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quinta-feira, 1 de julho de 2021

O mito de Tamuz e Ishtar

A história, em si, é simples, mas os séculos de repetições foram acrescentando detalhes variados, conforme aquele dito popular segundo o qual "quem conta um conto acrescenta um ponto". Com tantos pontos, o conto chega a parecer que tem sarampo... Tamuz, o deus Tamuz, morre e vai para o escuro e frio mundo dos mortos. Ishtar, sua mulher, aventura-se, com enorme risco, para tirá-lo de lá. É admitida, mas, ao passar por sete portões, vai tendo de deixar as belas joias orientais que carrega. A deusa do submundo então ordena, como vingança por essa invasão, que Ishtar seja atacada por terríveis feridas em todo o corpo. Os deuses interferem e Ishtar é libertada. Com a efusão da água que restaura a vida, recobra a saúde e, ainda com a mesma água, traz o marido, Tamuz, de volta à vida.
Esse mito podia ser encontrado na Antiguidade entre os moradores da Mesopotâmia, Palestina, entre os fenícios e mesmo entre os gregos, É comparável, também, ao mito de Osíris e Ísis, dos egípcios. O casal de deuses podia receber nomes diferentes, mas o mito, em si, era essencialmente o mesmo, ressalvado o direito à cor local. Isso parece apontar para uma origem comum, enquanto as variações podem refletir mudanças introduzidas em cada lugar, com o correr do tempo.
Várias interpretações têm sido propostas para o mito de Tamuz e Ishtar. Dentre elas tem larga aceitação aquela que sugere que o mito remetia ao ciclo anual das estações, fosse por caracterizar o período de morte de Tamuz como o inverno (em algumas regiões), ou de sol escaldante, impróprio para a agricultura (em outras áreas). O reviver de Tamuz seria a fase do ano em que a vegetação renasce, pela influência benfazeja das chuvas (a água que restaura a vida).
No contexto das práticas religiosas da Antiguidade, uma festa anual era realizada para lembrar a morte de Tamuz e a ida de Ishtar ao mundo dos mortos. Praticava-se um curioso ritual de luto, com muito choro e comidas especiais - afinal, toda festa que se preza tem as suas. Depois, Tamuz "ressuscitava" e o ciclo ia se repetindo, até que, com o correr de milênios, acabou sendo posto de lado. Ou não?


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quinta-feira, 27 de maio de 2021

Algumas interpretações para o mito de Osíris

Osíris e Ísis (*)
É difícil contar um mito que tem versões quase infinitas. Façamos uma tentativa: Osíris era rei do Egito, sábio e capaz, tendo introduzido entre seus governados o conhecimento de diversos ofícios. Era, portanto, muito amado, a não ser por seu irmão Seth, sujeito perverso que ambicionava o trono. Astuto, Seth acabou matando Osíris, mas Ísis, sua mulher, depois de muitas aventuras, conseguiu recuperar o caixão no qual estava o corpo do marido. O malvado Seth, procurando impedir alguma tentativa de ressurreição, retalhou o corpo do irmão em incontáveis fragmentos, que espalhou por toda parte. A despeito disso, Ísis conseguiu trazer Osíris de volta à vida, mas foi Horus, filho do casal, quem finalmente derrotou Seth, afugentando-o para longe do Egito. Ufa!...
Mesmo com as muitas variantes que tinha, conforme a região e época em que era contado, o mito de Osíris foi, de longe, o mais destacado do Egito Antigo. Como interpretá-lo? Dentre as possibilidades que se têm levantado, vale a pena considerar:
  • A morte e ressurreição de Osíris seria uma referência poética ao Nilo que, anualmente, transbordava e depois voltava ao curso habitual, deixando, atrás de si, a terra fertilizada para uma nova estação agrícola;
  • Osíris e Seth podem ter sido divindades cultuadas previamente por tribos rivais, cuja luta humana teria sido elevada à categoria de confronto entre deuses;
  • Era habitual que, antes do início de um ano agrícola, um sacrifício fosse oferecido nos campos em honra dos deuses, de modo que o animal sacrificado era retalhado e espalhado pela terra - o mito de Osíris seria uma reminiscência desse costume;
  • Uma última interpretação, cronologicamente mais próxima - Osíris seria uma personificação dos egípcios em luta contra invasores estrangeiros de origem asiática, representados por Seth, enquanto Horus seria a representação da dinastia que expulsou os asiáticos e restabeleceu um governo verdadeiramente egípcio.
Qual dessas interpretações é a melhor? Todas, ou talvez nenhuma... Isso ainda é assunto que rende muito debate.

(*) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. II. London: Methuen & Co., 1904. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Um trabalho de Hércules (que não está entre os doze famosos)

Vem do terreno das fábulas e mitos da Grécia Antiga, mas é caso interessante. Segundo Plutarco (¹), o caminho entre Trezena e Atenas era terrível, não por sua configuração geográfica, mas por causa dos homens que o frequentavam, gente de capacidade física notável e de brilhantes dotes mentais, ambos aplicados para fazer tudo o que havia de mais pérfido. Tão perigosa era essa rota, que os que precisavam ir de uma cidade a outra por ela, levando em conta os riscos à vida, preferiam fazer a viagem por mar. Talvez haja nisso uma explicação mitológica para a opção grega pela navegação. Face às dificuldades oferecidas pelos caminhos terrestres, em virtude do relevo acidentado, as viagens marítimas mostravam-se mais rápidas e, em alguns casos, até mais seguras.
Com lendas ou sem elas, não havia força policial na Grécia de tão remotos tempos, à qual pessoas de bem pudessem recorrer. É nesse cenário que emerge ninguém menos que Hércules, para realizar um trabalho que não costuma aparecer na famosa lista dos doze maiores que, segundo as crenças dos antigos gregos, realizou: "Hércules nascera com grande coragem para as maiores façanhas, e ao saber que o caminho [de Trezena a Atenas] estava repleto de assaltantes, resolveu percorrê-lo, movido pela coragem, a fim de torná-lo seguro, eliminando os malfeitores que nele havia. Foi assim que matou um grande número de ladrões audaciosos, que havia por lá naquela época." (²)
Pergunto: ao limpar o caminho, matando os salteadores que o infestavam, não teria Hércules agido de modo semelhante a eles? Será que os antigos gregos, quando contavam as lendas (que, para eles, eram mais que lendas) achavam que um herói tinha o direito de arbitrar quem era bom ou mal, quem merecia viver ou morrer? Hércules, afinal, nem sempre era um herói bondoso: foi por matar a mulher e os filhos durante um acesso de fúria que teve de realizar os célebres doze trabalhos. 
Não deixa de ser intrigante que tantos povos da Antiguidade tivessem, em suas coleções de lendas exaustivamente repetidas, referências a heróis valentes, capazes de, pela força, às vezes aliada à astúcia, resolver problemas que, de outro modo, seriam insolúveis. Hércules, dos antigos gregos, foi apenas mais um desses.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho de Vitae parallelae aqui citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Os quelônios e a ninfa Quelônia

Um quelônio, de acordo com Icones Animalium
Aquatilium
, obra publicada no Século XVI (*)
Quelônios, também chamados testudines, são répteis dotados de carapaça. Portanto, criaturas simpáticas como as tartarugas, jabutis e cágados são classificadas como quelônios. Correr contra uma lebre? Para os quelônios, só mesmo se for na fábula. A pressa não está na agenda deles.
Pois bem, os antigos gregos, como parte de seu arsenal de tradições religiosas, tinham uma explicação para o nome dos quelônios, segundo a qual havia uma ninfa chamada Quelônia. Um dia, ela recebeu um convite: Zeus e Hera iriam se casar, e todas as ninfas estavam convidadas. Mas, para ir às bodas, seria preciso, naturalmente, subir aos píncaros do monte Olimpo. 
Não obstante, um convite desses não é algo que se rejeite. Quelônia aprumou-se e pôs o pé na estrada. Coitadinha... Errou o caminho e, por isso, chegou tarde à festança olímpica. Que desaforo! Para vingar o ultraje, os deuses transformaram-na em uma tartaruga. Foi assim, meus caros leitores, que a ninfa Quelônia virou um quelônio.

(*) GESNER, Conrad. Icones Animalium Aquatilium. Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 358. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Por que animais eram cultuados no Egito Antigo

Deuses egípcios eram frequentemente representados com cabeça de animal e corpo humano. Toth (¹), por exemplo, tinha cabeça de íbis, Anubis tinha cabeça de chacal, Horus tinha cabeça de falcão e Hathor era, nem mais e nem menos, que a deusa de cabeça de vaca. Chama-se a isto antropozoomorfismo. Letras demais? Talvez, mas o significado é simples: representação de um deus ou deusa com corpo parcialmente humano e parcialmente animal. É só.
Horus, aqui representado
com cabeça de falcão (³)
A explicação mais plausível para tal fenômeno não é a de que todo e qualquer animal de determinadas espécies era considerado sagrado, e sim de que os deuses, que tinham a mania de bisbilhotar o que acontecia mundo afora, às vezes faziam visitas aos humanos disfarçados de animais. O resultado dessa ideia é que, não sabendo quando animais eram ou não a encarnação de alguma deidade, ficavam todos sob interdito, para evitar que, por tenebroso equívoco, alguém, pensando acertar em uma caça para o jantar, acabasse matando um deus. 
Para os animais envolvidos na questão, a vida podia ser muito boa. Paparicados por sacerdotes e respeitados pela gente comum, contavam ainda com a proteção de leis que puniam severamente quem atentasse contra eles. Heródoto, que esteve no Egito no Século V a.C., afirmou que, em certos casos, quem matasse um animal considerado sagrado pagava com a vida tamanha perfídia: "É grande infelicidade para um egípcio matar intencionalmente algum desses animais [sagrados], porque a pena para isso é a morte; os sacerdotes arbitram uma multa para quem mata um animal acidentalmente. Entretanto tirar a vida, deliberadamente ou não, de um íbis ou falcão, tem sempre como punição a pena capital." (²) 
O íbis, como já foi dito, poderia ser Toth, e, quanto ao falcão, como assegurar que não fosse Horus? Uma flechada, e lá iria o deus para o espaço - ou melhor, para além do poente, onde ficava o "país de paz perfeita", morada dos mortos bem-comportados. Matá-lo não seria, então, fazer-lhe um favor? Como muitas outras, essa mitologia tinha lá suas contradições.

(1) Buscando alguma uniformidade, adotei nesta postagem a grafia de maior aceitação internacionalmente. Em português também são usuais Tot, Anúbis, Hórus e Hator.
(2) HERÓDOTO. Histórias. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. 1. London: Methuen & Co., 1904. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Politeísmo

Religiões politeístas


Muitos povos do passado eram politeístas. Isso significa que, em suas ideias e práticas religiosas, admitiam a existência de múltiplas divindades. Contudo, não se deve pensar no politeísmo como fenômeno religioso restrito ao passado. Há religiões politeístas ainda hoje. 
Mas falemos do passado. Desconhecendo princípios científicos como atualmente entendidos, povos antigos olhavam para chuvas torrenciais, inundações, nevascas, granizo, secas devastadoras, terremotos, erupções vulcânicas, furacões, tsunamis - este planeta é um lugar perigoso - supondo tais acontecimentos como expressões de fúria dos deuses, que precisavam ser aplacados com sacrifícios. 
Gregos e romanos, por exemplo, foram politeístas. Entre divindades maiores e menores, tinham deuses para tudo, de fenômenos naturais à regência das diversas atividades humanas, da agricultura à poesia, da guerra à paz. Egípcios também foram politeístas famosos, elaboraram rituais complexos e estabeleceram um sacerdócio que tinha enorme importância até mesmo em questões políticas. 
O sacrifício de animais não era incomum entre os politeístas da Antiguidade. Servia, em alguns casos, para homenagear os deuses, não faltando quem imaginasse que era necessário, dessa forma, alimentar as divindades. Mais frequente era a ideia de que os sacrifícios funcionavam como uma barganha entre deuses e homens, tendo em vista uma colheita abundante, chuvas regulares, viagens felizes e outros favores mais.

Sacrifícios humanos


Algumas vezes, as vítimas destinadas aos sacrifícios eram seres humanos (¹). Horrível? Certamente. Dentre outros povos, os fenícios podem ser citados entre os que sacrificavam pessoas. Essa prática, porém, não esteve restrita à Antiguidade: os astecas, por exemplo, muito mais recentes, chegaram a fazer dos sacrifícios humanos uma espécie de razão de Estado, já que, por meio da religião, sustentavam a coesão interna de seu Império (²), justificando as contínuas guerras pela necessidade da captura de inimigos, cujo coração, ainda palpitante, seria oferecido aos deuses, a fim de assegurar o diário aparecer do sol e a manutenção da ordem no Universo. Privando os povos vizinhos de seus mais saudáveis guerreiros e trabalhadores, os astecas enfraqueciam a concorrência pelo domínio da região em que viviam. Simultaneamente, a imposição de pesados tributos aos povos derrotados em combate garantia o fluxo contínuo de riquezas na direção de Tenochtitlán, a bela e orgulhosa capital asteca no lago Texcoco. 
É difícil julgar o grau de intencionalidade e manipulação das ideias religiosas por parte da nobreza e sacerdotes astecas (³), com vistas à preservação de sua elevada posição social, mesmo porque nem todos os sacrificados eram estrangeiros, mas é bastante provável que os sacrifícios humanos, eventualmente praticados na suposição de obter favores dos deuses, tenham, aos poucos, chegado a ser uma forma deliberada de cravar a mais férrea dominação sobre outros grupos, com os quais era preciso disputar território e recursos naturais. Embora as estimativas variem, supõe-se que sacerdotes astecas efetuavam pelo menos vinte mil sacrifícios humanos a cada ano.  

(1) É evidente que nem todas as religiões politeístas incluíram sacrifícios humanos em seus rituais.
(2) Não foram os únicos a fazer uso de crenças e práticas religiosas para fins políticos..
(3) Muito do que sabemos sobre essas questões decorre de registros feitos por colonizadores espanhóis que, como é natural, filtravam o que observavam por sua própria visão de mundo.


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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Explicações mitológicas da Antiguidade para fenômenos naturais

"Ah! bons tempos em que os eclipses não andavam por almanaques, e queriam dizer alguma coisa, tais quais os cometas, que eram um sinal da cólera dos deuses. Os deuses foram-se, levando a cólera consigo. Assim pagaram as oferendas e os poemas que receberam de milhões e milhões de criaturas."
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1893

Lembram-se daquela história de que o trovão era produzido quando Thor fazia o desfavor de bater com seu martelo nas nuvens? Sim, leitores, essa ideia um tanto violenta pode parecer ridícula, mas os povos nórdicos não foram os únicos que atribuíram aos deuses a responsabilidade pelos fenômenos naturais que, de outro modo, não saberiam explicar. Um mesmo fenômeno podia receber explicações completamente diversas, de acordo com as crenças de cada povo, a que chamamos mitologia (¹). Para os gregos, por exemplo, o raio e o trovão haviam ido parar nas mãos de Zeus, o maior dos deuses, por obra de Pégaso, o cavalo alado... É isso que nos conta Hesíodo, poeta grego da Antiguidade, na Teogonia.
Então, leitores, vamos a dois exemplos que, acredito, serão úteis para quem quiser entender como a mitologia explicava, a seu modo, os fenômenos naturais.

Ártemis ou Diana, deusa da lua
e da caça (³)

O que acontecia quando, à noite, a lua era coberta por nuvens


Ártemis (²), diziam os gregos, a deusa da caça, apaixonou-se por um pastor de ovelhas chamado Endimion. Ora, Endimion era um simples mortal e, portanto, não poderia ser levado pela deusa ao Olimpo. Resultado: para os gregos, a ocultação da lua por nuvens ocorria quando Ártemis, a deusa-lua, deixava suas ocupações celestes para, vindo à terra, se encontrar com Endimion.

Que é o eco


O eco, vocês sabem, é a reflexão de um som em uma distância mínima de 17 metros. Quem é que, quando criança, não gritou umas quantas vezes para ouvir a própria voz retornando, até que alguém, incomodado com o ruído, sugerisse que era hora de acabar com a brincadeira?
Para os gregos da Antiguidade, porém, o eco tinha outro significado - talvez seja melhor dizer a Eco... 
Eco era uma ninfa que, caindo nas garras da vingativa Hera, fora condenada a viver repetindo a última palavra de tudo o que lhe diziam. Motivo? Havia deixado de contar à ciumenta (⁴) do Olimpo todas as aventuras de Zeus de que tinha conhecimento.

Aos poucos, as explicações mitológicas, a despeito de sua beleza poética, foram dando lugar a teorias que refletiam a expansão do conhecimento científico. Plínio, que viveu no Século I d.C., foi capaz de dar ao arco-íris uma explicação que, se não corresponde integralmente à que temos na atualidade, era resultado de observação sensata: relacionou-o à ocorrência de chuva, sabendo que podia ser visto em oposição ao sol. Já quanto aos raios, notou que, em seu tempo, os diurnos eram atribuídos a Júpiter (⁵) e os noturnos a Sumano, uma divindade menor. Não deixou de referir, porém, um incidente que os supersticiosos romanos entendiam ser um prodígio associado à conjuração de Catilina: um decurião de Pompeia teria sido fulminado por um raio em um dia de tempo esplêndido, sem nenhuma nuvem escura a sugerir tempestade (⁶). Não explicou, todavia, o que é que o infeliz magistrado teria feito para ser vítima de Júpiter e, com isso, prenunciar uma tentativa de golpe contra o Senado romano em que não teve qualquer participação, e da qual, provavelmente, nem mesmo sabia. 

(1) Uma das explicações para a existência de mitologias (ainda que não a única) é que elas proviam alguma satisfação para questões que, na Antiguidade, o conhecimento científico disponível ainda não era capaz de elucidar.
(2) Diana, entre os romanos.
(3) REDFORD, George. A Manual of Ancient Sculpture. London: Sampson Low, Marston, Searle & Rivington, 1886, p. 231. 
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Hera tinha motivo para ataques de ciúme: Zeus, seu marido, estava longe de ser um paradigma de fidelidade conjugal.
(5) Zeus, para os gregos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

É possível guardar um segredo?

A fabulosa história das orelhas de Midas


Midas, de infeliz memória, reinou na Frígia por volta do Século VIII a.C. - sim, estamos falando do desastrado rei que, segundo a lenda, adquiriu a duvidosa virtude de transformar em ouro tudo o que tocava. Entre o homem de verdade e o ser lendário vai, no entanto, uma grande diferença. É que, estranhamente, sabemos muito mais sobre o Midas mitológico do que sobre o sujeito "de carne e osso". Pesquisas arqueológicas comprovaram a existência desse rei - deixo a cargo de vocês, leitores, a diversão de tentar separar o mito da realidade. 
Os concursos de música eram comuns entre os antigos gregos, e os vencedores tinham elevada reputação, tanto quanto os que venciam em competições atléticas. Ora, em uma dessas ocasiões, Midas teria sido convidado a arbitrar um certame que tinha, entre os participantes, ninguém menos que Apolo. No julgar do rei, porém, a coroa coube a um humano, e não ao deus. Caso encerrado? Não!
Apolo, aparentando a virtude necessária a um bom competidor, não demonstrou, no momento, nenhuma insatisfação. A vingança, porém, veio com a máxima crueldade. Decorrido algum tempo, o funcionário encarregado de cortar os cabelos do rei começou a notar uma estranha transformação nas orelhas de seu amo, que não apenas estavam ganhando um tamanho descomunal, como também iam, aos poucos, adquirindo a semelhança de orelhas de burro. 
Que fazer? O real cabeleireiro não teve alternativa senão comunicar ao rei o que sucedia (como se fora possível que o próprio Midas não houvesse notado). A solução encontrada foi providenciar peruca e um tipo de chapéu para o rei, com a óbvia finalidade de ocultar algo que os súditos jamais deveriam ver. Isto feito, o cabeleireiro foi silenciado sob a ameaça do mais severo castigo.
Guardar segredos, como todo mundo sabe, não é tarefa fácil. O caso das orelhas do rei fazia cócegas no cérebro e na língua do cabeleireiro, quase levando esse distinto funcionário ao desespero. Então, um dia, já não suportando reter para si tão terrível segredo, procurou, em um bosque, um lugar que supunha completamente desabitado, e lá, cavando um buraco no chão, gritou, dentro dele: Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuurro!
Ufa, que alívio! Não parecia de modo algum uma inconfidência e, afinal, ninguém ouvira... Feliz da vida, o cabeleireiro voltou a seus afazeres. 
O tempo passou. Veio o inverno e, com ele, a neve. Veio a primavera e, com ela, a vegetação renasceu e brotaram as flores. O céu azul, as nuvens leves, o canto dos pássaros, tudo convidava a um passeio no bosque. Lá se foi nosso amigo cabeleireiro a desfrutar as horas de uma manhã junto à natureza. A brisa primaveril agitava docemente a vegetação - e eis aí o problema. Ao passar pelo lugar em que cavara o buraco no ano anterior, notou, aflito, que arbustos haviam crescido ao redor e, no compasso do vento, repetiam com meiguice: De buuurro, orelhas de buuuurro, Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuuuuuurro! Desnecessário é dizer que, em muito pouco tempo, todo o reino estava a par do lastimável segredo.
Não espero que vocês, leitores, suponham essa lenda uma realidade. Seria completa tolice. Mas os antigos gregos deixaram, nela, um ensinamento valioso: se tiverem um segredo e não quiserem de modo algum que venha a público, será melhor não contar a ninguém. Quando mais de uma pessoa sabe, já deixou de ser segredo. Esse foi o grande problema de Midas. 


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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os corvos de Odin e as araras dos Araés

Odin, o deus nórdico, queria estar sempre atualizado. Para isso contava com a ajuda de dois corvos, que, sentados, um em seu ombro direito e outro em seu ombro esquerdo, traziam continuamente um relatório do que viam enquanto voejavam mundo afora (¹).
Se saísse da mitologia nórdica e viesse para a América do Sul, é possível que, em lugar dos dois corvos, Odin arranjasse dois papagaios. Seriam, com toda probabilidade, mais falantes, e talvez até tivessem mais para contar...
Dois papagaios - ou seriam duas araras?
Ao que parece, havia uma crença entre indígenas do Brasil Central, de que a aproximação dos que não eram indígenas era notificada por araras, de acordo com o que escreveu José Vieira Couto de Magalhães:
"Diversos bandos de araras passaram por cima de nossas cabeças; referiram-me que os índios dos Araés têm uma crença por virtude da qual pensam que, quando suas aldeias têm de ser visitadas pela nossa gente, as araras os advertem disso, esvoaçando e gritando por cima de suas moradas." (²)
Araras ou corvos novidadeiros faziam sentido na imaginação de quem vivia em tempos nos quais as comunicações eram lentas. Por isso, não deixa de ser intrigante que ainda exista quem venha dizer: Um passarinho me contou que...

(1) A conclusão óbvia é que, para a mentalidade nórdica, Odin, o maior dos deuses, não era, por si mesmo, onisciente.
(2) MAGALHÃES, José Vieira Couto de. Viagem ao Rio AraguaiaGoiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 153.


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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os doze trabalhos de Hércules - um herói descontrolado e sua coroa de salsa

Há salsa (¹) na sua horta, leitor? Pois fique então sabendo que o grande Hércules (²) - é coisa da mitologia grega - usou, em certa ocasião, uma coroa de salsa. Em memória desse acontecimento obviamente lendário, os atletas que venciam nos jogos de Nemeia, bem como nos Jogos Ístmicos, recebiam, como prêmio, não uma coroa de louros, e sim uma de salsa. Isso é que é glória fugaz!...
E, por falar em Hércules, que tal relembrar o que a mitologia dos antigos gregos dizia sobre os doze trabalhos executados por esse herói descontrolado, que num acesso de fúria matou a mulher e os filhos? Sim, porque foi depois disso que, disposto a cumprir uma espécie de severa penitência, Hércules teve de realizar os tais trabalhos, tão célebres que, de boca em boca, já ninguém sabia ao certo quais eram, e até poderiam ser quatorze ou quinze. Arbitrariamente, vai aqui uma lista de doze dos mais recorrentes nos relatos antigos.

1. Primeiro trabalho (³) - Hércules mata o leão de Nemeia, famoso por atacar animais de pastoreio. Como a pele do leão era imune às setas de Hércules, só restou ao herói agarrar tão notável fera e matá-la com as próprias mãos. A propósito, Hércules era frequentemente representado com uma pele de animal sobre os ombros: a pele do leão de Nemeia.

2. Segundo trabalho - Hércules mata a hidra de Lerna. Mas que bicho era esse? Uma serpente de sete cabeças. Se uma cabeça era cortada, nasciam logo outras sete... Cortar cabeças da hidra resultaria, sem demora, em um curioso problema matemático. Portanto, Hércules resolveu a questão colocando fogo no lugar em que vivia a hidra. Morto o animal, teve a ideia de usar o sangue venenoso que dele escorria para preparar flechas com pontas que causavam feridas incuráveis.

3. Terceiro trabalho - Hércules captura, vivinho da silva, o javali de Erimanto, um animal tão perigoso quanto célebre pelos estragos que fazia. O caso é que Hércules precisou capturar o javali à unha, depois de uma correria insana.

4. Quarto trabalho - Do brutal para o meigo: Hércules captura, também viva, a corça de Cerineia, que tinha chifres de ouro e patinhas de bronze. Haja esforço! Hércules teve de andar à sua procura durante nada menos que um ano.

5. Quinto trabalho - Hércules mata os pássaros do lago Estínfalo. Não eram pássaros quaisquer: tinham dimensões gigantescas e seus bicos eram de ferro. Os cruéis voláteis matavam quem quer que ousasse se aproximar. Hércules, porém, fazendo uso de algumas das setas envenenadas com o sangue da hidra de Lerna, pôs fim à ameaça.

6. Sexto trabalho - Hércules captura e doma um touro feroz que aterrorizava a ilha de Creta (isso lembra outra história, não é?).

7. Sétimo trabalho - Hércules colhe maçãs de ouro no jardim das Hespérides (⁴). Que haveria de incomum nisso, a não ser o fato de que as maçãs eram de ouro? É que o tal jardim era guardado por uma criatura antipática, ou seja, um dragão de cem cabeças. Hércules, porém, não precisou matar o dragão, já que a ingrata tarefa coube ao gigante Atlas, a quem competia, com as costas e braços, sustentar o céu, para que não despencasse. Enquanto Atlas matava o dragão, Hércules ficou encarregado de segurar o céu. Depois, só fez o trabalho leve de entrar no jardim e colher as maçãs.

8. Oitavo trabalho - Hércules limpa os estábulos do rei Áugias. Parece fácil? Os estábulos não eram limpos há trinta anos, de modo que seu cheiro horrendo andava a tornar a vida insuportável em toda a Grécia. "Marmelada", dirão: Hércules, após desviar o curso de um rio, fazendo com que as águas, qual inundação, lavassem os estábulos, concluiu a tarefa em um só dia.

9. Nono trabalho - Hércules, depois de dominar as éguas de Diomedes, rei da Trácia, joga o próprio monarca para ser devorado por elas. É que as éguas, ao contrário dos animais de sua espécie, eram carnívoras e, habitualmente, alimentadas com a carne de quaisquer estrangeiros que chegavam ao reino de Diomedes. Problema resolvido!

10. Décimo trabalho - Depois de derrotar as famosas amazonas, Hércules rouba o cinto mágico de Hipólita, a rainha guerreira.

11. Undécimo trabalho - Hércules mata Gerion, singular figura dotada de três corpos, seis braços e, ainda por cima, seis asas. O assassinato tinha por objetivo capturar os bois que eram propriedade de Gerion. Detalhe: os bovinos eram guardados dia e noite por um cão feroz (que tinha duas cabeças), e por um dragão (de sete cabeças). Hércules deu jeito nos dois, é claro. Esse trabalho bem poderia ser classificado como morticínio em série, já que morreram Gerion, o cão e o dragão.

Hércules enfrentando Gerion, de acordo com uma ânfora grega (⁵)
12. Duodécimo trabalho - Hércules vai ao mundo dos mortos para buscar Cérbero, o cão terrível que guardava a entrada dos domínios de Hades (⁶). Interessante é que, ciente de que Hércules apenas executava aquilo que o deus Destino previra para sua vida, Hades consentiu na captura de Cérbero, desde que seu animal de estimação não fosse morto e que o herói não usasse armas. Será preciso dizer que Hércules concluiu com sucesso mais essa façanha? Cérbero, depois de ser apresentado triunfalmente ao rei Euristeu (⁷), foi devolvido a seu legítimo proprietário.

Não se enganem, leitores. O significado dos mitos ligados a Hércules (assim como acontece com todos os demais), vai muito além daquilo que está à superfície. Basta pensar um pouco.

(1) Petroselinum crispum. Para evitar que os leitores de língua espanhola tenham problemas em entender o texto, quero lembrar que "salsa", em português, é o mesmo que "perejil" em espanhol.
(2) Ou Héracles.
(3) Na Antiguidade, enquanto as lendas eram relatadas oralmente, parece que não havia uma ordem fixa para os trabalhos. Por isso, diferentes autores referem os trabalhos em ordens distintas. Aqui são apresentados segundo uma das sequências mais comuns. Os trabalhos, sempre doze, também variavam de um relato para outro.
(4) Filhas de Atlante - a mitologia vai longe...
(5) BUSCHOR, Ernst. Griechische Vasenmalerei. Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 111.
(6) Divindade que, segundo a mitologia grega, dominava o submundo ou mundo dos mortos.
(7) Segundo a mitologia, Euristeu era um pérfido meio-irmão de Hércules, encarregado de verificar o cumprimento das tarefas propostas ao herói.


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