quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tatus

Pra falar a verdade, acho repugnante a mania de ver os animais simplesmente como recurso para as panelas, mas é preciso admitir que, à vista dos colonizadores europeus que vieram viver no Brasil, era importante e até indispensável um conhecimento de que coisas eram "comestíveis", já que a sobrevivência na América dependia, ao menos em parte, desse saber. Nisso, os povos indígenas do Brasil eram excelentes mestres, dominando, com igual eficiência, diferentes métodos de caça. E, a crermos no que escreveram autores dos séculos XVI e XVII, a mais apreciada dessas refeições ambulantes eram os tatus.
Tatu ("Dattu"), de acordo com Hans Staden (*)
Hans Staden, o aventureiro alemão que andou pela América do Sul por meados do século XVI (*), referiu-se ao "Dattu", animalzinho dotado de uma armadura que em tudo lembrava aquelas usadas por guerreiros medievais, com uma couraça que lhe cobria as costas, firme e resistente como um chifre. Deixou bem claro que havia provado sua carne muitas vezes.
Também Pero de Magalhães Gândavo, que queria incentivar a vinda de portugueses ao Brasil, observou:

Tatu-Galinha (Dasypus novemcinctus) *****










"Uns bichos há nesta terra que também se comem e se têm pela melhor caça que há no mato. Chamam-lhes tatus, são tamanhos como coelhos e têm um casco à maneira da lagosta como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas; parecem totalmente um cavalo armado, têm um rabo do mesmo casco comprido, o focinho é como de leitão, e não botam mais fora do casco que a cabeça, têm as pernas baixas e criam-se em covas, a carne deles tem o sabor quase como de galinha. Esta caça é muito estimada na terra." (**)

Tatu-Peba (Euphractus sexcinctus) *****
Finalmente, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (***), observou:
"Há tatus, a que os espanhóis chamam armadillos, porque são cobertos de uma concha não inteiriça como a das tartarugas, mas de peças a modo de lâminas, e sua carne assada é como de galinha."
Notaram, senhores leitores, quantas comparações?
Concha semelhante a armadura, casco de tartaruga, como lagosta, focinho de leitão, semelhante a cavalo armado, carne como a de galinha... É que diante da surpreendente diversidade natural da América, os autores viam-se às voltas com palavras que pareciam por vezes insuficientes para uma descrição acurada, daí a necessidade de apontar similaridades, que dessem à gente da Europa alguma ideia daquilo que se queria descrever. Em alguns casos, só mesmo um bom desenho para ajudar, como é o caso deste que aparece na Historia naturalis Brasiliae, de Willen Piso e Georg Markgraf:

Tatu, de acordo com a Historia naturalis Brasiliae (Piso e Markgraf)
 
(*) Hans Staden escapou, por muito pouco, de também ele virar refeição. Veja-se:
STADEN, Hans Zwei Reisen nach Brasilien
Marburg: 1557
(**) GÂNDAVO, Pero de Magalhães Tratado da Terra do Brasil
Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 61 e 62
(***) mss, c. 1627.
(****) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg Historia naturalis Brasiliae
Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 231
(*****) Os tatus fotografados para esta postagem pertencem ao acervo do Museu de História Natural de Itapira - SP (tatu-galinha) e do Museu do Eucalipto, em Rio Claro - SP (tatu-peba), este último novamente aberto ao público, depois de um longo tempo fechado. Se puder, visite!


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