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quinta-feira, 8 de julho de 2021

Hernán Cortés e o começo da criação de porcos em Honduras

Para bem e/ou para mal, Hernán Cortés, o espanhol que liderou um bando de aventureiros na conquista do Império Asteca, é figura à qual se atribuem muitas façanhas e aventuras, algumas notáveis, outras prosaicas. Trataremos de uma delas, e fica a critério de quem lê dizer se pode ser classificada de um ou outro modo.
Embora Bernal Díaz del Castillo, que relata o acontecimento, não tenha designado a ele uma data precisa, pode-se presumir que tenha ocorrido por volta de 1525, quando, após a conquista do México, Cortés empreendeu uma marcha para combater opositores (¹). Ia com muitos soldados, alguns a cavalo, outros a pé, indígenas carregadores e combatentes. Após essa comitiva, seguia, literalmente caminhando para a morte, certo número de porcos, para garantir que o aventureiro não tivesse falta de comida. Segundo Bernal Díaz, a outros não se reservava tal acepipe, de modo que, de boa ou má vontade, era a população indígena que acabava fornecendo alimento para tanta gente.
Voltemos a falar dos porcos. Chegando a Honduras, Hernán Cortés encontrou uma povoação de espanhóis chamada Trujillo (²), na qual os colonizadores viviam em condições precárias. Ora, restavam ainda alguns sobreviventes da manada que acompanhara Cortés, e foi assim que ocorreu a ele a ideia de deixá-los ali, segundo informação de Bernal Díaz, "para que gerassem descendência, por ter-lhe dito um espanhol que aquela era uma boa terra para multiplicá-los, deixando-os soltos nas ilhotas e sem que fosse preciso guardá-los, e aconteceu como se disse, pois em dois anos havia muitos porcos e iam caçá-los. [...]" (³).
Portanto, meus leitores, admitindo ser fidedigno o relato de Bernal Díaz del Castillo, cabe a Hernán Cortés o título de introdutor da criação de porcos em Honduras. É pouco provável, contudo, que ele próprio desejasse ser lembrado por esse feito. 
 
Porcos, em imagem do Século XVI (⁴)

(1) Principalmente Cristóbal de Olí.
(2) Colonizadores muitas vezes fundavam povoações dando a elas o nome de alguma cidade europeia. Foi o que aconteceu neste caso.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) GESNER, Conrad. Icones Animalium Quadrupedum Viviparorum et Oviparorum. Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 24. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Nada de chiqueiros perto do muro!

Quem vivia em São Paulo no Século XVI criava porcos junto ao muro da vila


A pequena São Paulo de Piratininga foi, nos tempos coloniais, famosa por seus "grandes capados", como disseram autores da época. Agora, digam-me, leitores: Onde vocês acham que os moradores de São Paulo criavam porcos? Ah, dirão, em chiqueiros, naturalmente!... Sim, em chiqueiros, mas a questão é: Onde ficavam os ditos chiqueiros?
Uma ata da Câmara de São Paulo, tendo a data de 4 de fevereiro de 1575, nos informa que, só para variar, a povoação estava às voltas com a ameaça de um ataque. Portanto, foram deliberadas providências para a defesa da vila, que incluíam consertar o muro (mais uma vez) e mudar os chiqueiros de endereço. 
Vamos ao documento:
"Requereu o [...] procurador que João Anes, Domingos Roiz e Manoel [Félix?] tinham nos muros desta vila aberto buracos e portas nos ditos muros, que eram grande prejuízo e podiam cair os ditos muros, que suas mercês lhes mandassem notificar com séria pena que os tapassem dentro de certo tempo, ao que os senhores oficiais responderam e mandaram a mim, escrivão, que notificasse aos sobreditos que dentro [...] de um mês eles tapassem as ditas taipas de taipas de pilão, com pena de quinhentos réis [...]."
Informo, de passagem, que as vírgulas foram acrescentadas por mim, para tornar o [dito] documento minimamente compreensível (¹). Prossigamos, pois, com a [dita] ata de 4 de fevereiro de 1575:
"Requereu mais o dito procurador do conselho aos ditos senhores oficiais que nesta vila havia pessoas que tinham chiqueiros de porcos e casas para eles arrimados aos muros desta vila, que eram grande prejuízo, porque sucedendo alguma guerra, pelos ditos chiqueiros podiam subir os contrários. [...] lhes requeria da parte de el-Rei (²) lhes mandasse notificar ou apregoar que os tirassem donde estavam e os fizessem apartados dos ditos muros três braças, ao que os ditos oficiais responderam e mandaram que fosse apregoado que qualquer pessoa que tivesse chiqueiros nesse lugar os tirasse dali dentro de dois meses do dia do pregão para diante, com pena de duzentos réis para o conselho e mandaram que se fizesse dito termo." 
Cabe aqui, creio, a explicação de que braça é uma medida antiga equivalente a 2,2 metros. Portanto, as três braças dariam 6,6 metros - era essa a distância que deveria ser guardada entre os chiqueiros e o muro de taipa que protegia a vila. 
A ata não diz se os porcos residiam dentro ou fora dos muros, mas é razoável supor que fosse do lado de fora, e não apenas por razões aromáticas. É que os chiqueiros e abrigos cobertos para os animais somente facilitariam aos "contrários" o acesso ao muro se estivessem localizados externamente. Admitindo que fosse esse o caso, as portas (ou buracos) abertos no muro tinham a provável finalidade de facilitar as idas e vindas de quem cuidava dos animais. Portanto, os dois requerimentos apresentados pelo procurador talvez se resumissem em uma coisa só.
E quem eram, afinal, os "contrários", cujo ataque se esperava, justificando a imposição de multas para obrigar à conservação do muro? Eram indígenas, com toda certeza. Alvo contínuo das provocações dos moradores de São Paulo, faziam-se temidos pela possibilidade de uma desforra. Se assim acontecesse, era melhor, no raciocínio dos oficiais da Câmara, que o muro estivesse em boas condições, livre de buracos, de chiqueiros e de porcos.

(1) Tentem ler o texto suprimindo as vírgulas...
(2) Seria interessante saber se sua majestade alguma vez teve ciência dos problemas relacionados à manutenção do muro e aos chiqueiros da Vila de São Paulo.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ovelhas devoradoras de homens

A relação entre o cercamento dos campos e a Revolução Industrial inglesa


Humanos devoram ovelhas (*). Fato curioso é que, na mitologia de vários povos da Antiguidade, era corrente que os homens, de início vegetarianos, haviam, a partir de certo momento, se tornado carnívoros. Entre os antigos gregos alguns pensavam que os humanos, que eram frugívoros, só experimentaram carne depois que Prometeu entregou a eles o fogo - entende-se facilmente a relação de causalidade. Seria, desde então, que animais começaram a ser oferecidos em sacrifício aos deuses... E, se era permitido aos deuses, por que não aos homens?
Mas pode ser pior. Houve quem atribuísse a origem dos hábitos carnívoros à deusa Deméter (Ceres, entre os romanos), aquela, que, segundo se supunha, amparava as searas. A contradição é apenas aparente: tendo a deusa cultivado uma bela plantação de cereais, que prometia farta colheita, um suíno teve a ideia de lá entrar e estragar tudo. Furiosa, Deméter cortou o fio da existência ao pobre animal, e, por conseguinte, condenou à morte todos os demais porcos, que passaram a ser criados apenas para morrer. Destino inglório, esse!
Bem, meus leitores, as lendas desse tipo são muitas, mas é melhor abandonar o assunto dos humanos carnívoros e passar ao caso das ovelhas devoradoras de homens. Pois saibam que foi Thomas Morus, em sua Utopia, quem, no Século XVI, acusou as ovelhas inglesas de antropofagia. Não que as meigas criaturas lanígeras houvessem, de súbito, adotado mudanças em seus hábitos alimentares, e nem mesmo eram elas as culpadas. O problema começara (suprema inovação!) com os homens. 
Expliquemos.
A ordem rural que prevalecera na Inglaterra da Idade Média andava a ruir. Criar carneiros tornou-se lucrativo, de modo que os proprietários de terras, pondo em uso uma série de expedientes, trataram de expulsar os camponeses, e, em pouco tempo, nuvens de ovinos eram vistas cobrindo os campos outrora cultivados. A lavoura da época requeria muita mão de obra; para a criação de carneiros, poucos pastores eram necessários.
Esse fenômeno, que ficou conhecido como "cercamento dos campos", desencadeou uma série de consequências, dentre as quais:
  • Os camponeses expulsos, que só sabiam trabalhar na agricultura, não encontravam outra ocupação;
  • Houve uma elevação considerável na criminalidade e na mendicância;
  • Leis severas e enforcamentos em série não eram suficientes para debelar a incidência de crimes;
  • Declinou a produção de alimentos, havendo, portanto, uma elevação nos preços dos que estavam disponíveis;
  • Mesmo que a produção de lã não fosse um monopólio legalmente reconhecido, os produtores, controlando o mercado, passaram a regular os preços, mantendo-os artificialmente elevados, de modo que os tecidos de lã não mais estavam ao alcance dos pobres.
Vejam então, leitores, que a acusação de "antropofagia", com que Thomas Morus invectivou as ovelhas, melhor caberia aos proprietários de terras - a nobreza e o clero, como o próprio Morus explicou. Exagero ou não, segundo esse autor, depois que os camponeses eram expulsos, nada mais ficava em pé entre as construções das aldeias, a não ser as igrejas. Eram usadas como estábulos.
O tempo da Revolução Industrial estava ainda longe, mas entende-se que o cercamento dos campos foi um dentre muitos fatores que proporcionaram condições para o surgimento da atividade fabril, na qual o ramo da tecelagem alcançou destaque. A enorme produção de lã assegurava um suprimento contínuo de matéria-prima para as fábricas. A configuração urbana mudou drasticamente, com o aparecimento de vastos e miseráveis subúrbios de onde provinha a mão de obra. Em quantidade e qualidade, tecidos ingleses mostraram-se superiores e, gradualmente, conquistaram mercados, mesmo em terras distantes. O que aconteceu na Inglaterra influenciou o mundo.

(*) Nem todos os seres humanos devoram ovelhas; a blogueira, por exemplo, tem horror dessa carnificina.


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