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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Multa para quem fugia da cadeia

Corria o ano de 1646, e a cadeia pública da vila de São Paulo, na Capitania de São Vicente, estava, literalmente, caindo aos pedaços. Na ata de vereação ocorrida em 31 de dezembro do mesmo ano, há esta menção honesta até demais: "pela cadeia estar como que está caindo". Nada lisonjeiro para um edifício público que deveria primar pela segurança. 
Ano após ano o mau estado da cadeia era assunto de debate na Câmara da vila. Mas a localidade, nesse tempo, era pobre, e quase não havia dinheiro amoedado em circulação (¹). Pouco mais de um mês antes, precisamente em 21 de novembro de 1646, o ouvidor-geral da Capitania de São Vicente, em correição efetuada como mandavam as leis da monarquia portuguesa, tivera uma ideia luminosa: multar quem fugisse da prisão. Sim, leitores, era exatamente o que rezava a Ata da Câmara:
"proveu mais o dito ouvidor-geral que toda a pessoa que fugir da cadeia será executada em quatro mil réis, sem mais citação nem apelação, aplicados para as obras da cadeia, e que nem por isso deixarão de se livrarem da culpa que cometem da fugida." (²)
Bem, quatro mil réis, em tempos em que quase não havia moeda oficial circulando, era um dinheirão. Mas, para cobrar a dita multa, seria necessário recapturar o fugitivo (³), reconduzi-lo à cadeia, na suposição de que não fugisse novamente. Isto, é claro, se tivesse com que pagar. Aí, sim, era mesmo outra história! 

Para reflexão e debate:


Leitores, estou introduzindo nesta postagem uma questão que gostaria de debater com vocês. A ideia é que escrevam o que pensam no espaço para comentários. Assim, podemos conversar um pouco. Que tal? A questão  é: O que poderia ter levado o ouvidor-geral a imaginar que uma multa para fugitivos seria eficaz em São Paulo?

(1) Nada muito diferente do que acontecia em quase todo o Brasil, pela mesma época.
(2) Ata transcrita na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) Lembrem-se, leitores, de que a vila de São Paulo ficava lá no alto do planalto paulista, longe das cidades "de verdade", não tinha nenhuma organização policial confiável e. portanto, não era difícil, nesse meio de mato, que um fugitivo pudesse muito bem se ocultar em alguma paragem a certa distância, até que as tempestades contra ele serenassem.

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segunda-feira, 11 de março de 2024

Dote de casamento em cabeças de gado

No passado, em muitos lugares, o pretendente a noivo pagava um dote de casamento ao pai da pretendida noiva. No Brasil Colonial, e mesmo no Império, era a noiva que devia ter um dote para poder se casar. Por conta disso, muitas moças que não tinham dote ficavam sem casamento, enquanto havia homens esperando que uma noiva com dote vantajoso aparecesse no caminho, para, como se dizia, "arrumarem a vida". 
Antes que leitores e leitoras comecem a lamentar as injustiças da sociedade (talvez por razões diferentes), temos aqui um caso interessante, ocorrido em São Paulo nos tempos coloniais, quando quase não havia moeda em circulação -  a família da noiva pagou o dote para o casamento em cabeças de gado. Está na Nobiliarchia Paulistana, escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, com o aborrecido estilo próprio das (longas) genealogias dos que se supunham nobres:
"João Pires (filho de Salvador Pires [...]) foi nobre cidadão de S. Paulo, e teve grande voto nas assembleias do governo político, como pessoa de muita autoridade, respeito e veneração. Foi abundante em cabedais com estabelecimento de uma grandiosa fazenda de terras de cultura [...], que lhe foi concedida de sesmaria em 1610 com o seu sertão para a serra de Juqueri. Teve grande cópia de gados vacuns, cavalares e de ovelhas, de sorte que, dotando a nove filhas [...], cada uma levou duzentas cabeças de gado vacum, ovelhas e cavalgaduras. [...]"
Portanto, todo o conjunto pago como dote pelo casamento das nove filhas resultou em mil e oitocentos animais. Nada mal para a época em que isto aconteceu, no Século XVII. Deve ter sido um espetáculo público ver a procissão conduzindo a bicharada para as terras do noivo, a cada novo casamento que se realizava.


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quinta-feira, 22 de junho de 2023

Quantas armas de fogo havia em São Paulo em 1624

No contexto da ocupação da Bahia por holandeses em 1624 (¹), autoridades coloniais ordenaram à Câmara de São Paulo que toda a pólvora existente na vila fosse remetida a Santos, para preparação da defesa, caso houvesse um ataque de holandeses também no litoral da Capitania de São Vicente.
Trabuco colonial - detalhe (²) 
Os camaristas, porém, não tinham a menor intenção de obedecer e, em idas e vindas de correspondência oficial entre São Paulo e Santos, a entrega da pólvora, que se dizia ser de apenas quatro arrobas, foi sendo adiada. Argumentava-se que os moradores do planalto precisavam dela, porque parecia iminente um levante de indígenas, situação em que a pólvora, dizia-se, seria a única garantia para os colonizadores. Mas, afinal, quantas eram as armas de fogo existentes na vila?
Em uma carta enviada a Santos, destinada ao capitão-mor Álvaro Luís do Vale, que governava em nome do Conde de Monsanto, aparece uma informação muito interessante:
"[...] se acordou que a pólvora que há nesta vila e se tem tomado por ser pouca, que não são mais que quatro arrobas, que era bem que se não tirasse da vila, pois nela há passante de duzentas e cinquenta armas de fogo para as quais é bem necessária e não basta para se acudir à ocasião quando se oferecer, além de que há nesta vila muito gentio de que nós podemos temer se queiram aproveitar da ocasião para se levantarem, pois entre ele se trata já, e o dito gentio se não teme mais que das armas de fogo, pelo que se acordou em toda a junta atrás referida que a pólvora se repartisse por todos os moradores desta vila que têm armas de fogo, obrigando-se cada um a dar conta da que se lhe der [...]." (³) 
Passavam, portanto, de duzentas e cinquenta as armas de fogo em mãos dos moradores de São Paulo e adjacências. Eram muitas, se considerarmos que, na época, São Paulo era uma vila de população pouco numerosa, e continuariam a ser muitas, mesmo que admitidos os colonizadores residentes em fazendas nos arredores. Não se desejava entregar a pólvora, porquanto sua utilidade era óbvia quando, mesmo sob severa proibição, eram feitas investidas no sertão para a captura e escravização de indígenas, algo em que muitos paulistas do Século XVII eram peritos.

(1) A ocupação da Bahia durou de 9 de maio de 1624 a 27 de março de 1625 - menos de um ano, portanto.  
(2) Do acervo do Museu da Mina de Ouro, Araçariguama - SP.
(3) O trecho citado da carta ao capitão-mor foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.  


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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Traição no escambo com os índios carijós

Colonizadores europeus e indígenas do Brasil, quando viviam em boa paz, praticavam o escambo, ou troca de mercadorias. Essas mercadorias eram chamadas "resgates", porque se dizia que quem ia ao sertão para tal comércio "ia resgatar". 
O escambo parecia interessante para ambas as partes. Aos indígenas, oferecia a possibilidade da aquisição de ferramentas mais eficientes que as suas, tradicionalmente feitas de pedra, além de objetos de adorno e outras quinquilharias. Aos colonizadores, era um recurso para a obtenção de madeiras, alguns alimentos e objetos de artesanato indígena, como redes, por exemplo. As trocas corriam bem quando nenhuma das partes se sentia lesada, ainda que, como se sabe, as ferramentas oferecidas para resgates - machados, facas, tesouras - nem sempre fossem de boa qualidade, e as roupas - camisas, calções, carapuças - não primassem pela excelência.
No entanto, um episódio relatado pelo jesuíta Simão de Vasconcelos em Vida do Padre João de Almeida mostra bem que, não satisfeitos em fazer as trocas, alguns moradores de Santos, uma das povoações coloniais mais antigas, tiveram a ideia de enganar carijós, indígenas que eram da chamada "região dos Patos", acessível por mar, ao sul da Capitania de São Vicente. Escreveu Simão de Vasconcelos:
"Partindo de Santos certos mancebos [...], chegaram ao porto dos Patos com sua embarcação, a título de seus resgates [...], e antes que corressem os índios ao contrato, trataram este estratagema: pregaram os caixões dos resgates no porão, debaixo da escotilha, de tal maneira que não pudessem ser abalados; vinham os simples, fora de tal engano, e desejosos da mercadoria, concorriam a bandos; os mancebos os mandavam abaixo a carregar os caixões para cima, e como eles estavam fortemente pregados, não podiam os índios abalá-los; chamavam mais e mais companheiros, e quanto mais resistência viam nos caixões, tanto mais entravam, sem receio algum e desacautelados, mas os enganadores sagazes, em vendo a embarcação que estava cheia, deram à vela, fechando as escotilhas, e levaram consigo índios e resgates. [...]." (¹)
É óbvio que o acontecimento não passou despercebido aos carijós que não tinham entrado na embarcação. Nas palavras de Vasconcelos, "[...] bramiam de raiva os que ficavam em terra, vendo a traição, e sentidos da perda e apartamento dos parentes, maridos e filhos, batendo logo os arcos, apregoaram guerra" (²). Por outro lado, pode-se imaginar o rebuliço em Santos, quando, de retorno a embarcação, saltaram em terra os seus ocupantes e deram notícia do que haviam feito. Continua Simão de Vasconcelos:
"Chegaram ao porto de Santos os capitães de tão ilustre feito, e sabido ele, acudiram os padres da Companhia (³), estranhando caso tão enorme; e como era o capitão daquela Capitania por nome Jerônimo Leitão, homem nobre e temente a Deus, repreendeu como devia o latrocínio [sic], e enviou por embaixadores dois dos nossos padres, chamados, um, o padre Agostinho de Matos, e outro, o padre Custódio Pires, aos quais fez entregar os índios com recado seu para os principais (⁴), de como estranhara o caso e o castigara, e fazia restituição e queria continuar as pazes com eles." (⁵)
Duas observações são aqui necessárias. A primeira é relativa a Jerônimo Leitão, o capitão-mor. Nobreza e religiosidade talvez não fossem preponderantes na decisão de devolver os cativos à sua gente. Mais importava, naquela hora, manter o bom relacionamento com os carijós, já que a Capitania de São Vicente vivia às turras com seus vizinhos indígenas, e mais um conflito não era exatamente uma coisa desejável. A segunda questão tem a ver com a atuação dos jesuítas no caso. Por que o padre Simão de Vasconcelos teria trabalho em contar o incidente, não fora para encarecer a atuação de seus irmãos de Ordem? Por outro lado, é sabido o quanto jesuítas se empenhavam pela liberdade dos povos indígenas que haviam catequizado ou que tinham a intenção de ainda catequizar. Nenhuma surpresa, portanto, que entrassem no caso, pressionando, talvez, o capitão-mor a agir. 
Como, afinal, acabou tudo isso? Vamos novamente às palavras de Simão de Vasconcelos:
"[...] Fizeram os padres sua embaixada, e aquietaram os índios por sua língua, de tal maneira que suspenderam os arcos, abrandaram sua ira e abraçando os padres prometeram paz e boa amizade, continuando os resgates e trato com os portugueses. [...]" (⁶)

(1) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, pp. 121 e 122.
(2) Ibid., p. 122.
(3) Referência aos jesuítas.
(4) Líderes tribais dos carijós.
(5) VASCONCELOS, Simão de S. J. Op. cit., p. 122.
(6) Ibid.


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Conquistas dos bandeirantes paulistas

Bandeirantes paulistas eram corajosos, ousados, chegavam às bordas da temeridade. Em sua obsessão exploratória, suportavam cansaço, fome, falta de vestuário adequado. Como resultado de suas aventuras, encontraram jazidas minerais valiosas, embora quase ninguém deles chegasse, de fato, a enriquecer com isso. Seu avanço, sertão adentro, reduziu a pó a já fragílima linha de Tordesilhas, e deu ao Brasil uma configuração territorial próxima da que tem hoje. 
Essa gente atrevida, porém, estava longe de formar um panteão de anjos. Se é verdade que entre eles houve notáveis descobridores de ouro, também é sabido que, ainda antes de perscrutar o interior em busca de riquezas minerais, andaram por lá aprisionando indígenas para escravização. Eram peritos nessa "arte", a do "descimento do gentio", como então se dizia, em relação à captura de nativos que vinham suar nas roças dos próprios paulistas, ou, às vezes, eram encaminhados para venda em outros locais, como o Rio de Janeiro, por exemplo.
Abordando a relevância das investidas bandeirantes, Frei Gaspar da Madre de Deus, autor setecentista, escreveu, em suas Memórias Para a História da Capitania de São Vicente:
"Pelo sertão atravessou a animosidade dos paulistas com indizíveis trabalhos os fundos de todas as capitanias brasileiras, em cujos domínios, depois de afugentarem inumeráveis gentios, descobriram as Minas Gerais, as de Goiás, as do Cuiabá e as de Mato Grosso; e como tudo quanto descobriram os valorosos naturais das vilas sujeitas à de São Vicente (¹) se reputava parte desta Capitania, chegou ela a apossar-se de quase todos os fundos dos outros donatários. Eis aqui a razão por que a Capitania de São Vicente noutro tempo possuiu tudo quanto agora abrangem os governos gerais de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Rio de Janeiro, e também os subalternos de Santa Catarina e Rio Grande de S. Pedro." (²)
Esse documento é importante porque permite avaliar como alguém do Século XVIII, um clérigo, interpretava a ação dos sertanistas. Nascido no Brasil, na Capitania de São Vicente, frei Gaspar da Madre de Deus não via qualquer problema em relação à conduta dos bandeirantes para com a população indígena - aliás, poucos admitiam, na época, que podia haver algo errado em "afugentar" nativos, assumindo que indígenas eram um obstáculo ao projeto de colonização. Pretexto para tanto, não faltava: sempre havia o argumento de que era para maior glória da Coroa portuguesa. Mais que isso, na eventualidade de que fossem capturados e escravizados, indígenas seriam, segundo se afirmava, "conduzidos ao grêmio da Igreja". Parecia, afinal, uma causa justa, meritória, até. A passagem do tempo revelou o outro lado da questão. 

(1) Frei Gaspar da Madre de Deus nasceu em São Vicente no ano de 1715.
(2) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias Para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, p. 3.


terça-feira, 22 de maio de 2018

Preparativos na Vila de São Paulo na iminência de um ataque indígena

Corriam os anos da segunda metade do Século XVI. A pequena Vila de São Paulo, encarapitada e isolada no planalto, vivia situação precária, em se tratando da defesa dos colonizadores - seus habitantes - diante do temor de um ataque vindo de povos indígenas. As constantes provocações contra os ameríndios, que incluíam a captura e escravização de muitos deles, suscitavam tentativas de retaliação. Aí, era hora do medo. Sendo improvável qualquer ajuda das povoações litorâneas, competia aos moradores, se zelavam pela própria pele, tomar medidas que possibilitassem a defesa, na eventualidade de uma rija ofensiva dos injuriados nativos.
A leitura das atas da Câmara de São Paulo lavradas nos anos de 1562 e 1563 traz informações que nos permitem classificar as providências defensivas em três aspectos:

1. Conclusão e conservação do muro que rodeava a Vila


"Aos cinco dias do mês de novembro da era de mil e quinhentos e sessenta e dois anos fizeram os oficiais câmara [...] e na dita câmara requereu o procurador do conselho que se acabassem os muros e baluartes e logo pelos ditos oficiais foram repartidos os moradores para os acabarem [...]." De boa ou má vontade, competia aos moradores, que muito provavelmente mandariam ao trabalho os seus "administrados" (¹), a tarefa de concluir as obras no muro da Vila. O que se deduz, então? A localidade era ainda bastante pobre, de modo que não havia recursos públicos para as obras necessárias. Se tinham amor à vida, mesmo os turbulentos residentes em São Paulo precisavam obedecer.
Do ano seguinte, 1563, existe outra ata em que a conclusão do muro é ordenada. No dia primeiro de fevereiro o procurador requereu aos administradores da Vila "que mandassem suas mercês cobrir a guarita que estava por trás do muro e mais acabar e cobrir as cercas e o que for necessário, e requereu mais o dito procurador [...] que mandassem pôr pena a alguns homens que estão de caminho para o mar, que não vão porquanto estamos esperando por guerra [...]".
Informando, de passagem, que "pôr pena" significava, geralmente, ameaçar com multa e prisão, devemos notar, ainda, que em outra ata, desta vez datada de 13 de fevereiro de 1563, o procurador (era Salvador Pires, na ocasião) requereu "que mandassem suas mercês tirar portas que estavam nos muros desta vila [...]". Não era uma menção aos portões "oficiais" que, por razões óbvias, a povoação deveria ter, e sim às portas que, por conveniência, alguns moradores haviam aberto no muro, em lugar próximo às suas casas. Gente indisciplinada!

2. Pedido de pólvora ao capitão-mor de São Vicente, que governava a Capitania em nome do donatário


"Aos seis dias do mês de março da era de mil e quinhentos e sessenta e três anos foram juntos os oficiais da Câmara à casa de Simão Jorge juiz para fazerem câmara e na dita câmara requeriam suas mercês que mandassem pedir pólvora ao capitão para esta vila [...]." Reconhecendo sua inferioridade numérica, os colonizadores tinham consciência de que a única vantagem que poderiam ter diante dos indígenas vinha do uso de armas de fogo. Portanto, acreditando em um ataque iminente à Vila, era preciso assegurar um suprimento de pólvora.

3. Proibição da saída de colonizadores e índios para o sertão


Conforme ata já citada, colonizadores foram advertidos a "não ir ao mar", quer isso significasse uma descida ao litoral, quer fosse referência a cruzar o Atlântico para ir ao Reino; foi também emitida uma ordem para que ninguém que tivesse índios "administrados" pensasse na ideia de mandá-los ao sertão. Lemos nos registros de 26 de junho de 1563 (²):  "[...] por razão que diziam que vinha guerra sobre nós [...] os oficiais acordaram e lhes pareceu bem para o povo, visto a necessidade que temos dos índios e sermos poucos nesta vila [...] que todo homem desta vila e fora dela não leve índio desta vila sem licença da Câmara [...]."

As comunicações, na época, eram difíceis. Não era possível contar com a ajuda de outras povoações, distantes, serra abaixo, pelo malsinado Caminho do Mar. A expectativa de um ataque indígena nascera de informações de índios aliados que, tendo estado no sertão, voltaram relatando os preparativos dos "contrários". Ficamos a imaginar a tensão reinante, muros adentro, entre os habitantes da Vila de São Paulo. Mas em que resultou tudo isso?
A despeito de numerosas escaramuças contra indígenas, ocorridas ao longo dos anos, a teimosa povoação no campo de Piratininga não apenas sobreviveu, mas prosperou. Gerações de mamelucos - assim foram chamados os filhos de pai português e mãe indígena - formaram grande parte das tropas de bandeirantes que atacaram missões, aprisionaram e escravizaram índios, procuraram ouro e, em meio a tantas desordens, fizeram pouco-caso (³) da linha de Tordesilhas, expandindo enormemente o território sob domínio português na América do Sul.

(1) "Índios administrados" era o nome hipócrita que se dava, na época, aos nativos escravizados.
(2) Decorridos mais de seis meses desde a primeira ata citada, o ataque ainda não acontecera. 
(3) Ou nenhum caso...


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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Multa e degredo para quem fosse desobediente às ordens de João Ramalho

Aconteceu em São Paulo, apenas uma pequena vila no ano de 1562. Reuniram-se as autoridades e, desse acontecimento, resultou a nomeação de João Ramalho para o cargo de "capitão para a guerra", conforme o registro em ata: 
"Aos vinte e quatro dias do mês de junho da era de mil e quinhentos e sessenta e dois anos nesta Vila de São Paulo nas casas da morada de Diogo Vaz (¹) vereador se ajuntaram os oficiais da Câmara para darem juramento dos Santos Evangelhos para que bem e verdadeiramente servisse o cargo de capitão da dita Vila a João Ramalho [...]."
Era assim, mediante juramento, com a mão direita sobre o Livro Sagrado, que qualquer indivíduo indicado ao serviço público era admitido às suas funções. Sem isso, nem pensar! Mas já é outro assunto, se a dita cerimônia acabava ou não por garantir um mínimo de decência e honestidade da parte de quem jurava. 
Pois bem, efetivado João Ramalho no cargo, foi passada uma provisão com o seguinte teor, que deveria vir ao conhecimento de toda a população da Vila:
"João Colaço capitão em toda esta capitania de São Vicente pelo senhor Martim Afonso de Sousa (²) capitão e governador dela por el-Rei nosso senhor e faço saber aos que esta minha provisão virem em como por vozes e eleição saiu por capitão para a guerra João Ramalho ao qual eu dou todo meu poder para a guerra [...] e mando que na dita guerra se houver lhe obedeçam em tudo o que necessário for [...] sob pena de qualquer que ao dito João Ramalho não quiser obedecer na dita guerra será preso e da cadeia pagará vinte cruzados e um ano de degredo para a Bertioga [...]."
Tomem fôlego, leitores - as atas desse tempo dificilmente tinham alguma pontuação. Para reduzir o sofrimento, o texto foi transcrito na ortografia atual, como é costume neste blog. Vejam que, malgrado a evidente falta de habilidade do escrivão, o texto segue a linguagem jurídica típica da época. Mas há nele algumas questões intrigantes. Vejamos:
Que guerra era essa, para a qual João Ramalho foi indicado capitão? O documento não diz, mas o isolamento da Vila de São Paulo no Planalto e sua distância em relação ao mar permitem supor que se tratava de alguma rusga com indígenas - algo muito comum, portanto, já que colonizadores queriam ficar na terra e escravizar ameríndios, os quais, por sua vez, não queriam ser escravizados e, como é óbvio, lutavam para, se possível, expulsar os colonizadores.
Outro fato interessante é que, feita a nomeação, seguiu-se uma provisão ameaçando quem ousasse desobedecer ao novo warlord. Não imaginem, leitores, que isso fosse mera formalidade. A vilazinha de São Paulo era palco de frequentes agitações, sendo seus turbulentos moradores os mais talentosos intérpretes de encrencas e desacatos. Que o dissesse o próprio João Ramalho e sua famosa prole!... Como os habitantes da vila eram ainda pouco numerosos, não se admitia que alguém tentasse escapulir ao dever de prestar auxílio em caso de guerra.
Finalmente, notemos que, além de prisão e multa, o eventual desobediente seria condenado a um ano de degredo na Bertioga. O que é que tornava tal lugar um destino indesejável?
Hans Staden, em sua obra Wahrhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschenfresser Leuthen, publicada na Alemanha em 1557, contou que, durante sua segunda viagem à América, foi contratado para trabalhar como artilheiro na Capitania de São Vicente, em um forte ao qual ele, a seu modo, chamou Brickioka. Era a Bertioga da provisão paulistana de 1562. Foi justamente quando exercia essa função que Staden foi capturado por tupinambás e, somente com muita, muitíssima sorte, é que não virou moquém, digo, que não se tornou o mais louvado acepipe de um festim antropofágico. 
O forte da Bertioga não estava lá por acaso. Havia a ameaça constante de piratas e corsários. Havia, em algumas épocas do ano mais que em outras, o risco de um ataque indígena (³). Staden explicou claramente que a gente das redondezas havia decidido construir o forte, dotando-o de canhões, para se defender dos indígenas (⁴). Inicialmente apenas um muro de pau a pique, foi mais tarde reforçado com pedras. Para lá corriam os colonizadores na iminência de uma investida, viesse ela do mar ou de terra. Portanto, viver na Bertioga no Século XVI não era como tirar férias no paraíso. Os moradores de São Paulo devem ter entendido muito bem o recado nada sutil que estava contido na ameaça de degredo.

Neste mapa rústico incluído na obra de Hans Staden (Século XVI),
o forte da Bertioga é mostrado no alto, à direita (⁵) 

(1) A Câmara da Vila de São Paulo não tinha, nessa ocasião, edifício próprio, daí a necessidade de que as reuniões acontecessem na residência de um de seus oficiais.
(2) Estando ausente o donatário da Capitania, competia ao capitão-mor exercer o governo.
(3) De acordo com Hans Staden, era quando havia muito cauim (bebida) disponível que, para maior festa, se fazia a guerra, na certeza de que o banquete seria enriquecido com inimigos capturados.
(4) A segunda viagem de Hans Staden a América ocorreu a partir de 1549, como ele mesmo diz em Wahrhaftige Historia; como a primeira edição de se livro traz dedicatória datada de 1556, sendo a publicação de 1557, entende-se que os acontecimentos relativos à sua permanência no forte de Bertioga e à posterior captura por tupinambás ocorreram, necessariamente, nesse intervalo.
(5) STADEN, Hans. Wahrhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschenfresser Leuthen. Marburg: 1557.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Marmeladas de São Paulo

São Paulo tinha uma produção agropecuária bastante variada em fins do Século XVI


No primeiro século da colonização, São Paulo era mais famosa pelas constantes revoltas e arruaças do que por aquilo que nela se produzia. Paulistas já andavam perscrutando o interior, mas o achado de jazidas auríferas ainda estava distante. As expedições eram, portanto, como regra, organizadas para "descimento do gentio", um eufemismo para aprisionamento de indígenas que seriam escravizados.
Apesar disso (ou, talvez, por causa disso), para padrões coloniais a agricultura tinha razoável desenvolvimento nas terras da Capitania de São Vicente, que hoje integram o Estado de São Paulo. O padre Anchieta escreveu (¹), sobre a região:
"É terra de grandes campos, fertilíssima de muitos pastos e gados, de bois, porcos, cavalos, etc., e abastada de muitos mantimentos. Nela se dão uvas e fazem vinho, marmelo em grande quantidade e se fazem muitas marmeladas, romãs e outras árvores de fruto da terra de Portugal. [...] Se dão rosas, cravinas, lírios brancos." (²)
Anchieta devia saber do que falava, porque não somente viveu em São Paulo de Piratininga, como esteve presente à sua fundação. Ele não foi, porém, o único a falar da produção agrícola e pastoril que havia na Capitania, citando, com entusiasmo, as famosas marmeladas. Gabriel Soares, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587 (³), observou: 
"São os ares frios e temperados [...], cuja terra é mui sadia e de frescas e delgadas águas, em as quais se dá o açúcar muito bem, e se dá trigo e cevada [...]. Criam-se aqui tantos porcos e tamanhos que os esfolam para fazerem botas [...]. Dão-se nesta terra todas as frutas de espinho (⁴) que em Espanha [...]; dão-se [...] uvas, figos, romãs, maçãs e marmelos em muita quantidade, e os moradores da vila de São Paulo têm já muitas vinhas [...]; e também há já nesta terra algumas oliveiras que dão fruto, e muitas rosas, e os marmelos são tantos que os fazem de conservas, e tanta marmelada que a levam a vender por as outras capitanias." (⁵)
É evidente a concordância entre os testemunhos de Anchieta e de Gabriel Soares. Sabendo que Anchieta viveu durante vários anos em São Paulo, e que, mais tarde,  como provincial jesuíta entre 1577 e 1587 residiu em Salvador, é lícito pensar que possa ter sido uma das fontes de informação a que Gabriel Soares recorreu para compor o seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Não parece restar dúvida, porém, de que ambos eram apreciadores das marmeladas de fabricação paulista, ou não seriam tão enfáticos em fazer menção a elas.

(1) O documento atribuído a José de Anchieta tem a data de 1585 e recebeu o título de "Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre".
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 423 e 424.
(3) Vejam, portanto, leitores, que Gabriel Soares escreveu pouco tempo depois de Anchieta haver composto a sua "Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre".
(4) Referência às frutas cítricas.
(5) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 98 e 99.


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sexta-feira, 27 de maio de 2016

As minas de Afonso Sardinha


Um dos lugares, no interior de São Paulo, em que Afonso Sardinha
conduziu a busca por jazidas (³)

É pouco provável que Afonso Sardinha seja nomeado em aulas de História nas escolas de nível fundamental e médio. A maior parte dos leitores, acredito, sequer terá ouvido falar nesse sujeito, mas foi ele, em  fins do Século XVI, que começou a dar forma ao sonho de achar ouro em terras do Brasil. Era, ao que parece, um explorador incansável, e para efetuar descobrimentos teve que percorrer uma parte significativa do território do atual Estado de São Paulo. Embora procurasse metais preciosos, reconhecia a importância, e mesmo a necessidade, de trabalhar ferro para objetos de que os colonos precisavam desesperadamente, porque as magras remessas que anualmente vinham do Reino eram caras e insuficientes, e nesse sentido, seria o primeiro a fazer experiências em uma região na qual muitas outras, em grande parte malogradas, viriam a acontecer em séculos posteriores.
Pedro Taques, na Nobiliarchia Paulistana, dá mais detalhes desse indivíduo notável mas pouco lembrado, descrevendo-o como "o afamado paulista Afonso Sardinha, primeiro descobridor das minas de ouro em todo o Estado do Brasil em São Paulo nas serras de Iaguamimbaba, que agora se chama Mantaguyra, na de Jaraguá, termo de São Paulo, na de Vuturuna, termo da vila de Paranhiba e na de Hybiraçoyaba (¹), termo de Sorocaba." É possível que na pequena São Paulo do Século XVIII Afonso Sardinha fosse ainda lembrado, em vista da menção dele feita por Taques como "afamado paulista". O tempo, porém, lançou o homem em quase absoluto esquecimento.
Engana-se, todavia, quem imagina que suas descobertas de minas foram feitas com alguma ajuda de custo por parte da Coroa, que era, certamente, grande interessada no assunto. Nem Afonso Sardinha e nem os paulistas que vieram depois dele recebiam qualquer adiantamento para a ida ao sertão à procura de jazidas auríferas. As primeiras minas encontradas não eram, de fato, muito promissoras, ainda que apresentassem algum rendimento. 
Sardinha, explorador e minerador, foi também um caçador de índios, o que se infere por testamentos da época, nos quais se mencionavam pessoas que tinham índios "administrados", trazidos a São Paulo em uma expedição feita por ele. Por algum tempo exerceu cargo público, segundo aparece também na Nobiliarchia:
"Afonso Sardinha [...] fez muitos serviços à sua custa à real coroa, não só com os descobrimentos de minas de ouro já no ano de 1590, mas também quando foi capitão da gente de São Paulo para a reger e governar, de que teve patente datada em 20 de abril de 1592 por Jorge Corrêa, moço da câmara, capitão-mor governador e ouvidor da Capitania de São Vicente e São Paulo em qual se vê os muitos e grandes serviços que havia feito a Sua Majestade [...]. Este Afonso Sardinha fez fabricar dois engenhos de ferro, em que se fundia excelente ferro e com muita abundância, dos quais ainda no presente tempo existe no serro de Hybiraçoiaba uma muito grande bigorna, que a todos acusa e recorda a certeza daquela fábrica [...]."

Muro de pedra que talvez servisse para bloquear a passagem da água em uma
área explorada por Afonso Sardinha (³)

Pedro Taques recorda, então, que Afonso Sardinha, descobridor de minas, jamais foi devidamente recompensado por El-Rei:
"Afonso Sardinha contentou-se só com a glória do real serviço, fazendo os descobrimentos dos três metais, ouro prata e ferro, tudo à sua custa. Até os engenhos para se fundir ferro entregou a Sua Majestade."
Consta que, em testamento, Afonso Sardinha deixou à sua mulher todos os bens que tinha, com o desejo expresso de que, após a morte dela, fossem passados para as mãos dos jesuítas (²). Para os padrões da Capitania de São Vicente de seu tempo, ele não era um homem pobre, mas não se pode dizer que sua vida de trabalhos tenha sido largamente recompensada. Pode ter sido o primeiro, mas não foi o único descobridor de minas que jamais recebeu premiação à altura de suas realizações - pouco depois da Independência, o Brigadeiro Cunha Matos, em suas andanças nas proximidades de Corumbá de Goiás, encontrou descendentes de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, vivendo na maior pobreza.

Local provavelmente explorado por Afonso Sardinha em fins do Século XVI (³)

(1) Os leitores não devem estranhar a grafia dos topônimos, em especial se forem de origem indígena. Um mesmo autor escrevia, ora de um jeito, ora de outro (até Pedro Taques fazia isso), porque não havia uma norma estrita a esse respeito.
(2) Legar bens a uma Ordem religiosa era, nesse tempo, uma fato comum: esperava-se que os religiosos beneficiados retribuíssem com missas que, segundo suas crenças, ajudariam a libertar a alma do generoso doador das penas do purgatório.
(3) Considera-se que esse lugar foi um dos muitos explorados por Afonso Sardinha em fins do Século XVI, quando procurava metais preciosos e ferro. Está localizado dentro da área da Floresta Nacional de Ipanema, em Iperó - SP. Em relação às experiências para fundir ferro, é difícil determinar o quanto eram bem-sucedidas. Pedro Taques era, às vezes, um pouco exagerado ao relatar as virtudes e sucessos dos paulistas.


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segunda-feira, 7 de março de 2016

Uso de conchas marinhas por colonizadores na Capitania de São Vicente

Hoje a prática está fora de moda, mas antigamente, quando alguém se propunha a escrever a história do Brasil, tão logo dava sua versão do Descobrimento, passava a gabar as riquezas naturais da terra, suas espécies vegetais muitíssimo curiosas, seus frutos saborosíssimos, e, para coroar tantos elogios, sua fauna variadíssima. Foi assim com Pero de Magalhães Gândavo, com Gabriel Soares, com Frei Vicente do Salvador. Anchieta, em várias de suas cartas, foi pelo mesmo caminho. Já dentro do Século XIX, alguns nomes destacados da historiografia brasileira evitaram romper com essa espécie de tradição multissecular. Não sei, leitores, se é questão para riso ou para choro, mas quem hoje lê suas obras não consegue fugir à incômoda pergunta: se tudo era tão perfeito, como é que as coisas saíram do jeito que são? Porém, a título de consolo, será útil considerar que indagação semelhante poderia ser feita em praticamente qualquer lugar deste planeta.
Mas voltemos ao assunto das glórias naturais do Brasil. Sebastião da Rocha Pita, cuja História da América Portuguesa foi publicada pela primeira vez em 1730, observou que no litoral brasileiro podiam ser encontradas "algumas ostras de tanta grandeza que as conchas delas (como de madrepérola por dentro) servem de pratos de mesa; outras se acharam tão portentosas que serviram de ministrar águas às mãos; e há tradição que indo visitar esta província [Capitania de S. Vicente] o bispo da Bahia D. Pedro Leitão, em uma concha destas lhe lavaram os pés como em bacia." (¹)
Pois bem, como notam os leitores, no trecho citado Rocha Pita estava exaltando as maravilhas da Capitania de São Vicente, e isso a despeito de, segundo as aparências, não demonstrar apreço descomunal por ela e por seus moradores; em boa verdade, porém, é preciso assumir que a ojeriza era recíproca. Autores paulistas não tardaram a apontar defeitos na História da América Portuguesa, até porque nem era preciso observação demasiado apurada para encontrá-los.
Neste caso, entretanto, devemos fazer justiça ao historiador natural da Bahia. Ele não estava mentindo quanto às tais conchas de tamanho avantajado. Elas existiam, mesmo, e ainda existem, embora, como se sabe, só possam ser encontradas em quantidade reduzida, e não com a abundância dos primeiros tempos coloniais. Sua observação quanto ao uso que delas faziam os paulistas é relevante para mostrar que, se faltavam aos colonizadores muitos dos objetos a cujo uso, como europeus, estavam acostumados (²), sobrava em tal gente a perseverança para sobreviver na América, fazendo uso dos recursos que se apresentavam disponíveis.

(1) PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa 2ª ed. Lisboa: Ed. Francisco Arthur da Silva, 1880, p. 65.
(2) Pratos e bacias, neste caso.


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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Pedro Vaz de Barros e a fartura de sua mesa

Hospedagem principesca nos tempos coloniais


Pedro Vaz de Barros, fundador da capela de São Roque, que deu origem à cidade de mesmo nome no Estado de São Paulo,  foi um dos homens mais ricos de seu tempo (segunda metade do Século XVII) - pelo menos é o que assegura a Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de A. Paes Leme. 
De acordo com o mesmo autor, a casa de Pedro Vaz de Barros vivia cheia de visitas. Como verão os leitores, não era para menos. A fim de manter satisfeitos os hóspedes que iam e vinham, era preciso uma cozinha eficiente, e que eficiência era essa! Conta a Nobiliarchia:
"Todos eram agasalhados com grandeza daquela mesa, na qual com muita profusão havia pão e vinho da própria lavoura, e as iguarias eram vitelas, carneiros e porcos, além das caças terrestres e voláteis, das quais os seus caçadores [...] conduziam com fartura, e por isso de tudo havia com abundância, e com tanta prevenção que, a qualquer hora da tarde que chegavam novos hóspedes, estava a mesa pronta, como se para estes fora conservada."
Pedro Taques escreveu a Nobiliarchia quando Pedro Vaz de Barros e seus contemporâneos já eram há muito falecidos, de modo que uma dose de exagero não pode ser descartada nessa história (*), mas os senhores leitores sabem muito bem que, naqueles tempos, não havia hotéis em terras do Brasil, e, por essa razão, era esperado que as pessoas que dispunham de recursos recebessem em casa os viajantes. Não ficava tal prática restrita à Capitania de São Vicente. Podia ser encontrada, por exemplo, nos engenhos de cana do Nordeste. Mas a fartura oferecida à mesa de Pedro Vaz de Barros devia ser pouco usual, ou Pedro Taques não iria falar dela com tanta admiração.
Menciona-se ainda, a respeito de Pedro Vaz de Barros, um detalhe curioso, que remete aos tempos em que, de portas adentro, era a língua indígena que predominava em São Paulo:
"Foi cognominado Grande, chamando-se-lhe assim pelo idioma brasílico: Pedro Vaz Guaçu, que quer dizer grande."
Ah, um outro detalhe, também da Nobiliarchia. Pedro Vaz de Barros, ou Vaz Guaçu, como queiram os leitores, ao contrário da regra geral de seu tempo, nunca se casou. Porém... Porém "teve vários filhos bastardos, havidos em diversas mulheres, que por todos foram nove". Para sua época, até que não foram muitos.

(*) Dizem que "quem conta um conto, acrescenta um ponto"...


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segunda-feira, 9 de março de 2015

Estudar História trazia alívio à surdez de um padre

Acreditem, senhores leitores: no Brasil Colonial, em que a luta pela sobrevivência era prioridade, havia gente que arranjava tempo e disposição para envolver-se com o estudo da História, que, como veremos, podia ter um uso prático no mínimo curioso. Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, menciona, por exemplo, um certo Manuel Leite da Silva, que "foi completo na língua latina, e excelente poeta com grande instrução da História", além, é claro, de Frei Gaspar da Madre de Deus, que não apenas se interessava pelo estudo da História, mas que se dedicou a escrevê-la, razão pela qual é bem conhecido até hoje. E havia, também, o próprio Pedro Taques, assim como vários outros autores, que ele não menciona, ou porque não conhecia, ou porque não eram da sua amada Capitania de São Vicente - era, como se sabe, ele próprio um crítico mordaz da obra de Rocha Pita.
Nada se compara, porém, ao caso do Padre José Ferraz, ituano que, pelas circunstâncias da vida, afeiçoou-se ao estudo da História (¹). Conta Pedro Taques:
"José Ferraz foi jesuíta na província da Bahia, onde tomou a roupeta (²). Este homem foi de marca maior na sutileza com que penetrou a sagrada teologia. As suas letras o elevaram tanto, que caiu no desacordo de se constituir soberbo e ingrato ao doce leite com que se criara na Companhia, porque faltando-se-lhe com a cadeira de teologia na Bahia, para logo entrou a abandonar aquela retidão de justiça distributiva com que esta religião costuma praticar os seus preceitos com os súditos, publicando que com ele se tinha alterado esta virtude, porque as cadeiras se devem conferir aos mais beneméritos em letras, e não em antiguidade de estudos."
O fato é que o Padre Ferraz, furioso por ver-se preterido, estava já disposto a deixar a Ordem na qual professara, quando, segundo Taques, uma carta do próprio Geral, vinda Roma, ordenou que lhe dessem o posto que almejava. O teimoso homem, porém, nem por isso mudou de ideia:
"Não bastou esta ternura e obséquio sem exemplo para abrandar o gênio áspero ou desconfiado do padre José Ferraz, que, preocupado da sua teima e alucinação, largou a roupeta e, como já era presbítero, veio para São Paulo em hábito de clérigo de São Pedro. Não tardou muito o castigo, porque de repente ensurdeceu, de sorte que, ainda que aos ouvidos lhe disparassem uma peça de artilharia, não ouviria este grande eco [sic]."
Não estranhem os leitores o pensamento de Pedro Taques quanto a ser a surdez do Padre José Ferraz um castigo por sua arrogância. Aqueles eram tempos de profunda religiosidade e era muito comum que qualquer infortúnio fosse interpretado como uma punição vinda do Céu. Taques ainda diria, nessa mesma linha de interpretação dos fatos relacionados à vida do Padre Ferraz:
"Viveu pobre, e acabou na miséria, porque até por fim da carreira da triste vida caiu no vício de se embriagar com aguardente. Jaz sepultado na vila de Itu, sem mais campa que a saudade do seu nome, não pelo que foi, mas pelo que deixou de ser."
Mas continuemos, porque é exatamente agora que vem a parte mais interessante: 
"Foi bem instruído na História sacra e profana, a que se aplicou por alívio da sua surdez. Nas humanidades foi eminente, e na poesia latina transcendeu a todos os do seu tempo, e ainda até hoje sem igual."
Ah, senhores leitores, ocorre aqui algo realmente inusitado: um novo tratamento para a surdez!!! 
Sim, sim, sim, a intenção provável  de Taques era sugerir que o estudo da História trazia algum conforto mental ao pobre surdo, mas não deixa de haver uma certa graça na ideia, não é mesmo?

(1) Era, de acordo com Pedro Taques, nascido em Itu, filho de Isabel de Campos (nascida em Santana de Parnaíba a 11 de dezembro de 1661) e de Manuel Ferraz de Araújo, português nascido no Porto.
(2) A expressão "tomar a roupeta" significava tornar-se jesuíta.


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como viviam os moradores da Capitania de São Vicente

Durante muito tempo os jesuítas que andaram pela Capitania de São Vicente nos Séculos XVI e XVII não fizeram qualquer economia de palavras para descrever o quão depravados eram, segundo seu ponto de vista, os colonizadores que lá encontraram.
No Século XVII, o Padre Simão de Vasconcelos escreveu:
"Os costumes dos portugueses moradores, que então se achavam nestas vilas, vinham a ser quase como os dos índios; porque sendo cristãos, viviam a modo de gentios. Na sensualidade era grande sua devassidão, amancebando-se ordinariamente de portas adentro com as mesmas índias, ou fossem casados ou solteiros. Não se estranhava transgressão dos preceitos da Igreja, nem havia falar em jejum, nem em abstinência de carne, e muito pouco nos sacramentos necessários para a salvação: homens havia que desde que entraram na terra, se não tinham confessado, nem comungado. Vivia-se de rapto de índios, era tido o ofício de assalteá-los por valentia, e por ele eram os homens estimados; e sobretudo sem prelado, sem pregador, sem quem zelasse da parte de Deus tantos males." (¹)
Os leitores que sobreviveram até aqui devem agora ser informados de que tudo isso vinha a ser uma espécie de introdução para proclamar que os maus hábitos relatados começaram a mudar quando o jesuíta Leonardo Nunes lá chegou. Os fatos, devidamente estudados e compreendidos, mostram, porém, que nem a descrição de Vasconcelos é assim tão exagerada, nem Leonardo Nunes e nem qualquer jesuíta seu contemporâneo foi capaz de produzir sensível mudança nos libérrimos colonos de São Vicente.
A propósito, se queremos ser justos, devemos admitir que não era dos moradores a culpa pela ausência de sacerdotes que ministrassem os sacramentos. Os donatários das Capitanias tinham alguma dificuldade em recrutar clérigos que quisessem vir ao Brasil e, quando o conseguiam, não era, por certo, dentre os mais virtuosos. Além disso, toda a gente vinda do Reino, onde vivera sob a mais severa repressão do Estado e da Igreja, devia achar grande encanto em tanta liberdade... Quase isoladas na parte sul da Colônia, as povoações da Capitania de São Vicente passavam muito tempo sem ver sequer sombra das autoridades coloniais.
Também é fato que, quando os jesuítas tentaram impor as rédeas da Igreja aos colonos, encontraram oposição severa. Consta que Anchieta e seus irmãos de Ordem teriam ameaçado a gente de João Ramalho com as garras da Inquisição. Tudo inútil - o colono valentão, por sua vez, bem como sua enorme família, teriam respondido que, caso algum inquisidor ousasse chegar àquelas terras, era com nada menos que flechadas que seria posto em fuga. E ninguém duvide de que falavam sério. Mesmo.
Portanto, a presença de padres nem de longe garantiu o geral estabelecimento de bons hábitos, ao menos sob a ótica dos jesuítas. É verdade que a catequese acabou levando muitas mulheres indígenas ou mamelucas à prática frequente dos chamados deveres religiosos e, mesmo os homens, em grande parte de origem portuguesa ou espanhola, passaram a ostentar uma fachada de religiosidade. A Igreja acabava por representar, com seu calendário litúrgico e suas festas, um importante fator de convivência social. As expedições de apresamento de índios, no entanto, continuaram na moda por muito tempo e, quando os jesuítas resolveram assumir uma forte oposição a essa prática, foram expulsos de São Paulo. Somente depois de muita negociação é que foram readmitidos, sob a condição de deixarem de dar palpites em questões que excedessem os limites de suas práticas religiosas. (²)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 41.
(2) Não sem alguma razão, os colonos entendiam que os jesuítas criticavam o que eles próprios faziam: sob o pretexto da catequese, levavam índios para aldeamentos nos quais eram forçados a trabalhar segundo os interesses dos padres.


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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Faltou vinho para celebrar missa

Ao que parece, os primeiros anos de colonização na Capitania de São Vicente foram marcados por alguma esperança, até entusiasmo, mesmo. O donatário, Martim Afonso de Sousa, havia, por ordem do rei, seguido para as Índias, mas seu representante cuidava dos interesses dos colonos. Logo, porém, a enorme distância de Portugal viria a trazer problemas sérios. A economia estaria restrita à subsistência dos moradores, já que a exportação era difícil - apenas um navio, por ano, fazia a rota de São Vicente para o Reino, conforme mencionaram vários autores, dentre os quais José de Anchieta, em carta datada de 1555: "...é necessário que tenhamos paciência, pois de ano em ano apenas parte um navio." (¹)
A dificuldade de comunicação, sendo já grande com esse único navio fazendo anualmente a rota, iria ficar ainda maior. Em 1559, ainda segundo o mesmo Anchieta, nem uma única embarcação foi ao Reino, conforme carta escrita ao Geral dos Jesuítas em 1º de junho de 1560: "...nunca achamos ocasião de poder escrever, visto neste último tempo não partir daqui navio algum, porque mais é para se compadecer de nós outros, que para se irar, que tanto tempo carecemos das cartas de nossos irmãos..." (²)
Para os jesuítas, além da dificuldade em manter correspondência com membros da Ordem, a falta de uma embarcação que fosse ao Reino e de lá viesse carregada de mercadorias trazia um problema adicional: chegou a faltar vinho para a celebração da missa, conforme assegurou Anchieta na mesma carta: "...vimos a tanta falta, que até para dizer missa nos faltou vinho por alguns dias." (³)
Em sua condição de missionários, os padres jesuítas estavam já bem acostumados à sobrevivência apenas com os recursos disponíveis na Colônia, e de pouca coisa do Reino é que deviam sentir falta; um pouco de imaginação, porém, irá conduzir-nos às privações pelas quais passavam os colonos em geral. Roupas, ferramentas, sementes, alguns alimentos que não se encontravam disponíveis na América - a lista de coisas que podem ter faltado devia ser extensa.
Tudo isso, junto à natureza difícil de dominar, contribuiu para fazer dos colonos de São Vicente os mais audazes e independentes de quantos vieram à América do Sul. Não por acaso é que dentre eles saíam bandos de rudes aventureiros - mais tarde chamados nobremente "bandeirantes" - que enfrentavam o interior ainda desconhecido do Brasil em busca de índios, aos quais escravizavam, e de qualquer coisa que pudesse melhorar as condições de existência. Ouro, por exemplo.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 85.
(2) Ibid., p. 144.
(3) Ibid.


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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um índio que só era surdo na hora da catequese

Os jesuítas que, no Século XVI, vieram ao Brasil tendo como meta a catequese dos povos indígenas, comunicavam-se com seus irmãos de Ordem em Portugal, ou mesmo com o Geral da Companhia de Jesus em Roma, através de cartas. Eram essas correspondências um tanto longas, já que nelas era descrito o trabalho de vários meses, quando não de anos. Entende-se: as comunicações, na época, eram difíceis. Em regra, apenas um navio por ano fazia a rota de São Vicente a Lisboa e, por vezes, nem mesmo esse único empreendia a viagem.
Por força de uma série de circunstâncias, Anchieta, que ainda noviço viera ao Brasil, acabou por fazer-se um verdadeiro mestre no gênero epistolar, de modo que muito da correspondência da Companhia de Jesus em suas primeiras décadas no Brasil foi por ele redigida. E é assim que temos, dele, um relato que raia a humorístico, de um índio que, para não ser catequizado, fazia-se passar por surdo. O episódio aparece em uma carta escrita em São Vicente, datada de 1º de junho de 1560, cujo destinatário era ninguém menos que o Geral Diego Laynez, sucessor de Inácio de Loyola:
"Adoeceu um destes catecúmenos em uma aldeia nos arrabaldes de Piratininga e fomos lá para lhe dar algum remédio, principalmente para a sua alma: dizíamos-lhe que olhasse para a sua alma, e que deixando os costumes passados, se preparasse para o batismo; respondeu que o deixássemos sarar primeiro, e esta resposta somente nos dava a tudo que lhe dizíamos nós outros; declarávamos abreviadamente os artigos da fé e os mandamentos de Deus, que muitas vezes de nós já tinha ouvido, e respondido, como enjoado, que já tinha os ouvidos tapados, sem ouvir ao que lhe dizíamos, em todas as outras coisas fora deste propósito, respondia prontamente, que bem parecia não ter tapados os ouvidos do corpo, e somente os do coração." (¹)
Perseverantes os padres em catequizar, perseverante o "surdo" em não se deixar batizar, o fato é que não sabemos quem venceu essa batalha - Anchieta nada diz a respeito. Porém, com esse relato, temos uma ideia de como marchava a catequese. Os padres queriam multiplicar discípulos. Alguns índios, ao que parece (²), queriam apenas que os deixassem viver como índios. Isso, é claro, quando as coisas ocorriam pacificamente. Em outras cartas, o próprio Anchieta chegou a defender o uso de métodos aos quais, hoje, não atribuiríamos muita suavidade.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 145.
(2) Como não temos relatos dessa época escritos pelos próprios índios, podemos apenas fazer algumas inferências a partir do que escreveram os missionários.


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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Colonizadores nem sempre arranhavam o litoral

A antológica afirmação de Frei Vicente do Salvador de que os colonos portugueses que vinham ao Brasil viviam junto ao litoral, arranhando a costa como caranguejos tinha muito de verdade:
"Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que sendo grandes conquistadores de terras não se aproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos."
Razões para isso? Comecemos com o óbvio: muitos iam estabelecer-se no litoral simplesmente porque... estava mais perto. Havia, também, em boa parte da colônia, um sério obstáculo natural à ocupação: a Serra do Mar, com escarpas muito íngremes em certos pontos. Isto sem falar na população nativa da América que, resistindo à colonização, postava-se no interior, até para fugir à escravização que se lhes queria impor. Há, de Gândavo, um trechinho interessante sobre as razões que bloqueavam as idas ao sertão:
"Não há pela terra dentro povoações de portugueses por causa dos índios que não o consentem, e também pelo socorro e tratos do Reino lhes é necessário estarem junto ao mar por terem comunicação de mercadorias. E por este respeito vivem todos junto da costa." (¹)
Ocorre que não apenas de falta de interesse ou de coragem decorria o fato de não se ocupar o interior. Houve mesmo proibição nesse sentido, segundo, no Século XVIII, explicou Frei Gaspar da Madre de Deus:
"Com duas vistas, ambas muito próprias dos olhos de Martim Afonso, fez este Donatário aquela proibição utilíssima ao bem comum do Reino, e conducente ao aumento de sua Capitania. Ele penetrou os verdadeiros interesses do Estado melhor do que alguns modernos, e o seu fim era não só evitar guerras, mas também fomentar a povoação da Costa. Previu que da livre entrada dos brancos nas aldeias dos índios haviam de seguir-se contendas e alterar-se a paz tão necessária ao aumento da terra; não ignorava que D. João III mandara fundar colônias em país tão remoto de Portugal com o intuito de utilizar ao Estado por meio da exportação dos frutos brasílicos; sabia que todos os gêneros produzidos junto ao mar podiam conduzir-se para a Europa facilmente, e que os do sertão, pelo contrário, nunca chegariam aos portos, onde os embarcassem, ou se chegassem, seria com despesas tais que aos lavradores não faria conta largá-los pelo preço por que se vendessem aos da marinha. Estes foram os motivos de antepor a povoação da costa à do sertão, e porque também previu que nunca ou muito tarde se havia de povoar bem a marinha, repartindo-se os colonos, dificultou a entrada do campo, reservando-a para o tempo futuro, quando estivesse cheia e bem cultivada a terra mais vizinha aos portos." (²)
Menciono, de passagem, que Frei Gaspar da Madre de Deus era nascido em São Vicente, o que talvez explique um pouco suas ideias sobre o povoamento do interior. Mas, voltando à proibição de Martim Afonso de Sousa, vale lembrar que excetuou dela apenas João Ramalho. Ora, que remédio! O homem já andava pelos campos de Piratininga muito antes de que o próprio Martim Afonso cogitasse vir ao Brasil!
Em todo caso, gradualmente as coisas foram mudando.
Depois da fundação de Piratininga (1554), a uma certa distância da vila de João Ramalho (que mais tarde seria "transferida" compulsoriamente para Piratininga), aos poucos a ocupação do interior foi-se fazendo, no rumo das circunstâncias, aliás as mais variadas possíveis, dentre as quais será bom recordar:
a) a existência de um grande rio - o Tietê - que em lugar de correr para o mar, como fazem os rios ajuizados, corria para o interior, e que acabava sendo uma espécie de caminho natural para quem desejava perscrutar a imensidão de florestas que revestia o Continente;
b) a necessidade de ir mato adentro para combater índios que pretendiam, por vezes com muito motivo, atacar a pequena São Paulo;
c) a iniciativa catequética dos jesuítas, pressupondo que fossem os missionários até onde viviam os povos indígenas;
d) os apresadores de índios e buscadores de ouro que não mediam esforços e arriscavam o pescoço na fúria por enriquecimento rápido;
e) no extremo, gente que se via na contingência de fugir à força da Justiça - coisa que em Piratininga não constituía nenhuma raridade - acabava, mesmo sem querer, explorando o interior da capitania.
Tudo isso contribuiu para levar o povoamento lusitano muito além do que seria um limite aceitável para Tordesilhas, até porque onde era esse limite, com exatidão, ninguém sabia mesmo.
Ironicamente, foi no ponto em que as escarpas da Serra do Mar mais íngremes se mostravam que a interiorização do processo colonizatório acabou por ocorrer mais cedo, com maior intensidade e eficácia. Só para contrariar a "regra" de Frei Vicente do Salvador, os colonos da Capitania de São Vicente não se satisfizeram com "andar arranhando ao longo do mar como caranguejos".

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 31.
(2) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, pp. 71 e 72.


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