Mostrando postagens com marcador Prisioneiros de guerra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prisioneiros de guerra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Desfiles triunfais não foram exclusividade dos romanos

É certo que em Roma os triunfos, festejos comemorativos das grandes conquistas militares, atingiram o máximo nível de organização na Antiguidade, regidos por leis que determinavam quando um general vitorioso e suas tropas podiam ser homenageados com esse tipo de desfile; mas a prática de voltar da guerra carregando o espólio ou parte dele, em procissão da qual participavam o rei, os comandantes militares, sacerdotes e soldados foi usual entre muitos outros povos. 
Uma vez que se compreenda que, na mentalidade antiga, as guerras, travadas aparentemente entre os homens, eram interpretadas como um combate entre deuses, não será difícil deduzir o significado dos desfiles nos quais as estátuas de divindades derrotadas eram parte essencial. Inimigos capturados vivos eram também componentes rotineiros dessas procissões, ao final das quais eram, às vezes, executados. Consta que Otávio teria ficado grandemente decepcionado com o suicídio de Cleópatra, porque queria tê-la como um troféu especial para exibir em seu triunfo.
As duas imagens seguintes retratam relevos assírios, mostrando um monarca aclamado em triunfo após uma grande vitória. Para os assírios, a guerra era uma atividade econômica essencial: a pilhagem da riqueza dos povos conquistados significava prosperidade para os vitoriosos.

Rei assírio ao voltar de uma batalha (1)

Relevo assírio (2) retratando uma procissão triunfal de Senaquerib (3)

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) LAYARD, Austen Henry. A Second Series of the Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editda para facilitar a visualização neste blog.
(3) Reinou na Assíria entre 705 a.C.  e c. 680 a.C.


Veja também:

quinta-feira, 15 de março de 2018

Assírios eram orgulhosos torturadores de prisioneiros de guerra

Em nosso tempo, a maioria dos países tenta manter uma imagem favorável junto às outras nações, zelando, no âmbito diplomático, para que nada comprometa as aparências em questões como respeito às leis, aos direitos dos cidadãos e ao cumprimento de acordos internacionais que assegurem a manutenção da paz. Afinal, o que turistas estrangeiros (¹) pensariam de um país em que alguns dos principais monumentos fossem consagrados à valorização de todos os tipos imagináveis de tortura contra inimigos derrotados em combate? Pois saibam, leitores, que, na Antiguidade, um lugar assim de fato existiu: estamos falando da Assíria. 

Relevo assírio em que inimigos aparecem decapitados - veja no alto da imagem (²)

Relevo assírio em que soldados são mostrados carregando cabeças de inimigos - observe à esquerda (³)

Agricultura, pastoreio e comércio eram atividades econômicas correntes entre os assírios; a guerra, porém, com seus afazeres, era a verdadeira obsessão. Viviam prontos para ela, procurando pretextos para novas operações militares, e, através da caça, treinando a prontidão para o combate. Por quê? Ora, leitores, não simplesmente porque tivessem um insaciável apetite sanguinário, mas pelo lucro resultante da pilhagem de tudo quanto tinham os inimigos derrotados. Do desenvolvimento de máquinas de guerra (⁴) à suprema crueldade na tortura física e psicológica dos prisioneiros, tudo convergia para um só propósito, ou seja, assegurar que as riquezas acumuladas por outros povos fluíssem continuamente para as cidades assírias. Se era possível obter tal resultado apenas pela eficácia da intimidação (que "produzia" o pagamento de tributos mais que extorsivos por aqueles que não tinham nem as forças e nem a coragem para enfrentar os assírios), ótimo. Caso contrário, a formidável máquina de guerra era posta em operação, para obter, pela força, aquilo que as ameaças não haviam conseguido. Nos palácios assírios, as conquistas militares e a avalanche de crueldades praticadas eram, sem falta, celebradas em relevos que inflavam o ego dos naturais do país e horrorizavam os visitantes.
Quem ousaria negar que, quando os assírios foram finalmente derrotados em 612 a.C., sobejava a uma parte significativa do mundo antigo razões suficientes para comemoração?

(1) Se é que haveria muita gente disposta a fazer turismo em um tal lugar.
(2) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853.
(3) Ibid.
As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.
(4) Que, sob o manto das novas tecnologias, têm sucessoras até hoje.


Veja também:

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Inimigos derrotados pelos romanos preferiam a morte ao aprisionamento

Os romanos amavam os triunfos, grandes desfiles militares em que eram homenageados os comandantes vitoriosos e seus soldados. Os inimigos vencidos não tinham, de modo algum, o mesmo apreço por essas ostensivas demonstrações de força. Nada de bom esperava os derrotados: presos por correntes, eram obrigados a acompanhar o carro triunfal. Às vezes eram brutalmente arrastados.
Diante dessa perspectiva terrível, não eram poucos os que, na iminência da derrota, preferiam o suicídio. Uns poucos exemplos, mencionados por Aneu Floro (¹) em Epitome rerum Romanarum serão útil esclarecimento:
  • No último cerco a Cartago, ao final das Guerras Púnicas (²), foram os próprios moradores que atearam fogo à sua capital, de modo que os romanos nada tivessem para levar ao triunfo - muitos cartagineses se lançaram às chamas, que, segundo Floro, arderam incessantemente por dezessete dias.
  • Palavras de Floro, relativamente à guerra na Espanha: "Não restou, da Numância, um único para ser acorrentado, não sobrou botim de guerra e as próprias armas foram queimadas. O triunfo só se fez de nome." (³)
  • Quando Roma fez guerra contra a ilha de Creta, a pretexto de que seus habitantes teriam favorecido Mitridates, rei do Ponto e inimigo de Roma (⁴), muitos cretenses ingeriram veneno, já que não queriam cair nas mãos dos romanos.
  • Um caso menos numeroso e mais famoso: Marco Antônio e Cleópatra cometeram suicídio para evitar que, aprisionados, fossem submetidos à terrível humilhação que os aguardava no triunfo de Otávio, o mesmo que mais tarde seria chamado César Augusto (⁵).
Apenas para que os leitores tenham uma ideia do que acontecia a quem era capturado vivo, basta citar o caso de um bárbaro, também mencionado por Floro:
"Teutobocus não encontrou um cavalo para fugir e, aprisionado, foi arrastado no triunfo, proporcionando um espetáculo notável, porque sua altura ultrapassava a de todos os troféus de guerra." (³)
Ao final do triunfo, como é do conhecimento dos leitores, os derrotados eram executados ou escravizados. Há, no entanto, registro de alguns casos especiais em que vencidos foram libertados.

(1) Aneu Floro viveu entre os Séculos I e II d.C. e foi contemporâneo do imperador Adriano.
(2) 264 - 146 a.C.
(3) Os trechos citados de Epitome rerum Romanarum são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) O próprio Aneu Floro dizia que a acusação era inverídica.
(5) Aquele que é reconhecido como o primeiro imperador de Roma.


Veja também:

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os romanos tratavam os prisioneiros de guerra

As vitórias militares de Roma corresponderam, em muitas ocasiões, à completa ruína dos povos derrotados. O destino dos prisioneiros de guerra, como regra, resultava em uma das seguintes situações:
  • Execução sumária, em particular no caso dos chefes, como medida para impedir que as forças inimigas se reorganizassem;
  • Escravização para trabalho em obras públicas;
  • Muitos eram vendidos em mercados de escravos (a chegada de um grupo de cativos era vista como espetáculo público, especialmente se os escravizados tinham características físicas diferentes daquelas que eram usuais entre romanos);
  • Soldados vencedores recebiam prisioneiros como prêmio e podiam dispor deles como julgassem conveniente, quer conservando-os a seu serviço, quer vendendo-os para quem pagasse bem.
Embora os antigos não costumassem registrar as quantidades de escravizados segundo critérios que nós, hoje, reputamos corretos, é possível ter uma ideia aproximada do que acontecia a cada grande vitória, em virtude de relatos da época. O próprio Júlio César, em De Bello Gallico, deixou informações muito úteis, e é assim que sabemos que, em certa ocasião (¹), foram vendidos como escravos nada menos que cinquenta e três mil prisioneiros de guerra. Depois de derrotar gauleses em uma batalha naval, César julgou apropriado impor uma punição severa, por entender que embaixadores de Roma haviam sido desrespeitados: "Todos os líderes idosos foram executados e os demais prisioneiros foram vendidos como escravos" (²). E, ainda na mesma obra, é dito que, depois de derrotar Vercingetórix, César recompensou cada soldado romano com um prisioneiro de guerra (³).
Assim, guerra após guerra, Roma estendia seus domínios e multidões de prisioneiros eram trazidas para escravização, de modo que, com o correr do tempo, grande parte do trabalho passou a ser feito por mão de obra cativa. A população pobre, mas livre, já não encontrava ocupação remunerada. Outras multidões, dessa vez compostas por romanos desocupados, afluíam à capital. Os problemas sociais eram inevitáveis. Tácito, no livro quarto dos Annales, lembrou que, ao tempo em que Tibério era imperador, "os escravos [eram] uma multidão que crescia imensamente e pouco o povo de condição livre" (⁴). Era preciso, portanto, que o Estado assumisse a obrigação de alimentar e entreter os homens livres que andavam desocupados, sob pena de uma revolta social de dimensões catastróficas. Periodicamente, eram feitas distribuições de cereais. O exército ocupava uma parte dos homens livres, enquanto espetáculos públicos sangrentos divertiam multidões que tinham excesso de tempo e falta do que fazer.
Mas não era só. A entrada de tantos escravos estrangeiros ia, gradualmente, descaracterizando aquilo que se poderia chamar de "cultura romana", além de ser contínuo o temor de uma rebelião. Caio Cássio, falando no Senado romano em 62 d.C., sendo Nero o imperador, observou: "Temos fâmulos [escravos] de todas as nações, que vêm de costumes os mais variados, de religiões estrangeiras ou sem nenhuma religião, e é somente sob coerção que podemos mantê-los em obediência [...]." (⁵) 
Reconhecia-se a necessidade da força para manter tantos cativos em subordinação à minoria romana. No entanto, até mesmo o exército ia, gradualmente, admitindo estrangeiros, pois, do contrário, não haveria soldados em número suficiente para as tentativas de preservar a ordem nas fronteiras. Roma se tornara tão grande que já não conseguia ser Roma. As rupturas no tecido social que constituía o Império preparavam caminho para seu declínio e queda.

(1) De Bello Gallico, Livro Segundo.
(2) Ibid., Livro Terceiro.
(3) Ibid., Livro Sétimo.
(4) Annales, Livro Quarto.
(5) Ibid., Livro Décimo Quarto. 
Os trechos de De Bello Gallico e dos Annales aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também: