segunda-feira, 25 de maio de 2015

Como os soldados romanos treinavam para o combate

Públio Cornélio Cipião foi um general romano. Lutou e venceu os cartagineses comandados por Aníbal durante a Segunda Guerra Púnica. 
Cabem aqui duas breves explicações. 
A primeira é sobre o nome "Púnica" - os romanos chamavam punos aos cartagineses, daí o nome dado a esse confronto que é, tradicionalmente, dividido em três grandes etapas, sendo a primeira entre 264 e 241 a. C., a segunda entre 218 e 202 a.C. e a terceira e última entre 149 e 146 a.C.. 
A segunda explicação tem a ver com o propósito desse notável confronto da Antiguidade. Roma, na Península Itálica, e Cartago, no norte da África, tinham um mesmo objetivo, queriam obter a hegemonia no Mediterrâneo. Era um daqueles casos clássicos em que os contendores se aproximam, olhando cada um nos olhos do oponente e dizem, pau-sa-da-mente: "Não há lugar para nós dois neste mundo..."
Ora, justamente por ter conseguido a proeza de derrotar ninguém menos que Aníbal, general cartaginês, Públio Cornélio Cipião acabou conhecido pelo apelido de "Africano". Mas era romano mesmo.
Ocorre que Públio Cornélio Cipião era filho de um outro Públio Cornélio Cipião, daí o apelido ser muito útil quando se quer distinguir um do outro. A complicação não para aqui, já que Públio Cornélio Cipião Africano também teve um filho chamado Públio Cornélio Cipião. Assim, o Africano é também chamado "o Velho", quando se quer distingui-lo de seu filho, chamado "o Jovem". Chega!
Vamos agora ao assunto principal da postagem de hoje. De acordo com Políbio de Megalópolis, uma das grandes virtudes militares de Públio Cornélio Cipião (Africano e Velho), era manter as tropas em contínuo exercício. Conta-nos que, depois de vencer em Cartagena, providenciou ocupação para seus homens em cinco dias de treinamento.
No primeiro dia fez as legiões marcharem, levando as armas, por uma extensão de trinta estádios (¹). No segundo dia ordenou que todo o armamento fosse polido e estivesse limpo para inspeção. Como ninguém é de ferro, o terceiro dia foi dedicado ao descanso. No quarto dia houve treinamento de combate, com uso de espadas de madeira com ponta cega e revestidas de couro, além de lançamento de dardos igualmente cegos. A precaução era plenamente justificável, para evitar a perda de homens para os combates que de fato contavam. Finalmente, no quinto dia de treinamento, os soldados fizeram marcha idêntica à do primeiro dia.
Vejam os senhores leitores que tudo era muito simples, se comparado ao treinamento militar da atualidade. Mas era eficaz para as necessidades daqueles dias, e contribuiu para fazer de Roma a potência única do Mediterrâneo, ao vencer e aniquilar Cartago, sua concorrente.

Representação de soldados romanos, datada do Século XIX (²) 
(1) A medida de um estádio variava um pouco de um lugar para outro na Antiguidade, mas é usual considerar que, entre os romanos, equivalia a 185 metros. Assim, a marcha dos soldados terá alcançado os 5.550 metros.
(2) MACAULAY, Thomas B. Lays of Ancient Rome
New York: Harper & Brothers, 1888
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

4 comentários:

  1. Bravo Marta, conseguiu resumir de forma exemplar milhares de guerras ao longo da história numa única frase "não há lugar nesse mundo para nós os dois". E com uma fantástica carga dramática, vc tem veia dramaturga, querida.
    Muito bom.
    Beijinho, um doce restinho de semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Dramáticas, de verdade, eram as descrições dos autores da Antiguidade. Escrever com tinta e estilo, sobre papiros ou pergaminhos, era um processo lento e algo dispendioso. Por isso, era preciso que tivessem notável concisão. Talvez explique por que é que César, Políbio, Tácito e outros eram tão interessantes.

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  2. Na época de Júlio César essas marchas eram bem mais longas, o exercito romano se tornou realmente profissional com as reformas de Mário, seus soldados foram apelidados de as Mulas de Mario devido as cargas que levavam durante as marchas.

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    1. Era preciso ser forte para cumprir uma longa marcha com uma bagagem de mais ou menos 40 kg, não? Foi que o que aconteceu a partir das chamadas "reformas de Mário".
      O que é realmente útil no registro de Políbio a que este post faz referência (relacionado às manobras durante as Guerras Púnicas, e anteriores, portanto, às reformas de Mário) não é o quanto os soldados treinavam, e sim quais as atividades que deviam cumprir. No caso em questão, o exército estava em campanha. Por isso, as atividades impostas destinavam-se a mantê-lo em forma, mas sem exageros que, provocando um desgaste excessivo, pudessem prejudicar a capacidade de entrar em combate, se isso fosse necessário. O treinamento contínuo, ainda que moderado, tinha também a função de evitar sedições que, não raro, derivavam da ociosidade.
      Sim, a profissionalização do exército romano foi gradual, e não necessariamente favorável aos interesses de Roma, mas, em todo caso, a expansão das conquistas não permitiria, eternamente, uma situação como a que existia nos dias de Cincinato, em que um comandante romano saía de sua lavoura, ia à guerra e, vitorioso em pouco tempo, voltava a ser um agricultor, como se nada houvesse acontecido (veja, sobre isso, o que escreveram Tito Lívio e Dion Cássio, por exemplo).
      Outro fato interessante é que cada comandante romano tinha ampla liberdade para dirigir os soldados sob suas ordens como julgasse mais conveniente. Isso explica o motivo que fazia com que alguns líderes militares fossem quase adorados pela soldadesca, enquanto outros, mesmo poderosos, viviam sob o medo de um levante das tropas, dominando antes pelo terror que pela dedicação que inspiravam. Assim, é fácil entender por que os soldados eram capazes de morrer por alguns comandantes, enquanto fariam outros em pedaços, se tivessem uma oportunidade. Talvez o auge desse fenômeno tenha ocorrido no Império, quando alguns imperadores foram postos no trono pelos soldados a quem comandavam, apenas para, em seguida, caírem assassinados para que outro, que oferecia mais dinheiro, fosse entronizado em seu lugar. Mas esses já eram tempos em que Roma era muito diferente daquela dos primeiros dias da República.
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