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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Tempestade em Piratininga

Para os jesuítas que iniciaram a catequese no Brasil em meados do Século XVI quase tudo o que encontravam era novidade, desde o modo de vida da população indígena que pretendiam doutrinar às características naturais da América do Sul, com suas matas de árvores gigantescas cobrindo serras que pareciam intransponíveis. Sabemos, por exemplo, que as tempestades, no mar ou em terra, deixavam os missionários apavorados. 
Um relato de maio de 1560, incluído em uma carta escrita por José de Anchieta ao padre-geral (¹) dos jesuítas, conta de uma tormenta que abalou Piratininga, ou seja, São Paulo, causando estragos notáveis:
"Não há muitos dias, estando nós em Piratininga, começou, depois do pôr do sol, o ar a turvar-se de repente, a enublar-se o céu, a amiudarem-se os relâmpagos e trovões, levantando-se então vento sul a envolver pouco a pouco a terra, até que [...] caiu com tanta violência que parecia ameaçar-nos o Senhor com a destruição: abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas; a árvores de colossal altura arrancou pelas raízes, partiu pelo meio outras menores, despedaçou outras, de tal maneira que ficaram obstruídas as estradas, e nenhuma passagem havia pelos bosques; era para admirar quantos estragos de árvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso), e, na verdade, se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo, nada poderia resistir a tamanha violência e tudo cairia por terra." (²)
Ora, temos aqui um Anchieta verdadeiramente loquaz na descrição da tempestade, tão diferente do escritor comedido que usava ser, até por escassez de papel... É que a tormenta deve ter causado nele uma terrível impressão. Talvez hoje alguém dissesse que correspondeu à chegada de uma frente fria, mas, independente da causa, será útil recordar que, na pequenina São Paulo daqueles dias, as construções ocupadas pelos jesuítas e outros colonizadores eram deveras precárias, daí porque o estrago deve ter resultado ainda maior. Outro ponto a observar é que, como religioso, Anchieta, ao que parece, fez em sua carta uma discreta referência a uma passagem do Evangelho Segundo S. Mateus, relacionada ao que se costuma chamar de "fim do mundo": "et nisi breviati fuissent dies illis non fieret salva omnis caro sed propter electos breviabuntur dies illi..." (³) A chuva e a ventania devem ter sido brutais!...
Todavia, o mais interessante do registro de Anchieta, como ele próprio reconheceu, ainda estava à frente:
"O que, porém, no meio de tudo isso, se tornou mais digno de admiração, é que os índios, que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam), não se aterraram com tanta confusão de coisas, nem deixaram de dançar e beber, como se tudo estivesse em completa tranquilidade." (⁴)
Podemos supor que os indígenas, plenamente habituados às súbitas mudanças de humor das condições climáticas, julgaram melhor continuar a festança, até porque de nada valeria a muita preocupação. Nem todo o terror que viessem a expressar seria de alguma utilidade para amainar a fúria das intempéries.

(1) Na ocasião, o padre Diego Laynez.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 104 e 105.
(3) Mt 24, 22: "Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria, mas foram abreviados por causa dos eleitos."
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J.  Op. cit., p. 105.


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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Faltou vinho para celebrar missa

Ao que parece, os primeiros anos de colonização na Capitania de São Vicente foram marcados por alguma esperança, até entusiasmo, mesmo. O donatário, Martim Afonso de Sousa, havia, por ordem do rei, seguido para as Índias, mas seu representante cuidava dos interesses dos colonos. Logo, porém, a enorme distância de Portugal viria a trazer problemas sérios. A economia estaria restrita à subsistência dos moradores, já que a exportação era difícil - apenas um navio, por ano, fazia a rota de São Vicente para o Reino, conforme mencionaram vários autores, dentre os quais José de Anchieta, em carta datada de 1555: "...é necessário que tenhamos paciência, pois de ano em ano apenas parte um navio." (¹)
A dificuldade de comunicação, sendo já grande com esse único navio fazendo anualmente a rota, iria ficar ainda maior. Em 1559, ainda segundo o mesmo Anchieta, nem uma única embarcação foi ao Reino, conforme carta escrita ao Geral dos Jesuítas em 1º de junho de 1560: "...nunca achamos ocasião de poder escrever, visto neste último tempo não partir daqui navio algum, porque mais é para se compadecer de nós outros, que para se irar, que tanto tempo carecemos das cartas de nossos irmãos..." (²)
Para os jesuítas, além da dificuldade em manter correspondência com membros da Ordem, a falta de uma embarcação que fosse ao Reino e de lá viesse carregada de mercadorias trazia um problema adicional: chegou a faltar vinho para a celebração da missa, conforme assegurou Anchieta na mesma carta: "...vimos a tanta falta, que até para dizer missa nos faltou vinho por alguns dias." (³)
Em sua condição de missionários, os padres jesuítas estavam já bem acostumados à sobrevivência apenas com os recursos disponíveis na Colônia, e de pouca coisa do Reino é que deviam sentir falta; um pouco de imaginação, porém, irá conduzir-nos às privações pelas quais passavam os colonos em geral. Roupas, ferramentas, sementes, alguns alimentos que não se encontravam disponíveis na América - a lista de coisas que podem ter faltado devia ser extensa.
Tudo isso, junto à natureza difícil de dominar, contribuiu para fazer dos colonos de São Vicente os mais audazes e independentes de quantos vieram à América do Sul. Não por acaso é que dentre eles saíam bandos de rudes aventureiros - mais tarde chamados nobremente "bandeirantes" - que enfrentavam o interior ainda desconhecido do Brasil em busca de índios, aos quais escravizavam, e de qualquer coisa que pudesse melhorar as condições de existência. Ouro, por exemplo.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 85.
(2) Ibid., p. 144.
(3) Ibid.


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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Decepções dos jesuítas na catequese de meninos indígenas

Em uma carta escrita em São Vicente, datada de março de 1555, José de Anchieta assinalou, referindo-se ao Colégio de Piratininga:
"Temos uma grande escola de meninos índios, bem instruídos em leitura, escrita e em bons costumes, os quais abominam os usos de seus progenitores. São eles a consolação nossa, bem que seus pais já pareçam mui diferentes nos costumes dos de outras terras; pois que não matam, não comem os inimigos, nem bebem da maneira por que dantes o faziam." (¹)
Os meninos índios, porém, logo cresceram, e lá se foi a "consolação" dos jesuítas - já adolescentes, os catecúmenos não mais queriam saber da rotina do colégio dos padres, e logo iam com seus parentes às práticas que, para os povos indígenas, caracterizavam os verdadeiros homens adultos. É ainda Anchieta quem relata, em uma outra carta, enviada ao Geral Diego Laynez em 1º de julho de 1560:
"Dos moços que falei no princípio foram ensinados não só nos costumes cristãos, cuja vida quanto era mais diferente da de seus pais, tanto maior ocasião dava de louvar a Deus e de receber consolação, não queria fazer menção por não refrescar as chagas, que parecem algum tanto estar curadas; e daqueles direi somente que chegando aos anos da puberdade, começaram a apoderar-se de si, vieram a tanta corrupção, que tanto excedem agora a seus pais em maldade quanto antes em bondade, e com tanta maior sem-vergonha [sic] e desenfreamento se dão às borracheiras e luxúrias, quanto com maior modéstia e obediência se entregavam dantes aos costumes cristãos e divinas instruções. Trabalhamos muito com eles para os reduzir ao caminho direito, nem nos espanta esta mudança, pois vemos que os mesmos cristãos procedem da mesma maneira." (²)
Será bom ressaltar que casos análogos ocorriam em quase todos os lugares nos quais os jesuítas estabeleciam missões, de modo que não será nada difícil imaginar quão frustrante era, para eles, observar que seus esforços resultavam inúteis. Lembrem-se os senhores leitores de que, no Século XVI, não era fácil empreender uma viagem à América, com a certeza quase absoluta de jamais retornar. Se é verdade que a Europa da época não era exatamente o melhor dos mundos, vir ao Continente Americano significava defrontar-se com o desconhecido, sem dispor dos recursos habituais para a sobrevivência. Vale reforçar, ainda, que, independente do que se pense hoje da catequese de indígenas, os jesuítas do Século XVI acreditavam com firmeza no trabalho que faziam e nele empregavam seus melhores esforços, daí porque a "deserção" dos meninos indígenas devia assumir um aspecto em extremo decepcionante. Disso resultou, portanto, uma gradual mudança de postura dos missionários. Se no princípio da catequese a ideia era empregar toda a doçura e caridade cristãs, não demorou para que os padres "jogassem a toalha", de modo que, em carta datada de 16 de abril de 1563, novamente endereçada ao Geral Diego Laynez, já vamos encontrar Anchieta disposto à adoção de práticas coercitivas no trato com os indígenas:
"Parece-nos agora que estão as portas abertas nesta Capitania para a conversão dos gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo, porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro, na qual mais do que em nenhuma outra é necessário que se cumpra o compelle eos intrare." (³)
A Europa daqueles dias defrontava-se com a Reforma Protestante, com o Concílio de Trento, com a propagação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Ora, se era aceitável queimar hereges no Velho Mundo, por que pareceria estranho ou impróprio forçar os índios à conversão?

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 79.
(2) Ibid, p. 156.
(3) Ibid.


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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Primeiro os meninos indígenas

No Século XVI, os meninos indígenas tinham a preferência dos jesuítas na catequese


Os adultos, primeiro, ou os meninos? Esta questão se impôs aos jesuítas que, em meados do Século XVI, começavam a desenvolver a catequese de povos indígenas do Brasil. Depois de breve tempo, chegou-se à conclusão de que os meninos eram "mais aptos" para as pretensões dos missionários, uma vez que os homens feitos dificilmente deixavam os hábitos e costumes nos quais haviam crescido e passado toda a existência.
Isso não quer dizer que jesuítas não se dessem ao trabalho de tentar a doutrinação de adultos. Era apenas uma questão de prioridade, já que as crianças (e, por vezes, também as mulheres indígenas) pareciam mais receptivas que os escolados guerreiros nativos, orgulhosos das práticas recebidas dos ancestrais.
Pelas cartas que jesuítas enviavam à Europa - aos superiores ou aos irmãos de Ordem - sabemos alguma coisa sobre  a rotina desses primeiros tempos de catequese. Em uma carta de Anchieta, datada de 1555, destinada aos irmãos da Companhia de Jesus em Portugal, pode-se ler:
"Estes índios, entre quem estamos agora, nos dão seus filhos para que os doutrinemos, e pela manhã, depois da lição, dizem ladainhas na igreja, e à tarde, a Salve; aprendem as orações em português e em sua própria língua (...)." (¹)
Observemos, de passagem, um fato interessante que pode ser depreendido do trecho acima: chegados ao Brasil em 1549, já em 1555 eram alguns dos jesuítas capazes de proporcionar ensino tanto em português quanto na chamada "língua geral", majoritariamente empregada por indígenas das regiões litorâneas.
Também de 1555 é esta informação que aparece em outra carta de Anchieta, que nos oferece uma ideia do currículo adotado, incluindo leitura, escrita e, por suposto, doutrinação religiosa:
"Estamos, como lhes hei escrito, nesta aldeia de Piratininga, onde temos uma grande escola de meninos, filhos de índios, ensinados já a ler e escrever, e aborrecem muito os costumes de seus pais, e alguns sabem ajudar a cantar a missa: estes são nossa alegria e consolação, porque seus pais não são mui domáveis [sic], posto que sejam mui diferentes dos das outras aldeias, porque já não matam nem comem contrários, nem bebem como dantes." (²)
Em 1556 Anchieta ainda escreveria, deixando bem claro que a doutrinação era o primeiro e maior cuidado:
"No que diz respeito à doutrinação dos meninos, suficientemente me explanei nas cartas antecedentes. Duas vezes por dia se reúnem na escola, e todos eles, principalmente de manhã, porque depois do meio-dia, cada um precisa prover à sua subsistência, caçando ou pescando; e se não trabalharem, não comem. O principal cuidado que deles se tem, consiste no ensino dos rudimentos da fé, sem omitir o conhecimento das letras, às quais tanto se afeiçoam, que se nessa ocasião se não deixassem seduzir, talvez outra se não pudesse encontrar. Em matéria de fé, respondem por certas fórmulas que se lhes ensinam; alguns, mesmo sem elas." (³)
É significativa a observação de que, à tarde, não havia aulas, uma vez que competia aos meninos a obrigação de caçar e pescar para o próprio sustento; parece também que o velho (mas muitas vezes eficiente) método grego de ensinar mediante perguntas e respostas era empregado em terras brasílicas por missionários jesuítas que se viam, de certa forma, como repetidores na América da missão desenvolvida pelos apóstolos. Não demoraria, porém, para que os padres, tão esperançosos quanto a seus catecúmenos, tivessem uma amarga decepção. Na próxima postagem trataremos disso.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 72.
(2) Ibid., p. 85.
(3) Ibid., p. 89.


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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre os padres que vinham ao Brasil no Século XVI

É de Joaquim Manuel de Macedo (¹) uma curiosa afirmação sobre os padres que, no início da colonização, vinham ao Brasil - diz ele que "os padres entraram com o pé esquerdo na Terra de Santa Cruz" (²). E explica:
"Os padres que naquela época foram chegando não deviam ser dos mais recomendáveis, nem pela sua ilustração, nem por uma grande moralidade, porque os donatários, que no Reino recrutavam nas últimas camadas da sociedade a gente de que precisavam para criar os seus estabelecimentos coloniais, por certo que não teriam mui zeloso cuidado na escolha dos clérigos que fizeram vir."
A situação era de tamanha seriedade que, quando em 1549 vieram os primeiros jesuítas, Nóbrega, um deles, ficou horrorizado com o desregramento que notou entre os "padres seculares" que já andavam pela Colônia. Daí o empenho para que ficasse clara a distinção entre os "padres da Companhia" e os outros.
É fato que o número de sacerdotes era reduzido e de modo algum suficiente para atender a todas as povoações. Era, então, perfeitamente possível que alguém passasse quase a vida toda sem qualquer assistência religiosa, em tempos nos quais a Igreja desempenhava um papel preponderante na sociedade e, por conseguinte, nas ideias que povoavam a cabeça de cada colono. Aprovemos ou não, na época a religião podia ser um fator importante de controle social - uma ferramenta valiosa como freio à má conduta dos colonos, em situações nas quais o Estado era, na prática, ausente. Disso decorria a importância de que os padres fossem exemplos de bom comportamento. Não era, porém, o que usualmente ocorria.
Nóbrega tinha a língua afiada e, em carta datada de 1549, que enviou a seus irmãos de Ordem em Portugal, não economizou nas palavras ao descrever os religiosos que encontrou no Brasil:
"Os clérigos desta terra têm mais ofício de demônios que de clérigos, porque, além do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo, e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado com suas negras, pois que são suas escravas, e que podem ter os salteados, pois que são cães, e outras coisas semelhantes, por escusar seus pecados e abominações. De maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga senão estes. Querem-nos mal porque lhes somos contrários a seus maus costumes, e não podem sofrer que digamos as missas de graça, em detrimento de seus interesses. Cuido que, se não fora pelo favor que temos do governador e principais da terra, e assim porque Deus não o quer permitir, que nos tiveram já tiradas as vidas. Esperamos que venha o bispo, que proveja isto com temor, pois nós outros não podemos por amor." (³)
Até quanto ao bispo que viesse, tinha Nóbrega as suas restrições, já que, escrevendo ao padre-mestre Simão Rodrigues a respeito do prelado que devia receber a dignidade episcopal (⁴), observou: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (⁵)
Disso se conclui que Nóbrega estava em plena consciência quanto à enormidade do trabalho de catequese que desejava empreender. Que, ao menos, não viessem padres de má conduta para atrapalhar!

(1) Todo mundo conhece Joaquim Manuel de Macedo como romancista - o homem que escreveu A Moreninha. Mas poucos sabem que, por formação, era médico, e que atuou como professor de História no Imperial Colégio de Pedro II.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 231.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 311.
(4) Dom Pero Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo do Brasil.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Op. cit., p. 296.


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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Como os jesuítas ensinavam aos indígenas a doutrina da Trindade

O Padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que veio ao Brasil com Tomé de Sousa em 1549, era, apesar de jovem, já experiente em doutrinar, no Reino, a gente que não dava muita importância aos assuntos religiosos. Na Colônia, porém, enfrentaria dificuldades bem diferentes daquelas às quais estava habituado.
Como poderiam comunicar-se os jesuítas com os indígenas que pretendiam catequizar, se não lhes conheciam o idioma? Logo veriam, também, que não estariam lidando com uma única e homogênea cultura indígena - os povos indígenas eram diferentes e numerosos, como eram também diversos o idioma e a cultura. Assim, tratou-se de aprender a língua predominantemente falada no litoral, buscando meios de tornar inteligíveis os ensinos que julgavam ser seu dever transmitir.
Em uma carta dirigida a seus irmãos jesuítas em Portugal, o Padre Manuel da Nóbrega escreveu, a propósito dos indígenas que tentava doutrinar:
"Têm mui poucos vocábulos para lhes poder bem declarar nossa fé. Mas contudo damos-lha a entender o melhor que podemos, e algumas coisas lhes declaramos por rodeios. Estão mui apegados com as coisas sensuais. Muitas vezes me perguntam se Deus tem cabeça e corpo, e mulher; e se come, e de que se veste, e outras coisas semelhantes." (¹)
Ora, meus leitores, já podemos aqui traçar ao menos duas reflexões: ou os padres não tinham suficiente compreensão da língua e cultura dos povos indígenas para explicar o que pretendiam, ou a cultura indígena era muito diferente da dos portugueses e outros europeus no que tange a questões religiosas, daí a dificuldade de encontrar um meio de expressão conveniente para conceitos, por vezes, bastante abstratos.
Creio, senhores leitores, que as duas coisas, de fato, aconteciam.
O jesuíta Belchior de Pontes usava uma
vela 
para ensinar aos índios a
doutrina da Trindade
Como exemplo, tomemos o caso das tentativas que se faziam para explicar aos índios a Doutrina da Trindade. A noção da existência de um Deus-Pai e de um Deus-Filho não era assim tão difícil; entretanto, parecia aos padres quase impossível aclarar o conceito da existência do Espírito Santo. Anchieta, outro missionário jesuíta, relatou em uma carta ao Geral Diego Laynez, datada de 16 de abril de 1563, ao falar da catequese de um índio muito idoso:
"Dando-lhe pois a primeira lição de ser um só Deus Todo-Poderoso, que criou todas as coisas, etc., logo se lhe imprimiu na memória, dizendo que lhe rogava muitas vezes que criasse os mantimentos para a sustentação de todos, mas que pensava que os trovões eram este Deus; porém agora que sabia haver outro Deus verdadeiro sobre todas as coisas, que a ele rogaria chamando-o Deus Pai e Deus Filho; porque dos nomes da Santa Trindade este dois somente pôde tomar, pela razão de que se podem dizer em sua língua; mas o Espírito Santo, para o qual nunca achamos vocábulo próprio, nem circunlóquio bastante, ainda que o não sabia nomear, sabia-o contudo crer como nós lhe dizíamos." (²)
No entanto, um padre, também jesuíta, mas nascido no Brasil no Século XVII, acabaria encontrando uma curiosa e didática solução para o problema. Conta Manuel da Fonseca, outro jesuíta, tratando do modo pelo qual o padre Belchior de Pontes procedia à catequese dos índios na povoação de São Paulo de Piratininga:
"Ajuntava-os em uma praça junto à Igreja da Misericórdia, e postos em fileiras se metia entre eles. Tomava nas mãos uma vela acesa, e com ela lhes declarava o altíssimo Mistério da Santíssima Trindade, explicando como era Deus Trino em Pessoas, e um na essência, porque assim como se notam na vela três coisas, as quais, ainda que são entre si tão distintas, que uma não é outra, constituem um só composto, assim também se notam naquele incompreensível mistério, e que tanto supera a capacidade humana, três Pessoas distintas, e um só Deus." (³)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 304.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 190.
(3) FONSECA, Manoel da S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 113 e 114 (Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo).


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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um índio que só era surdo na hora da catequese

Os jesuítas que, no Século XVI, vieram ao Brasil tendo como meta a catequese dos povos indígenas, comunicavam-se com seus irmãos de Ordem em Portugal, ou mesmo com o Geral da Companhia de Jesus em Roma, através de cartas. Eram essas correspondências um tanto longas, já que nelas era descrito o trabalho de vários meses, quando não de anos. Entende-se: as comunicações, na época, eram difíceis. Em regra, apenas um navio por ano fazia a rota de São Vicente a Lisboa e, por vezes, nem mesmo esse único empreendia a viagem.
Por força de uma série de circunstâncias, Anchieta, que ainda noviço viera ao Brasil, acabou por fazer-se um verdadeiro mestre no gênero epistolar, de modo que muito da correspondência da Companhia de Jesus em suas primeiras décadas no Brasil foi por ele redigida. E é assim que temos, dele, um relato que raia a humorístico, de um índio que, para não ser catequizado, fazia-se passar por surdo. O episódio aparece em uma carta escrita em São Vicente, datada de 1º de junho de 1560, cujo destinatário era ninguém menos que o Geral Diego Laynez, sucessor de Inácio de Loyola:
"Adoeceu um destes catecúmenos em uma aldeia nos arrabaldes de Piratininga e fomos lá para lhe dar algum remédio, principalmente para a sua alma: dizíamos-lhe que olhasse para a sua alma, e que deixando os costumes passados, se preparasse para o batismo; respondeu que o deixássemos sarar primeiro, e esta resposta somente nos dava a tudo que lhe dizíamos nós outros; declarávamos abreviadamente os artigos da fé e os mandamentos de Deus, que muitas vezes de nós já tinha ouvido, e respondido, como enjoado, que já tinha os ouvidos tapados, sem ouvir ao que lhe dizíamos, em todas as outras coisas fora deste propósito, respondia prontamente, que bem parecia não ter tapados os ouvidos do corpo, e somente os do coração." (¹)
Perseverantes os padres em catequizar, perseverante o "surdo" em não se deixar batizar, o fato é que não sabemos quem venceu essa batalha - Anchieta nada diz a respeito. Porém, com esse relato, temos uma ideia de como marchava a catequese. Os padres queriam multiplicar discípulos. Alguns índios, ao que parece (²), queriam apenas que os deixassem viver como índios. Isso, é claro, quando as coisas ocorriam pacificamente. Em outras cartas, o próprio Anchieta chegou a defender o uso de métodos aos quais, hoje, não atribuiríamos muita suavidade.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 145.
(2) Como não temos relatos dessa época escritos pelos próprios índios, podemos apenas fazer algumas inferências a partir do que escreveram os missionários.


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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Como indígenas furavam as orelhas

Os portugueses que, em fins do Século XV, chegaram ao Brasil, notaram que os povos indígenas dispunham, como parte de sua cultura, de uma grande variedade de técnicas para ornamentação do corpo, incluindo pinturas, uso de penas, ossos, etc. Ora, perguntará alguém, como é que as índias furavam as orelhas?
O Padre José de Anchieta, missionário jesuíta nativo das Canárias, em uma de suas cartas destinadas ao Geral da Ordem (¹), datada de 31 de maio de 1560, observou, a propósito de uns animaizinhos existentes no Brasil:
"Existem também certos pequenos animais do gênero dos ouriços (²), cobertos de cerdas compridas e mui agudas [...], pretas na ponta, as quais, se tocarem em alguma coisa, principalmente carne, entram pouco a pouco por si, sem ninguém as empurrar; as mulheres brasílicas costumam servir-se delas para furarem as orelhas, sem sentirem dor."
Está dada, portanto, a explicação quanto ao procedimento que adotavam as índias. Espero que os muito curiosos estejam satisfeitos.

Indígenas brasileiros de várias etnias, de acordo com Debret (³)

(1) O Superior Geral era, nessa ocasião, Diego de Laynez, sucessor de Inácio de Loyola.
(2) Anchieta não se propõe a nenhuma classificação técnica dos animais, apenas os descreve para conhecimento dos membros de sua Ordem religiosa na Europa. Trata-se, aqui, de uma referência ao ouriço-cacheiro.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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