segunda-feira, 16 de março de 2015

Medidas Restritivas ao Trabalho dos Comediantes na Roma Antiga

Ator romano de comédia
usando máscara (**)
É Tácito, historiador romano, quem conta, em seus famosos Annales: desde os dias de Augusto era proibido mandar castigar com açoites aos comediantes que, naqueles tempos, representavam as farsas. Isso lhes dava, por certo, uma grande liberdade, de que já não desfrutavam outras pessoas.
Ocorre que, nos dias de Tibério (imperador entre 14 e 37 d.C.), alvoroços ocorridos em Roma levaram a uma série de proibições relativas ao trabalho dos ditos comediantes. As medidas restritivas incluíam:
- Os senadores ficavam terminantemente proibidos de ir à casa de comediantes;
- Aos cavaleiros era vedado até mesmo aparecer em público ao seu lado ou andar em companhia de um deles;
- Proibia-se a representação de comédias em qualquer outro lugar que não nos teatros;
- Finalmente, já que, por graça do "divino" Augusto, os comediantes atrevidos não podiam levar umas boas chibatadas se ousassem atentar com suas troças contra a dignidade imperial, determinou-se que, aos pretores, era lícito ordenar que fossem condenados ao desterro todos aqueles que, destilando veneno em suas peças humorísticas, passassem dos limites, ou seja, ofendessem a dignidade, quer do próprio Tibério, quer de outra figura de importância.
A liberdade de expressão não era grande coisa na Antiguidade romana. Vê-se que ficou ainda menor. 
A propósito, restrição da liberdade era coisa em que Tibério tornou-se um especialista (*). Apenas para exemplificar, e ainda com base na obra de Tácito, sabe-se que o sucessor de Augusto tratou de limitar tanto quanto possível a liberdade de atuação dos pretores, que eram, em Roma, encarregados da administração da justiça. Sua prática era tanto mais efetiva quanto não se fazia tão explícita: ia assistir às audiências do pretor em atividade, mantendo-se em um lugar em que, pelo cerimonial, este não estava obrigado a levantar-se de sua cadeira devido à presença do imperador. Podia parecer uma atitude respeitosa, mas, de fato, não passava de uma sutil intimidação àquele que devia aplicar a justiça: sed dum veritati consulitur, libertas corrumpebatur, escreveu Tácito.

(*) No ano 776 da fundação de Roma os comediantes foram, por ordem de Tibério, expulsos da Itália.
(**) PARTON, James Caricature and Other Comic Art
New York: Harper &  Brothers, 1877, p. 22

2 comentários:

  1. Os artistas são sempre perigosos, em todas as eras.
    Beijinhos, uma doce semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    Respostas
    1. Principalmente para os que se acham donos do poder.

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