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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Quanto durava a gestação de um bebê espartano

Não inventei esta história, foi Heródoto (¹) quem a contou. Havia um espartano de nome Demarato, filho de Aríston, diarca entre os lacedemônios. Morto o pai, surgiu na cidade uma disputa quanto à verdadeira paternidade de Demarato. A razão para a dúvida era esta: na ocasião em que Aríston, estando em reunião com os éforos, recebera a notícia de que sua terceira mulher acabara de trazer ao mundo um menino, fizera com os dedos algumas contas e, espantado, afirmara: "Por Zeus, esse menino não pode ser meu filho!..."
Ora, o jovem Demarato, angustiado com a fofoca de que era alvo, foi ter uma conversa séria com a mãe, exigindo dela toda a verdade quanto ao seu nascimento (²). Veio, portanto, esta claríssima explicação:
"Os que dizem que és ilegítimo se apoiam na afirmação de teu pai diante de vários homens, de que não podias ser seu filho, pois ainda não se haviam passado dez meses; ele, porém, disse isso porque desconhecia o que de fato acontece, porque algumas mulheres dão à luz depois de nove, outras depois de sete meses, nem sempre esperando que se completem dez, e eu mesma te trouxe ao mundo com sete meses. Aríston [teu pai], pouco depois, percebeu seu desconhecimento do assunto." (³)
A plateia tem licença para rir! E não venham dizer que Heródoto talvez estivesse aproveitando a ocasião para zombar dos espartanos. Vejam, agora, o que escreveu Plínio (⁴), que é considerado o grande enciclopedista da Antiguidade e um dos maiores gênios do mundo romano:
"Os animais têm tempo certo para gerar e parir filhotes, mas os humanos geram filhos o ano todo, e a gestação é variável, excedendo em alguns casos os seis meses, ou sete, ou quase onze [...]." (⁵)
Poderíamos, leitores, lembrar que a aquisição de conhecimentos na Antiguidade era fruto da observação (quase sempre), mas sem a sistematização de um método verdadeiramente científico, ao menos para nossos padrões. Também seria possível alegar a segregação das mulheres da época como justificativa para o desconhecimento masculino quanto àquilo que a elas se relacionava, mas isso não explica satisfatoriamente por que as próprias mulheres achariam normal que uma gestação durasse dez ou onze meses. Finalmente, esses erros, que hoje soam grotescos, não devem ser atribuídos a pequenas variações existentes entre calendários. O saber era e é dinâmico. Abandonar erros do passado, mesmo quando provenientes de fontes respeitáveis, foi essencial para que a humanidade progredisse. Como se sabe, nada disso se fez sem despertar severa oposição.

(1) Século V a.C.
(2) Além do tempo de gestação, a própria concepção de Demarato estaria cercada de mistérios. Perguntem a Heródoto...
(3) Heródoto, Histórias
(4) 23 - 79 d.C.
(5) Naturalis Historia, Livro VII.
Os trechos citados de Histórias de Heródoto e de Naturalis Historia de Plínio foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Explicações mitológicas da Antiguidade para fenômenos naturais

"Ah! bons tempos em que os eclipses não andavam por almanaques, e queriam dizer alguma coisa, tais quais os cometas, que eram um sinal da cólera dos deuses. Os deuses foram-se, levando a cólera consigo. Assim pagaram as oferendas e os poemas que receberam de milhões e milhões de criaturas."
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1893

Lembram-se daquela história de que o trovão era produzido quando Thor fazia o desfavor de bater com seu martelo nas nuvens? Sim, leitores, essa ideia um tanto violenta pode parecer ridícula, mas os povos nórdicos não foram os únicos que atribuíram aos deuses a responsabilidade pelos fenômenos naturais que, de outro modo, não saberiam explicar. Um mesmo fenômeno podia receber explicações completamente diversas, de acordo com as crenças de cada povo, a que chamamos mitologia (¹). Para os gregos, por exemplo, o raio e o trovão haviam ido parar nas mãos de Zeus, o maior dos deuses, por obra de Pégaso, o cavalo alado... É isso que nos conta Hesíodo, poeta grego da Antiguidade, na Teogonia.
Então, leitores, vamos a dois exemplos que, acredito, serão úteis para quem quiser entender como a mitologia explicava, a seu modo, os fenômenos naturais.

Ártemis ou Diana, deusa da lua
e da caça (³)

O que acontecia quando, à noite, a lua era coberta por nuvens


Ártemis (²), diziam os gregos, a deusa da caça, apaixonou-se por um pastor de ovelhas chamado Endimion. Ora, Endimion era um simples mortal e, portanto, não poderia ser levado pela deusa ao Olimpo. Resultado: para os gregos, a ocultação da lua por nuvens ocorria quando Ártemis, a deusa-lua, deixava suas ocupações celestes para, vindo à terra, se encontrar com Endimion.

Que é o eco


O eco, vocês sabem, é a reflexão de um som em uma distância mínima de 17 metros. Quem é que, quando criança, não gritou umas quantas vezes para ouvir a própria voz retornando, até que alguém, incomodado com o ruído, sugerisse que era hora de acabar com a brincadeira?
Para os gregos da Antiguidade, porém, o eco tinha outro significado - talvez seja melhor dizer a Eco... 
Eco era uma ninfa que, caindo nas garras da vingativa Hera, fora condenada a viver repetindo a última palavra de tudo o que lhe diziam. Motivo? Havia deixado de contar à ciumenta (⁴) do Olimpo todas as aventuras de Zeus de que tinha conhecimento.

Aos poucos, as explicações mitológicas, a despeito de sua beleza poética, foram dando lugar a teorias que refletiam a expansão do conhecimento científico. Plínio, que viveu no Século I d.C., foi capaz de dar ao arco-íris uma explicação que, se não corresponde integralmente à que temos na atualidade, era resultado de observação sensata: relacionou-o à ocorrência de chuva, sabendo que podia ser visto em oposição ao sol. Já quanto aos raios, notou que, em seu tempo, os diurnos eram atribuídos a Júpiter (⁵) e os noturnos a Sumano, uma divindade menor. Não deixou de referir, porém, um incidente que os supersticiosos romanos entendiam ser um prodígio associado à conjuração de Catilina: um decurião de Pompeia teria sido fulminado por um raio em um dia de tempo esplêndido, sem nenhuma nuvem escura a sugerir tempestade (⁶). Não explicou, todavia, o que é que o infeliz magistrado teria feito para ser vítima de Júpiter e, com isso, prenunciar uma tentativa de golpe contra o Senado romano em que não teve qualquer participação, e da qual, provavelmente, nem mesmo sabia. 

(1) Uma das explicações para a existência de mitologias (ainda que não a única) é que elas proviam alguma satisfação para questões que, na Antiguidade, o conhecimento científico disponível ainda não era capaz de elucidar.
(2) Diana, entre os romanos.
(3) REDFORD, George. A Manual of Ancient Sculpture. London: Sampson Low, Marston, Searle & Rivington, 1886, p. 231. 
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Hera tinha motivo para ataques de ciúme: Zeus, seu marido, estava longe de ser um paradigma de fidelidade conjugal.
(5) Zeus, para os gregos.

terça-feira, 13 de março de 2018

Geração espontânea

Um capuchinho francês e suas ideias sobre a origem de mosquitos e grilos


Geração espontânea: lembram-se dela, leitores? É aquela teoria maluca, há muito abandonada, segundo a qual seria possível que seres vivos "surgissem", não como descendentes de outros seres vivos, mas a partir de coisas não vivas, ou seja. a partir de matéria orgânica ou inorgânica (¹).
Ora, os defensores da geração espontânea eram tão sérios em seu "método científico" que sugeriam até experimentos comprobatórios. Uma camisa suja de suor, por exemplo, à qual eram adicionadas algumas espigas de milho, podia, perfeitamente, produzir ratos, desde que se esperasse algum tempo. Ou, como se sabe, um pedaço de carne, deixado à decomposição, produziria, espontaneamente, uma porção de vermes!... Curioso é que ninguém tinha o cuidado de isolar o "sistema" para a obtenção de resultados imparciais. Foi somente na segunda metade do Século XVII que a teoria da geração espontânea, até então candidamente aceita, começou a ser questionada com maior profundidade.
Enquanto isso não acontecia, um capuchinho francês, missionário que veio ao Brasil em 1613, escrevia, entusiasmado, sobre as condições naturais nos arredores da colônia que seus compatriotas tentavam fundar no Maranhão. E, como homem de seu tempo, esse missionário, padre Yves d'Évreux, não cogitava excluir a geração espontânea das explicações que formulava para o que via à sua volta. Mosquitos, por exemplo, tão comuns e tão irritantes (²), eram "criados por águas":
"Há neste país diversas espécies de mosquitos [...]. Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes e ácidos, e por isso encontram-se muito no mar e suas praias no tempo do inverno, formados pelo humor e vapores do mar.
[...].
Nos lugares mais próximos à água, maior abundância deles existe, visto serem criados por águas, como já disse." (³)
E havia também o caso dos grilos, ao menos no parecer do padre d'Évreux, que ainda se deu ao trabalho de construir uma argumentação para "demonstrar" a origem desses insetos:
"De todos os animais que fazem companhia ao homem no Brasil, nenhum há que se iguale ao grilo, chamado pelos selvagens Cuju [...].
Nasce da corrupção (⁴).
Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, aparecem num momento milhões e milhares desses grilos ou Cujus. Virão dos bosques vizinhos? Não pode ser, porque nas casas cobertas de palma velha não são encontrados (⁵), logo força é confessar que se formam na palma nova com o auxílio do sol.
[...]. 
Além disso originam-se também de ervilhas e favas podres, o que conheci por experiência [sic]." (⁶)
Não, leitores, não critiquem as ideias do padre d'Évreux. Ele apenas olhava o mundo através de uma janela muito pequena, cujas vidraças eram meio embaçadas: estou falando da ciência, tal qual ela era no começo do Século XVII.

(1) A teoria da geração espontânea pode ser chamada abiogênese. Evitei o uso desse termo porque, atualmente, ele é empregado também em outro sentido.
(2) Infelizmente, no comportamento desses monstrinhos de asas não houve qualquer melhora ao longo dos séculos. Lamentável!
(3) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, pp. 164 e 165.
(4) Ives d'Évreux se referia à matéria em decomposição, embora a mesma expressão fosse eventualmente usada para lixo ou sujeira.
(5) Circunstância que, sob um raciocínio correto, poderia ter levado Yves d'Évreux a outras conclusões.
(8) D'ÉVREUX, Yves. Op. cit., pp. 165 e 166.


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sexta-feira, 11 de março de 2016

César e a duração da noite na Grã-Bretanha

Como os romanos descobriram que a duração da noite não era a mesma em lugares diferentes


A ciência, na Antiguidade, avançava com a ajuda de acontecimentos não exatamente científicos - ou seja, com um empurrãozinho do acaso, uma vez que a ideia de planejar experimentos sob estrito controle, com uma  observação cuidadosa dos resultados, não era ainda praticada como regra. No entanto, em todos os tempos, cérebros inteligentes foram capazes de observar coisas que pareciam não funcionar como esperado, tirando, daí, conclusões interessantes (ainda que nem sempre exatas).
Um caso desses ocorreu quando César e suas tropas chegaram à Britânia (*) em meados do primeiro século antes de Cristo. Ocorre que os romanos daquele tempo marcavam as horas com o emprego de relógios de água, e, com o uso deles, foi possível constatar que, àquela época do ano, as noites na ilha eram mais curtas que no Continente. Desse fato podemos extrair ao menos duas conclusões:
  • Os romanos, até esse tempo, ainda não sabiam que a latitude era um fator importante para determinar a duração do dia e da noite;
  • A guerra, que levava devastação a tantos territórios, acabou contribuindo para fazer avançar o conhecimento científico. 
Comete erro grave, porém, aquele que acha que há aqui uma boa justificativa para investidas bélicas. Pacíficas expedições comerciais, por exemplo, não seriam capazes de proporcionar o mesmo efeito?

(*) Ou Grã-Bretanha, se assim preferirem os leitores, em lugar do nome que era usual entre os antigos romanos.


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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Remédios estranhíssimos de antigamente - Parte 2: Prescrições de um cozinheiro

Lucas Rigaud não foi um cozinheiro qualquer. Em fins do Século XVIII, ele já havia preparado comida para uma porção de cabeças coroadas da Europa, e isso não era pouco, sob qualquer circunstância. Publicou um livro - Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha (¹) - que, para os padrões da época, fez enorme sucesso, alcançando sucessivas edições, em tempos nos quais muita gente, principalmente quem trabalhava na cozinha, não era dada a leituras, se é que sabia ler. Uma carreira notável, portanto, a desse chef.
Seu livro, porém, não continha apenas instruções para o preparo de comida agradável ao paladar de seus contemporâneos. Havia indicações para o preparo de "alimentos" que se propunham a contribuir para a manutenção e/ou recuperação da saúde, o que não é nenhuma novidade. Nos tempos antigos já eram feitas considerações nesse sentido. O curioso, mesmo, era a formulação dessas prescrições.
Na postagem anterior já foi mencionada, da obra de Rigaud, a "geleia de raspas de veado"; para divertimento de meus leitores, teremos hoje "um caldo para inflamações do peito", um "caldo de víboras para purificar o sangue" e, por último (para premiar os que conseguirem chegar até lá), um "caldo de rãs e de caracóis para tosses secas". Desnecessário recomendar, creio, que ninguém experimente, ao menos como medicação.

CALDO PARA INFLAMAÇÕES DO PEITO

"Ponha-se a ferver em uma canada de água um frango recheado com as quatro sementes frias pisadas, e depois de escumado, e o caldo reduzido a duas terças partes, passe-se por um guardanapo, esprema-se, e usem dele todos os dias, e pelo tempo que lhe parecer." (²)

CALDO DE VÍBORAS PARA PURIFICAR O SANGUE

"Tomem de chicória, pimpinela, cerefólio e alface uma mão cheia de cada coisa, lavem-se e cortem-se miúdas, ajuntem-lhe um frango e uma víbora esfolada viva, a que deitarão fora a cabeça, o rabo e as entranhas, reservando os fígados e o coração; ponha-se tudo a ferver em uma canada de água, e depois de ter fervido e a água estar reduzida à metade, coe-se por um guardanapo, divida-se em duas partes e tomem uma todos os dias em jejum. Deste caldo se poderá usar quinze ou vinte dias, purgando-se primeiro e no fim deste tempo." (³)

CALDO DE RÃS E DE CARACÓIS PARA TOSSES SECAS

"Lavem-se e ponham-se a ferver por um instante, uma dúzia de caracóis e duas dúzias de coxas de rãs; em tendo fervido, deitem-se em água fria, e depois pisem-se em um gral de pedra, e pisadas, ponham-se a ferver em uma canada de água com duas cabeças somente de alhos porós, cortados muito miúdos, ou quando não, dois ou três nabos cortados da mesma forma, e uma mão cheia de cevada pilada; em tendo fervido e estando o caldo reduzido, coe-se por um pano, mas não se esprema; deitem-lhe, antes de o tomarem, sete ou oito grãos de açafrão em pó, e tome-se pela manhã em jejum, e três horas depois de cear; o que se poderá continuar pelo decurso de um mês, ou seis semanas, purgando-se neste meio tempo, se for necessário." (⁴)
Depois disso, só resta dizer: Bom apetite, senhores...

(1) Para as citações desta postagem foi utilizada a seguinte edição portuguesa: RIGAUD, Lucas. Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha. Lisboa: Typografia Lacerdina, 1826.
(2) Ibid., p. 208.
(3) Ibid., p. 210.
(4) Ibid., p. 209.


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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Remédios estranhíssimos de antigamente - Parte 1: Geleia de raspas de veado

Começo hoje uma pequena série - pequena, é verdade, mas de arrepiar os cabelos. Trataremos, senhores leitores, de alguns "remédios" que eram ministrados a quem adoecia, em tempos nos quais a ciência não tinha exatamente os mesmos padrões de hoje, remédios esses que, logo se verá, eram muito eficazes. Eficazes para acelerar a morte dos doentes.
Não por acaso, qualquer pequena enfermidade já era motivo para mandar chamar um padre, cuja função era preparar o doente para o que se dizia "uma boa morte", em paz com Deus e com os homens. Depois, naturalmente, se o paciente tivesse recursos para tanto, vinha o "médico", que muitas vezes jamais tinha feito um curso de Medicina ou qualquer coisa que com isso se parecesse. O "doutor" (!!!!!) era, pelas alturas dos Séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, muitas vezes o barbeiro que mais próximo residia, cuja função era aplicar sangrias. Acreditem ou não, leitores, achava-se que febre ocorria por excesso de saúde e, portanto, era necessário remover uma parte da vitalidade (o sangue, entendia-se), para resolver o problema. Muitas vezes, a febre baixava mesmo. De uma vez por todas.
Diante de tamanho absurdo, não chega, portanto, a ser um espanto que as pessoas pusessem em uso receitas caseiras, que, pelo menos, se não curavam, nem sempre matavam. Eram apenas inócuas. Com o tempo, empiricamente, foi-se observando que algumas coisas pareciam funcionar melhor que outras. Um caminho lento, é verdade, e também pontilhado de desastres, que abriu espaço para o surgimento da ciência como hoje a entendemos, com meios teóricos e práticos para investigar com maior rigor, o que não significa que o método da tentativa e erro tenha desaparecido. Muito ao contrário, como se sabe.
Finalmente, para estrear dignamente a série, vai aqui uma receita proposta pelo chef Lucas Rigaud (Século XVIII) em Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha (¹); creio ser desnecessário lembrar que ninguém deve tentar a dita receita para propósitos medicinais...

GELEIA DE RASPAS DE VEADO

"Lavadas as raspas de veado, ponham-se a ferver cinco ou seis horas; em estando cozidas e o caldo reduzido a uma consistência bastante forte, deite-se tudo em um pano e esprema-se; depois tempere-se com açúcar, sumo de limão, canela e um pouco de vinho branco, parecendo-lhe; leve-se outra vez ao lume com claras de ovos batidas, e em levantando fervura, passe-se duas ou três vezes por um guardanapo, e em estando clara e pegada, sirva-se como as mais. Esta geleia é admirável para quem deita sangue pela boca, para os que têm vômitos e diarreias." (²)

(1) Conforme esta edição: RIGAUD, Lucas. Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha. Lisboa: Typografia Lacerdina, 1826.
(2) Ibid., p. 382.


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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Perfumes famosos e apreciados de antigamente

Embora não se possa ter certeza de quando, exatamente, começaram a ser usadas, sabe-se que os povos antigos amavam as substâncias aromáticas. Dá conta disso a legendária imagem das caravanas de camelos que circulavam pelo Oriente carregadas de especiarias para o comércio, o que não significa que apenas os orientais se interessassem por elas. É certo que não.
No Egito fazia-se largo emprego de substâncias aromáticas nos rituais associados à preparação dos mortos para o sepultamento; a região do Nilo constituía-se, por isso, em um mercado expressivo para mercadores que traziam uma vasta gama de substâncias, dentre as quais se destacava a mirra, em virtude de estar associada à ideia da ressurreição. Entretanto, o uso de aromas não estava vinculado apenas aos ritos religiosos ou funerários: quer de origem vegetal, quer animal, diferentes substâncias já eram combinadas para a produção de perfumes, cuja finalidade, além do aspecto cosmético, era simplesmente proporcionar prazer a quem os usava, pelo emanar de um odor considerado agradável. Esse último uso seria, pelos séculos afora, largamente difundido, e é, em grande parte, o que move até hoje a indústria de perfumes, em âmbito mundial.
Nos rituais dos hebreus os aromas tinham também lugar importante. Havia incenso e também óleo perfumado cujo destino era de caráter estritamente religioso. Designando as substâncias neles incluídas pelos nomes usuais na atualidade, devemos citar o azeite de oliva, a mirra, a canela do Ceilão e da China e o cálamo.
Para os gregos da Antiguidade, o aroma do
tomilho 
era capaz de infundir coragem
em quem devia ir 
à guerra
Já para quem acha que tomilho é apenas parte do trio de especiarias que constitui o mais perfeito tempero para pizzas, vale destacar que os gregos tinham, sobre o seu uso, outras ideias. O tomilho era por eles empregado para friccionar o corpo dos soldados antes das batalhas. A razão? Considerava-se que tinha a capacidade de energizar quem o usava, conferindo, por seu aroma, mais coragem e combatividade.
Ora, isso aponta para o fato de que já se compreendia, empiricamente, que diferentes aromas podiam ter propriedades terapêuticas, produzindo, alguns, uma sensação de calma e relaxamento, enquanto outros eram estimulantes. Entre os gregos, bem como entre outros povos, as substâncias aromáticas tinham também uso medicinal, como o revelam obras deixadas pelos mestres da medicina do passado, embora, nesse caso, seja necessário admitir que alguns usos podiam ser verdadeiramente desastrosos.
Na Europa a perfumaria viria a ganhar um enorme impulso a partir das Cruzadas, isso porque o contato com o vasto conhecimento dos árabes em assuntos relacionados à preparação de diversas substâncias foi decisivo para que, gradualmente, a química, como ciência, rompesse com a superstição. Uma composição aromática muito apreciada, pelas alturas do Renascimento, que poderia ser chamada de "perfume", como nós o entendemos, levava, entre outros itens, óleos essenciais de alfazema, rosas, bergamota e cravo.
O aperfeiçoamento da destilação, processo investigado desde fins dos tempos antigos e (re)aprendido através dos árabes, abriu as portas para uma verdadeira revolução na arte dos perfumes. Inicialmente produzidos em pequena escala, iriam, a partir do século XVIII, constituir-se em marcas famosas, algumas das quais subsistem até nossos dias.


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domingo, 6 de maio de 2012

Todos de olhos no céu: a "superlua" e algumas reflexões dela decorrentes

Em tempos passados (refiro-me à Antiguidade), os reis e outros governantes tinham, em seu arsenal de funcionários públicos, gente especializada em vasculhar o céu, à procura, não de conhecimento científico, como hoje o entendemos, mas de supostas datas favoráveis para guerras, acordos com outros monarcas, casamentos reais e toda uma série de eventos que podia interessar à dominação de uma certa área. O fato interessante é que de tanta pesquisa resultou tanto uma porção de tolices (embora haja muita gente que ainda acredite nelas), quanto as bases para o que viria a ser a ciência que conhecemos como astronomia.
No período medieval, os estudiosos seguiram mantendo uma confusa mescla de ciência e superstição, uma vez que os recursos técnicos para o estudo dos fenômenos celestes eram, reconheçamos, realmente escassos. Só pelas alturas do Renascimento é que as coisas começaram a mudar, ainda que ao preço de muito incômodo para investigadores audaciosos que ousavam contestar as crenças comumente aceitas e referendadas por gente que se considerava sábia demais para ter de aprender alguma coisa nova. Hoje,  felizmente, ninguém precisa dar explicações quando resolve espetar o nariz no céu, seja por interesse científico, por mera curiosidade ou até por fantasias românticas. No máximo,  parentes, amigos ou vizinhos podem achar que melhor que andar com os olhos nas estrelas é prestar atenção nos problemas daqui da Terra mesmo.
A despeito disso, quando algum fenômeno facilmente observável ocorre, pode-se ver gente que, mesmo usualmente não tendo qualquer interesse por astronomia, reúne-se em grupinhos nas esquinas, olhos no céu, tentando alardear grande conhecimento - bem ou mal, isso é resultado de uma divulgação mais ampla de informações, de mais escolaridade, talvez de uma certa democratização do saber, ainda que, ao menos por hora, muito longe do padrão desejável. Foi o que aconteceu desde o entardecer do sábado, dia 5 de maio de 2012, pela ocorrência da chamada "superlua", ou lua no perigeu. Fui também fazer minhas fotos, e compartilho uma delas com meus leitores: nosso satélite parece uma frágil lanterna oriental balançando ao vento, delicadamente presa a um poste (torto) da rede de energia elétrica, à margem de uma estradinha rural...
Para os leitores que não gostam dessas brincadeiras, fica o consolo de que as postagens sérias retornam a partir da próxima terça-feira.


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terça-feira, 22 de março de 2011

No mundo da Lua

Na noite do dia 19 de março quase todo mundo andou com o nariz espetado no céu, por conta do maior diâmetro aparente da Lua em dezoito anos. Até gente que nunca se interessa por fenômenos astronômicos tentou observar a Lua, ainda que só por curiosidade ou para não aparentar desinformação. Eu, como muitos outros, tive sérios problemas com as nuvens... Com isso, o melhor momento, quando nosso brilhante satélite "nasce", tornou-se inviável. Mais tarde, foi possível, e embora a parte mais interessante estivesse perdida, ainda assim foi um belo espetáculo.
Não há quem desconheça o fato de que, desde tempos remotos, os humanos olham o céu com admiração. Os incontáveis pontinhos luminosos avistados à noite, nos séculos em que a iluminação das cidades era inexistente, levaram a imaginação a voar, agrupando as estrelas em constelações. Hoje os nomes desses agrupamentos (Ursa, Cisne, Cruzeiro, Cão, Escorpião, Boieiro, Órion e por aí vai) parecem um pouco estranhos ao nosso universo habitual de símbolos, mas eram seguramente nomes muito evidentes para as pessoas e culturas de outras épocas.
Entretanto, leitor, nem sempre olhar e investigar o céu foi coisa tida como normal, honrosa e bem reputada. Já houve ocasiões em que, no mínimo, meter-se com assuntos celestes era, aos olhos das "pessoas normais", sinal claro de falta de juízo (sem falar nos distraídos, que viviam "no mundo da lua"), quando não se condenavam as pesquisas por, aparentemente, introduzirem heresias que ameaçavam perturbar a paz da cristandade. Ora, o curioso disso tudo é que tolices da astrologia que eram, então, consideradas parte da astronomia, não era questionadas, antes eram tidas como autêntica ciência, enquanto que investigações sérias que apontavam, por exemplo, a existência de irregularidades na superfície lunar, eram vistas como perigosas por questionarem a crença na "perfeição" dos corpos celestes. Se considerarmos os obstáculos que cérebros pensantes do passado como Copérnico, Kepler, G. Bruno ou Galileu  e muitos outros enfrentaram na busca por conhecimento autenticamente científico (como hoje o entendemos), chega a ser quase inacreditável que a humanidade tenha, finalmente, superado essa fase de obscurantismo que se afirmava em nome de crenças há muito estabelecidas mas, nem por isso, verdadeiras. Hoje bisbilhotamos o céu como queremos e chegamos a desenvolver o hábito de considerar certas liberdades de que desfrutamos como óbvias, mas é certo que nem sempre foram tão óbvias assim e, não o são ainda em muitos lugares, leitor - aqui da Terra mesmo, infelizmente, e não em algum outro planeta.


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