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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Explicações mitológicas da Antiguidade para fenômenos naturais

"Ah! bons tempos em que os eclipses não andavam por almanaques, e queriam dizer alguma coisa, tais quais os cometas, que eram um sinal da cólera dos deuses. Os deuses foram-se, levando a cólera consigo. Assim pagaram as oferendas e os poemas que receberam de milhões e milhões de criaturas."
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1893

Lembram-se daquela história de que o trovão era produzido quando Thor fazia o desfavor de bater com seu martelo nas nuvens? Sim, leitores, essa ideia um tanto violenta pode parecer ridícula, mas os povos nórdicos não foram os únicos que atribuíram aos deuses a responsabilidade pelos fenômenos naturais que, de outro modo, não saberiam explicar. Um mesmo fenômeno podia receber explicações completamente diversas, de acordo com as crenças de cada povo, a que chamamos mitologia (¹). Para os gregos, por exemplo, o raio e o trovão haviam ido parar nas mãos de Zeus, o maior dos deuses, por obra de Pégaso, o cavalo alado... É isso que nos conta Hesíodo, poeta grego da Antiguidade, na Teogonia.
Então, leitores, vamos a dois exemplos que, acredito, serão úteis para quem quiser entender como a mitologia explicava, a seu modo, os fenômenos naturais.

Ártemis ou Diana, deusa da lua
e da caça (³)

O que acontecia quando, à noite, a lua era coberta por nuvens


Ártemis (²), diziam os gregos, a deusa da caça, apaixonou-se por um pastor de ovelhas chamado Endimion. Ora, Endimion era um simples mortal e, portanto, não poderia ser levado pela deusa ao Olimpo. Resultado: para os gregos, a ocultação da lua por nuvens ocorria quando Ártemis, a deusa-lua, deixava suas ocupações celestes para, vindo à terra, se encontrar com Endimion.

Que é o eco


O eco, vocês sabem, é a reflexão de um som em uma distância mínima de 17 metros. Quem é que, quando criança, não gritou umas quantas vezes para ouvir a própria voz retornando, até que alguém, incomodado com o ruído, sugerisse que era hora de acabar com a brincadeira?
Para os gregos da Antiguidade, porém, o eco tinha outro significado - talvez seja melhor dizer a Eco... 
Eco era uma ninfa que, caindo nas garras da vingativa Hera, fora condenada a viver repetindo a última palavra de tudo o que lhe diziam. Motivo? Havia deixado de contar à ciumenta (⁴) do Olimpo todas as aventuras de Zeus de que tinha conhecimento.

Aos poucos, as explicações mitológicas, a despeito de sua beleza poética, foram dando lugar a teorias que refletiam a expansão do conhecimento científico. Plínio, que viveu no Século I d.C., foi capaz de dar ao arco-íris uma explicação que, se não corresponde integralmente à que temos na atualidade, era resultado de observação sensata: relacionou-o à ocorrência de chuva, sabendo que podia ser visto em oposição ao sol. Já quanto aos raios, notou que, em seu tempo, os diurnos eram atribuídos a Júpiter (⁵) e os noturnos a Sumano, uma divindade menor. Não deixou de referir, porém, um incidente que os supersticiosos romanos entendiam ser um prodígio associado à conjuração de Catilina: um decurião de Pompeia teria sido fulminado por um raio em um dia de tempo esplêndido, sem nenhuma nuvem escura a sugerir tempestade (⁶). Não explicou, todavia, o que é que o infeliz magistrado teria feito para ser vítima de Júpiter e, com isso, prenunciar uma tentativa de golpe contra o Senado romano em que não teve qualquer participação, e da qual, provavelmente, nem mesmo sabia. 

(1) Uma das explicações para a existência de mitologias (ainda que não a única) é que elas proviam alguma satisfação para questões que, na Antiguidade, o conhecimento científico disponível ainda não era capaz de elucidar.
(2) Diana, entre os romanos.
(3) REDFORD, George. A Manual of Ancient Sculpture. London: Sampson Low, Marston, Searle & Rivington, 1886, p. 231. 
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Hera tinha motivo para ataques de ciúme: Zeus, seu marido, estava longe de ser um paradigma de fidelidade conjugal.
(5) Zeus, para os gregos.