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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Por que Tibério usava uma coroa de louros

Louro (Laurus nobilis)
Louro (Laurus nobilis) é bom na cozinha, mas Tibério, o imperador romano, achava que era bom na cabeça. Na cozinha, é um tempero formidável, e Apício, o cozinheiro imperial, concordava. Para Tibério... Bem, vamos à história.
Tibério, imperador romano, usava sempre uma coroa de louros - foi o que disse Suetônio (*) no Livro III de De vita Caesarum. Não se imagine, porém, que esse adorno pouco convencional era decorrente de alguma vitória em competições esportivas. Nada disso. Tentem descobrir o motivo, leitores: quem de vocês adivinha?
Aqui vai a resposta. Tibério tremia, apavorado, ao ouvir trovões e, mais ainda, morria de medo de ser atingido por algum raio. Por isso, de acordo com Suetônio, em dias de tempestade, colocava na cabeça uma coroa de louros porque, adepto de um arsenal de superstições, achava que essas folhas iriam torná-lo imune aos raios - e lá ia ele, assim coroado, a governar Roma e o mundo.

(*) 69 - 141 d.C.


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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Por que Augusto escolheu Tibério como sucessor

Imperador Tibério (³)
César Augusto, considerado formalmente o primeiro imperador de Roma, foi, ao longo da vida, manobrando o jogo político para fazer um sucessor. No entanto, a morte precoce de várias figuras a ele relacionadas, como seus netos, por exemplo, tornou a situação mais melindrosa do que, por si mesma, já era. Suetônio (¹), no Livro II de De vita Caesarum, indica que Augusto teria pensado até em restaurar a República, tal como era antes dos triunviratos, mas considerações, inclusive de segurança pessoal, fizeram-no desistir da ideia. 
O escolhido, afinal, foi Tibério.
Por quê?
Tácito (²), no livro I dos Annales, afirmou que Augusto teria escolhido Tibério como sucessor "para ter a vantagem de ser comparado a um pior que ele". Ora, os anos subsequentes mostraram que, se a intenção de fato foi essa, a escolha resultou perfeita. Tibério era um mestre das arbitrariedades e, quando morreu em 37 d.C., as manifestações públicas de alegria foram mais que exuberantes. De acordo com Suetônio, o povo corria pelas ruas de Roma, gritando que o cadáver do imperador deveria ser jogado no Tibre, pedindo aos deuses que não lhe dessem descanso, além de outras atrocidades mais. Romanos, romanos... Ainda não sabiam que o próximo imperador seria Calígula.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) c. 47 d.C. - 120 d.C.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



quinta-feira, 9 de abril de 2020

Domiciano, "nosso senhor e deus"

Ao ditar um documento oficial, o imperador Domiciano começou: "Nosso senhor e deus assim ordena..." Falava de si mesmo, é claro. Que audácia! E, de acordo com Suetônio (¹), desde então ficou entendido que competia a todos chamá-lo por esse modo, quer de viva voz, quer por escrito. 
Domiciano era filho de Vespasiano e irmão de Tito, imperadores precedentes. Esteve à frente do Império entre os anos 81 e 96 d.C., época em que tratou de centralizar o poder, afastando o Senado, tanto quanto possível, da esfera decisória. Ao menos nas aparências, foi um adepto decidido das antigas tradições romanas, inclusive no que tange à religião - fazendo-se incluir no conjunto de divindades que deveriam ser adoradas.
Augusto, imperador entre 27 a.C. e 14 d.C., não só recusou ser chamado "senhor", como proibiu que o mesmo tratamento fosse dado a seus familiares (²). Entende-se que o Império, em seu tempo, era algo novo, e dificilmente Augusto se sentiria seguro e confortável para receber um título que remetia ao panteão de deidades. Os romanos tinham ódio à realeza, suprimida entre eles para dar lugar à República, e não era conveniente oferecer a mais tênue impressão de que pretendesse ser rei. 
Não obstante, depois da morte, Augusto passou a ser honrado como "divo", e, portanto, contado entre os deuses. O mesmo sucedeu com outros imperadores. A Tibério, seu sucessor, ofereceu-se a condição de deus em vida, pretendendo-se, para isso, o estabelecimento de templos e sacerdócio específico; contudo, o imperador recusou tal honra, e, ainda conforme Suetônio (³), somente permitiu que lhe dedicassem estátuas que não fossem colocadas em recintos consagrados a práticas religiosas. Aliás, foi além, recusando mesmo ser chamado "Imperator" e "Dominus".
Imperador Domiciano (⁵)
Mas veio Calígula, e, com ele, a deificação do imperador vivo ganhou força. Fez substituir a cabeça de deuses pela sua em esculturas gregas (⁴), e, colocado entre Castor e Pólux, admitiu ser cultuado. O caminho estava limpo para que, alguns imperadores mais tarde, Roma aceitasse sem muito questionamento que Domiciano exigisse o título de "senhor e deus". Para os romanos que, por esse tempo, viam na religião apenas uma prática tradicional e/ou um dever patriótico, a mania do imperador metido a deus talvez não soasse coisa muito ofensiva. Para as minorias adeptas de outros conceitos religiosos, a situação era difícil e até perigosa. A recusa em reconhecer a divindade do imperador ou em oferecer sacrifícios aos deuses por sua prosperidade e longevidade podia resultar no confisco dos bens (⁶) e na sentença de morte.

(1) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro VIII. 
(2) Ibid., Livro II.
(3) Ibid., Livro III. 
(4) Ibid., Livro IV.
(5) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. 
Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 220. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(6) Uma prática nada incomum em Roma, sempre que imperadores perdulários procuravam um pretexto para refazer as finanças debilitadas. Afirma-se que Calígula, por exemplo, não precisou de mais de um ano para gastar toda a fortuna acumulada por Tibério, seu antecessor.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

O dia em que cinquenta mil pessoas foram vítimas em um anfiteatro romano

Em um só dia, nada menos que cinquenta mil pessoas morreram ou sofreram ferimentos em um anfiteatro romano, mas não suponham, leitores, que todos os mortos ou feridos fossem gladiadores. Eram parte do público que assistia a um espetáculo em um anfiteatro particular em Fidenas, que estava localizada bem perto de Roma. É melhor contar essa história desde o princípio.
Aconteceu no ano 27 d.C., quando Tibério era imperador. Um liberto (ou seja, um ex-escravo) chamado Atílio, decidiu construir por conta própria um anfiteatro, com a ideia de lucrar com ele o máximo possível. Não creio que seja difícil imaginar o quanto a construção foi precária e, devido ao número elevado de espectadores, o anfiteatro veio ao chão, soterrando não só os que estavam dentro, mas até quem se achava perto, porém do lado de fora. 
O resultado foi horrendo e, de acordo com Tácito (*), que registrou essa tragédia no Livro IV dos Annales, mais felizes foram os que morreram de imediato, porque muitos dilacerados, contudo ainda vivos entre os escombros, gritavam, desesperados, dia e noite, por socorro, aumentando a angústia dos parentes que haviam acorrido ao local à procura de sobreviventes. Estimou-se em cinquenta mil o número de mortos e feridos.
Esse episódio permite algumas considerações:
  • Romanos de todas as camadas sociais eram fanáticos por espetáculos de gladiadores, o que explica a quantidade de pessoas presentes no dia do desabamento;
  • Havia libertos que conseguiam acumular um patrimônio razoável, e Atílio, o dono do anfiteatro que caiu, é prova disso;
  • As técnicas de resgate em caso de acidentes e os recursos médicos, rudimentares como eram na Antiguidade, explicam, ao menos em parte, o número de mortos nessa ocasião.
Segundo Tácito, uma decisão posterior do Senado estipulou a quantia mínima que alguém deveria ter ao solicitar permissão para construir um anfiteatro. Assim os romanos estavam, é claro, colocando tranca em porta arrombada. Quanto a Atílio, o dono do anfiteatro que desabou - sim, ele sobreviveu! - também por decisão do Senado, foi punido com o exílio.

(*) c. 47 d.C. - 120 d.C.


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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Leis suntuárias na Roma Antiga

Durante um bom tempo os romanos deram na mania de tentar proibir o luxo entre cidadãos de todas as camadas sociais, entendendo que o livre consumo de artigos sofisticados - de comida a mobiliário - acabava levando à perda dos severos costumes que garantiam a força de Roma. Fizeram-se leis nesse sentido, as chamadas "Leis Suntuárias", que restringiam o direito a usar certas roupas, por exemplo, apenas ao topo da sociedade. Mas não era só. Nos dias de Tibério - foi Tácito quem registrou - o Senado Romano proibiu não apenas que refeições fossem servidas em bandejas de ouro, mas também que homens usassem roupas de seda. Sim, às mulheres de alta posição social elas eram ainda consentidas.
A prática mostrava, no entanto, que as Leis Suntuárias dificilmente eram cumpridas...
As guerras externas trouxeram grandes riquezas para os romanos. Famílias poderosas, em busca de prestígio político junto às camadas populares, não hesitavam em gastar muito dinheiro em festas enormes, espetáculos de circo e de gladiadores, além de banquetes, tudo com o objetivo de ganhar apoio para suas pretensões na esfera do poder.
Dama romana (³) 
Talvez até hipocritamente, por volta do ano 775 da fundação de Roma (nono ano do império de Tibério) voltou o Senado à tentativa de apertar o cerco aos exibicionistas. Tibério foi, por suposto, consultado, e em uma carta que enviou aos senadores fez uma lista das coisas que, a seu ver, eram já excessivas entre o patriciado romano e, por isso mesmo, difíceis de extirpar: "...moradias construídas em grandes propriedades, escravatura numerosa e originária de diversos lugares, grande quantidade de prata e ouro, objetos mágicos (¹), roupas delicadas tanto para mulheres como para homens, joias femininas pelas quais damos nosso dinheiro a estrangeiros que são nossos inimigos [...]." (²)
Pois bem, o fato é que, a essas alturas, o próprio Tibério manifestava uma certa má vontade em combater o luxo, ou devido a achar que não valia a pena, ou mesmo porque também gostasse dele. Vespasiano ainda tentaria, até com o próprio exemplo, pôr obstáculos à ostentação e à gastança, mas sua frugalidade, se é que existia, foi embora com ele. De qualquer modo, as Leis Suntuárias, seja na Roma Antiga, seja em tempos posteriores e nos mais diversos lugares, pertencem à coleção daquelas que "não pegaram". O motivo foi, talvez, bem simples: elas atentavam contra as predileções humanas.

(1) Amuletos, talvez em forma de quadros.
(2) Tácito, Annales, Livro Terceiro. Tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.
(3) STRONG, Eugénie. Art in Ancient Rome vol. 2. New York: Charles Scribner's Sons, 1928. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 8 de junho de 2015

O templo de Diana em Éfeso e o direito de asilo concedido pelo governo romano

Vai aqui uma história que bem merecia começar com um "há muitos e muitos anos..".
Pois bem, há muitos e muitos anos, no nono ano de governo de Tibério em Roma (¹), levantou-se uma polêmica no mundo governado pelos romanos quanto ao direito de asilo em templos e altares de diferentes deuses.
Explica-se: era crença geral que pessoas acusadas injustamente de alguns crimes podiam obter asilo, de modo que não fossem presas e punidas, se conseguissem adentrar certos templos, chegando ao altar consagrado a um certo deus. Não era todo e qualquer templo que detinha esse privilégio, e aí é que começou a confusão, porque todo mundo queria que deuses e altares de suas respectivas cidades fossem reconhecidos como locais de asilo. 
Está ficando complicado, senhores leitores? Vem mais: o privilégio de asilo tornou-se alvo da mais ignóbil corrupção, uma vez que reles bandidos de toda espécie, culpados de crimes comuns, corriam a buscar refúgio nos templos. Diante disso, o governo romano, que queria moralizar a questão do asilo, estipulou um prazo para que representantes das cidades cujos templos se pretendiam com o tal direito comparecessem a Roma para defender sua posição.
Através dos Annales registrados por Tácito, historiador romano, ficamos sabendo que os primeiros que chegaram à capital foram os enviados de Éfeso:
"Os primeiros homens que se apresentaram foram os de Éfeso, alegando que, contrariamente à crença popular, Diana e Apolo (²) não haviam nascido em Delos, mas sim no território que pertencia a Éfeso em Ortígia, às margens do Cencrium, onde, junto a uma oliveira, sua mãe, Latona, vendo chegada a hora do parto, apoiou-se para dar à luz." (³)
Ártemis ou Diana, Século V a.C. (⁴)
Acrescentando outras aventuras da mesma espécie, afirmavam os habitantes de Éfeso que o privilégio de asilo no templo de Diana jamais fora contestado, sendo, ao contrário, alvo de respeito por persas, macedônios e pelos próprios romanos.
Ora, sucede que outras cidades também arrazoavam com fatos (que nós consideraríamos mitológicos), reclamando para si o privilégio de asilo com base no culto da caçadora Diana. Tantas alegações cabeludas eram demais para os veneráveis senadores romanos. Repassaram o caso aos cônsules, que, não podendo terceirizar a tarefa, fizeram alguma investigação do assunto e responderam que era comprovada a antiguidade e legitimidade de asilo em um altar consagrado a Esculápio na cidade de Pérgamo. Tudo o mais era obscuro, perdendo-se na noite dos tempos:"ceteros obscuris ob vetustatem initiis niti..."
Algum leitor talvez esteja curioso quanto ao fim de tanta confusão. Fique então dito que os senadores, tendo considerado o caso, responderam de forma respeitosa, para que ninguém se ofendesse, determinando limites para que o privilégio de asilo fosse conservado, mas sem abusos. 
Prudente decisão, essa do Senado romano. 

(1) Ano 775 da fundação de Roma, de acordo com Tácito.
(2) Na mitologia grega, Diana era chamada Ártemis. 
(3) Tácito, Annales, Livro III. Tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.
(4) FAIRBANKS, Arthur.  Greek Gods and Heroes. Boston: Museum of Fine Arts / Houghton Mifflin Company, 1915, p. 23.


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segunda-feira, 16 de março de 2015

Medidas restritivas ao trabalho dos comediantes na Roma Antiga

Ator romano de comédia
usando máscara (¹)
É Tácito, historiador romano, quem conta, em seus famosos Annales: desde os dias de Augusto era proibido mandar castigar com açoites aos comediantes que, naqueles tempos, representavam as farsas. Isso lhes dava, por certo, uma grande liberdade, de que já não desfrutavam outras pessoas.
Ocorre que, nos dias de Tibério (imperador entre 14 e 37 d.C.), alvoroços ocorridos em Roma levaram a uma série de proibições relativas ao trabalho dos ditos comediantes. As medidas restritivas incluíam:
- Os senadores ficavam terminantemente proibidos de ir à casa de comediantes;
- Aos cavaleiros era vedado até mesmo aparecer em público ao seu lado ou andar em companhia de um deles;
- Proibia-se a representação de comédias em qualquer outro lugar que não nos teatros;
- Finalmente, já que, por graça do "divino" Augusto, os comediantes atrevidos não podiam levar umas boas chibatadas se ousassem atentar com suas troças contra a dignidade imperial, determinou-se que, aos pretores, era lícito ordenar que fossem condenados ao desterro todos aqueles que, destilando veneno em suas peças humorísticas, passassem dos limites, ou seja, ofendessem a dignidade, quer do próprio Tibério, quer de outra figura de importância.
A liberdade de expressão não era grande coisa na Antiguidade romana. Vê-se que ficou ainda menor. 
A propósito, restrição da liberdade era coisa em que Tibério tornou-se um especialista (²). Apenas para exemplificar, e ainda com base na obra de Tácito, sabe-se que o sucessor de Augusto tratou de limitar tanto quanto possível a liberdade de atuação dos pretores, que eram, em Roma, encarregados da administração da justiça. Sua prática era tanto mais efetiva quanto não se fazia tão explícita: ia assistir às audiências do pretor em atividade, mantendo-se em um lugar em que, pelo cerimonial, este não estava obrigado a levantar-se de sua cadeira devido à presença do imperador. Podia parecer uma atitude respeitosa, mas, de fato, não passava de uma sutil intimidação àquele que devia aplicar a justiça: sed dum veritati consulitur, libertas corrumpebatur, escreveu Tácito.

(1) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper &  Brothers, 1877, p. 22.
(2) No ano 776 da fundação de Roma os comediantes foram, por ordem de Tibério, expulsos da Itália.


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