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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Os primeiros povoadores do Brasil, de acordo com os tamoios

Não, não foram os portugueses os primeiros que pisaram nestas terras. O povoamento do Brasil é coisa muito mais remota, sobre a qual há mais dúvidas que certezas. Os índios tamoios (¹), contudo, e com eles vários outros povos indígenas, tinham sua própria versão quanto a quem teriam sido os primeiros e heroicos povoadores do Brasil, e, a seu modo, verdadeiros Rômulo e Remo destas paragens. Foi o franciscano Antônio de Santa Maria Jaboatão quem contou (²) em sua maior obra, Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil, escrita no Século XVIII, ao relatar esta pitoresca lenda indígena, que atribuiu aos tamoios:
"Se é certa a tradição comum, que em toda esta gente há (³), [...] os primeiros povoadores das costas do Brasil foram dois irmãos, com suas famílias, que de outras partes do mundo vieram dar a estas, e aportaram em Cabo Frio, e daí por certas contendas, que sobre a posse de um papagaio bem-falante que houve entre as mulheres destes, de que resultou apartar-se um deles com todos os seus daquela província para outra [...]." (⁴)
Vejam, portanto, meus leitores, que, ao contrário do que sucedeu em Roma, não houve fratricídio: os irmãos, em virtude da contenda provocada pelo papagaio (!), se separaram e; indo viver em rumos distintos com seus descendentes, teriam povoado o Brasil...
Jaboatão só não explicou a quem coube o papagaio da discórdia, mas, supondo que não se tenha aplicado nenhuma justiça salomônica, podemos supor que os contendores devem ter concluído que não havia motivo para disputa por coisa que em terras brasílicas era tão vulgar - vulgaríssima, diríamos, se quiséssemos falar como o José Dias da famosa obra de Machado de Assis (⁵).

(1) No Século XVI, viviam em terras dos atuais Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os seguidos confrontos com colonizadores resultaram na gradual extinção desse importante grupo indígena.
(2) Nascido em Pernambuco em fins do Século XVII.
(3) Falava dos indígenas e, mais especificamente, dos tamoios.
(4) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil  Volume 1. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 27.
(5) Refiro-me, naturalmente, a Dom Casmurro.


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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os corvos de Odin e as araras dos Araés

Odin, o deus nórdico, queria estar sempre atualizado. Para isso contava com a ajuda de dois corvos, que, sentados, um em seu ombro direito e outro em seu ombro esquerdo, traziam continuamente um relatório do que viam enquanto voejavam mundo afora (¹).
Se saísse da mitologia nórdica e viesse para a América do Sul, é possível que, em lugar dos dois corvos, Odin arranjasse dois papagaios. Seriam, com toda probabilidade, mais falantes, e talvez até tivessem mais para contar...
Dois papagaios - ou seriam duas araras?
Ao que parece, havia uma crença entre indígenas do Brasil Central, de que a aproximação dos que não eram indígenas era notificada por araras, de acordo com o que escreveu José Vieira Couto de Magalhães:
"Diversos bandos de araras passaram por cima de nossas cabeças; referiram-me que os índios dos Araés têm uma crença por virtude da qual pensam que, quando suas aldeias têm de ser visitadas pela nossa gente, as araras os advertem disso, esvoaçando e gritando por cima de suas moradas." (²)
Araras ou corvos novidadeiros faziam sentido na imaginação de quem vivia em tempos nos quais as comunicações eram lentas. Por isso, não deixa de ser intrigante que ainda exista quem venha dizer: Um passarinho me contou que...

(1) A conclusão óbvia é que, para a mentalidade nórdica, Odin, o maior dos deuses, não era, por si mesmo, onisciente.
(2) MAGALHÃES, José Vieira Couto de. Viagem ao Rio AraguaiaGoiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 153.


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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Um cardápio pra lá de estranho

Alguns itens curiosos incluídos na alimentação dos missionários jesuítas que viviam no Brasil durante o Século XVI



Anchieta no Brasil, representado
 entre animais (¹)
É certo que europeus que andaram pelo Brasil no Século XVI tiveram que engolir, literalmente, muita coisa estranha, e isso por um fator bem simples: sobrevivência. Muitos dos antigos hábitos e costumes lusitanos quanto à alimentação ficaram no Reino, já que em terras brasílicas quase nada se achava que parecesse com a comida dos portugueses. Com o tempo, diversos cultivos europeus foram adaptados à América, e animais criados para abate, como bois, cabras, ovelhas e porcos, foram trazidos e multiplicados nos domínios coloniais.
Mas enquanto isso não acontecia...
Enquanto isso não acontecia, colonizadores, marinheiros, funcionários públicos, condenados ao degredo,  missionários (particularmente os jesuítas), com criatividade e, por vezes, com inspiração nos hábitos indígenas, trataram de desenvolver o que poderíamos chamar de "cardápio colonial de emergência". Gostaram do nome, leitores? Aceito sugestões de quem tiver uma ideia melhor, mas, com base em uma carta escrita por José de Anchieta, estando ele em São Vicente no final de maio de 1560, passo a mostrar em que consistiam, vez por outra, as especialidades culinárias de quem estava determinado a sobreviver no Novo Mundo. 

1. Onças
"Encontram-se também entre nós as panteras, das quais há duas variedades: umas são cor de veado, menores essas e mais bravias; outras são malhadas e pintadas de várias cores, destas encontram-se em todos os lugares. Os machos, pelo menos, excedem no tamanho a um carneiro, embora grande, pois as fêmeas são menores. São em tudo semelhantes aos gatos e boas para se comerem, o que experimentamos algumas vezes (...)." (²)

2. Tamanduás
"Há também outro animal de feio aspecto, a que os índios chamam tamanduá. (...) Tem o pescoço comprido e fino, cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo, boca redonda, tendo a medida de um ou, quando muito, dois anéis, a língua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fora da boca, sem contar a que fica para dentro (que eu medi), a qual costuma, pondo-a para fora, estender nas covas das formigas, e logo que estas a enchem por todos os lados, ele a recolhe para dentro da boca, e esta é a sua refeição ordinária (...). É saborosíssimo; dirias que é carne de vaca, sendo todavia mais mole e macia." (³)

3 . Macacos
"Há uma infinita multidão de macacos, dos quais se contam quatro variedades [sic], todas elas mui próprias para se comer, o que muitas vezes provamos; é comida mui saudável para doentes [sic!]." (⁴)

4. Tatus
"Existe também outro animal muito comum entre nós, chamam-no tatu, que habita pelos campos em covas subterrâneas, e quase semelhante aos lagartos pela cauda e cabeça [sic]. (...) É de delicioso sabor." (⁵)

5. Papagaios
"Os papagaios são mais comuns aqui do que os corvos, e de diferentes espécies, todos bons para se comerem (...)." (⁶)

Muitos outros autores, tanto do Século XVI como dos subsequentes, relataram, em seus escritos, estes e outros usos alimentares, mas acredito que os que foram citados aqui já são suficientes como amostragem.
É evidente que no Século XVI não havia na Terra de Santa Cruz/Brasil nenhuma entidade ou órgão público em defesa da fauna nativa, tampouco estavam os colonizadores preocupados com a eventual extinção de algumas espécies, até porque, no Continente Americano, tudo se dizia "infinito". Portanto, na falta da alimentação habitual, não havia muito escrúpulo em mandar para a panela qualquer coisa que parecesse estar em condições virar comida, fosse ela boa ou má.

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S. J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 116.
(3) Ibid., p. 118.
(4) Ibid., p. 120.
(5) Ibid., pp. 120 e 121.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tucanos


Gosto dos tucanos. Têm um jeito alegre e xereta. Pelo menos é o que parece. Não sei se eles realmente são assim, ou se somos nós, humanos, que queremos ver nossas características nos outros seres vivos. Os nativos da América, bem como os europeus que, no Século XVI, colonizaram o Brasil, também achavam os tucanos muito interessantes, mas por outros motivos. Escreveu Gabriel Soares:
"Tucanos são [...] aves do tamanho de um corvo; têm as pernas curtas e pretas, a pena das costas azulada, a das asas e do rabo anilada, o peito cheio de frouxel muito miúdo de finíssimo amarelo..." (¹)
Descrição rebuscada, essa, que, no entanto, não contempla o fato de serem muitas as espécies de tucanos. Retomando o "frouxel muito miúdo de finíssimo amarelo", Gabriel Soares acrescentou: "...o qual os índios esfolam para forro de carapuças." (²)
Dizia mais:
Tucano, de acordo com ilustração do
Século XVII (⁴)
"Têm a cabeça pequena, o bico branco e amarelo, muito grosso, e alguns são tão compridos como um palmo [...]. Criam estes pássaros em árvores altas, e tomam-nos novos para se criarem em casa; os bravos matam os índios à flecha, para lhes esfolarem o peito, cuja carne é muito dura e magra." (³)
A circunstância de saber como era a carne de um tucano faz supor que Gabriel Soares a havia experimentado, embora possa ter escrito apenas por ouvir falar. Não chega isso a ser surpresa, já que em tempos coloniais, e mesmo adiante, papagaios eram apreciados para uso culinário. Por que não tentariam o mesmo com tucanos?

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 226.
(2) Ibid.
(3) Ibid.
(4) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648. 
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Papagaios não eram maus com arroz

Conforme expliquei na postagem anterior, o Brasil foi, nos primeiros tempos da colonização, conhecido como "Terra dos Papagaios", isso porque araras, periquitos e, naturalmente, papagaios, encantavam os recém-chegados europeus por sua beleza e pela capacidade de repetir palavras.
Entretanto, logo os colonizadores descobriram um uso bem específico para essas aves - especialidade culinária - uso esse que veio a prolongar-se por séculos. Pode parecer horripilante, mas é isso mesmo (embora eu me pergunte por que detestamos essa ideia e quase todos aceitamos a matança de outros animais, dos quais se diz "criados para abate"). E, se o que estou dizendo chega a parecer demasiado absurdo para ser verdade, vou citar uma série de pequenos documentos históricos que põem fora de qualquer dúvida essa questão.
O Conde de Azambuja, Dom Antônio Rolim, obrigado por dever de ofício a "passar às minas" do Cuiabá em 1751, deixou, em seu cuidadoso relatório da monção da qual participou, a seguinte observação:
"De 11 de agosto por diante comecei a ter caça; e depois poucos foram os dias em que me faltou. Patos bravos, maiores e mais gostosos do que os do reino, e outra casta de pássaros a que chamam jacus, do tamanho de perdizes, e com alguma semelhança no gosto. Em certas paragens muita quantidade de papagaios, os quais não são maus com arroz." (¹)
Note, leitor, papagaios "não são maus com arroz"...
Outro que menciona o dito costume de devorar papagaios e outros psitacídeos é o Padre Ayres de Casal, em sua Corografia Brasílica, salientando, para cúmulo, que todos "têm boa carne":
"Há vinte e tantas castas de papagaios, a contar do mais pequeno periquito até a Arara: todas têm boa carne, com especialidade o juru; os que compõem a última classe são de três castas: ararunas, que são de todo azuis, Canindés, também azuis por cima com a barriga doirada e outras, que têm a parte inferior e a cabeça encarnada."
Finalmente, outro que participou de monção rumo ao interior do Brasil, dessa vez com propósitos científicos, foi o desenhista francês Hércules Florence que, como outros, também anotou em seu diário o mesmo costume de incluir papagaios na dieta dos monçoeiros:
"Mataram-se muitas jacutingas, espécie de galináceos, araras e papagaios, pássaros que figuraram na nossa mesa como caça deliciosa, principalmente a primeira. O que porém leva as lampas em sabor e delicadeza são os patos-d'água." (²)
Como deve ter observado o leitor atento, desta vez as pobres aves foram adjetivadas como "caça deliciosa".
Todavia, o mesmo Hércules Florence parece nos dar a chave para entender, ao menos em parte, como é que os colonizadores europeus chegaram à conclusão de que psitacídeos eram aves comestíveis. Descrevendo uma aldeia de índios apiacás, registrou:
"Havia ali cerca de oitenta araras que esses índios criavam por causa das belas penas e da carne: alcandoravam-se na cumeeira, na choupana e nas árvores vizinhas. Voavam para a floresta, mas voltavam e deixavam-se apanhar e levar para onde se quisesse." (³)
Apenas para advertência de quem tiver um apetite verdadeiramente pantagruélico, a maioria dos papagaios e seus parentes nativos do Brasil encontra-se hoje na lista de animais em risco de extinção e, por isso, não pode ser abatida. Ainda bem!

(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 201.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 35.
(3) Ibid., p. 220.


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domingo, 21 de agosto de 2011

Terra dos papagaios, dos periquitos, das araras...

Os jovens estudantes brasileiros sabem muito bem que, nos primórdios da presença portuguesa na América, o Brasil recebeu outros nomes, derivados do desconhecimento geográfico inicial do território: foi primeiro "Ilha de Vera Cruz", depois "Terra de Santa Cruz". O que em geral poucos sabem é que um nome popular para o Brasil, naqueles tempos, foi "Terra dos Papagaios". Decorreu isso, naturalmente, do encanto que a quantidade e diversidade de psitacídeos provocou nos primeiros colonizadores.
Podemos verificar esse fato em escritos da época. Pero Vaz de Caminha, em sua famosíssima Carta, relatando o "achamento" do Brasil (segundo sua própria expressão), conta que o capitão Pedro Álvares Cabral trazia consigo, em sua embarcação, um papagaio pardo - aliás, nada mais típico dos grandes navegantes, a ponto de virar estereótipo. Pois bem, o tal papagaio foi mostrado aos nativos do Brasil e... Deixemos que conte o próprio Caminha:
"Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali."
É claro que havia papagaios, e não só eles, mas toda a gama de seus aparentados, como ainda prossegue o escrivão, dirigindo-se ao rei D. Manuel, ao dar conta das primeiras "relações comerciais" entabuladas com os nativos:
"Resgataram lá por cascavéis(¹) e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos (²), e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse."
E ainda pondera:
"Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra."
Estava certíssimo o escrivão Caminha. E tantos havia que, em pouco tempo, tornaram-se um pequeno ramo de comércio. Quem porventura vinha ao Brasil tratava de levar consigo, no retorno à Europa, algumas dessas belas aves, pois a venda por bom preço era garantida.
No Livro da Nau Bretoa, embarcação comercial que veio ao Brasil em 1511 com o objetivo de levar madeiras e outras mercadorias, há o registro de que o capitão, o escrivão, o piloto, o despenseiro, vários marinheiros e um grumete levaram do Brasil um bom número de papagaios, além de outras aves e pequenos primatas. Escrupulosamente, o Livro registra o valor estimado de todos os animais e, como não poderia deixar de ser, o imposto devido por eles a El-Rei.
Desnecessário é acrescentar, leitor, que hoje há muitas espécies dessas criaturas falantes naturais do Brasil que são tidas como ameaçadas de extinção - não pela admiração que causaram no passado, mas pela exploração desenfreada (devido às penas) e pela depauperação dos habitats. Isso além de um outro motivo, conforme veremos na próxima postagem.

(1) Não cobras, evidentemente, mas guizos.
(2) Entende-se que Caminha referia-se, aqui, a araras e periquitos.


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