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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Impacto das catástrofes naturais na Antiguidade

Algumas catástrofes naturais são previsíveis, enquanto outras, ainda não. É possível, atualmente, prever quando um furacão está a caminho, de modo que a população pode ser deslocada a tempo de que, pelo menos, não se percam muitas vidas humanas. Mas não existe, ainda, uma previsão confiável e exata de quando e onde um terremoto ocorrerá. 
A maioria dos países tem, em nossos dias, algum tipo de estrutura devidamente estabelecida para uma resposta rápida em caso de ocorrência de uma catástrofe natural. Há pessoal treinado para o resgate de feridos, para assistência médica e para a pronta reconstrução de prédios e vias públicas, se necessário. Mas não era assim na Antiguidade.
Catástrofes naturais eram, quase sempre, atribuídas pelos antigos à fúria dos deuses, fosse por se desagradarem com a conduta humana ou simplesmente porque, poderosos, extravasavam a raiva e irritação, com motivo ou sem ele, sobre os pobres mortais. O certo é que o estágio tecnológico em que se encontravam os diferentes povos da Antiguidade inviabilizava uma resposta imediata às catástrofes, com o agravante de que, como as notícias se deslocavam tão lentamente como lentos eram os transportes, dificilmente se poderia esperar ajuda que viesse de áreas não atingidas.
Em consequência, uma grande catástrofe podia, até, conduzir à destruição de um povo ou à desintegração de uma cultura. Para comprovação desse fato basta considerar o que aconteceu com a civilização minoica em Creta, ou com a ilha de Tera pela erupção do vulcão Santorini.


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sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Altares para os deuses nos portos de Atenas

Pausânias foi um grego que viveu no Século II d.C., e fez-se notável por ter prestado um grande serviço à posteridade: escreveu uma Descrição da Grécia, contando em detalhes como era a Hélade de seus dias. Não fosse por ele, e não saberíamos muitas coisas desse tempo, perdidas nos escombros da civilização.
Ao falar de Atenas, a Descrição da Grécia coloca o leitor na posição de um viajante que chega à cidade por um de seus portos. Pausânias esclarece, então, que em tempos remotos, o único porto era o de Falero, e foi só no tempo de Temístocles que o Pireu tornou-se o mais importante. Apesar disso, Falero ainda era usado, porque ficava mais perto da cidade. Quem viajava entre cidades gregas, geralmente chegava por ele, assim como os navios menores, com menos carga, preferiam-no. O Pireu era para grandes negociantes e embarcações maiores.
Politeístas como eram, os gregos amontoavam estátuas e altares para seus deuses junto aos portos. Não era bom correr o risco de irritar alguma das irascíveis divindades do Olimpo, nem mesmo algum dos heróis, igualmente cultuados. Seguindo a linha de raciocínio de Pausânias (*), quem chegava a Atenas pelo porto de Falero, poderia ver um belo templo em honra da deusa mais importante da cidade, Atena, e, a alguma distância, outro para o culto a Zeus. Vinham então, altares que homenageavam os heróis mitológicos da cidade, filhos de Teseu e Falero, que teria navegado com Jason em tempos distantes, e outro dedicado a um filho de Minos. No meio de muitos outros, um altar consagrado aos deuses cujo nome os atenienses desconheciam. Ainda assim, a cidade e seus habitantes pretendiam obter sua proteção e bom humor. Era politeísmo no mais alto grau, embora, nos dias de Pausânias, os velhos cultos fossem, já, mais convenção que convicção.  

(*) Cf. PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia, Livro I. 


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quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Por que os antigos gregos sacrificavam um porco antes de cultivar um campo

A maioria dos povos da Antiguidade tinha algum tipo de ritual relacionado ao plantio e à colheita, que geralmente incluía sacrifícios ao deus ou deusa que supostamente regia essas atividades. Esperava-se que as divindades protetoras afastassem as pragas, fizessem germinar as sementes, cair chuva em quantidade adequada e, finalmente, que enchessem os campos com uma colheita farta. Os antigos gregos, em particular nos tempos primitivos, não fugiam à regra, prestando culto à sua deusa da agricultura, Deméter (¹) - Ceres, para os romanos - quase sempre representada com uma foice na mão. Como a foice era usada na colheita dos cereais, o símbolo era apropriado. Hoje poderia significar outra coisa.
Chegava a primavera, e os agricultores gregos sabiam que não havia tempo a perder, se pretendiam cultivar o solo em condições climáticas favoráveis. Era hora de ir ao trabalho, mas nada se fazia sem um ritual curioso e sangrento. Um porco era levado aos campos que seriam cultivados e, depois, o pobre animal era sacrificado em honra de Deméter. 
Qual o significado disso?
Uma interpretação possível é que o porco era considerado malfazejo para a agricultura, por seu costume de cavar o chão, supostamente impedindo a germinação das sementes (²) e, assim, era sacrificado para demonstrar o que se pretendia que Deméter realizasse com quem procurasse atrapalhar a lavoura. Mas é sabido que porcos eram muito frequentemente sacrificados em honra dos deuses gregos (³), não só no caso dos rituais campesinos de primavera, mas em muitas outras circunstâncias em que se desejava prestar culto e obter o favor dos deuses. Neste caso específico, culto a uma deusa, cuja ajuda se esperava para o sucesso das lides agrícolas anuais. 

(1) Deméter era uma divindade menor no panteão grego, mas nem por isso desprezada pelos agricultores que levavam a sério seu culto. 
(2) Os egípcios, ao que parece, gostavam de ter a ajuda dos porcos na lavoura. Quando as águas do Nilo se retiravam, ficando a terra fértil para o cultivo, as sementes eram espalhadas e, em seguida, os porcos eram deixados nos campos, para que pisoteassem o que se plantara. Assim enterradas na lama, as sementes poderiam germinar mais facilmente.
(3) Basta dar uma olhada na Ilíada, de Homero.


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sexta-feira, 30 de agosto de 2024

O juízo final na versão dos antigos egípcios

Caricatura egípcia de uma alma condenada no julgamento dos deuses (*)

Que os egípcios criam em um tipo de vida após a morte é coisa que todo mundo sabe. Mas é preciso saber, também, que essa vida não era automática, nem bastava, para alcançá-la, ter o corpo devidamente mumificado, embora essa fosse uma prática muito importante. Havia um julgamento, quando o morto deveria ter seu coração pesado em comparação com a "pena da verdade". Mais ainda: esse julgamento era feito individualmente, diante do deus Osíris
É certo que ao morto era dada a oportunidade de defesa. Mas que dizer, então? Havia uma fórmula que se considerava apropriada, e que todo egípcio devia saber muito bem, para ser capaz de repetir no momento exato. Essa fórmula nos mostra, afinal, quais eram os valores morais e éticos que os egípcios da Antiguidade mais prezavam, e dizia, entre outras coisas:
"Nunca proferi mentiras, não causei tristeza a ninguém, não fiz negócios astutos ou desonestos, nunca provoquei brigas, jamais falei mal de alguém, meus ouvidos somente atentaram para o que era justo e verdadeiro, dei pão ao faminto e água ao sedento, dei roupa ao que nada tinha e uma embarcação ao marinheiro que naufragava, fiz apenas o que era puro e justo e fui um servidor fiel dos deuses."
Conclusão óbvia: ou os deuses não eram muito espertos, ou, para os antigos egípcios, mentir no juízo final não era um obstáculo à eternidade.  

(*) Cf. PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 33. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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segunda-feira, 8 de abril de 2024

Deuses dos astecas

Os astecas, como muitos outros povos indígenas da América, eram politeístas. Algumas de suas divindades eram vistas como benfazejas, enquanto outras eram temidas, pelos malefícios que, supunha-se, eram capazes de fazer.
À semelhança de outras mitologias, alguns deuses estavam associados à natureza (sol e chuva, por exemplo); por vezes, estavam ligados às várias atividades humanas. Aqui está uma pequena lista com alguns dos principais deuses (*) do panteão asteca:
  • Quetzalcoatl, a "serpente emplumada", deus dos sacerdotes, representado como o iridescente pássaro quetzal, estava também associado ao vento e à escrita; 
  • Tlaloc, deus da chuva e da fertilidade;
  • Huitzilopochtli, deus do sol e da guerra, representado como o colibri-azul;
  • Tonatiuh, deus-sol;
  • Yacatecuhtli, deus protetor dos mercadores itinerantes que viajavam pelo império asteca e por domínios de outros povos, atuando também como informantes ou espiões;
  • Mictlantecuhtli, deus da morte.

(*) Adotou-se aqui a grafia mais comum para o nome das divindades astecas, embora outras possam ser encontradas. 


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quinta-feira, 27 de maio de 2021

Algumas interpretações para o mito de Osíris

Osíris e Ísis (*)
É difícil contar um mito que tem versões quase infinitas. Façamos uma tentativa: Osíris era rei do Egito, sábio e capaz, tendo introduzido entre seus governados o conhecimento de diversos ofícios. Era, portanto, muito amado, a não ser por seu irmão Seth, sujeito perverso que ambicionava o trono. Astuto, Seth acabou matando Osíris, mas Ísis, sua mulher, depois de muitas aventuras, conseguiu recuperar o caixão no qual estava o corpo do marido. O malvado Seth, procurando impedir alguma tentativa de ressurreição, retalhou o corpo do irmão em incontáveis fragmentos, que espalhou por toda parte. A despeito disso, Ísis conseguiu trazer Osíris de volta à vida, mas foi Horus, filho do casal, quem finalmente derrotou Seth, afugentando-o para longe do Egito. Ufa!...
Mesmo com as muitas variantes que tinha, conforme a região e época em que era contado, o mito de Osíris foi, de longe, o mais destacado do Egito Antigo. Como interpretá-lo? Dentre as possibilidades que se têm levantado, vale a pena considerar:
  • A morte e ressurreição de Osíris seria uma referência poética ao Nilo que, anualmente, transbordava e depois voltava ao curso habitual, deixando, atrás de si, a terra fertilizada para uma nova estação agrícola;
  • Osíris e Seth podem ter sido divindades cultuadas previamente por tribos rivais, cuja luta humana teria sido elevada à categoria de confronto entre deuses;
  • Era habitual que, antes do início de um ano agrícola, um sacrifício fosse oferecido nos campos em honra dos deuses, de modo que o animal sacrificado era retalhado e espalhado pela terra - o mito de Osíris seria uma reminiscência desse costume;
  • Uma última interpretação, cronologicamente mais próxima - Osíris seria uma personificação dos egípcios em luta contra invasores estrangeiros de origem asiática, representados por Seth, enquanto Horus seria a representação da dinastia que expulsou os asiáticos e restabeleceu um governo verdadeiramente egípcio.
Qual dessas interpretações é a melhor? Todas, ou talvez nenhuma... Isso ainda é assunto que rende muito debate.

(*) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. II. London: Methuen & Co., 1904. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 25 de junho de 2020

Deuses egípcios, para os ricos e para os pobres

A simples consideração dos túmulos egípcios, que atravessaram milênios e ainda existem, leva à dedução de que muito da riqueza que o antigo Egito produziu foi gasta em construir e adornar essas moradas dos mortos - mas não para todos.
Faraós e seus familiares, sacerdotes e outros poderosos, oficiais do governo, esses asseguravam para si túmulos soberbos, nos quais eram sepultados com os objetos pessoais e o que mais fosse necessário para garantir, "no além", uma vida tão boa quanto a que tinham na terra. O raciocínio era simples: aquele que morria era avaliado pelos deuses, o que significava que seu coração seria pesado em relação à "pena da verdade". Se aprovado, iria para a vida bem-aventurada. O chamado "Livro dos Mortos", que na verdade não era um livro, estava repleto de truques e encantamentos para ludibriar os deuses e facilitar a rota da vida eterna àqueles que utilizavam suas propriedades mágicas. 
Os pobres, contudo, não tinham direito sequer ao consolo da esquálida justiça social que professa nivelar os homens na morte. Suas casas eram, como regra, miseráveis habitações feitas de barro, quase destituídas de mobiliário. Com poucos recursos, dificilmente poderiam assegurar para si mesmos uma mumificação eficiente para enfrentar a jornada ao além. As próprias crenças egípcias não lhes eram em nada favoráveis, asseverando que, no máximo, seriam, depois da morte, camponeses e artesãos, como sempre tinham sido. Não obstante, toda moradia, ainda que paupérrima, tinha uma ou mais estátuas de deuses, pequenas, sim, mas, na opinião popular, indispensáveis. É que se supunha que os deuses podiam afugentar animais peçonhentos. Relatos da Antiguidade referem que serpentes e escorpiões eram em extremo comuns no Egito. Pragmáticos, portanto, os egípcios pobres esperavam que seus deuses fossem capazes de, ao menos, mantê-los nesta vida por mais tempo, já que talvez não tivessem ocasião de topar com eles na eternidade.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

O culto ao Sol na Antiguidade


Se há um elemento recorrente nas crenças religiosas de muitos povos da Antiguidade, esse é, sem dúvida, a existência de alguma espécie de culto ao Sol. É certo, porém, que cada povo atribuía a seu deus-sol as características que mais valorizava. Exemplificando: em uma inscrição assíria encontrada em um templo em Nimrud, a divindade é descrita como "o deus-sol, devastador e desolador". Para quem conhece a fama dos assírios, não é preciso dar explicações.
Na teocracia egípcia, faraós apreciavam ser descritos como filhos de Ra, ainda que, eventualmente, a megalomania levasse os governantes a se declararem a própria encarnação da divindade... Além disso, recebiam culto como se, de fato, fossem deuses. Entre os povos da Mesopotâmia, Shamash, invocado também sob outras designações, foi reconhecido como deus-sol desde tempos remotos, algo próximo de 4000 a.C. Já veem os leitores que, se quisermos fazer uma lista de deuses identificados com o Sol, não faltará assunto, ainda que acabe a paciência para tantos nomes.
Plínio, o Velho (¹), o notável enciclopedista romano, tentou explicar assim a divinização do Sol: 
"Considerando tudo o que ele afeta, devemos crer que o Sol é a própria alma, ou, com mais exatidão, a mente do universo, a máxima divindade que governa a natureza. Ele provê o universo com luz e desfaz as trevas, ele escurece e ilumina as estrelas em seu repouso, ele comanda a marcha das estações segundo o costume da natureza e seu contínuo renascer a cada ano (²), ele desfaz a tristeza e tranquiliza as nuvens de tempestade que se formam na mente humana, sua luz alcança as demais estrelas [...]." (³)
É fato que no Século I os deuses já não desfrutavam do prestígio que tinham nos centênios precedentes, sendo possível, contudo, que Plínio quisesse contemporizar (⁴), não dando margem a alguma acusação de desrespeito para com a religião do Estado. Pelo que se infere de seus escritos, Plínio via a natureza como a grande e única divindade. Chama a atenção, porém, que ele assinalasse, corretamente, o efeito da luz solar sobre o humor dos seres vivos. Por conveniência ou desconhecimento, razão e superstição foram forçadas ao convívio. Não parece, sob esse aspecto, que a humanidade tenha mudado tanto nos dois últimos milênios.

(1) 23 d.C. - 79 d.C.
(2) Com a chegada da primavera.
(3) PLÍNIO, O VELHO. Naturalis historia Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Fazendo, ao que parece, uma alusão ao Sol Invictus, divindade cultuada pelos soldados romanos.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Por que animais eram cultuados no Egito Antigo

Deuses egípcios eram frequentemente representados com cabeça de animal e corpo humano. Toth (¹), por exemplo, tinha cabeça de íbis, Anubis tinha cabeça de chacal, Horus tinha cabeça de falcão e Hathor era, nem mais e nem menos, que a deusa de cabeça de vaca. Chama-se a isto antropozoomorfismo. Letras demais? Talvez, mas o significado é simples: representação de um deus ou deusa com corpo parcialmente humano e parcialmente animal. É só.
Horus, aqui representado
com cabeça de falcão (³)
A explicação mais plausível para tal fenômeno não é a de que todo e qualquer animal de determinadas espécies era considerado sagrado, e sim de que os deuses, que tinham a mania de bisbilhotar o que acontecia mundo afora, às vezes faziam visitas aos humanos disfarçados de animais. O resultado dessa ideia é que, não sabendo quando animais eram ou não a encarnação de alguma deidade, ficavam todos sob interdito, para evitar que, por tenebroso equívoco, alguém, pensando acertar em uma caça para o jantar, acabasse matando um deus. 
Para os animais envolvidos na questão, a vida podia ser muito boa. Paparicados por sacerdotes e respeitados pela gente comum, contavam ainda com a proteção de leis que puniam severamente quem atentasse contra eles. Heródoto, que esteve no Egito no Século V a.C., afirmou que, em certos casos, quem matasse um animal considerado sagrado pagava com a vida tamanha perfídia: "É grande infelicidade para um egípcio matar intencionalmente algum desses animais [sagrados], porque a pena para isso é a morte; os sacerdotes arbitram uma multa para quem mata um animal acidentalmente. Entretanto tirar a vida, deliberadamente ou não, de um íbis ou falcão, tem sempre como punição a pena capital." (²) 
O íbis, como já foi dito, poderia ser Toth, e, quanto ao falcão, como assegurar que não fosse Horus? Uma flechada, e lá iria o deus para o espaço - ou melhor, para além do poente, onde ficava o "país de paz perfeita", morada dos mortos bem-comportados. Matá-lo não seria, então, fazer-lhe um favor? Como muitas outras, essa mitologia tinha lá suas contradições.

(1) Buscando alguma uniformidade, adotei nesta postagem a grafia de maior aceitação internacionalmente. Em português também são usuais Tot, Anúbis, Hórus e Hator.
(2) HERÓDOTO. Histórias. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. 1. London: Methuen & Co., 1904. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Deuses da Mesopotâmia

Povos de diferentes etnias, falando línguas distintas, viveram na Mesopotâmia na Antiguidade. Apesar disso, compartilhavam o culto a quase todos os deuses. É verdade que, às vezes, um mesmo deus ou deusa era venerado com nomes diferentes, mas, a despeito da variação na nomenclatura, sabemos que se tratava da mesma divindade porque a mitologia associada era muito semelhante. Além disso, não eram poucos os deuses vinculados à guerra, chamados "deus-sol", "deus-lua" (ou "deusa-lua") ou relacionados aos planetas, à fertilidade do solo, ao amor, à procriação, aos fenômenos da natureza. Em se tratando do culto aos deuses, povos da Antiguidade não tinham por hábito economizar nos encômios. Eram títulos e mais títulos, de modo que, às vezes, fica até difícil identificar a que deus, exatamente, se referiam.
Por que isso acontecia?
A antiga Mesopotâmia, em tempos nos quais o nomadismo era bastante comum, foi área de trânsito para muitos povos. Conviviam um pouco, pacificamente ou não, assimilavam algo da cultura alheia e seguiam em frente. O passar do tempo amalgamou elementos às vezes muito diversos, de modo que, com a sedentarização, as diferentes cidades, em se tratando de religião, tiveram muito em comum, ainda que, como regra, cada uma venerasse um deus principal, sem descartar o culto secundário a outras divindades. Portanto, a lista de deuses e deusas que veremos a seguir inclui, sem ser exaustiva, apenas as principais divindades cultuadas por assírios e babilônios (¹). Lembrem-se, leitores, de que havia uma infinidade de outros deuses e deusas. Era politeísmo às últimas consequências.


Relevo assírio retratando uma procissão em homenagem aos deuses (²)

Divindades cultuadas por assírios, babilônios e outros povos da Mesopotâmia


Marduk - Era o deus principal da Babilônia, retratado, muitas vezes, em companhia de quatro cães, embora também representado ao lado de um dragão dotado de dois chifres.  Era relacionado ao nascer do Sol. Sua companheira era Sarpanitu, vinculada ao nascer da Lua e, às vezes, a Vênus.
Ashur - Era cultuado exclusivamente pelos assírios, sendo, portanto, seu deus nacional e protetor da cidade de Ashur, que foi, durante muito tempo, a capital assíria. Representado frequentemente por um círculo dotado de asas, estava relacionado ao sol durante um eclipse.
Nusku - Guerreiro notável, esse deus era particularmente venerado pelos reis assírios. Era também considerado mensageiro de Marduk.
Nebu (ou Nebo, ou ainda Nabu) - Filho de Marduk, era cultuado em Borsipa. Tido como o deus-profeta, patrocinador das ciências, mensageiro dos deuses. Os escribas tinham em Nabu o seu patrono. Sua companheira chamava-se Tasmetu.  
Shamash - Seguramente uma das mais antigas divindades da Mesopotâmia, era o deus-sol (³). Por sua capacidade de iluminar todas as coisas, estava identificado como juiz tanto do céu como da terra. Ele e Aa, sua companheira, eram particularmente venerados em Larsa e Sippar. 
Ishtar - Deusa da criação, também venerada como Nina e, por isso, particularmente relacionada à cidade de Nínive, uma das capitais assírias. Um aspecto curioso de seu culto era a prática das oferendas de peixes. 
Amurru - Foi muito popular nos dias de Hamurabi. Era considerado o deus das montanhas.  
Sin Nannar ou Narnar - deus-lua; cujo principal centro de culto estava em Uru (⁴). Sua companheira era Nin-Uruwa, ou seja, a senhora de Uru. 
Rammanu (ou Rimmon, ou ainda Hadad) - Conhecido como o trovejador, era o deus das tempestades (⁵), vendavais e outros fenômenos correlatos. Sua companheira era Shala. 
Tamuz - Um dos deuses mais antigos e de culto mais amplo, a ponto de exceder os limites da Mesopotâmia. Era retratado como um pastor cuidando de seu rebanho. Sua companheira era Ishtar, deusa do amor e da guerra, cultuada principalmente em Erech e Nínive. Tamuz morria e ressurgia anualmente, sendo, por isso, identificado com a sucessão das estações do ano. 
Nin-Girsu (ou Ninurta) - Era cultuado em Lagash.  Às vezes Identificado com Tamuz, por ser, como ele, deus da agricultura. Bau, a deusa-mãe de Lagash, era sua companheira. 
Nergal - Era o deus do mundo dos mortos, do fogo, da guerra e causador das epidemias. Promovia destruição e, por isso, era invocado quando se esperava que agisse contra os inimigos na guerra. Seu principal centro de culto estava em Kutha, perto de Babilônia. Tinha Eresh-Kigal por companheira.

Relevo assírio em que o rei vitorioso é mostrado sob um círculo alado,
símbolo do deus Ashur (⁶)


A consagração de uma estátua de Nebu na Assíria


Agora, meus leitores, veremos um desses documentos que, escritos em argila, sobreviveram para que soubéssemos como era a consagração da estátua de um deus na antiga Mesopotâmia. 
Foi em 798 a.C.: sob as ordens de um governador provincial assírio, uma estátua de Nebu foi edificada. Não devia ser um monumento qualquer, tendo em vista a grandiloquência de sua consagração, à qual não faltou nem mesmo um recadinho para os que viveriam muito tempo depois:
"Para Nebu, o protetor exaltado [...] que tudo vê, sem limites, o grande, o poderoso [...], cuja autoridade é suprema, mestre das artes, que vê tudo o que acontece no céu e na terra, que tudo sabe e tudo ouve, portador do estilo (⁷) de escriba [...], gracioso e majestoso, capaz de todo conhecimento e adivinhação, amado de Bel, senhor de senhores, cujo poder não tem rival, sem cujo conselho nada se faz no céu [...], ao grande senhor [...], para o bem de Ramman-nirari o rei da Assíria, seu senhor, e para o bem de Sammuramat, senhora do palácio e sua companheira, Bel-tarsi-iluma, governador das províncias de Kalach, Chamedi, Sirgana, Temeni e Yaluna, para que sua vida seja preservada e seus dias prolongados [...], para que haja paz em sua casa e em sua descendência e para que seja livre de toda enfermidade [esta estátua] foi feita e dedicada. Homem do futuro! Confie em Nebu, não confie em nenhum outro deus!"
Quem vivia na Antiguidade quase não tinha controle sobre as doenças, já que as verdadeiras causas das diferentes moléstias eram desconhecidas. A expectativa de vida, por consequência, era baixa e, na busca por cura e sobrevivência, era usual a invocação de divindades. É nesse contexto que se insere a dedicação da estátua de Nebu, homenageado, dessa vez, por assírios, embora fosse, também, estimadíssimo entre os babilônios. É bastante provável que proclamações semelhantes fossem realizadas onde quer que a consagração de um novo templo ou estátua ocorresse entre os demais mesopotâmios.  

(1) A ideia é apenas colocar um pouco de ordem no vastíssimo panteão da Mesopotâmia, venerado por sumérios, acádios, babilônios, assírios, etc.
(2) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Ou um deles...
(4) Também conhecida como Ur.
(5) Quase toda mitologia tem um.
(6) LAYARD, Austen Henry. Op. cit. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) Pequeno bastão destinado à gravação da escrita cuneiforme em placas de argila.


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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Politeísmo

Religiões politeístas


Muitos povos do passado eram politeístas. Isso significa que, em suas ideias e práticas religiosas, admitiam a existência de múltiplas divindades. Contudo, não se deve pensar no politeísmo como fenômeno religioso restrito ao passado. Há religiões politeístas ainda hoje. 
Mas falemos do passado. Desconhecendo princípios científicos como atualmente entendidos, povos antigos olhavam para chuvas torrenciais, inundações, nevascas, granizo, secas devastadoras, terremotos, erupções vulcânicas, furacões, tsunamis - este planeta é um lugar perigoso - supondo tais acontecimentos como expressões de fúria dos deuses, que precisavam ser aplacados com sacrifícios. 
Gregos e romanos, por exemplo, foram politeístas. Entre divindades maiores e menores, tinham deuses para tudo, de fenômenos naturais à regência das diversas atividades humanas, da agricultura à poesia, da guerra à paz. Egípcios também foram politeístas famosos, elaboraram rituais complexos e estabeleceram um sacerdócio que tinha enorme importância até mesmo em questões políticas. 
O sacrifício de animais não era incomum entre os politeístas da Antiguidade. Servia, em alguns casos, para homenagear os deuses, não faltando quem imaginasse que era necessário, dessa forma, alimentar as divindades. Mais frequente era a ideia de que os sacrifícios funcionavam como uma barganha entre deuses e homens, tendo em vista uma colheita abundante, chuvas regulares, viagens felizes e outros favores mais.

Sacrifícios humanos


Algumas vezes, as vítimas destinadas aos sacrifícios eram seres humanos (¹). Horrível? Certamente. Dentre outros povos, os fenícios podem ser citados entre os que sacrificavam pessoas. Essa prática, porém, não esteve restrita à Antiguidade: os astecas, por exemplo, muito mais recentes, chegaram a fazer dos sacrifícios humanos uma espécie de razão de Estado, já que, por meio da religião, sustentavam a coesão interna de seu Império (²), justificando as contínuas guerras pela necessidade da captura de inimigos, cujo coração, ainda palpitante, seria oferecido aos deuses, a fim de assegurar o diário aparecer do sol e a manutenção da ordem no Universo. Privando os povos vizinhos de seus mais saudáveis guerreiros e trabalhadores, os astecas enfraqueciam a concorrência pelo domínio da região em que viviam. Simultaneamente, a imposição de pesados tributos aos povos derrotados em combate garantia o fluxo contínuo de riquezas na direção de Tenochtitlán, a bela e orgulhosa capital asteca no lago Texcoco. 
É difícil julgar o grau de intencionalidade e manipulação das ideias religiosas por parte da nobreza e sacerdotes astecas (³), com vistas à preservação de sua elevada posição social, mesmo porque nem todos os sacrificados eram estrangeiros, mas é bastante provável que os sacrifícios humanos, eventualmente praticados na suposição de obter favores dos deuses, tenham, aos poucos, chegado a ser uma forma deliberada de cravar a mais férrea dominação sobre outros grupos, com os quais era preciso disputar território e recursos naturais. Embora as estimativas variem, supõe-se que sacerdotes astecas efetuavam pelo menos vinte mil sacrifícios humanos a cada ano.  

(1) É evidente que nem todas as religiões politeístas incluíram sacrifícios humanos em seus rituais.
(2) Não foram os únicos a fazer uso de crenças e práticas religiosas para fins políticos..
(3) Muito do que sabemos sobre essas questões decorre de registros feitos por colonizadores espanhóis que, como é natural, filtravam o que observavam por sua própria visão de mundo.


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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Negociando com os deuses

Para muitos povos da Antiguidade, os deuses, e não os homens, eram os verdadeiros donos de um território. Assim, em caso de guerra, o confronto armado entre homens era entendido como a parte visível do combate entre deuses. A vitória de um determinado povo seria, portanto, resultado do poderio das divindades correspondentes. Em última instância, os deuses é que venciam ou eram derrotados. Estranho? Sim, para a nossa mentalidade, mas não para assírios, babilônios, hititas, egípcios... E, até certo ponto, mesmo para gregos e romanos. Que se deveria então fazer, sendo preciso enfrentar algum povo, digo, algum deus estrangeiro?
Talvez fosse possível entabular uma negociação com as divindades - é o que se depreende de uma informação dada por Macróbio, um autor que viveu no mundo romano entre os Séculos IV e V. Afirmou ele que, estando Cipião já pronto para o ataque final a Cartago (¹), teria feito uso da seguinte fórmula:
"Deus ou deusa que, por acaso, proteja o povo e a cidade de Cartago: eu te conjuro, pedindo que abandones este povo e esta cidade, e a tutela que exerces sobre suas casas, templos, edifícios públicos e muros, que te afastes daqui, espalhando entre o povo desta cidade o pavor, o medo e o esquecimento. Deus ou deusa, eu te conjuro a vir a Roma conosco, para habitar entre nós em nossas casas, templos, edifícios públicos e muros, sendo guia para o povo romano, para meu exército e para mim, dando a nós capacidade [para vencer]. Prometo, se isso for aceito, oferecer-te templos e jogos [em Roma]." (²)
Meus leitores, que nome daríamos a isto? Tentativa de suborno, corrupção, cooptação, aliciamento, traição?! Como chamar tal proposta? Ao que parece, uma fórmula semelhante era usada sempre que um comandante militar romano estava prestes a liderar a conquista de território estrangeiro. É claro que não sabemos se Cipião estava apenas cumprindo um ritual (³), ou se acreditava, de fato, que era possível negociar com deuses e deusas, mas, de qualquer modo, fica evidente que, em caso de dúvida, julgava ser melhor não deixar de lado tal precaução. Não é por acaso que nos triunfos que homenageavam generais romanos vitoriosos, não somente os monarcas e comandantes vencidos eram, carregados de correntes, arrastados atrás do vencedor, como também as estátuas dos deuses derrotados e outros objetos de caráter religioso eram levados em procissão. Acreditando neles ou não, era conveniente, diante da plebe, que os deuses romanos fossem responsabilizados pela vitória.

(1) 146 a.C.
(2) Saturnalia, Livro III. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Se é que, de fato, proferiu as palavras a que Macróbio alude. Em qualquer caso, a ideia prevalece, porque era tida por admissível para os leitores da época.


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Por que o íbis era sagrado para os antigos egípcios

Íbis-sagrado (Threskiornis aethiopicus)

O Egito da Antiguidade tinha fartura de deuses. Havia divindades para quase tudo, e muitos animais eram considerados a personificação de alguma figura desse tão notável panteão divino. Sorte da bicharada, é claro, que, desse modo, era protegida, recebia um tratamento régio, tinha sacerdotes a seu dispor e, para cúmulo das homenagens, ao morrer, recebia as honras do embalsamamento. O íbis-sagrado (Threskiornis aethiopicus) era apenas um dentre os muitos animais a quem os egípcios veneravam, e o antropomórfico deus Toth era representado com corpo humano e cabeça de íbis.
Toth, deus egípcio com cabeça de íbis (³)
O que teria originado a crença na divindade de animais? Pelo menos no caso do íbis, temos o direito de fazer algumas conjecturas, a partir das observações deixadas por Heródoto (¹) em suas Histórias. Nosso viajante do Século V a.C., infectado por curiosidade insaciável, perguntava, perguntava e perguntava, e ia anotando, para contar depois, tudo o que havia de interessante, segundo seu ponto de vista, nos lugares por onde passava. Constatou, assim, que os egípcios atribuíam ao íbis-sagrado um serviço de suma utilidade: a destruição de serpentes que, sem sua intervenção, infestariam o Egito, levando a morte a muita gente. A divinização dessas aves seria, portanto, consequência do benefício que lhes era atribuído, e era reconhecido, ainda de acordo com Heródoto (²), pelos próprios egípcios de seu tempo.
Por óbvio que seja, deve-se ainda assinalar que os deuses-animais do Egito eram sempre aqueles que estavam por perto: chacais, falcões, gatos, abutres, íbis-sagrados - todos podiam ser facilmente vistos nas redondezas. Seria improdutivo, leitor, procurar no panteão egípcio um deus urso-polar, ou foca, ou arara-canindé, ou ainda onça-pintada. Experiências da vida diária, com suas angústias e expectativas, estavam na base não só das explicações para fenômenos naturais, como das crenças religiosas que norteavam a existência de quem dependia do Nilo, cujas águas fertilizavam o solo, e, a cada ano, renovavam as esperanças dos homens e favoreciam a proliferação dos animais. 

(1) 485 - 425 a.C.
(2) Histórias, Livro II.
(3) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. I. London: Methuen & Co., 1904.



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segunda-feira, 20 de julho de 2015

Leilão de deuses

Estátuas de deuses penhoradas iam a leilão na Roma Antiga


Uma das mais frequentes acusações contra cristãos perseguidos no Império Romano era que, como adeptos de uma nova crença, não prestavam culto aos deuses popularmente venerados (como Saturno ou Juno, por exemplo). Assim, estariam desprezando as antigas tradições de Roma e eram, por consequência, dignos de morte.
Imperador Sétimo Severo (²)
Foi pela época da perseguição movida, a princípio pelo Senado, e depois apoiada pelo imperador Sétimo Severo, que Tertuliano escreveu sua famosíssima Apologia (c. 200 d.C.), obra na qual se propunha a defender os cristãos e sua fé diante dos ataques que sofriam. "Dizem que nós os cristãos", afirmou ele, "somos réus de sacrilégio e lesa-majestade, uma vez que não prestamos culto aos deuses e nem oferecemos sacrifícios em favor do imperador". (¹)
Vê-se que Tertuliano não negava a acusação, e nem havia motivo para fazê-lo. Os cristãos, como todo mundo sabe, eram e são monoteístas. O que Tertuliano se propôs a fazer foi mostrar que, embora não prestassem culto aos deuses de Roma, os cristãos nem de longe eram, com eles, desrespeitosos como os próprios romanos. Com isso registrou para o futuro um fato no mínimo curioso, que já veremos.
Júpiter (³)
Era comum em Roma que alguém, precisando de dinheiro, penhorasse um ou mais objetos. Ora, nem mesmo as estátuas dos deuses eram poupadas. Ocorre que, se não fossem resgatadas, as ditas estátuas iam a leilão em praça pública, juntamente com outras mercadorias, ou seja, no mesmo lugar em que eram comercializados legumes, verduras e outros gêneros alimentícios. E lá ficava o leiloeiro a apregoar a venda de uma estátua de Hércules, ou de Diana, ou de Júpiter... Quem quer comprar? Quem dá mais? Um Júpiter bonito, em muito bom estado!...
É pouco provável que Tertuliano tenha inventado essa história. Já que pretendia fazer a defesa dos cristãos, não iria elencar argumentos falhos, inúteis ou que fossem reconhecidamente mentirosos. Isso apenas reforça a afirmação de que, quando o cristianismo chegou a Roma, já encontrou os antigos ritos tradicionais em franca decadência. Suas festas eram ainda celebradas (afinal, eram festas!), mas os deuses já não convenciam quase ninguém quanto a supostos poderes sobrenaturais. Eram antes uma questão de tradição que de crença, propriamente. O caminho estava aberto, portanto, para uma nova religião, com pressupostos bem diversos daquela que antes fora praticada em Roma, ainda que, com o passar dos anos, a corrente majoritária do cristianismo tenha acabado por assimilar uma série de práticas típicas da religiosidade greco-romana. É o que se chama sincretismo.

(1) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) STRONG, Eugénie. Art in Ancient Rome vol. 2, New York: Charles Scribner's Sons, 1928, p. 157. A Imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Ibid., p. 166. A Imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 25 de julho de 2014

O culto aos deuses e a importância dos reis-sacerdotes na Antiguidade

Uma característica predominante entre os povos que, na Antiguidade, habitavam a região a que hoje chamamos Oriente Médio, é que os monarcas, fossem eles os governantes de verdadeiros reinos ou de simples cidades, eram apresentados, não como autênticos deuses, mas como seus representantes. Uma consequência lógica desse fato é que os reis eram, quase sempre, também sacerdotes.
Um deus-peixe da
Mesopotâmia (²)
No entanto, o estabelecimento desse fenômeno pode ter ocorrido em ordem inversa: sacerdotes, por seu suposto relacionamento próximo com uma ou com várias divindades, acabavam, pouco a pouco, sendo guindados ao mando político. Afinal, quem melhor para governar que um indivíduo capaz de tratar com os deuses? E, se quisermos buscar mais além, encontraremos raízes profundas na estrutura familiar patriarcal que, ainda em tempos de nomadismo, era bastante comum, embora a sedentarização tenha sido um passo importante no rumo da identificação entre um deus e um determinado território.
Ora, meus leitores, se continuarmos o encadeamento lógico que começamos - sacerdotes tornavam-se reis, mantendo, porém, as funções no âmbito do sagrado - veremos facilmente por que motivo, para a mentalidade oriental, religião e política eram indissociáveis.
Quais eram, então, as consequências práticas dessa teocracia? Vejamos:
- Considerava-se, via de regra, que os deuses, e não os moradores humanos, eram os verdadeiros donos de um determinado lugar (os reis eram seus representantes);
- Era muito importante manter o culto do(s) deus(es) do lugar, para evitar alguma tragédia resultante de seu desagrado (daí decorrendo a grande importância do rei-sacerdote);
- Secas, inundações e outros fenômenos eram vistos como resultado da fúria de uma divindade local, em virtude de alguma falha no culto que se lhe supunha devido, sendo obrigação do rei-sacerdote tomar as providências necessárias para dar ao(s) deus(es) a correspondente satisfação;
Nebu (ou Nebo), 
divindade
da Mesopotâmia (²)
- A religião do lugar adquiria certa conotação de "patriotismo" (¹), resultando, assim, na obrigação de adotá-la para quem vinha de fora da comunidade;
- Finalmente, a maioria dos povos do Oriente Médio não descria dos deuses de seus vizinhos, apenas considerava que, para além do palco das lutas humanas, os deuses todos, dos diferentes reinos, fossem eles grandes ou pequenos, é que travavam as verdadeiras guerras, sendo as vitórias e derrotas humanas apenas a consequência dos combates entre divindades. Deuses mais fortes derrotavam deuses fracos. Portanto, povos dominadores entendiam que tinham um panteão mais poderoso que o dos povos dominados. Isto, é certo, até que aparecesse alguém em condições de derrotar os valentões do dia...
Não, não, senhores leitores, nada de achar tudo isso muito engraçado. Sejamos justos com os antigos. Quanto dessas remotas ideias podemos encontrar, um tanto disfarçadas, é verdade, em nosso moderníssimo mundo ocidental, em pleno Século XXI? Basta apenas escavar um pouquinho para trazer a descoberto as premissas ideológicas que, em última análise, andam na cabeça de muita gente, norteando expectativas e direcionando os rumos da política - em pequena e em larga escala.

(1) Uso o termo, aqui, com muitas restrições, por não me ocorrer, neste momento, um outro mais indicado. Mais tarde e em outro lugar, ou seja, na Península Itálica, entre os romanos, o uso seria mais apropriado, particularmente no chamado "culto ao imperador"; entre os antigos gregos, tão encrenqueiros, como se sabe, que quase não sabiam viver sem pensar em guerra, a religião era vista como um fator de unidade.

(2) LAYARD, Austen Henry. Nineveh and Babylon. 
London: John Murray, 1882.


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