíodo, poeta grego da Antiguidade, em Os Trabalhos e os Dias. Para os padrões da época, foi modesto. Era comum que uma parte de água fosse adicionada a três de vinho (o contrário, portanto, daquilo que Hesíodo sugeriu), mas, dependendo do gosto de quem bebia, da procedência e qualidade do vinho e das circunstâncias em que era servido, a diluição podia ser maior. Prática semelhante havia entre os romanos.
Cratera grega (²)
Quem lê as obras de Homero (¹) ou de outros autores gregos da Antiguidade não demora a encontrar referência a um objeto chamado cratera. Para que servia? Ora, leitores, as crateras eram usadas precisamente para misturar água e vinho, no momento em que a bebida era servida. Havia crateras muito simples, comuns entre a gente de baixa posição socioeconômica, mas havia, para os muito ricos, aquelas que, artisticamente trabalhadas, atestavam a prosperidade do dono da casa em que um banquete, regado a vinho (diluído!), era oferecido a nobres convidados.
Um luxo adicional foi muito usado por romanos na diluição do vinho, e Sêneca fez referência a ele nesta passagem instrutiva do Livro II de Da Ira: "Aquele que se irrita com um escravo que não dissolveu bem a neve no vinho poderá, acaso, resistir à fome ou à sede durante uma guerra no verão?" (³). Não havendo neve por perto, escravos eram mandados a buscá-la, em louca correria, para atender ao capricho de seus senhores.

(1) Supõe-se que Homero tenha vivido entre os Séculos IX e VIII a.C., sendo geralmente atribuídas a ele a Ilíada e a Odisseia.
(2) DUCATI, Pericle. Storia della Ceramica Greca. Firenze: Fratelli Alinari, 1922, p. 43. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) As passagens citadas de Os Trabalhos e os Dias e de Da Ira foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Nero e o estoicismo ensinado por Sêneca

O estoicismo não começou em Roma - nasceu na Grécia, como muitas outras correntes de pensamento da Antiguidade. Foi no terceiro século antes de Cristo que Zenon começou a formular as bases do estoicismo, o qual, ganhando corpo nos centênios imediatos, chegaria a seu pleno desenvolvimento no Império Romano. 
Foi em Roma que ensinou um dos mais renomados filósofos estoicos, Lúcio Aneu Sêneca. Nascido na Espanha, esse escritor e pensador, ao longo de uma vida repleta de agitações, desenvolveu uma obra tão extensa quanto diversificada, da qual é parte De clementia, dirigida a seu mais famoso discípulo, Nero, então um adolescente de dezoito anos, mas já imperador. Nela, entre muitas observações (e adulações), explicava que o verdadeiro estoico lidaria, impassível, com as diferentes situações da vida, inclusive ao praticar ações nobres, ou seja, atos de autêntica clemência (¹):
"Sem chorar, enxugará lágrimas de outros, socorrerá ao que naufragou, acolherá o desterrado e dará esmola ao necessitado [...], fará com que o filho seja devolvido à mãe que pranteia, libertará o escravo, tirará o gladiador da arena e chegará a sepultar o criminoso executado, mas fará tais coisas sem qualquer alteração na fisionomia e com espírito sereno." (²)
Para quem vive no mundo ocidental em nosso tempo, essa obsessão pelo controle das emoções pode até ter o aspecto de indiferença, mas não devemos esquecer que os valores de hoje são muito diversos, e - negue quem quiser - influenciados por dois milênios de cristianismo (³). Em outra de suas obras, Sêneca teve o cuidado de justificar seu pensamento:
"Se coubesse ao sábio irritar-se contra todas as práticas vergonhosas, mostrar tristeza por toda maldade cometida, seria a sabedoria a mais infeliz condição, e a vida do sábio consistiria em ira e tristeza." (⁴)
Ainda que tudo isso pareça muito estranho, o fato, leitores, é que ninguém foi ou é obrigado a ser estoico ou a estar de acordo com as ideias de Sêneca, e nem mesmo seu imperial discípulo parece ter sido um exemplo notável de estoicismo prático. Pior para Sêneca, como se sabe.

(1) Fugindo das fraquezas que acometiam as pessoas comuns, que acabavam por ter um envolvimento emocional com o sofrimento alheio. Em De ira, Sêneca afirmou: "Não há emoção violenta que não provoque alteração na fisionomia."
(2) Todas as citações de obras de Sêneca mencionadas nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Quanto à ética, o cristianismo, antes de qualquer outra coisa, se distingue do estoicismo por um fator: a motivação implícita.
(4) De ira.


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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Poder absoluto, crueldade sem limite

Muitos monarcas da Antiguidade governavam com autoridade ilimitada, mesmo quando havia algum tipo de conselho de anciãos ou senado que podia ser ouvido. Isso acontecia por várias razões, dentre as quais:

  • a) A maioria das monarquias estava associada às crenças religiosas do respectivo povo, de modo que o rei era visto como um representante dos deuses, às vezes como o mais importante dos sacerdotes, ou, eventualmente, como uma autêntica divindade em figura humana;
  • b) Politicamente, os reis podiam ser representantes de um determinado grupo da sociedade, que lhe garantia apoio e sustentava as decisões em troca de vantagens econômicas significativas (como ocorria, por exemplo, em relação à camada sacerdotal no Egito Antigo);
  • c) O exército de um determinado povo era, frequentemente, um sustentáculo importante para os monarcas, mantendo, pela força, a autoridade do governante, embora, em alguns casos, pudesse significar também a ruína de um rei ou imperador desagradável aos homens de armas (aconteceu uma porção de vezes no Império Romano);
  • d) Apesar de absolutos, os monarcas também se mantinham no poder quando adotavam medidas favoráveis aos interesses de uma parte considerável da população, e não apenas de uma determinada camada da sociedade - poucos iriam gastar o cérebro em questionar a falta de participação política se, economicamente, as coisas andassem muito bem.

Acontece que, não raro, os monarcas-quase-deuses eram (ou, se não eram, vinham a ser, com o passar do tempo), pessoas muito cruéis, até como resultado do poder ilimitado de que dispunham. Veremos apenas um exemplo, bastante útil para elucidar esse ponto. Veremos? Leitores, só prossigam se tiverem estômago. Mas, já que chegaram até aqui, é melhor seguir em frente.
Dario I, rei dos persas, estava, segundo conta Heródoto, ultimando os preparativos para uma guerra, quando foi procurado por um amigo, cujos três filhos estavam no exército. Pedia ao rei que ao menos um dos rapazes fosse dispensado, para que ele não ficasse sozinho em casa, ou para que não acontecesse, na eventualidade de que os três viessem a morrer em combate, ficasse ele sem sucessor. Dario, com mostras de compreensão, disse ao pai aflito que isso não seria problema, já que daria ordens imediatamente para que nenhum dos rapazes fosse à guerra. Aliviado, o amigo aparentava satisfação, quando veio a perceber que o rei cumpriu mesmo a promessa: os três jovens foram degolados, e, por consequência, nenhum deles teve de ir ao campo de batalha. 
Não podemos ter certeza de que as coisas de fato aconteceram assim, mas não há dúvida de que a naturalidade com que historiadores e/ou cronistas da Antiguidade relatavam cada ação cruel atesta que, afinal, decisões brutais por parte de monarcas eram coisa mais ou menos corriqueira, embora houvesse gente de "segundo escalão" que, para provar que também tinha poder, perpetrava, quando podia, grandes maldades. Sêneca, o filósofo e professor de Nero (que discípulo, não?), contava de um procônsul que, parecendo ter grande ideia de si mesmo, dizia que, em um só dia, teria feito executar nada menos que trezentas pessoas. 
O que acontecia quando um rei era modelo acabado de perversidade? O povo suspirava pelo dia de sua morte, intrigas palacianas às vezes redundavam em assassinato (perpetrado até por membros da própria família real) e, menos comum, o monstrinho em forma humana acabava deposto, aprisionado e/ou executado. Tudo isso apenas para ser, talvez, substituído por alguém ainda pior. É só lembrar de algumas sucessões na Roma Antiga.
O problema, já se vê, era a concentração de autoridade decisória nas mãos de uma só pessoa. Para sorte da maioria, um rei podia ser justo, generoso, preocupado com o bem-estar dos súditos, magnânimo na guerra e na paz. No pior dos cenários, podia ser um crápula ensandecido. Os leitores que conhecem um pouco de História não terão qualquer dificuldade em determinar de que lado pendia balança. O mundo teria que esperar até o Século XVIII para ver, nas ideias de Montesquieu, a estrutura formal de pensamento segundo a qual uma divisão de poderes era imprescindível para limitar a autoridade de quem exerce o mando e (se possível) evitar desmandos.


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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Sêneca e sua teoria sobre a decadência dos impérios

Grandes impérios, na Antiguidade, surgiram, dominaram, mas desapareceram. Em alguns casos o sumiço foi tão exagerado que, por séculos e séculos, estudiosos achavam que sua existência era apenas lendária. Um exemplo disso foi o notável império assírio que, subvertido por conquistadores babilônios e medos, principalmente, permaneceu oculto até que escavações arqueológicas comprovassem sua autenticidade. 
Outros impérios passaram por lento declínio, ainda que subsistindo por muito tempo, sem, no entanto, conservarem o brilho que assinalou seu apogeu. O Egito da Antiguidade ilustra muito bem este caso.
Não poucos historiadores têm dedicado tempo e neurônios à investigação dos fatores responsáveis pela ascensão e queda dos grandes impérios. Desavenças políticas internas, fracassos em batalhas, catástrofes naturais, declínio de valores cívicos e/ou morais - a lista poderia seguir, com elementos que são assíduos entre as explicações oferecidas ao fenômeno do desaparecimento de povos, reinos, civilizações até. E, diga-se de passagem, este é um tema cuja investigação já intrigava pensadores na própria Antiguidade (¹). Sêneca (²), filósofo estoico romano do primeiro século d.C., famoso por ter sido professor de Nero, escreveu em De Ira:
"Lembre-se de que cidades notáveis, das quais hoje apenas se sabe a localização, foram destruídas pela ira. Olhe as vastas regiões hoje desabitadas, e veja que foi a ira que as tornou um deserto." (³)
Você, leitor, concorda com Sêneca? É pouco provável que ele desconsiderasse fatores políticos, econômicos, sociais ou naturais. Só que, em seu pensamento, buscava causas profundas para as querelas entre poderosos, para as revoltas populares, para as desordens na estrutura econômica, e ia encontrá-las na falta de serenidade, tanto de governantes quanto de governados, que davam vazão irrestrita às emoções violentas, embotando o uso pleno da razão. Isso se deduz pelo que escreveu na mesma obra, propondo o ideal de governantes e juízes que, impassíveis, sem qualquer traço de irritação, administrassem os negócios públicos e fizessem aplicar a justiça. Tinha isso como meta, aliás perfeitamente compatível com o pensador estoico que era. O quanto Sêneca foi bem-sucedido em implantar tal ideário, ao menos em seus dias, nós podemos ver pela conduta de seu famoso discípulo-imperador, que supondo o mestre envolvido em uma conspiração para assassiná-lo, ordenou-lhe que cometesse suicídio. Uma prática que, afinal, era comum em Roma
Sêneca, estoicamente, obedeceu.

(1) É lógico que os antigos não se achavam "antigos". Nós é que os rotulamos assim...
(2) 4 a.C. - 65 d.C.
(3) O trecho citado de De Ira é tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A aplicação da justiça no exército romano

Cavaleiros romanos portando insígnias
militares, de acordo com representação
do Século XVII (³)
Foi Sêneca, o célebre professor de Nero, quem, em De ira, relatou esta história terrível, que ilustra perfeitamente como se aplicava a "justiça" no exército romano: quase tudo dependia do estado de humor de quem comandava.
Dois soldados foram juntos procurar alimento para os cavalos. Por algum motivo, distanciaram-se enquanto trabalhavam, de modo que um deles retornou sozinho ao acampamento, sem ser capaz de explicar onde estava o companheiro. Levado à presença do comandante Cneu Pisão (¹), foi sumariamente sentenciado à morte, sob a acusação de ter matado o soldado que desaparecera. 
Ocorre que, estando já pronta a cena da execução, apareceu o outro soldado, vivo e em perfeito estado de conservação, daí porque o centurião houve por bem suspender a aplicação da sentença. Sob as felizes aclamações dos demais soldados, os dois companheiros foram, abraçados, apresentar-se ao comandante que, num acesso de fúria, condenou ambos à morte e, não satisfeito, mandou que também o centurião fosse executado. 
Como era possível tamanho absurdo? 
Eis aqui a explicação que deu o próprio Cneu Pisão:
"Você [o primeiro soldado] deve morrer porque a isso foi condenado; você [o segundo soldado], porque chegando depois foi motivo para que seu companheiro fosse sentenciado à morte; e quanto a você [o centurião] deve morrer porque recebeu de seu comandante uma ordem de execução e deixou de cumpri-la." (²)
Soldados e oficiais estavam, portanto, à mercê de quem comandava, o que nos leva a pensar em duas questões:
- É razoável dar o nome de justiça a uma tal prática?
- Sendo assim a aplicação da justiça no exército (que se constituía em sustentáculo do poder romano), é por acaso surpreendente que os governantes, que muitas vezes chegavam ao poder depois do exercício do comando militar, acabassem, no mando supremo do Império, adotando conduta semelhante à que mantinham na caserna?
Diante de tamanha irracionalidade, o estoico Sêneca observaria:
"O objetivo da razão é tomar uma decisão justa, enquanto que a ira tem como meta fazer passar por justa a sua decisão." (²)

(1) Cerca de 44 a.C. - 20 d. C.
(2) SÊNECA, Lúcio A. De ira. Tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(3) ROSSI, Filippo de. Ritratto di Roma Antica. Roma: Francesco Moneta, 1645, p. 51. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Suicídios na Roma Antiga

É mesmo de chamar a atenção a quantidade de suicídios de que historiadores e cronistas da Antiguidade relatavam a ocorrência em Roma. Tanto mais notável,  ainda, por ser coisa de gente importante, da elite romana.
Por quê?
Sim, era, na lógica da época, uma questão de dignidade, quando alguém se encontrava em uma situação para a qual não via nenhuma outra solução honrosa. Foi o caso do general Quintílio Varo, por exemplo, quando percebeu que suas tropas estavam completamente derrotadas pelos bárbaros germanos em Teutoburgo. Para não cair prisioneiro dos inimigos, Varo cravou a espada em si mesmo. 
Isso era coragem? Talvez seja uma daquelas questões que dependem do ponto de vista e da cultura da época. Mas nem todos os suicidas de Roma estavam em situação extrema em um campo de batalha. Aliás, o método mais popular de suicídio entre os romanos era, geralmente, praticado dentro de casa - abrir as veias (dos pulsos), deixando que a perda de sangue se encarregasse do resto. Não foram poucos os políticos romanos que, metidos nas intrigas do poder, preferiram morrer assim, antes que uma formal condenação à morte os alcançasse. Houve uma verdadeira epidemia de senadores que decidiram abrir as veias durante os últimos anos do governo de Tibério. Tácito assim explica essa "preferência":
"Por medo do carrasco preferiam morrer assim, e também porque, aos condenados, recusava-se sepultura (¹) e os bens eram confiscados, enquanto que aos que tiravam a própria vida respeitava-se o testamento (²) e dava-se sepultura ao corpo, como recompensa." (³)
Ora, havia condenados que acabavam presos antes que tivessem tempo de fazer a opção pelo suicídio. Alguns, em desespero, conta-se, escapavam um instante aos guardas e arremessavam-se contra a parede mais próxima, fazendo a própria cabeça em pedaços...
Sêneca, professor de Nero, e Petrônio, escritor (⁴), são exemplos de romanos que abriram as veias; Oto, imperador, perfurou o coração com uma adaga, e Marco Antônio, o do Segundo Triunvirato e amante de Cleópatra, cravou a espada em si mesmo. Quanto a Nero, há controvérsias. Parece que tinha a intenção de usar a espada ou abrir as veias, mas acabou morto por um soldado, que (talvez) tenha obedecido a uma ordem do próprio imperador. Não era, no entanto, nenhum caso que levasse a humanidade a grandes lamentações.
Ah, duas coisas que devem ser lembradas: a prática de abrir as veias era também usual entre mulheres; a ascensão do cristianismo no Império foi, aos poucos, debelando, entre os romanos, a moda dos suicídios em nome da honra.

(1) Para os romanos era crucial um sepultamento digno junto aos antepassados, pois só assim seriam celebrados como lares por seus descendentes.
(2) Quanto à distribuição dos bens.
(3) TÁCITO, Annales. Tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.
(4) Autor de Satyricon, obra fortemente desaconselhada para menores. Quanto aos adultos, só é leitura para os que tiverem estômago para tanto.


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