segunda-feira, 18 de julho de 2016

Igarapés

Igarapé na Amazônia brasileira

Vamos hoje, leitores, a uma realidade muito diferente do mundo urbano a que estamos habituados. Todos prontos?
Na Amazônia, os igarapés são os caminhos possíveis na floresta. Explica-se: As florestas inundáveis são chamadas igapós. Devido à densa vegetação, a maior parte dessas florestas é quase intransitável, pelo menos para espécimes humanos. No entanto, os "caminhos" praticáveis à passagem de canoas são chamados igarapés, e cumprem, na realidade amazônica, a função de ruas ou estradas - tudo coberto de água. A expressão igarapé significa, pois, "caminho da canoa". Em 1866, Elizabeth Cary Agassiz, que participou de uma expedição científica à Amazônia, anotou em seu diário: "o igarapé é o traço mais característico e admirável da paisagem da Amazônia" (¹).
Para quem vem de longe, a região parece, a princípio, um emaranhado de água e árvores, cujas dimensões extrapolam os limites da imaginação mais atrevida. Já para os povos da floresta tudo faz sentido, e encontrar caminho em meio às águas do rio e às raízes parcialmente emersas das árvores é tão natural quanto, para um de nós, de olho no GPS, achar um endereço em meio às ruas e avenidas de uma metrópole. É questão de hábito, de vivência, de adaptação ao meio.
No entanto, se a expectativa for, entrando na floresta, a de encontrar uma explosão de sons emitidos por animais e aves, logo virá uma surpresa: a floresta amazônica é estranhamente silenciosa, sim, de um silêncio pesado, quase palpável (²). Não quer dizer que seja isenta de vida. Muito pelo contrário. É que não há, ali, uma festa contínua, e sim o jogo da sobrevivência, em que ruídos inconvenientes podem ser fatais. Abram bem os olhos, visitantes, apurem os ouvidos, e logo perceberão uma multidão de seres vivos à espreita.

(1) AGASSIZ, Jean Louis R. e AGASSIZ, Elizabeth Cary Viagem ao Brasil 1865 - 1866
Brasília: Senado Federal, 2000, p. 362
(2) Autores do passado eram enfáticos em relatar esse fenômeno. Posso dizer, por minha própria observação, que, ao menos nesse sentido, nada mudou.

2 comentários:

  1. Não consigo imaginar uma floresta silenciosa. E teria um medo terrível de me embrenhar no meio da Amazónia, mesmo com guias experientes.
    Gostei do nome "igarapés", vou tentar guardá-los numa das minhas gavetinhas da memória.
    Abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O lugar é tão fantástico que a gente não tem tempo para pensar em medo.

      Excluir

Democraticamente, comentários e debates construtivos serão bem-recebidos. Participe!
Devido à natureza dos assuntos tratados neste blog, todos os comentários passarão, necessariamente, por moderação, antes que sejam publicados. Comentários de caráter preconceituoso, racista, sexista, etc. não serão aceitos. Entretanto, a discussão inteligente de ideias será sempre estimulada.