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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Bebês espartanos

Mais que filhos de seus pais biológicos, os bebês que nasciam em Esparta eram considerados filhos da cidade-Estado. Essa premissa é fundamental para que se compreenda a história horripilante que virá a seguir. Pode também ser levada em conta para que se veja, sem margem a dúvidas, que ideias de eugenia ou "aperfeiçoamento da raça" não nasceram em cérebros do Século XIX, com aplicação em larga escala no Século XX - são muitíssimo mais antigas.
Quando um bebê nascia em Esparta, disse Plutarco (¹), "não se dava nem ao pai e nem à mãe autorização para criá-lo a seu gosto, sendo antes levado pelo pai ao lugar de reunião do Conselho, onde se assentavam os mais idosos [...]" (²). Lá acontecia uma inspeção rigorosa, cujo objetivo era verificar se a criaturinha recém-chegada ao mundo tinha, sob o ponto de vista das leis de Esparta, algum defeito que a incapacitasse para a carreira das armas. Ora, se o bebê era bonito e robusto, bem estava. Mas, se era considerado fraco e doentio, sua vidinha seria bem curta:
"Quando se lhes apresentava [ao Conselho de Anciãos] um bebê feio, franzino ou com alguma deformação dos membros, levavam-no imediatamente ao lugar [...] em que devia ser jogado, que se localizava junto ao monte Taigeto, que era alto e repleto de asperezas, como se fora um rochedo partido. Esse costume, que poderia parecer cruel, era praticado porque, se percebiam que desde o nascimento faltava [aos bebês] as características naturais que os fariam semelhantes aos seus concidadãos [...], não seriam úteis nem a si mesmos e nem à cidade. Para que não se tivesse trabalho em criar algum que depois causasse dano ou infortúnio à cidade, [os espartanos] achavam correto que, logo após o nascimento, fossem mortos os que tivessem defeitos, em lugar de consentir que crescessem e, com o passar do tempo, viessem a ser ainda maiores suas incapacidades." (³)
Será que estou ouvindo um silêncio lacônico? 
O menino que passava pela inspeção dos anciãos e era aprovado voltava para casa nos braços do pai, era banhado em vinho (um costume espartano) e criado pela família até que tivesse sete anos. Nesse ponto, a cidade-Estado assumia a sua educação, para fazer dele um guerreiro temido em toda a Grécia. 

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. Os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.


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