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terça-feira, 28 de julho de 2020

Procedimento indígena para dar força às flechas

"Às costas cada qual suspende a aljava
Pejada de farpadas leves flechas,
E o arco sobraçando, a maça empunha."

Gonçalves de Magalhães, A Confederação dos Tamoios

Indígenas portando armas (²)
Indígenas faziam amplo uso de flechas, tanto para a caça, com a finalidade de obter alimento, como em guerra contra grupos inimigos. Prepará-las cuidadosamente era, portanto, conhecimento essencial à sobrevivência na floresta. De acordo com Francisco Bernardino de Sousa, que escreveu no Século XIX sobre aspectos interessantes da região amazônica, as flechas indígenas poderiam ser classificadas em três grupos:
"Há três espécies de flechas usadas na guerra, diz o sr. Gonçalves Dias, uagike comm, a arpoada, uagike méran, e a outra para caça dos animais menores, uagike bacamnumok." (¹)
Passa, em seguida, a descrever os três tipos:
"A primeira tem a ponta alongada ou elíptica, feita de taquara; tostam-na para ficar mais dura, e raspam-na e aparam para que fique cortante como faca, e a ponta fina como agulha. O animal, ferido dela, sangra muito, porque um dos lados é côncavo. A ponta da flecha arpoada, que tem polegada ou polegada e meia de comprimento, é feita de pau-d'arco ou de airi (³). É fina e muito aguda. Tem oito ou dez arpéus, e se emprega na caça de animais grandes e pequenos e também na guerra: A sua ferida é perigosa por ser de difícil extração. As flechas da terceira espécie são obtusas e matam por contusão: tomam para isso uma vara que tenha três ou mais nós, formando como um botão, de que fazem a extremidade da flecha." (⁴)
Havia, finalmente, um detalhe na técnica, que podia tornar mais fortes as flechas do primeiro tipo:
"Para dar mais força às primeiras, untam-nas com cera, passam-nas ao fogo para que penetre melhor e assim fazem também com os arcos." (⁵)
Estes eram saberes da floresta, acumulados ao longo de gerações e transmitidos sempre oralmente, no contexto de culturas ágrafas, mas nem por isso menos ricas. 

(1) SOUSA, Francisco Bernardino de. Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas. Belém do Pará: Typ. do Futuro, 1873, p. 271.
(2) STADEN, Hans. Wahrhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschenfresser Leuthen. Marburg: 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Variedade de palmeira.
(4) SOUSA, Francisco Bernardino de. Op. cit., pp. 271 e 272.
(5) Ibid., p. 272.


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quinta-feira, 29 de março de 2018

Como a deusa favorita dos atenienses ganhou um nome extra

Nomes indígenas, explicou Hans Staden, eram em geral referências às qualidades de animais, plantas e do que mais havia na natureza. Ao nascer, cada menino tupinambá recebia um nome, e assim ficava, até que, já adulto, estava apto a matar inimigos. Então, àquele a quem era conferida a honra de abater um prisioneiro em um ritual de antropofagia, concedia-se o privilégio extra de "ganhar um nome", ou seja, de anexar ao seu próprio o nome do guerreiro de outra tribo que matara. Por isso, a lista de nomes que um tupinambá podia ostentar era diretamente proporcional ao número de inimigos mortos. Entretanto, como documentava o "currículo", se pertencia a uma cultura ágrafa?
Ainda de acordo com Hans Staden, após matar o prisioneiro que seria devorado, o tupinambá tinha o braço riscado com um dente pontiagudo de algum animal. Essa cerimônia tinha grande importância e devia ser realizada pelo chefe da aldeia. A cicatriz que daí procedia era o comprovante inequívoco da coragem e valentia que o caracterizavam como um verdadeiro herói diante de sua gente.
Agora, leitores, vamos voar até a Grécia Antiga, onde encontraremos alguém que também ganhou um nome. Atena - lembram-se dela? - a deusa que nasceu da cabeça de Zeus, entrou em combate, ao lado do pai, contra gigantes que ameaçavam o Olimpo. Matando um deles, cujo nome era Palas, arrancou-lhe a pele, da qual fez um revestimento para o escudo que usava. Com isso, a deusa grega, que não era tupinambá, também ganhou um nome, passando a ser conhecida como Palas Atena, e lá se foi mitologia afora, para viver novas aventuras.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Multa e degredo para quem fosse desobediente às ordens de João Ramalho

Aconteceu em São Paulo, apenas uma pequena vila no ano de 1562. Reuniram-se as autoridades e, desse acontecimento, resultou a nomeação de João Ramalho para o cargo de "capitão para a guerra", conforme o registro em ata: 
"Aos vinte e quatro dias do mês de junho da era de mil e quinhentos e sessenta e dois anos nesta Vila de São Paulo nas casas da morada de Diogo Vaz (¹) vereador se ajuntaram os oficiais da Câmara para darem juramento dos Santos Evangelhos para que bem e verdadeiramente servisse o cargo de capitão da dita Vila a João Ramalho [...]."
Era assim, mediante juramento, com a mão direita sobre o Livro Sagrado, que qualquer indivíduo indicado ao serviço público era admitido às suas funções. Sem isso, nem pensar! Mas já é outro assunto, se a dita cerimônia acabava ou não por garantir um mínimo de decência e honestidade da parte de quem jurava. 
Pois bem, efetivado João Ramalho no cargo, foi passada uma provisão com o seguinte teor, que deveria vir ao conhecimento de toda a população da Vila:
"João Colaço capitão em toda esta capitania de São Vicente pelo senhor Martim Afonso de Sousa (²) capitão e governador dela por el-Rei nosso senhor e faço saber aos que esta minha provisão virem em como por vozes e eleição saiu por capitão para a guerra João Ramalho ao qual eu dou todo meu poder para a guerra [...] e mando que na dita guerra se houver lhe obedeçam em tudo o que necessário for [...] sob pena de qualquer que ao dito João Ramalho não quiser obedecer na dita guerra será preso e da cadeia pagará vinte cruzados e um ano de degredo para a Bertioga [...]."
Tomem fôlego, leitores - as atas desse tempo dificilmente tinham alguma pontuação. Para reduzir o sofrimento, o texto foi transcrito na ortografia atual, como é costume neste blog. Vejam que, malgrado a evidente falta de habilidade do escrivão, o texto segue a linguagem jurídica típica da época. Mas há nele algumas questões intrigantes. Vejamos:
Que guerra era essa, para a qual João Ramalho foi indicado capitão? O documento não diz, mas o isolamento da Vila de São Paulo no Planalto e sua distância em relação ao mar permitem supor que se tratava de alguma rusga com indígenas - algo muito comum, portanto, já que colonizadores queriam ficar na terra e escravizar ameríndios, os quais, por sua vez, não queriam ser escravizados e, como é óbvio, lutavam para, se possível, expulsar os colonizadores.
Outro fato interessante é que, feita a nomeação, seguiu-se uma provisão ameaçando quem ousasse desobedecer ao novo warlord. Não imaginem, leitores, que isso fosse mera formalidade. A vilazinha de São Paulo era palco de frequentes agitações, sendo seus turbulentos moradores os mais talentosos intérpretes de encrencas e desacatos. Que o dissesse o próprio João Ramalho e sua famosa prole!... Como os habitantes da vila eram ainda pouco numerosos, não se admitia que alguém tentasse escapulir ao dever de prestar auxílio em caso de guerra.
Finalmente, notemos que, além de prisão e multa, o eventual desobediente seria condenado a um ano de degredo na Bertioga. O que é que tornava tal lugar um destino indesejável?
Hans Staden, em sua obra Wahrhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschenfresser Leuthen, publicada na Alemanha em 1557, contou que, durante sua segunda viagem à América, foi contratado para trabalhar como artilheiro na Capitania de São Vicente, em um forte ao qual ele, a seu modo, chamou Brickioka. Era a Bertioga da provisão paulistana de 1562. Foi justamente quando exercia essa função que Staden foi capturado por tupinambás e, somente com muita, muitíssima sorte, é que não virou moquém, digo, que não se tornou o mais louvado acepipe de um festim antropofágico. 
O forte da Bertioga não estava lá por acaso. Havia a ameaça constante de piratas e corsários. Havia, em algumas épocas do ano mais que em outras, o risco de um ataque indígena (³). Staden explicou claramente que a gente das redondezas havia decidido construir o forte, dotando-o de canhões, para se defender dos indígenas (⁴). Inicialmente apenas um muro de pau a pique, foi mais tarde reforçado com pedras. Para lá corriam os colonizadores na iminência de uma investida, viesse ela do mar ou de terra. Portanto, viver na Bertioga no Século XVI não era como tirar férias no paraíso. Os moradores de São Paulo devem ter entendido muito bem o recado nada sutil que estava contido na ameaça de degredo.

Neste mapa rústico incluído na obra de Hans Staden (Século XVI),
o forte da Bertioga é mostrado no alto, à direita (⁵) 

(1) A Câmara da Vila de São Paulo não tinha, nessa ocasião, edifício próprio, daí a necessidade de que as reuniões acontecessem na residência de um de seus oficiais.
(2) Estando ausente o donatário da Capitania, competia ao capitão-mor exercer o governo.
(3) De acordo com Hans Staden, era quando havia muito cauim (bebida) disponível que, para maior festa, se fazia a guerra, na certeza de que o banquete seria enriquecido com inimigos capturados.
(4) A segunda viagem de Hans Staden a América ocorreu a partir de 1549, como ele mesmo diz em Wahrhaftige Historia; como a primeira edição de se livro traz dedicatória datada de 1556, sendo a publicação de 1557, entende-se que os acontecimentos relativos à sua permanência no forte de Bertioga e à posterior captura por tupinambás ocorreram, necessariamente, nesse intervalo.
(5) STADEN, Hans. Wahrhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschenfresser Leuthen. Marburg: 1557.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dois europeus entre os tupinambás no Século XVI

Indígenas que viviam junto ao mar e a chegada de embarcações europeias,
de acordo com ilustração publicada na edição 
de 1557 de Zwei Reisen nach Brasilien

Hans Staden e Jean de Léry foram dois europeus que, no Século XVI, viveram entre os tupinambás, indígenas que habitavam áreas do litoral brasileiro.
Staden, alemão, depois de algumas aventuras entre marinheiros na costa do Brasil, foi contratado como artilheiro de um pequeno forte português. Caiu prisioneiro dos tupinambás, e, por isso, já se vê que sua permanência entre eles não foi voluntária. Por muito pouco não foi devorado em um festim antropofágico. De volta à Europa, publicou um livro conhecido como Zwei Reisen nach Brasilien (¹), cujo longuíssimo título da primeira edição deixava claro o teor da obra:  "História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens nus, ferozes e devoradores de homens"...
O caso de Jean de Léry é bem diferente. Francês, veio ao Brasil para viver na colônia que protestantes tentavam fundar no litoral do Rio de Janeiro. A colônia fracassou, mas Léry, que assim como Hans Staden, retornou à Europa, publicou um livro muitos anos depois, ao qual deu o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil (²). Como os franceses andavam em boa paz com os tupinambás, Léry pôde viver tranquilamente entre eles, sem que seu relato fosse afetado pela sensação de medo inerente a quem corria o risco de, a qualquer momento, ser abatido para o jantar, como era o caso de Staden. Apesar disso, ambos os autores concordam na maioria dos pontos que descrevem em relação aos hábitos e costumes dos indígenas com quem, voluntariamente ou não, conviveram.
Sabemos, assim, que os tupinambás praticavam uma agricultura rudimentar; quando ao estabelecimento de aldeias, deveriam ser considerados seminômades, porque, quando esgotavam os recursos alimentares que podiam ser obtidos mediante a caça e a coleta, construíam novas habitações em um lugar não muito distante daquele que ocupavam (meia légua, quando muito, segundo Léry). A construção de novas casas era, além disso, uma necessidade, já que os materiais empregados habitualmente não eram muito duráveis.
Por outro lado, o fato de que Jean de Léry podia andar com liberdade entre os tupinambás favoreceu a obtenção de informações detalhadas quando ao quotidiano dos indígenas: tinham por hábito guardar estrito silêncio durante as refeições, que nunca eram acompanhadas da ingestão de líquidos; se desejavam manifestar grande respeito por alguém, jamais comiam em sua presença. Parece estranho? Talvez, e até mesmo o oposto do que pode ser dito em relação a muitas outras culturas - sem esquecer que os tupinambás eram também adeptos da famosa choradeira quando alguém retornava de uma viagem, fenômeno já mencionado em outra postagem neste blog.
Então, leitores, não há dúvida de que os registros feitos por Hans Staden e Jean de Léry são, ainda hoje, de muito interesse, até porque, como não estavam sujeitos às implicâncias e à censura do Desembargo do Paço e da Inquisição, foram escritos com uma liberdade da qual os autores portugueses contemporâneos não desfrutavam.

(1) Duas Viagens ao Brasil.
(2) História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Flechas incendiárias

Não, leitores, elas não foram inventadas por Nero - o uso de flechas incendiárias ocorreu entre as mais diversas culturas, e era bem conhecido entre povos da Antiguidade. Heródoto afirma, no Livro VIII de suas Histórias, que os persas, durante as Guerras Médicas, haviam usado flechas incendiárias quando lutavam contra os atenienses que, protegidos pelas muralhas de sua cidade, resistiam corajosamente. Apenas como curiosidade, os persas finalmente tiveram êxito em forçar a entrada, e, conforme o hábito nas guerras antigas, degolaram todos os defensores que se haviam refugiado no templo de Palas Atena. A cidade foi entregue às chamas. Depois de saqueada, é claro.
Flechas comuns eram dirigidas, habitualmente, contra as formações dos exércitos inimigos. Ajudavam a reduzir o número de combatentes, antes que se travasse a luta corpo a corpo. Foi também Heródoto quem afirmou, no livro VII das Histórias, que, na guerra contra os gregos, as chuvas de flechas provenientes do exército persa, comandado por Xerxes, chegavam a encobrir a luz do sol.
Flechas incendiárias, porém, eram usadas com o objetivo de atear fogo às construções que os inimigos procuravam defender. Eram um recurso extremo, quando parecia impossível forçar a entrada de outro modo, pois um incêndio durante uma batalha dificilmente seria contido antes que tudo, ao redor, acabasse em cinzas. Admissíveis, portanto, quando o projeto era aniquilar o adversário, flechas incendiárias não eram uma ideia inteligente quando se pretendia conquistar uma cidade, conservando-a para o vencedor. 
De acordo com Hans Staden, indígenas do Brasil (*) conheciam o uso de flechas incendiárias, que preparavam do seguinte modo: um chumaço de algodão era untado com cera e, em seguida, amarrado à ponta de uma flecha, à qual se ateava fogo. Arqueiros fortes e bem-treinados atiravam contra as casas de seus inimigos, geralmente cobertas por folhas de alguma palmeira, que logo estavam em chamas. Os colonizadores perceberam a eficácia desse procedimento e, tão pronto conseguiam, pela diplomacia ou pela força, arrolar indígenas entre seus comandados, incluíam as flechas incendiárias entre seus recursos bélicos.

(*) Observação válida pelo menos para os tupinambás, com quem Hans Staden, mesmo contra a vontade, teve convivência demorada. Feito por eles prisioneiro, somente a muito custo conseguiu escapar de ser o prato principal de um banquete antropofágico.


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sexta-feira, 29 de julho de 2016

O consumo de palmito por navegadores, náufragos e colonizadores do Brasil

Os portugueses que vieram ao Brasil na esquadra comandada por Cabral já estavam familiarizados com o uso do palmito como alimento. Como podemos ter certeza disso? É simples, há duas referências na Carta do Achamento, escrita por Pero Vaz de Caminha. Na primeira delas, lemos:
"Ao longo dele [um pequeno rio] há muitas palmeiras e não muito altas, e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles."
A segunda guarda alguma semelhança com a primeira, mas trata de uma ocasião posterior:
"Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por esse arvoredo até um ribeiro grande e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto, tamanho, tão vasto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos."
Como os leitores podem ver, as palavras de Caminha demonstram que ele já sabia o que é que havia dentro das palmeiras e apreciava o sabor - falaria duas vezes em "bons palmitos" se não gostasse deles?
Nas décadas subsequentes, quando naufrágios na costa do Brasil não eram eventos incomuns, a existência de palmeiras (e, portanto, de palmitos) era importante na alimentação de sobreviventes. Hans Staden, que esteve no litoral sul do Brasil no Século XVI em companhia de navegadores espanhóis, relatou que, procurando alguma coisa para comer, derrubaram uma palmeira para extrair dela o palmito. Isso prova que também entre eles o palmito era bem conhecido. Bandeirantes que iam ao sertão nos Séculos XVII e XVIII eram consumidores habituais de palmito. Entravam na mata e, com a ajuda de indígenas, tratavam de localizar as palmeiras adequadas. Náufragos e bandeirantes procuravam palmito por uma questão de sobrevivência, não como uma especialidade gastronômica. 
Apesar disso, entre os viajantes europeus que vieram à América do Sul no Século XIX, alguns davam mostras de que experimentavam palmito pela primeira vez. Foi o caso do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire. Ao percorrer terras do atual Estado do Rio Grande do Sul e do Uruguai pouco antes da independência do Brasil, observou:
"Esta manhã, o tenente da guarda de Angostura me fez comer cru o novo gomo de uma de suas palmeiras; o gosto me fez lembrar o da castanha crua, mas é infinitamente mais delicado."
A percepção do sabor é algo bastante individual, não há dúvida, mas acho discutível comparar o palmito à castanha crua - o que pensam os leitores? Não obstante, ao descrever o sabor como delicado, parece que Saint-Hilaire dava a ele sua aprovação. 
À parte disso, cabe registrar que, há séculos, palmeiras adultas vêm sendo cortadas apenas para extração do palmito. Não surpreende, portanto, que, com tanto desperdício, haja variedades ameaçadas de extinção.


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Como indígenas do Brasil faziam contas

Segundo um grande número de relatos, povos indígenas do Brasil eram hábeis em usar a calculadora mais antiga do mundo. Sim, aquela mesma, leitores, que vocês devem ter usado em seus primeiros anos escolares, malgrado a oposição dos professores ou dos pais, quando acompanhavam suas tarefas. Já sabem do que estou falando, não?
Hans Staden, que foi prisioneiro dos tupinambás no Século XVI, teve sorte suficiente para escapar de virar moquém (¹) e, depois de tudo isso, ainda publicou um livro na Alemanha, no qual relatou:
"Eles [os indígenas] não sabem contar além de cinco. Quando desejam contar, nomeiam os dedos das mãos e dos pés. Se querem falar de números maiores, mostram quatro ou cinco pessoas, para dizer os dedos e artelhos que têm." (²)
Uma informação semelhante vem de Frei Vicente do Salvador, que concluiu o manuscrito de sua História do Brasil por volta de 1627; observem a tentativa de justificar por que indígenas não tinham um sistema altamente sofisticado para indicar quantidades:
"Jamais usam de pesos e medidas, nem têm números por onde contem mais que até cinco, e se a conta houver de passar daí a fazem pelos dedos das mãos e pés, o que lhes nasce da sua pouca cobiça [...]."
Explicando que indígenas tinham dificuldade em estabelecer uma conta exata dos rios que constituíam uma bacia, o jesuíta Simão de Vasconcelos observou, em obra cuja primeira edição é datada da segunda metade do Século XVII:
"[...] As nações que habitavam a circunferência [sic] do rio, e seus grandes braços, não podiam contá-la, não só pelos dedos das mãos e dos pés, por onde costumam contar, mas nem ainda com os seixos da praia [...]." (³)
Como os leitores devem ter notado, a novidade apresentada por Simão de Vasconcelos é a menção ao uso de "seixos da praia", para indicar quantidades que não podiam ser contadas com os dedos. Mas vamos, agora, a uma última referência, que nos vem da obra do Príncipe Adalberto da Prússia. Quando percorria o Xingu, anotou em seu diário de viagem, em um dia de dezembro de 1842, este relato do encontro com um chefe juruna bastante idoso, que lhe contava como reunia gente para ir fazer guerra a uma maloca pertencente a desafetos:
"Para o pôr do sol reuniram-se muitos índios diante da cabana do tuxava de Piranhaquara, um velho amável, cujos compridos cabelos brancos caíam sobre os ombros escuros. [...] Para nos mostrar o número dos que o acompanharam, contava os dedos das mãos e dos pés, e, por fim, fazendo um largo círculo em volta, apontava para as mãos e os pés de todos os circunstantes, para significar que o número dos seus era igual à soma dos dedos dos pés e das mãos de todos nós." (⁴)
Ora, meus leitores, é muito fácil constatar que, entre a descrição do método indígena de contar feita por Hans Staden, que esteve entre os tupinambás no Século XVI, e a que aparece na obra do Príncipe Adalberto, que andou entre jurunas em meados do Século XIX, há uma semelhança notável. Como pode ser isso, já que todos sabemos o quanto os séculos de colonização afetaram as variadas culturas dos povos indígenas do Brasil? 
A explicação é bastante simples: os tupinambás que Hans Staden encontrou viviam em áreas litorâneas do Sudeste e, em consequência do confronto precoce com colonizadores, não tardaram a "desaparecer"; os jurunas que o príncipe Adalberto conheceu viviam, por assim dizer, no coração do Brasil, portanto em uma área que, no Século XIX, ainda era relativamente pouco afetada pela presença de não indígenas, daí não ser uma completa surpresa a permanência de elementos da cultura tradicional, como era o caso da forma de contar. Não creio que seja necessário recordar que, para bem e/ou para mal, as coisas não permaneceram assim por muito tempo.

(1) Não foi, por muito pouco, o prato principal de um festim antropofágico.
(2) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557. O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 37.
(4) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 322.


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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Como as índias faziam cerâmica

De acordo com Hans Staden (¹), alemão que esteve no Brasil no Século XVI, a técnica empregada por mulheres indígenas para a confecção das vasilhas de barro de que precisavam era a seguinte: primeiro o barro era bem amassado e, em seguida, moldado segundo a forma desejada e o uso a que se destinava; postas a secar, essas peças eram depois pintadas, isso segundo a tradição da tribo.
Devem perguntar, no entanto, os leitores que sabem algo da fabricação de vasos de argila: como eram queimadas as vasilhas? Sim, porque é a queima que dá a elas a durabilidade necessária!
Correto, em seguida vinha a queima. As peças, uma vez secas, eram colocadas sobre pedras, tendo-se o cuidado de, ao redor delas, fazer um monte de cascas de árvores. Punha-se então fogo nas cascas, deixando que se convertessem em brasas, para concluir a queima desejada.
Desse modo, terminava o engenhoso processo, que, com limitados recursos, permitia que se fizessem objetos de barro cuja finalidade, entre outras, podia ser para cozinhar, guardar ou ainda transportar alimentos.
É bom notar, porém, que esse processo se empregava, no Século XVI, entre indígenas do litoral dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, a diversidade de povos indígenas da América era, na época, considerável e, por consequência, era muito grande também a variação de técnicas empregadas por eles nas diversas tarefas diárias.

Cerâmica indígena, de acordo com Debret (²)

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Antropófagos

Em um assunto, pelo menos, os autores do Século XVI que escreveram sobre o Brasil eram unânimes: o de que os povos indígenas que habitavam as proximidades do litoral eram, em sua maioria, consumidores de carne humana. Hans Staden, por exemplo, anotou, no subtítulo de seu livro Zwei Reisen nach Brasilien (¹), que fazia a "descrição de uma terra de selvagens, comedores de carne humana". Outros autores seguiam aproximadamente o mesmo caminho, apontando o costume que tinham muitos grupos nativos de, ritualmente, abater e devorar os inimigos que haviam derrotado em uma guerra.

Indígenas abatendo prisioneiro (²)

Pois bem, senhores leitores, vou apresentar-lhes, hoje, aquela que tenho como a mais saborosa (Ai! nada de trocadilhos...) das histórias que já li, envolvendo a questão da antropofagia. Vem ela relatada pelo Padre Simão de Vasconcelos, em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, que foi escrita no Século XVII e, portanto, já um pouco distante, no tempo, do acontecimento narrado. Porém, esse autor afirmava ter-se servido de anotações manuscritas deixadas pelo Padre José de Anchieta, esse sim personagem de destaque do décimo sexto século.
Sem mais delongas, vamos à história.
Um padre jesuíta, em sua missão de catequese, chegou a uma aldeia indígena, onde encontrou uma vovó muitíssimo idosa, que reputou, pela fragilidade, estar já à beira da morte. Ora, eram os padres muito cautelosos em ministrar o batismo, mas em tais situações, in extremis, costumavam fazê-lo, tendo em vista o que entendiam ser para a salvação da alma de um catecúmeno, e desde que pudessem prepará-lo devidamente quanto às "coisas da fé". Portanto, pôs-se o padre a doutrinar a dita senhora, segundo julgava que fosse capaz de compreender, e ela parecia em tudo atender e concordar plenamente.
Animou-se com isso o missionário e, supondo que melhor faria sua tarefa se pudesse dar, ao lado do espiritual, algum conforto material à velhinha, perguntou-lhe se não desejava tomar algum alimento, para que pudesse estar um pouco mais forte.
Segue agora a narrativa de Simão de Vasconcelos:
"- Minha avó (assim chamam às que são muito velhas) se eu vos dera agora um pequeno açúcar, ou outro bocado de conforto de lá das nossas partes do mar, não o comeríeis?
Respondeu a velha, catequizada já:
- Meu neto, nenhuma coisa da vida desejo, tudo já me aborrece, só uma coisa me pudera abrir agora o fastio: se eu tivera uma mãozinha de um rapaz tapuia de pouca idade, tenrinha, e lhe chupara aqueles ossinhos, então me parece tomara algum alento; porém eu (coitada de mim), não tenho quem me vá flechar a um destes." (³)
Como veem os meus leitores, o problema não era exatamente falta de apetite!...

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 33.


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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tatus

Pra falar a verdade, acho repugnante a mania de ver os animais simplesmente como recurso para as panelas, mas é preciso admitir que, à vista dos colonizadores europeus que vieram viver no Brasil, era importante e até indispensável um conhecimento de que coisas eram "comestíveis", já que a sobrevivência na América dependia, ao menos em parte, desse saber. Nisso, os povos indígenas do Brasil eram excelentes mestres, dominando, com igual eficiência, diferentes métodos de caça. E, a crermos no que escreveram autores dos séculos XVI e XVII, a mais apreciada dessas refeições ambulantes eram os tatus.
Tatu ("Dattu"), de acordo com Hans Staden (¹)
Hans Staden, o aventureiro alemão que andou pela América do Sul por meados do século XVI (¹), referiu-se ao "Dattu", animalzinho dotado de uma armadura que em tudo lembrava aquelas usadas por guerreiros medievais, com uma couraça que lhe cobria as costas, firme e resistente como um chifre. Deixou bem claro que havia provado sua carne muitas vezes.
Também Pero de Magalhães Gândavo, que queria incentivar a vinda de portugueses ao Brasil, observou:

Tatu-Galinha (Dasypus novemcinctus) (⁵)
"Uns bichos há nesta terra que também se comem e se têm pela melhor caça que há no mato. Chamam-lhes tatus, são tamanhos como coelhos e têm um casco à maneira da lagosta como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas; parecem totalmente um cavalo armado, têm um rabo do mesmo casco comprido, o focinho é como de leitão, e não botam mais fora do casco que a cabeça, têm as pernas baixas e criam-se em covas, a carne deles tem o sabor quase como de galinha. Esta caça é muito estimada na terra." (²)

Tatu-Peba (Euphractus sexcinctus) (⁵)
Finalmente, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³), observou:
"Há tatus, a que os espanhóis chamam armadillos, porque são cobertos de uma concha não inteiriça como a das tartarugas, mas de peças a modo de lâminas, e sua carne assada é como de galinha."
Notaram, senhores leitores, quantas comparações?
Concha semelhante a armadura, casco de tartaruga, como lagosta, focinho de leitão, semelhante a cavalo armado, carne como a de galinha... É que diante da surpreendente diversidade natural da América, os autores viam-se às voltas com palavras que pareciam por vezes insuficientes para uma descrição acurada, daí a necessidade de apontar similaridades, que dessem à gente da Europa alguma ideia daquilo que se queria descrever. Em alguns casos, só mesmo um bom desenho para ajudar, como é o caso deste que aparece na Historia naturalis Brasiliae, de Willen Piso e Georg Markgraf:

Tatu, de acordo com a Historia naturalis Brasiliae (Piso e Markgraf) (⁴)
 
(1) Hans Staden escapou, por muito pouco, de também ele virar refeição. Veja-se: STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 61 e 62.
(3) O manuscrito foi concluído por volta de 1627.
(4) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 231. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) Os tatus fotografados para esta postagem pertencem ao acervo do Museu de História Natural de Itapira - SP (tatu-galinha) e do Museu do Eucalipto, em Rio Claro - SP (tatu-peba), este último novamente aberto ao público, depois de um longo tempo fechado. Se puder, visite!


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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Como os tupinambás cortavam os cabelos, segundo Hans Staden

Os portugueses que vieram ao Brasil em 1500, na esquadra de Pedro Álvares Cabral, observaram que os indígenas tinham os cabelos devidamente cortados, conforme relatou Pero Vaz de Caminha:
"Todos andam rapados até por cima das orelhas, e assim mesmo de sobrancelhas e pestanas."
O tempo e o contato cada vez mais frequente entre colonizadores e povos indígenas acabaria revelando aos primeiros que havia muitos tipos de cortes diferentes para os cabelos, que constituíam verdadeira tradição tribal, praticada segundo costumes muito antigos.
Podem, no entanto, perguntar alguns de meus leitores, que talvez já tenham visto neste blog postagens relativas ao escambo entre portugueses e índios: Se os índios só começaram a usar tesouras ao trocá-las por mercadorias que forneciam aos portugueses, como é que podiam cortar tão bem os cabelos?

Corte de cabelos dos tupinambás, de acordo com Hans Staden (¹)

Hans Staden (²), que absolutamente contra a vontade permaneceu algum tempo entre os tupinambás, levantou a mesma questão (vale lembrar que esses tupinambás tinham por hábito um corte de cabelo que lembrava um pouco a tonsura dos frades). Foi-lhe explicado que uma concha de pedra servia de molde para o corte, enquanto que uma outra pedra cortante era usada para friccionar os cabelos até que se partissem. Já a coroa no alto da cabeça era conseguida também com uma pedra, usada para raspar os fios.
É certo, porém, que este método funcionava para os tupinambás. Outros povos empregavam técnicas diferentes, que eram parte de uma rica tradição que, em muitos casos, se perdeu, de modo que hoje pouco sabemos a respeito.

(1) Cf. STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) Ibid.


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terça-feira, 3 de julho de 2012

O uso do algodão pelos tupinambás, de acordo com Hans Staden

Algodão, de acordo
com Debret (*)
Hans Staden, em sua permanência nada voluntária entre os índios tupinambás, observou que seus hospedeiros praticavam o cultivo de alguns vegetais, tais como mandioca e pimenta, além de algodão. A variedade de algodão cultivada era, segundo ele próprio descreveu, arbustiva e ramosa. Podia chegar a ter cerca de dois metros de altura, não havendo erro na interpretação da medida antiga que empregou. Dava botões que, uma vez amadurecidos, se abriam, revelando o branco algodão, preso às sementes.
Em Zwei Reisen nach Brasilien (edição de Marburg, 1557) Staden assevera que os tupinambás, no que se refere ao vestuário, usavam simplesmente pinturas e adornos, principalmente de penas coloridas. Por que motivo, então, davam-se ao trabalho de cultivar algodão?
Isso se explica pelo fato de as fibras de algodão terem outros usos, dentre os quais Hans Staden menciona um: usavam-nas para a fabricação das redes nas quais dormiam.

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 25 de março de 2012

Como os índios do Brasil obtinham fogo

Conta Hans Staden em Zwei Reisen nach Brasilien (¹) ter visto os índios fazendo fogo com o seguinte método: cortavam dois pauzinhos, atritavam-nos, disso desprendia-se um pó que, em resultado do calor do atrito, incendiava-se. No livro que fez publicar, dando notícia das aventuras que vivera na América, há uma ilustração que mostra esse procedimento, e pode ser vista abaixo:

Índio obtendo fogo mediante atrito, segundo Hans Staden

Já o Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta, assim explica o processo de obtenção do fogo pelos índios:
"O fogo tiram de certos paus, um mole e outro duro, que roçam à força um com o outro, e com o movimento concebem calor e com o calor, fogo; e feito isto comem, bebem e dormem contentes." (²)
Vê-se que, em essência, ambos descrevem a mesma coisa - os indígenas obtinham fogo mediante atrito de dois paus.
São esses relatos confiáveis? Neste caso, em particular, não há motivo para duvidar deles, ainda que as explicações, para padrões científicos atuais, deixem algo a desejar. Hans Staden viveu involuntariamente entre os tupinambás (e, por muito pouco, deixou de virar "moquém"), de modo que teve tempo de sobra para observar-lhes os costumes. Já para o Padre Simão de Vasconcelos vale o que se pode dizer, em linhas gerais, dos registros feitos por muitos sacerdotes que, nos primeiros séculos da colonização, "iam ao sertão missionar", como então se dizia - são muito úteis e interessantes porque, a despeito de alguns erros de interpretação do que se via, fruto óbvio do choque de culturas tão diferentes, esses religiosos é que tinham o maior contato com os povos nativos, buscando aprender seus costumes e língua para melhor comunicar-lhes os ensinos que entendiam ser seu dever transmitir. Podiam revestir seus relatos de um preconceito do qual talvez nem estivessem conscientes, mas não se contavam, por suposto, entre os que viam os índios apenas com um obstáculo à exploração e ocupação do território, obstáculo esse que, quanto antes fosse suprimido, melhor.
Em suma, e para finalizar, vale para todos os documentos históricos (como são as obras de Hans Staden e do Padre Simão de Vasconcelos) a seguinte consideração: devem ser analisados criticamente, buscando-se, segundo correta metodologia de interpretação, extrair deles toda a informação possível e jamais desconsiderando o contexto em que foram produzidos.
 
(1) De acordo com a edição de Marburg, 1557.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 124.


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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A alimentação dos indígenas do Brasil, segundo Hans Staden

Feito prisioneiro dos índios tupinambás (veja postagem anterior), Hans Staden foi amarrado e levado até a aldeia em que moravam. A partir daí, aguardando uma execução (seguida de antropofagia) que acabou não acontecendo, foi tomando contato com os hábitos de seus captores, hábitos aos quais, por mais estranhos que lhe parecessem, precisava adaptar-se, se queria ter alguma chance de sobrevivência. Posteriormente, ao regressar à Europa, Hans Staden deixou em um livro um registro valioso (¹) sobre as práticas quotidianas dos nativos, incluindo, naturalmente, o que se referia à alimentação.
Cabe aqui, antes de dar prosseguimento ao assunto, fazer uma observação importante: o Brasil tinha e tem uma grande diversidade de povos indígenas e, por conseguinte, de acordo com a região em que se estabeleceram, há também variação de tradições. Por isso, o que se dirá refere-se especificamente aos costumes dos indígenas do litoral brasileiro, em particular os que habitavam, no século XVI, o que hoje são os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, embora alguns de seus hábitos fossem partilhados com outros povos do interior. Isto estabelecido, vejamos o que registrou o famoso prisioneiro.
Na mesma hora em que chegava pela primeira vez à aldeia, Hans Staden viu as mulheres trabalhando em uma plantação, da qual colhiam as raízes - era a mandioca, conforme os leitores já devem ter imaginado e, pelo que se infere do relato, consistia no principal artigo cultivado para alimentação. Outros alimentos provinham da caça e da pesca, razão pela qual os indígenas, ao saírem às matas, iam sempre armados de seus arcos e flechas, sendo extremamente habilidosos em seu manejo, de modo que um animal, uma vez avistado, dificilmente lhes escapava.
Pescaria indígena com arco e flecha, gravura da
obra de Hans Staden Zwei Reisen nach Brasilien
Já a pesca podia seguir dois métodos distintos, um com arco e flechas, outro com rede. No primeiro caso, pescava-se à beira-mar (o que nos informa, discretamente, sobre a quantidade de peixe ali existente na época) e, sendo um peixe asseteado, o índio mergulhava em seu encalço, até trazê-lo à superfície. A pesca com rede, no entanto, era comunitária: entravam na água, formando um círculo e fazendo movimentos de modo que os peixes acabassem dentro da rede. Vale salientar que, nesse caso, o produto da pescaria era repartido entre todos os participantes, igualmente.
Quanto ao preparo dos alimentos, Hans Staden refere que as mulheres cozinhavam carne ou peixe e temperavam com pimenta verde e, desses ingredientes, faziam mingaus (²). Registre-se aqui que esse não era o único tipo de mingau que faziam. Para conservar a mandioca ou o peixe por mais tempo, assegurando um suprimento de comida para tempos de escassez ou mesmo para viagens, como as que se faziam em tempo de guerra, era usual a preparação de farinha, além de já conhecerem uma técnica para defumar: carne e/ou peixe, fixados em varas, eram colocados sobre fogueiras, aí permanecendo para receber tanta fumaça quanto possível, até que secassem. Posteriormente, quando desejavam consumir o que fora defumado, colocava-se em água para ferver.
Eis aqui uma síntese do que Hans Staden observou em seus dias como prisioneiro. É claro que poderíamos incluir na dieta indígena os frutos que eram coletados nas matas, mas isso era algo de que se serviam apenas na estação apropriada de maturação de cada espécie.

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) Veja, sobre isso, a postagem: "Uma receita inusitada de mingau".


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domingo, 27 de novembro de 2011

De que se alimentavam os colonizadores recém-chegados e os náufragos no Brasil

Depois de semanas ou meses no mar, os colonizadores finalmente chegavam às terras do Brasil. O que os esperava? Certamente não uma boa acolhida em uma estalagem confortável (lembre-se, era o século XVI) e, dependendo da localidade e da ocasião, não havia nem mesmo um teto sob o qual descansarem. A embarcação, para que não encalhasse, ficava a uma boa distância no mar, enquanto os novos colonos eram levados à praia em batéis. Com sorte, encontrariam água, frutos e caça. As primeiras povoações demoraram a desenvolver-se e, por isso, quem vinha ao Brasil, fosse de livre vontade ou em virtude de uma sentença de degredo, já sabia que os primeiros tempos seriam muito difíceis.
Se, em lugar de um desembarque, a chegada à costa era consequência de um naufrágio, a situação podia ser ainda pior. O colono que desembarcava podia trazer consigo alguns pertences, ferramentas e mesmo alguns suprimentos; já os náufragos, estavam longe de ter essa possibilidade, ainda que, em alguns casos, conseguissem salvar alguma coisa da embarcação perdida.
Temos, a respeito, o testemunho de Hans Staden (¹) e, como ele, muitos outros que não eram portugueses devem ter vindo parar na costa da América (²). Conta-nos que, estando em uma embarcação espanhola para a qual fora contratado como artilheiro, chegaram, segundo registro do piloto, a 28º Sul, o que nos indica estarem no litoral de Santa Catarina, tendo desembarcado em uma ilha (seria a de mesmo nome?). Ali, depois de fazerem fogo, derrubaram uma palmeira, da qual tiraram o palmito, que era uma novidade para muitos europeus e do qual, nos registros da época, encontramos descrições atribuindo-lhe os mais variados sabores.
A situação desses navegantes, entretanto, piorou, de modo que, nos cerca de dois anos e meio que ali permaneceram, foram obrigados a alimentar-se de coisas que lhes pareciam abomináveis: ratos silvestres, lagartos, mariscos, enfim, aquilo que encontravam, mesmo porque, ainda segundo o relato de Hans Staden, os índios, que inicialmente tinham "cooperado", deixaram de fazê-lo e desapareceram quando as poucas mercadorias que tinham para escambo acabaram. Melhor situação encontraram em outra ilha onde havia uma grande colônia de alcatrazes que, conta-nos, eram fáceis de capturar. Com isso, tiveram carne e ovos.
Finalmente, conseguiram sair dali, mas naufragaram próximo a São Vicente e o nosso informante acabou contratado para trabalhar na defesa da área ocupada por portugueses, fato que lhe resultaria em terríveis problemas, ao ser capturado por tupinambás. Mas é desse tempo no qual serviu na fortaleza lusitana que deixou uma informação que muito nos interessa, por dar uma ideia do que cabia aos recém-chegados colonizadores em termos de alimentação. Mencionando ter um escravo carijó que lhe trazia caça, Staden conta que, no Brasil, não havia muito mais alimento senão aquilo que se achava no mato. É fácil compreender que o confronto permanente com os nativos dificultava, senão impedia completamente, o estabelecimento de lavouras que, afinal, nem poderiam mesmo ser muito extensas, na estreita faixa de terra existente entre o Oceano Atlântico e a Serra do Mar.

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.


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domingo, 20 de novembro de 2011

Mercadorias que eram contrabandeadas do norte da África no Século XVI

Quem acha que o Tratado de Tordesilhas resolveu todas as questões sobre a posse de terras descobertas por navegadores a serviço de Espanha e Portugal está certamente enganado. Nem sequer havia certeza sobre o ponto de onde deveriam ser contadas as terras de um e outro reino e, em consequência disso, o comércio e mais atividades que se empreendiam por via marítima no século XVI eram, em grande parte, regidos pela lei daquele que, em dada circunstância, estivesse em maior número e com melhores armas.
Na edição de Marburg de
Zwei Reisen nach Brasilien 
esta gravura
ilustra o episódio da captura do

navio contrabandista no norte da África
Há um episódio relatado por Hans Staden (*) que ilustra bem este ponto. Conta que, tendo iniciado sua primeira viagem a partir de Lisboa, foram, ele e os demais de seu navio, inicialmente ao arquipélago da Madeira e, depois, à costa da África. Cabe aqui explicar que o alemão havia se alistado como artilheiro em uma embarcação portuguesa que devia reprimir o comércio de não-portugueses com os mouros do norte da África, além do contrabando, principalmente de pau-brasil, por parte de navios franceses que vinham à América.
Pois bem, foi no norte da África que encontraram um navio a fazer comércio com os chamados mouros e, tendo-o abordado, puseram em fuga os tripulantes, assim como os mouros que, de terra, queriam defender seus parceiros de negócios. Constatou-se então que os proprietários da embarcação "contrabandista" eram, ao menos em parte, de origem espanhola. O que mais nos interessa, porém, é a lista apresentada por Hans Staden das mercadorias que levavam, o que serve para nos dar uma excelente ideia quanto a que coisas eram consideradas valiosas o bastante nesse tempo para que se corresse o risco de um confronto que poria tudo a perder, como aliás, ocorreu neste caso.
Menciona ele que o navio capturado transportava tâmaras, amêndoas, goma arábica, couros de cabra e açúcar, carga que foi deixada na Ilha da Madeira enquanto o navio português, no qual Hans Staden era artilheiro, seguia viagem rumo ao Brasil, não porque se quisesse, mas porque, como ele próprio diz, um vento muito forte, que soprou à noite pela véspera de Todos os Santos (que é 1º de novembro), os empurrou, levando-os rumo a Pernambuco. Terrível a situação desses navegadores do século XVI, quando apenas se sabia aonde se queria ir, sem nunca ter certeza de onde de fato se ia chegar.

(*) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.


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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 6): A capivara

"O sol deitou-se, e de novo se levantou no céu. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquela parte da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada como a capivara, a gente de Tupã chamava Ibiapina."
                                                                                                                          José de Alencar, Iracema

Hans Staden descreveu a capivara como sendo um animal que podia viver tanto na água como sobre a terra. Tinha, segundo ele, o tamanho superior ao dos cordeiros, a cabeça parecida com a de uma lebre e orelhas curtas, pernas altas proporcionalmente ao corpo, pelo escuro, três unhas em cada uma das patas e, ressaltava, a carne semelhante à de porco. É recorrente, em diversos autores, a visão dos animais meramente como caça, para alimentação, fato a que já me referi nas postagens anteriores.

Capivara pastando à margem de um lago

Compelido a viajar pela rota das monções em 1751, o Conde de Azambuja, D. Antônio Rolim, deixou anotada uma observação sobre a caça às margens do Tietê:
"De caça de pele neste rio só pacas e capivaras. As primeiras são do tamanho de um leitão, com os pés curtos, o pelo como de cão pardo-escuro. Das outras o feitio é de rato, principalmente o da cabeça; o pelo na aspereza é de porco, mas pardo; são do tamanho de um marrão, e o gosto não é bom; a paca sim é mui gostosa." (¹)
Os leitores podem recordar-se de que, em postagens anteriores desta série, outros viajantes relataram uma diversidade bem mais significativa de animais "caçáveis" às margens do mesmo Tietê. O que teria ocorrido em tão breve intervalo de tempo, fazendo com que os animais desaparecessem? Talvez seja possível aplicar também neste caso as palavras do Padre Ayres de Casal, ao referir-se à desaparição de aves chamadas guarás no Maranhão:
"As espingardas têm feito maior destruição nestes viventes em três séculos do que as taquaras dos indígenas em toda a antiguidade." (²)

(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, pp. 201 e 202.
(2) Corografia Brasílica, vol. 2, 1817, p. 263.


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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 3): Histórias de onça

"Era uma onça enorme, que com as garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e os pés quase suspensos num galho superior, encolhia o corpo, preparando o seu salto gigantesco."
                                                                                                                                            José de Alencar, O Guarani

"Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E d'araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando."
Castro Alves, A Cachoeira de Paulo Afonso


Depois de ter ficado entendido, pela postagem anterior, que por muito tempo onças-pintadas e onças-pardas foram chamadas, respectivamente, de tigres e leões, chegou a hora de verificar que relacionamento houve entre humanos e esses felinos, o que significa dizer que, pelos documentos de que dispomos, a caça devia ser recíproca. As onças tinham, pelo menos, a vantagem de não serem vistas como especialidade culinária, o que já era muito, em tempos nos quais, na Europa, caçar era frequentemente um privilégio para nobres e monarcas e, por isso, a gente comum, uma vez chegada ao Brasil, lançava-se a perseguir os animais, desfrutando de um "esporte" que pode até parecer sanguinário aos nossos olhos, mas que era considerado "coisa de homem" naqueles tempos.
Na obra de Hans Staden, vê-se, em terra, um
animal que deve ser uma onça-pintada
Uma gravura que aparece na edição de Marburg da obra de Hans Staden, Zwei Reisen nach Brasilien (¹), mostra dois animais em terra, aparentando, um deles, ser uma onça-pintada; ainda do século XVI temos, de Pêro de Magalhães Gândavo (²), este relato:
"Os bichos mais feros e mais danosos que há na terra são tigres, e estes animais são deles tamanhos como bezerros, vão-se aos currais do gado dos moradores e matam muito dele e são tão feros e forçosos que uma mão que lançam a uma vitela ou novilho lhe fazem botar os miolos fora e levam-no arrastado para o mato. Também pela terra dentro matam e comem alguns índios quando se acham famintos. Sobem pelas árvores como gatos, e dali espreitam a caça que por baixo passa e remetem de salto a ela, e desta maneira não lhes escapa nada: alguns destes animais matam em fojos os moradores da terra."
Já dá para "sentir o clima" em relação às onças, não é? Veja-se então esta outra referência, agora de Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³):
"Há também muita diversidade de animais nocivos, que se não comem, como são onças, ou tigres, que matam touros, e se estão famintos acometerão um exército, mas se estão fartos, não só não ofendem a alguém, mas nem ainda se defendem e se deixam matar facilmente."
Bandeirantes e monçoeiros tiveram também seus encontros (e desencontros) com essas feras do Brasil. Uma bandeira metida a apresar índios das missões, obrigada a retroceder, acabou dispersa, como se disse na época, "para maior regalo de tigres e jaguares". Além disso, o Capitão João Antônio Cabral Camello, escrevendo em 1727 sobre a rota das monções, assinalou:
"Este Rio dos Porrudos não cede ao Paraguai na abundância de peixe [...], e nele não faltam onças, que têm feito algumas mortes." (⁴)
Caça à onça, de acordo com Rugendas (⁷)
Um ano antes (em 1726, portanto), durante a monção que levou a Cuiabá o governador Dom Rodrigo César de Meneses, um cozinheiro se extraviou da tropa, fazendo o secretário, a respeito disso, este relato:
"João Francisco cozinheiro de S. Exª que saltando em terra a buscar uma faca que lhe tinha esquecido com tenção a pé seguindo pela margem do rio a canoa até o sítio, onde pousasse a tropa, não apareceu até o presente e se entende que ou se perdeu no mato, ou foi pasto de alguma onça." (⁵)
Ainda mais uma aventura de onças caçadoras - dessa vez quem conta é Saint-Hilaire, em suas andanças pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (⁶):
"...Matias veio dizer-nos que acabavam de encontrar quatro tigres, dois grandes e dois pequenos, que estavam comendo o melhor de meus cavalos. Estivera a persegui-los, mas se embrenharam na mata que margeia o lago."
Como se diz, porém, um dia da caça, outro do caçador. Em Corografia Brasílica, obra publicada em 1817, escreveu o Padre Ayres de Casal, ao tratar de uma localidade na então província de Mato Grosso:
"Defronte está a Real Fazenda da Cahyssara, onde se cria numeroso gado vacum e também cavalar, e onde se tem morto grande número de tigres."
Se, no entanto, restar alguma dúvida de que, além de exímias caçadoras, as onças eram também frequentemente caçadas, fosse pela belíssima pele (das onças-pintadas, particularmente) ou porque atacavam o gado (qualquer onça...), basta observar as gravuras que deixaram artistas que estiveram no Brasil no século XIX, tais como Debret e Rugendas, que podem ser vistas como ilustrações desta postagem.

Caça à onça-pintada, Debret (⁸)

(1) Duas Viagens ao Brasil, c. 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Tratado da Terra do Brasil.
(3) Obra provavelmente concluída durante a década de 20 do século XVII.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 132.
(5) Ibid., p. 117.
(6) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 293.
O registro data de 1821.
(7) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. 
Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(8) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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