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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Nada de chiqueiros perto do muro!

Quem vivia em São Paulo no Século XVI criava porcos junto ao muro da vila


A pequena São Paulo de Piratininga foi, nos tempos coloniais, famosa por seus "grandes capados", como disseram autores da época. Agora, digam-me, leitores: Onde vocês acham que os moradores de São Paulo criavam porcos? Ah, dirão, em chiqueiros, naturalmente!... Sim, em chiqueiros, mas a questão é: Onde ficavam os ditos chiqueiros?
Uma ata da Câmara de São Paulo, tendo a data de 4 de fevereiro de 1575, nos informa que, só para variar, a povoação estava às voltas com a ameaça de um ataque. Portanto, foram deliberadas providências para a defesa da vila, que incluíam consertar o muro (mais uma vez) e mudar os chiqueiros de endereço. 
Vamos ao documento:
"Requereu o [...] procurador que João Anes, Domingos Roiz e Manoel [Félix?] tinham nos muros desta vila aberto buracos e portas nos ditos muros, que eram grande prejuízo e podiam cair os ditos muros, que suas mercês lhes mandassem notificar com séria pena que os tapassem dentro de certo tempo, ao que os senhores oficiais responderam e mandaram a mim, escrivão, que notificasse aos sobreditos que dentro [...] de um mês eles tapassem as ditas taipas de taipas de pilão, com pena de quinhentos réis [...]."
Informo, de passagem, que as vírgulas foram acrescentadas por mim, para tornar o [dito] documento minimamente compreensível (¹). Prossigamos, pois, com a [dita] ata de 4 de fevereiro de 1575:
"Requereu mais o dito procurador do conselho aos ditos senhores oficiais que nesta vila havia pessoas que tinham chiqueiros de porcos e casas para eles arrimados aos muros desta vila, que eram grande prejuízo, porque sucedendo alguma guerra, pelos ditos chiqueiros podiam subir os contrários. [...] lhes requeria da parte de el-Rei (²) lhes mandasse notificar ou apregoar que os tirassem donde estavam e os fizessem apartados dos ditos muros três braças, ao que os ditos oficiais responderam e mandaram que fosse apregoado que qualquer pessoa que tivesse chiqueiros nesse lugar os tirasse dali dentro de dois meses do dia do pregão para diante, com pena de duzentos réis para o conselho e mandaram que se fizesse dito termo." 
Cabe aqui, creio, a explicação de que braça é uma medida antiga equivalente a 2,2 metros. Portanto, as três braças dariam 6,6 metros - era essa a distância que deveria ser guardada entre os chiqueiros e o muro de taipa que protegia a vila. 
A ata não diz se os porcos residiam dentro ou fora dos muros, mas é razoável supor que fosse do lado de fora, e não apenas por razões aromáticas. É que os chiqueiros e abrigos cobertos para os animais somente facilitariam aos "contrários" o acesso ao muro se estivessem localizados externamente. Admitindo que fosse esse o caso, as portas (ou buracos) abertos no muro tinham a provável finalidade de facilitar as idas e vindas de quem cuidava dos animais. Portanto, os dois requerimentos apresentados pelo procurador talvez se resumissem em uma coisa só.
E quem eram, afinal, os "contrários", cujo ataque se esperava, justificando a imposição de multas para obrigar à conservação do muro? Eram indígenas, com toda certeza. Alvo contínuo das provocações dos moradores de São Paulo, faziam-se temidos pela possibilidade de uma desforra. Se assim acontecesse, era melhor, no raciocínio dos oficiais da Câmara, que o muro estivesse em boas condições, livre de buracos, de chiqueiros e de porcos.

(1) Tentem ler o texto suprimindo as vírgulas...
(2) Seria interessante saber se sua majestade alguma vez teve ciência dos problemas relacionados à manutenção do muro e aos chiqueiros da Vila de São Paulo.


terça-feira, 22 de maio de 2018

Preparativos na Vila de São Paulo na iminência de um ataque indígena

Corriam os anos da segunda metade do Século XVI. A pequena Vila de São Paulo, encarapitada e isolada no planalto, vivia situação precária, em se tratando da defesa dos colonizadores - seus habitantes - diante do temor de um ataque vindo de povos indígenas. As constantes provocações contra os ameríndios, que incluíam a captura e escravização de muitos deles, suscitavam tentativas de retaliação. Aí, era hora do medo. Sendo improvável qualquer ajuda das povoações litorâneas, competia aos moradores, se zelavam pela própria pele, tomar medidas que possibilitassem a defesa, na eventualidade de uma rija ofensiva dos injuriados nativos.
A leitura das atas da Câmara de São Paulo lavradas nos anos de 1562 e 1563 traz informações que nos permitem classificar as providências defensivas em três aspectos:

1. Conclusão e conservação do muro que rodeava a Vila


"Aos cinco dias do mês de novembro da era de mil e quinhentos e sessenta e dois anos fizeram os oficiais câmara [...] e na dita câmara requereu o procurador do conselho que se acabassem os muros e baluartes e logo pelos ditos oficiais foram repartidos os moradores para os acabarem [...]." De boa ou má vontade, competia aos moradores, que muito provavelmente mandariam ao trabalho os seus "administrados" (¹), a tarefa de concluir as obras no muro da Vila. O que se deduz, então? A localidade era ainda bastante pobre, de modo que não havia recursos públicos para as obras necessárias. Se tinham amor à vida, mesmo os turbulentos residentes em São Paulo precisavam obedecer.
Do ano seguinte, 1563, existe outra ata em que a conclusão do muro é ordenada. No dia primeiro de fevereiro o procurador requereu aos administradores da Vila "que mandassem suas mercês cobrir a guarita que estava por trás do muro e mais acabar e cobrir as cercas e o que for necessário, e requereu mais o dito procurador [...] que mandassem pôr pena a alguns homens que estão de caminho para o mar, que não vão porquanto estamos esperando por guerra [...]".
Informando, de passagem, que "pôr pena" significava, geralmente, ameaçar com multa e prisão, devemos notar, ainda, que em outra ata, desta vez datada de 13 de fevereiro de 1563, o procurador (era Salvador Pires, na ocasião) requereu "que mandassem suas mercês tirar portas que estavam nos muros desta vila [...]". Não era uma menção aos portões "oficiais" que, por razões óbvias, a povoação deveria ter, e sim às portas que, por conveniência, alguns moradores haviam aberto no muro, em lugar próximo às suas casas. Gente indisciplinada!

2. Pedido de pólvora ao capitão-mor de São Vicente, que governava a Capitania em nome do donatário


"Aos seis dias do mês de março da era de mil e quinhentos e sessenta e três anos foram juntos os oficiais da Câmara à casa de Simão Jorge juiz para fazerem câmara e na dita câmara requeriam suas mercês que mandassem pedir pólvora ao capitão para esta vila [...]." Reconhecendo sua inferioridade numérica, os colonizadores tinham consciência de que a única vantagem que poderiam ter diante dos indígenas vinha do uso de armas de fogo. Portanto, acreditando em um ataque iminente à Vila, era preciso assegurar um suprimento de pólvora.

3. Proibição da saída de colonizadores e índios para o sertão


Conforme ata já citada, colonizadores foram advertidos a "não ir ao mar", quer isso significasse uma descida ao litoral, quer fosse referência a cruzar o Atlântico para ir ao Reino; foi também emitida uma ordem para que ninguém que tivesse índios "administrados" pensasse na ideia de mandá-los ao sertão. Lemos nos registros de 26 de junho de 1563 (²):  "[...] por razão que diziam que vinha guerra sobre nós [...] os oficiais acordaram e lhes pareceu bem para o povo, visto a necessidade que temos dos índios e sermos poucos nesta vila [...] que todo homem desta vila e fora dela não leve índio desta vila sem licença da Câmara [...]."

As comunicações, na época, eram difíceis. Não era possível contar com a ajuda de outras povoações, distantes, serra abaixo, pelo malsinado Caminho do Mar. A expectativa de um ataque indígena nascera de informações de índios aliados que, tendo estado no sertão, voltaram relatando os preparativos dos "contrários". Ficamos a imaginar a tensão reinante, muros adentro, entre os habitantes da Vila de São Paulo. Mas em que resultou tudo isso?
A despeito de numerosas escaramuças contra indígenas, ocorridas ao longo dos anos, a teimosa povoação no campo de Piratininga não apenas sobreviveu, mas prosperou. Gerações de mamelucos - assim foram chamados os filhos de pai português e mãe indígena - formaram grande parte das tropas de bandeirantes que atacaram missões, aprisionaram e escravizaram índios, procuraram ouro e, em meio a tantas desordens, fizeram pouco-caso (³) da linha de Tordesilhas, expandindo enormemente o território sob domínio português na América do Sul.

(1) "Índios administrados" era o nome hipócrita que se dava, na época, aos nativos escravizados.
(2) Decorridos mais de seis meses desde a primeira ata citada, o ataque ainda não acontecera. 
(3) Ou nenhum caso...


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