quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Importância Atribuída aos Sonhos Pelos Povos da Antiguidade

Quase todas as culturas da Antiguidade davam grande importância aos sonhos, entendendo que, através deles, era possível obter algum tipo de previsão do futuro, em virtude da interferência dos deuses. Como os tempos freudianos ainda estavam distantes, não espanta que monarcas que eram aclamados como divindades ou seus representantes, acabassem achando que seus sonhos eram assunto de Estado. Querem alguns exemplos, leitores?
Heródoto conta que Ciro, o Grande (¹), teve um sonho, certa noite, em que via um jovem de vinte anos, cujos ombros eram dotados de duas asas (²); com uma delas cobria a Europa e, com a outra, a Ásia. Reconheceu que o rapaz que via era Dario, filho de Histapes, e imaginou que estaria armando um golpe para destroná-lo. Pensou em liquidar o garotão, mas, ainda segundo Heródoto, o sonho prefigurava a morte de Ciro (³), e não uma conspiração. O detalhe curioso é que, no futuro, o jovem Dario finalmente seria rei, sendo conhecido como Dario I. 
Mais Heródoto e mais persas: Xerxes, rei dos persas, sonhou com um homem alto e belo que lhe ordenava fazer guerra aos gregos. A despeito do sonho, resolveu dizer a seus conselheiros que desistia da guerra. Na noite seguinte, novo sonho, com a mesma personagem, que lhe fez uma severa ameaça: "Você será castigado, caso não faça a guerra, e tão rápido como veio a ser um grande rei, será desprezado e humilhado." (⁴)
Para piorar a situação, um conselheiro de nome Artabano teve um sonho parecido. O resultado disso tudo, como os leitores sabem, é que os persas foram à guerra contra as cidades gregas. Ao final, foram derrotados - vejam em que é que deram os sonhos de Xerxes!
Entre os antigos romanos os sonhos eram, também, muito considerados. Vai aqui o caso de um sonho, relatado por Tácito, que ocorreu a Germânico, quando em guerra contra os bárbaros. Viu-se "oferecendo um sacrifício, cujo sangue lhe manchava a toga pretexta que usava, mas que era, em seguida, substituída por outra melhor, oferecida por sua avó Augusta" (⁵). Isso bastou para que Germânico declarasse que os deuses lhe eram favoráveis. Foi à guerra e, depois de várias escaramuças, derrotou os bárbaros, mas, logo em seguida, teve as forças que comandava destroçadas por uma brutal tempestade, ocorrida no Mar do Norte
Iríamos longe se quiséssemos enumerar outros sonhadores de tempos remotos. Tal era a importância que se atribuía aos sonhos, que gregos, persas, babilônios, romanos e muitos outros povos tinham gente especializada em interpretá-los. Malgrado o respeito que devemos ter pelas crenças alheias, não deixa de impressionar o fato de que ainda existe, hoje em dia, gente que tenta decifrar os próprios sonhos com base na "ciência" dos tão bem-sucedidos intérpretes que adulavam os monarcas da Antiguidade. Eram mesmo bons nisso: alguns de seus erros ajudaram a levar reinos e impérios ao colapso.

(1) Não foram poucos os monarcas que, ao longo dos tempos, foram chamados de "Grandes". Os bajuladores constituem uma das estirpes mais numerosas deste planeta.
(2) Se levarmos em conta que divindades da época eram frequentemente representadas com asas, o sonho não deveria ter causado tanta impressão em Ciro, a não ser pelo fato de que a gente de seu tempo achava que, desse modo, podia receber recados dos deuses.
(3) Os leitores percebem, com isso, que Heródoto também achava que os sonhos podiam predizer o futuro.
(4) Heródoto, Histórias, Livro VII.
(5) Tácito, Annales, Livro II. 
As citações das Histórias de Heródoto e dos Annales de Tácito que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

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