domingo, 5 de maio de 2013

Músicos em São Paulo no Período Colonial - Parte 1

Não foram poucos os autores que, descrevendo os paulistas do Período Colonial, transmitiram as mais desfavoráveis impressões. Gente sanguinária, ávida por aprisionar escravos, rebelde às ordens de governantes coloniais e mesmo àquelas vindas expressamente da Metrópole lusitana, tendo por diversão procurar ouro e meter-se em brigas, emboscadas e mais atrocidades. Ufa!
Pedro Taques de Almeida Paes Leme, ele próprio de família paulista já bem arraigada, tentou mostrar que essas impressões negativas eram pura difamação. Pode, no entanto, não ter sido tão feliz em provar a origem nobre da gente de São Paulo (*), mas deixou relatos que nos propiciam uma visão da vida diária que levavam os aventureiros que, transpondo o terrível Caminho do Mar, acabavam por estabelecer-se no Planalto, longe por topografia, senão por distância, do controle que Portugal tentava, ainda que muitas vezes em vão, exercer na Colônia.
Assim é que a Nobiliarchia Paulistana, ao lado de intermináveis (e, às vezes, contraditórias) genealogias, nos informa que paulistas, além de caçadores de índios e incitadores de rebeliões, podiam eventualmente, ser também bons músicos, quer para cantar, quer para tocar instrumentos. Sim, é isso mesmo!
Diz-nos Pedro Taques que "Ana Maria da Cunha foi casada com (...) o capitão João Vaz dos Reis, natural de Mogi das Cruzes e cidadão de São Paulo. (...) E teve sete filhos nascidos em São Paulo". Um desses sete filhos era o "padre Belchior Vaz dos Reis, clérigo de São Pedro, que foi muito estimado pela excelência da voz para missas cantadas."
Não se deve esquecer, aqui, que as missas cantadas eram acontecimentos especiais, celebradas em ocasiões festivas, para as quais concorria o povo de toda a região, e não apenas quem residia nas imediações da igreja, o que devia contribuir bastante para a fama do religioso que, em tempos de grande devoção popular, acrescentava música às palavras nem sempre bem compreendidas da liturgia em latim. Como se sabe, onde as palavras não são claras, a música pode fazer toda a diferença em inspirar sentimentos devotos.
Outro que deixou de si memória pelas habilidades musicais foi Baltasar Velho de Godoy, sobre quem Pedro Taques anotou:
"Francisca Leme casou com o capitão Baltasar Velho de Godoy, que tange excelentemente harpa, filho de Manoel Velho de Godoy e de sua mulher Estefânia de Quadros (...) e teve dez filhos, naturais de Itu, que casaram em Parnaíba."
O mais notável dos músicos referidos por Pedro Taques foi, no entanto, um pernambucano de nascimento, que, depois de muita travessura, acabou estabelecido em Santana de Parnaíba. Ele será assunto da próxima postagem.

(*) Em geral, os que de fato detinham algum título, eram da pequena nobreza lusitana, sem grandes posses ou terras.


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