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quinta-feira, 1 de junho de 2023

O preço de um rouxinol no Império Romano

Rouxinol, imagem do Século XVI (³) 
Até onde ia a excentricidade de alguns imperadores romanos? No dizer de Plínio (¹) em Naturalis Historia, o imperador Cláudio teria pago nada menos que seiscentos mil sestércios por um rouxinol (²), um de verdade, não como aquele autômato do conto de H. C. Andersen. 
Pois bem, meus leitores, considerem que um sestércio corresponde a um quarto de denário. Portanto, os seiscentos mil sestércios pagos pelo rouxinol correspondem a cento e cinquenta mil denários. E quanto valia isso? Pois saibam que o denário era o pagamento diário que usualmente se fazia no mundo romano aos trabalhadores braçais livres. Conclui-se, então, que Cláudio gastou, para comprar o rouxinol, o equivalente a cento e cinquenta mil dias de trabalho. 
Resta explicar, ainda, por que razão o imperador romano queria tão preciosa avezinha. Cláudio adquiriu-a, no dizer de Plínio, para presentear sua quarta mulher, Agripina, a mãe do futuro imperador Nero. Lembrem-se disso, amigos, quando compararem os valores que nortearam Roma nos primeiros tempos da República àqueles que se tornaram moda sob o mando dos imperadores. De onde vinha tanto dinheiro? Por que imperadores tinham tanta liberdade em dispor dos recursos públicos? É fácil, pois, reconhecer a tolice completa de se colocar a culpa da decadência do Império somente nas invasões bárbaras.  

(1) 23 - 79 d.C. Talvez tenha sido o maior enciclopedista da Antiguidade.
(2) Cf. PLÍNIO, o Velho, Naturalis Historia, Livro X. 
(3) Cf. GESNER, Conrad. Icones Avium Omnium.  Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 48. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Agripina, mãe de Nero, não era nenhuma santa

É sabido que Nero providenciou a morte de Agripina, sua mãe, primeiro com uma tentativa (fracassada) de afogamento, e depois, de um modo talvez mais prático e explícito, pela espada de seus subordinados. Mas, se o filho era péssimo, Agripina, por sua vez, não era nenhuma santa. "Tal mãe, tal filho", dirão alguns dos leitores, ou, sem prejuízo da causalidade, tal filho, tal mãe...
Apenas para contentar quem duvida da capacidade de causar dano que tinha a senhora Agripina, lá vai um episódio relacionado àquela mestra de intrigas, contado por Tácito no Livro XII dos Annales. Em poucas palavras, os leitores terão um exemplo acabado do que é perfídia.
Havia em Roma um sujeito muito rico, cujo nome era Estatílio Tauro. Esse homem era proprietário de um belíssimo pomar, que Agripina invejava e queria para si. A terrível mulher arquitetou então um plano para pôr as mãos na propriedade alheia, arranjando um cúmplice que acusou Estatílio Tauro de coisas gravíssimas, relacionadas a uma suposta improbidade quando havia exercido o cargo de procônsul na África; como se isso fosse coisa de pouca monta, juntaram-se acusações de envolvimento com magia.
Levado a julgamento, Estatílio Tauro cometeu suicídio, antes que o Senado desse o parecer final sobre o caso (em Roma, isso era muito comum). Se serve de consolo, diga-se que a decisão do Senado não foi favorável aos interesses de Agripina, mesmo porque, a essa altura, deviam ser poucos os senadores que tinham alguma simpatia por ela. De qualquer modo, é bom recordar que, pelas leis romanas, os bens de um sentenciado à morte, cometendo este suicídio, eram distribuídos segundo suas disposições testamentárias, em lugar de passar ao Estado, o que explica a atitude do ex-procônsul.


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