quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como Viviam os Moradores da Capitania de São Vicente

Durante muito tempo os jesuítas que andaram pela Capitania de São Vicente nos Séculos XVI e XVII não fizeram qualquer economia de palavras para descrever o quão depravados eram, segundo seu ponto de vista, os colonizadores que lá encontraram.
No Século XVII, o Padre Simão de Vasconcelos escreveu:
"Os costumes dos portugueses moradores, que então se achavam nestas vilas, vinham a ser quase como os dos índios; porque sendo cristãos, viviam a modo de gentios. Na sensualidade era grande sua devassidão, amancebando-se ordinariamente de portas adentro com as mesmas índias, ou fossem casados ou solteiros. Não se estranhava transgressão dos preceitos da Igreja, nem havia falar em jejum, nem em abstinência de carne, e muito pouco nos sacramentos necessários para a salvação: homens havia que desde que entraram na terra, se não tinham confessado, nem comungado. Vivia-se de rapto de índios, era tido o ofício de assalteá-los por valentia, e por ele eram os homens estimados; e sobretudo sem prelado, sem pregador, sem quem zelasse da parte de Deus tantos males." (*)
Os leitores que sobreviveram até aqui devem agora ser informados de que tudo isso vinha a ser uma espécie de introdução para proclamar que os maus hábitos relatados começaram a mudar quando o jesuíta Leonardo Nunes lá chegou. Os fatos, devidamente estudados e compreendidos, mostram, porém, que nem a descrição de Vasconcelos é assim tão exagerada, nem Leonardo Nunes e nem qualquer jesuíta seu contemporâneo foi capaz de produzir sensível mudança nos libérrimos colonos de São Vicente.
A propósito, se queremos ser justos, devemos admitir que não era dos moradores a culpa pela ausência de sacerdotes que ministrassem os sacramentos. Os donatários das Capitanias tinham alguma dificuldade em recrutar clérigos que quisessem vir ao Brasil e, quando o conseguiam, não era, por certo, dentre os mais virtuosos. Além disso, toda a gente vinda do Reino, onde vivera sob a mais severa repressão do Estado e da Igreja, devia achar grande encanto em tanta liberdade... Quase isoladas na parte sul da Colônia, as povoações da Capitania de São Vicente passavam muito tempo sem ver sequer sombra das autoridades coloniais.
Também é fato que, quando os jesuítas tentaram impor as rédeas da Igreja aos colonos, encontraram oposição severa. Consta que Anchieta e seus irmãos de Ordem teriam ameaçado a gente de João Ramalho com as garras da Inquisição. Tudo inútil - o colono valentão, por sua vez, bem como sua enorme família, teriam respondido que, caso algum inquisidor ousasse chegar àquelas terras, era com nada menos que flechadas que seria posto em fuga. E ninguém duvide de que falavam sério. Mesmo.
Portanto, a presença de padres nem de longe garantiu o geral estabelecimento de bons hábitos, ao menos sob a ótica dos jesuítas. É verdade que a catequese acabou levando muitas mulheres indígenas ou mamelucas à prática frequente dos chamados deveres religiosos e, mesmo os homens, em grande parte de origem portuguesa ou espanhola, passaram a ostentar uma fachada de religiosidade. A Igreja acabava por representar, com seu calendário litúrgico e suas festas, um importante fator de convivência social. As expedições de apresamento de índios, no entanto, continuaram na moda por muito tempo e, quando os jesuítas resolveram assumir uma forte oposição a essa prática, foram expulsos de São Paulo. Somente depois de muita negociação é que foram readmitidos, sob a condição de deixarem de dar palpites em questões que excedessem os limites de suas práticas religiosas. (**)

(*) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed.
Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 41
(**) Não sem alguma razão, os colonos entendiam que os jesuítas criticavam o que eles próprios faziam: sob o pretexto da catequese, levavam índios para aldeamentos nos quais eram forçados a trabalhar segundo os interesses dos padres.

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