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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Sementes e ovelhas para recomeçar as reduções indígenas arrasadas por bandeirantes paulistas

Acossados por hordas de bandeirantes paulistas (¹), missionários jesuítas e indígenas que viviam nas reduções do Guayrá fugiram para uma região mais ao sul, onde, supunham (²), estariam em segurança. Lá teriam, porém, que enfrentar dois inimigos poderosos: a fome e o frio. 
Como prover alimento suficiente para todos, em uma terra ainda não cultivada? Desnecessário é dizer que os primeiros tempos foram terríveis. Para comprar sementes que pudessem plantar, os padres abriram mão de tudo o que era possível vender: "Vendemos nossos livros, sotainas e mantos, ornamentos cálices e adornos de igrejas, enviando-os a Asunción, em troca de sementes para que semeassem", escreveu o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya (³). 
Foi preciso vigilância severa para que as sementes não fossem devoradas, tal era a situação de miséria entre os indígenas. Com o correr dos meses, as primeiras colheitas trouxeram o alívio tão esperado. "Chegou a primavera", contou Montoya, "depois de rigorosa estiagem, começou-se a trabalhar varonilmente, cada um fez duas ou três roças, e a terra começou a oferecer seus frutos [...]. Compramos alguns porcos, patos, galinhas e pombas, [...] de que se encheu [...] aquela terra com uma singular abundância [...]." (⁴)
Ao sul, as temperaturas durante o inverno eram, em média, significativamente inferiores às que predominavam nos lugares originais das reduções. Havia urgência, pois, em prover agasalho para indígenas e missionários, sabendo que ali as colheitas de algodão não se provariam animadoras e que, além disso, trajes de algodão, apenas, não seriam suficientes. Assim, os inacianos trataram de arranjar ovelhas, na intenção de obter lã: "Já que o algodão não produz muito bem pelo rigor da geada, que o mata às vezes, me aventurei a comprar mil e oitocentas ovelhas, para que com a lã e o algodão fizessem roupas, ainda que não se obtiveram todas [as ovelhas], porque uns índios bárbaros, tirando a vida ao padre Pedro de Espinosa, roubaram também parte das ovelhas." (⁵) 
Portanto, a despeito das dificuldades e do receio sempre presente de novos ataques bandeirantes, com medidas de estímulo à agricultura e à criação de animais as reduções foram se reorganizando durante a quarta década do Século XVII. Não podemos negar, leitores: os jesuítas eram perseverantes.   

(1) Bandeirantes começaram a atacar as reduções do Guayrá em 1628. Portanto, os acontecimentos de que tratamos aqui são posteriores a essa data. O padre Antonio Ruiz de Montoya foi à Espanha em 1638 para dar queixa dos bandeirantes vindos de São Paulo que atacavam as reduções, problema tanto mais grave quanto autoridades coloniais no Paraguai, que, por suposto, deveriam favorecer a catequese de indígenas, pouco ou nada realizavam para barrar os escravizadores de ameríndios, levando os missionários à convicção de que, por interesses escusos, faziam causa comum com os paulistas.
(2) Não passou de suposição, como os anos à frente vieram demonstrar.
(3) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639.
(4) Ibid.
(5) Ibid. Os trechos citados de Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ovelhas devoradoras de homens

A relação entre o cercamento dos campos e a Revolução Industrial inglesa


Humanos devoram ovelhas (*). Fato curioso é que, na mitologia de vários povos da Antiguidade, era corrente que os homens, de início vegetarianos, haviam, a partir de certo momento, se tornado carnívoros. Entre os antigos gregos alguns pensavam que os humanos, que eram frugívoros, só experimentaram carne depois que Prometeu entregou a eles o fogo - entende-se facilmente a relação de causalidade. Seria, desde então, que animais começaram a ser oferecidos em sacrifício aos deuses... E, se era permitido aos deuses, por que não aos homens?
Mas pode ser pior. Houve quem atribuísse a origem dos hábitos carnívoros à deusa Deméter (Ceres, entre os romanos), aquela, que, segundo se supunha, amparava as searas. A contradição é apenas aparente: tendo a deusa cultivado uma bela plantação de cereais, que prometia farta colheita, um suíno teve a ideia de lá entrar e estragar tudo. Furiosa, Deméter cortou o fio da existência ao pobre animal, e, por conseguinte, condenou à morte todos os demais porcos, que passaram a ser criados apenas para morrer. Destino inglório, esse!
Bem, meus leitores, as lendas desse tipo são muitas, mas é melhor abandonar o assunto dos humanos carnívoros e passar ao caso das ovelhas devoradoras de homens. Pois saibam que foi Thomas Morus, em sua Utopia, quem, no Século XVI, acusou as ovelhas inglesas de antropofagia. Não que as meigas criaturas lanígeras houvessem, de súbito, adotado mudanças em seus hábitos alimentares, e nem mesmo eram elas as culpadas. O problema começara (suprema inovação!) com os homens. 
Expliquemos.
A ordem rural que prevalecera na Inglaterra da Idade Média andava a ruir. Criar carneiros tornou-se lucrativo, de modo que os proprietários de terras, pondo em uso uma série de expedientes, trataram de expulsar os camponeses, e, em pouco tempo, nuvens de ovinos eram vistas cobrindo os campos outrora cultivados. A lavoura da época requeria muita mão de obra; para a criação de carneiros, poucos pastores eram necessários.
Esse fenômeno, que ficou conhecido como "cercamento dos campos", desencadeou uma série de consequências, dentre as quais:
  • Os camponeses expulsos, que só sabiam trabalhar na agricultura, não encontravam outra ocupação;
  • Houve uma elevação considerável na criminalidade e na mendicância;
  • Leis severas e enforcamentos em série não eram suficientes para debelar a incidência de crimes;
  • Declinou a produção de alimentos, havendo, portanto, uma elevação nos preços dos que estavam disponíveis;
  • Mesmo que a produção de lã não fosse um monopólio legalmente reconhecido, os produtores, controlando o mercado, passaram a regular os preços, mantendo-os artificialmente elevados, de modo que os tecidos de lã não mais estavam ao alcance dos pobres.
Vejam então, leitores, que a acusação de "antropofagia", com que Thomas Morus invectivou as ovelhas, melhor caberia aos proprietários de terras - a nobreza e o clero, como o próprio Morus explicou. Exagero ou não, segundo esse autor, depois que os camponeses eram expulsos, nada mais ficava em pé entre as construções das aldeias, a não ser as igrejas. Eram usadas como estábulos.
O tempo da Revolução Industrial estava ainda longe, mas entende-se que o cercamento dos campos foi um dentre muitos fatores que proporcionaram condições para o surgimento da atividade fabril, na qual o ramo da tecelagem alcançou destaque. A enorme produção de lã assegurava um suprimento contínuo de matéria-prima para as fábricas. A configuração urbana mudou drasticamente, com o aparecimento de vastos e miseráveis subúrbios de onde provinha a mão de obra. Em quantidade e qualidade, tecidos ingleses mostraram-se superiores e, gradualmente, conquistaram mercados, mesmo em terras distantes. O que aconteceu na Inglaterra influenciou o mundo.

(*) Nem todos os seres humanos devoram ovelhas; a blogueira, por exemplo, tem horror dessa carnificina.


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