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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Leques para manter as fogueiras acesas

Vários autores que estiveram no Brasil nos Séculos XVI e XVII observaram que, mesmo quando fazia calor, indígenas acendiam fogueiras em suas habitações, perto da rede onde cada um deveria dormir. Por quê?
As redes tinham pelo menos dois propósitos: afastavam insetos incômodos e funcionavam como proteção contra animais maiores, que poderiam, sorrateiramente, entrar em uma moradia coletiva de indígenas enquanto todos dormiam. Sabe-se lá, então, o que poderia acontecer, se fosse o caso de uma onça, por exemplo, chegar sem ser percebida. E, é claro, em noites frias, uma fogueira servia para manter o ambiente aquecido.
Jean de Léry (*), que participou da fracassada tentativa francesa de estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro conhecida como França Antártica - chegou ao Brasil em 10 de março de 1557 e ficou menos de um ano - notou que indígenas usavam um pequeno objeto destinado a abanar o fogo para mantê-lo aceso, e que lhe pareceu guardar certa semelhança com os leques usados por mulheres europeias. Seu nome indígena? Na maneira como Léry o entendia, era tatapecuá.

(*) Calvinista francês, depois de ter estado no Brasil, voltou à Europa e se tornou pastor protestante. Escreveu e publicou suas memórias com o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil.

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Como indígenas caçavam antas

Anta (Tapirus terrestris)

Jean de Léry (*) descreveu a anta como uma vaca sem chifres, meio vaca, meio jumento. Estava certo? Questão de opinião. Léry não tinha medo das antas porque, com os indígenas, aprendeu que, a despeito dos dentes afiados, elas usavam apenas a fuga como defesa. Por isso, os tupinambás, que eram hábeis no uso do arco, matavam-nas a flechadas ou com o emprego de armadilhas. 
A razão para a caça às antas era simples: obter comida. O método de preparar carne empregado pelos tupinambás, conforme descrito por Jean de Léry, era colocar forquilhas feitas de galhos de árvore no chão, e, entre elas, bastões de madeira que funcionavam como grelhas, nas quais a carne, em pedaços, era posta a assar. Sabe-se que outros povos indígenas tinham métodos diferentes para assar a carne dos animais que caçavam. 
O couro das antas tinha uso, também. Dele se fazia uma arma defensiva, semelhante a um escudo redondo, usado para aparar flechas lançadas por inimigos durante um combate. Colonizadores observaram esse uso, decorrente da dureza de parte do couro de anta, e logo entenderam que podiam empregá-lo também, com idêntico propósito. Quanto a Léry, ele e seus companheiros, na viagem de regresso à França, ficaram sem ter o que comer, uma situação que, infelizmente, nada tinha de incomum na travessia do Atlântico durante o Século XVI, e mesmo mais tarde. Lembraram-se de cortar em pedaços os couros de anta que levavam, fervendo-os em água, na suposição de que poderiam servir para matar a fome. O resultado foi terrível. Alguém no grupo, com certo talento para culinária, resolveu mudar o modo de preparo, assando o couro na brasa. Desta vez, depois de removida a superfície que se queimara, chegou-se a um resultado satisfatório. Alegou-se, até, que parecia torresmo. O que é que a fome não faz!... 

(*) Francês, Léry veio muito jovem ao Brasil. Chegou à fracassada colônia francesa conhecida como França Antártica, e ficou menos de um ano. Voltou à França e, como calvinista que era, foi a Genebra, estudou Teologia, tornou-se pastor protestante e, mais tarde, escreveu um livro contando suas aventuras e experiências na América do Sul, que foi publicado com o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil.


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quinta-feira, 14 de maio de 2020

A falta de água em viagens marítimas

A falta de água potável em navios nos séculos XV e XVI estava entre os maiores pesadelos dos marinheiros. Afinal, era água e mais água ao redor, mas os sedentos marujos não podiam nem pensar em bebê-la, porque era salgada. 
Assim, facilmente se explica por que razão, a cada oportunidade, iam todos os navegantes "fazer aguada", ou seja, abastecer os tonéis de água, ainda que, no momento, não houvesse falta. Na Carta de Caminha, relata-se que, mesmo antes que alguém fosse mandado a terra e que, desse modo, se fizesse o descobrimento oficial do Brasil, procurou-se um lugar favorável para aportar em busca de água e lenha, reconhecendo o escrivão que, naquele momento, não tinham escassez dessas coisas: "Fomos ao longo da costa [...], para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso onde ficássemos, para tomar água e lenha, não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui". Navegantes experientes, os portugueses sabiam que, diante de tanta e tão boa água, valia a pena abastecer os navios, pelo risco de não terem como fazê-lo mais tarde, quando prosseguissem no rumo das Índias.
Se estavam em alto mar e faltava água, só havia uma coisa que os marinheiros podiam fazer, e era suplicar aos céus por chuva. Quando ela vinha, os navegadores usavam recolher cada gota, do melhor modo que podiam. Um método era estender lençóis no convés e, cessando a chuva, torcê-los, para recolher o líquido. Segundo Jean de Léry, foi esse o procedimento adotado quando fazia a viagem de regresso à França em 1558, porque no navio estava disponível, diariamente, apenas um copo pequeno de água imunda para cada um. A sede era tanta que até mesmo a água que escorria pelo convés era recolhida e sofregamente ingerida, ainda que muito suja. Bernal Díaz del Castillo, um soldado que se tornou famoso ao escrever sobre a chamada "conquista do México" por Hernán Cortés, da qual participou, fez o registro de experiência similar. "Digo que tanta sede passamos", afirmou (¹), "que na língua e na boca, tão secas, tínhamos rachaduras, pois nada havia para refrigério" (²).
Situação análoga foi provada pelos homens que, com Pedro Sarmiento de Gamboa, contornaram a Patagônia e, no rumo da costa da África, chegaram à Europa (³). O relatório da viagem diz que, em certo dia, já em direção aos arquipélagos perto da África, "[...] às dez da noite caiu um grande aguaceiro, do qual se tomou alguma água, o que foi grande consolo, porque o calor era excessivo e pouca a água que tínhamos, já bastante racionada" (⁴).
Quando, afinal, chegaram ao arquipélago de Cabo Verde, a população local apenas se convenceu quanto à veracidade da viagem que diziam ter feito em razão do péssimo aspecto que tinham os marinheiros, com cabelo e barba que não viam a ação de tesoura ou navalha há muito tempo. Mas Pedro Sarmiento, ao dar conta do sucedido, concluiu: "[...] vínhamos mais cobiçosos de água que de parecer lindos" (⁵).

(1) Bernal Díaz del Castillo foi um soldado espanhol que participou da expedição de Cortés. Escreveu a obra muitos anos depois, já em idade avançada.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Entre 1579 e 1580. 
(4) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 314. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid., p. 343.


terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Cestaria indígena



Indígenas do Brasil foram (e são) notáveis na arte da cestaria. Não precisavam (precisam) de mais recursos que aqueles que podiam (podem) encontrar perto de onde viviam (vivem). Jean de Léry (¹), por exemplo, afirmou que palha de milho (²), além de outros materiais, era usada por indígenas que conheceu no Rio de Janeiro em meados do Século XVI, resultando em cestos de tamanhos variados e de aspecto delicado. 
Bernardo Guimarães, em Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais, coloca uma de suas personagens, a índia Jupira, envolvida com a arte da cestaria: "Jupira estava sentada à sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem mui viçosa e cerrada, que dava fresquíssima sombra. Estava tecendo um cabaz de palhas de buriti, enquanto sua mãe, índia algum tanto idosa, a alguns passos de distância moqueava um gordo e grande tiú." Façam disso um cenário, leitores, onde inserir o que se pode ver aqui: fotos de trabalhos em cestaria (³), feitos por povos indígenas do Brasil.

Trabalho em cestaria da etnia tukano

Trabalho em cestaria da etnia Kayapó

Trabalho em cestaria da etnia yanomami

(1) Protestante francês que em 1557 esteve na chamada França Antártica, fracassada tentativa francesa de colonização no Rio de Janeiro.
(2) Essa afirmação de Léry quanto ao emprego de palha oferece uma informação interessante em relação à polêmica que envolve a época a partir da qual passou a haver o conhecimento e cultivo de milho por indígenas do Brasil. 
(3) Todas as amostras de cestaria incluídas nesta postagem pertencem ao Memorial dos Povos Indígenas, que tem um acervo notável. Quando forem a Brasília, leitores, não deixem de visitar.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Os indígenas do Brasil e o hábito dos banhos frequentes

Crianças indígenas não faziam birra na hora do banho. Habituadas, desde muito pequenas, ao prazer do mergulho na água de um rio, dispensavam qualquer ordem peremptória do pai ou da mãe para que se banhassem. Explicou o jesuíta Fernão Cardim, que percorreu parte considerável do Brasil na penúltima década do Século XVI:
"[Os indígenas], andando caminho, suados, se botam aos rios, os homens, mulheres e meninos, em se levantando se vão lavar e nadar aos rios, por mais frio que faça; as mulheres nadam e remam como homens, e quando parem algumas se vão lavar aos rios." (¹)
Outro que notou o gosto ameríndio pelos banhos foi Yves d'Évreux, capuchinho francês que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614. É dele este relato:
"Têm [os índios] muito cuidado na limpeza de seus corpos: lavam-se muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem muita água sobre si, em que se não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras imundícies." (²)
Por que os banhos frequentes dos indígenas surpreendiam colonizadores? Seria, talvez, porque, vindo de climas frios, não tinham o mesmo costume? Franceses que tentaram estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro insistiram com as índias, inutilmente, para que usassem roupas. É que o vestir-se e despir-se, levando em conta os trajes europeus que lhes queriam impor, tomava tempo demais e era um desagradável empecilho à espontaneidade dos banhos. Jean de Léry, que viveu na França Antártica e, mais tarde, escreveu um livro (³), referiu que, para refrescar-se, ele e outros franceses que estavam no Brasil em 1557 haviam tomado banho no dia de Natal. A ideia era explicar a seus compatriotas que, no Hemisfério Sul, as estações eram inversas às do Hemisfério Norte. Portanto, em lugar de neve, havia o mais esplêndido sol em dezembro. Com o passar do tempo, europeus que vieram viver no Brasil e seus descendentes foram tomando gosto pelo que era, a princípio, um costume indígena, de modo que os banhos frequentes se tornaram um hábito também para a maioria dos brasileiros.

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 41 e 42.
(2) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 96.
(3) Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil


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terça-feira, 12 de junho de 2018

Por que vir de tão longe buscar pau-brasil?

"Oh! e quão loucos são e ambiciosos!
Por um pouco de pó, por uma pedra,
Por um tronco de pau, eles se matam
Parece que têm medo que lhes falte
Terra e mar, ar e céu, aves e bosques!"
Gonçalves de Magalhães, A Confederação dos Tamoios


"Pau-de-tinta" foi um dos muitos nomes dados ao pau-brasil (Paubrasilia echinata). Na Europa do Século XVI essa notável madeira servia, entre outros usos, à construção naval e à fabricação de móveis e de instrumentos musicais, além do emprego em tinturaria. Foi sua abundância na costa do Brasil que contribuiu para dar à terra algum interesse por parte da Metrópole, uma vez que, nesse tempo, o comércio dos artigos vindos do Oriente tinha, ainda, a preponderância. 
Indígenas cortando pau-brasil com ferramentas
fornecidas por europeus (¹)
Não demorou muito e indígenas do litoral, encantados por objetos trazidos por europeus (tais como facas, tesouras e machados), também se envolveram em cortar madeira e arrastá-la até pontos junto ao mar, chamados arrogantemente de "feitorias", mas que, como regra, não passavam de amontoados de árvores cortadas, cobertas, no melhor dos casos, por alguma simples construção ao estilo indígena, aguardando que embarcações comparecessem para o escambo. Ora, leitores, nem era necessário que portugueses estabelecessem uma dessas feitorias: um relato (ao que tudo indica, verídico), presente no Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa, mostra que indígenas, motivados pelo escambo, chegavam a tomar a iniciativa de ir aos navios para oferecer madeira que, por conta própria, haviam preparado:
"A terra é toda chã, cheia de arvoredo. Como nos achegamos mais a terra se nos fez o vento sueste, e no meio-dia surgimos em fundo de onze braças, uma légua de terra. [...]. Este dia vieram de terra, a nado, às naus, índios a perguntar-nos se queríamos brasil."
Deste documento, datado de 3 de fevereiro de 1531, podem ser extraídos dois fatos importantes:
  • O escambo já despertava grande interesse entre os indígenas;
  • Indígenas e portugueses já eram capazes de razoável comunicação, ou não seria o caso de Pero Lopes de Sousa registrar que os "naturais da terra" haviam perguntado se havia interesse por madeira.
Indígenas cortando pau-brasil,
imagem do Século XVI (⁴) 
Sucede que não eram apenas os portugueses que viam no pau-brasil uma oportunidade de comércio e, portanto, de lucro. Navegadores de outras nacionalidades, especialmente franceses, eram assíduos frequentadores do litoral brasileiro, e diante deles as chamadas expedições guarda-costas eram quase inócuas. Jean de Léry (²), em conversa com tupinambás, foi interrogado quanto ao interesse dos franceses pelo pau-brasil - aos nativos da América parecia estranho que europeus viessem de muito longe para buscar lenha com que fazer fogueiras... Coube ao francês explicar que não era para queimar, mas para a extração de tinta que se usava o arabutan.
A incômoda pergunta seria repetida, um pouco mais tarde, a outro francês, o capuchinho Yves d'Évreux (³), que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614:
"Um dia disseram-me alguns [indígenas], que era preciso haver muita falta de madeira em França, e que experimentássemos muito frio para mandarmos navios de tão longe, à mercê de tantos perigos, carregarem de paus.
Respondi-lhes que não era para queimar, e sim para tingir de cores." (⁵)
Leitores, nada de achar graça na questão levantada pelos indígenas. Ignorando completamente como era a vida na Europa, eles apenas podiam imaginar o mundo segundo a vivência que tinham. Era choque de culturas, sim. Pergunto: Não serão muitos dos conflitos atuais, que assolam este mundo, resultantes, também, do quanto ainda desconhecemos em relação àqueles que diferem de nós?

(1) THEVET, André. Cosmographie Universelle vol. 2. Paris: Guillaume Chaudiere, 1575, p. 950.
(2) Francês, esteve no Rio de Janeiro em 1557, na malograda tentativa de estabelecimento da "França Antártica".
(3) Trabalhou como missionário na tentativa de estabelecimento da "França Equinocial", que, à semelhança da "França Antártica", fracassou.
(4) THEVET, André. Les Singularitez de la France Antarctique. Paris: Maurice de La Porte, 1558, p. 117.
(5) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 65.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Modo indígena de discutir algum assunto importante

Para quem acha que o melhor modo de deliberar sobre algum assunto importante é fazer com que todos os interessados sejam postos ao redor de uma mesa para um debate franco, o modo indígena de discutir coisas relevantes pode parecer estranho. Continha, porém, um princípio valioso: o respeito àquele que falava, para que pudesse expressar seu ponto de vista integral e claramente.
Tupinambás, além de outros grupos, tinham por costume jamais interromper alguém que falava - ouviam em estrito silêncio, pelo tempo que fosse necessário, segundo relato de Jean de Léry, francês que esteve no Brasil no Século XVI. Informação semelhante nos vem de Gabriel Soares, um colonizador e senhor de engenho, que também viveu no Brasil no Século XVI, mas na Bahia, e não no Rio de Janeiro, como Léry:
"Se assentam todos de cócoras, e como tudo está quieto, propõe o principal (¹) sua prática, a que todos estão muito atentos; e como acaba sua oração, respondem os mais antigos cada um por si, e quando um fala, calam-se todos os outros, até que vem a concluir no que hão de fazer [...]." (²)

Reunião em uma aldeia de índios coroados (³)

Quanto poderia durar a deliberação? Ora, dependia do assunto, mas, segundo Léry (⁴), às vezes uma reunião tribal passava de seis horas. O detalhe pitoresco é que cada orador, ao invés de simplesmente falar, fazia uso, também, de um amplo gestual, batendo compassadamente os pés no chão ou as mãos no próprio corpo Valia, ainda, alterar, intencionalmente, a intensidade da voz. Estratégias de convencimento, é claro, próprias das culturas em questão, que não passaram despercebidas aos missionários que queriam catequizar indígenas. Mediante observação, os padres logo aprenderam que o ensino da doutrina e das histórias bíblicas seria mais atraente se apresentado no estilo que era familiar a seus ouvintes. E, se o método funcionava, os missionários (particularmente os jesuítas), não vacilavam em adotá-lo.

(1) Líder da aldeia indígena ou cacique.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 326.
(3) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização nestes blog.
(4) LÉRY, Jean de. Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil. Genève: Antoine Chuppin, 1580.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Uma comparação entre europeus e indígenas, de acordo com Jean de Léry

"Nasceram mais livres que nós, senhores absolutos das terras em que Deus os pôs..."
Padre Antônio Vieira, em carta de 5 de agosto de 1684

Quando fazemos alguma viagem, procuramos ter, com antecedência, o máximo de informações sobre o local de destino. Consultamos sites, olhamos fotos e vídeos, recorremos a mapas, se necessário. E, é bom que se diga, tudo isso hoje é muito fácil, em quase qualquer lugar do mundo. Mas nem sempre foi assim.
No Século XVI, quando um europeu resolvia correr o risco de uma viagem marítima para fora de seu Continente, dificilmente sabia o que é que haveria de encontrar. Os mapas eram imprecisos e mesmo navegadores experientes tinham problemas em determinar com exatidão o lugar em que se encontravam. Tudo o que havia ao redor era a água do mar e, muito longe, o céu estrelado. Ah, naturalmente quando as estrelas, incluindo o sol, eram visíveis. Caso contrário, os problemas eram muito maiores.
Jean de Léry era ainda bastante jovem quando atravessou o Atlântico e, mergulhado em ideais religiosos, veio viver por quase um ano na França Antártica, uma colônia que calvinistas franceses tentaram em vão estabelecer na América do Sul, em área do atual Estado do Rio de Janeiro. Como os franceses tinham um bom relacionamento com os índios tupinambás, Léry pôde observar tranquilamente como é que esses nativos viviam. E as comparações vieram, inevitáveis. Foram, mais tarde, expostas em um livro, Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil
Notou, logo de início, que os indígenas não eram nem mais altos e nem mais pesados que os europeus; não obstante, eram muito mais fortes. Por quê? Léry responsabilizou o clima do Brasil, que não tinha extremos de frio e calor, e o ar que, segundo ele, era puríssimo (¹). A diferença era tanta que um europeu jamais seria capaz de usar um arco indígena, e isso valia até mesmo para os ingleses, que eram considerados os melhores arqueiros da época - percebam, leitores, que era um francês quem estava dizendo... Europeus somente estavam em condições de usar arcos indígenas feitos para meninos de uns dez anos de idade, não mais. Espantosa, também, era a velocidade com que um tupinambá atirava. No tempo necessário para que um inglês disparasse meia dúzia de flechas, um índio faria o dobro. 
Mas não era só. Andando por aldeias indígenas, Jean de Léry percebeu que o modo como as mães cuidavam de seus bebês era, por assim dizer, o oposto do que de se praticava na Europa. Crianças europeias viviam, no verão e no inverno, enfaixadas e cobertas por montes de agasalhos, e, mesmo admitindo as especificidades relativas ao clima frio, não podia o francês deixar de admirar que os bebês indígenas vivessem livres. Embora não usassem fraldas, nunca estavam sujos. Sim, aprendiam a gostar de banhos desde pequenos.
Prevendo que seus leitores não tardariam a argumentar que, mesmo levando vantagem nesses aspectos, os indígenas viviam em plena selvageria, Léry, longe de fugir da questão, tratou de expor o assunto. Não havia como negar que as guerras entre nativos eram sangrentas, que a antropofagia não era nenhuma raridade, que as inimizades entre tribos eram quase perpétuas. Um horror! Que diria Léry?
O jovem artesão francês, depois de deixar o Brasil em 1558, retornou à Europa, participou de guerras por causa de questões religiosas e, mais tarde, indo a Genebra, estudou teologia e veio a ser um pastor protestante. Só aí é que escreveu seu livro, e tinha, então, uma resposta na ponta da língua para as invectivas quanto à selvageria dos indígenas. Não estariam os europeus de seu tempo em pé de igualdade nesse assunto? Não eram os pobres, mesmo quando padeciam de fome, explorados pelos ricos? Não havia tantos que, mesmo orgulhosos de se chamarem cristãos, se engalfinhavam em guerras monstruosas, tendo a defesa da religião por pretexto? Que dizer do Massacre de São Bartolomeu? 
O recado de Léry era simples: Se alguém queria ver selvageria, não era preciso sair da Europa. E concluía dizendo que, não fora o que chamava de "traição de Villegaignon", o Brasil teria sido seu lar para sempre.

Indígenas treinando para o combate (²)

(1) Bons tempos, aqueles...
(2) ___________ Bilder - Atlas, Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dois europeus entre os tupinambás no Século XVI

Indígenas que viviam junto ao mar e a chegada de embarcações europeias,
de acordo com ilustração publicada na edição 
de 1557 de Zwei Reisen nach Brasilien

Hans Staden e Jean de Léry foram dois europeus que, no Século XVI, viveram entre os tupinambás, indígenas que habitavam áreas do litoral brasileiro.
Staden, alemão, depois de algumas aventuras entre marinheiros na costa do Brasil, foi contratado como artilheiro de um pequeno forte português. Caiu prisioneiro dos tupinambás, e, por isso, já se vê que sua permanência entre eles não foi voluntária. Por muito pouco não foi devorado em um festim antropofágico. De volta à Europa, publicou um livro conhecido como Zwei Reisen nach Brasilien (¹), cujo longuíssimo título da primeira edição deixava claro o teor da obra:  "História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens nus, ferozes e devoradores de homens"...
O caso de Jean de Léry é bem diferente. Francês, veio ao Brasil para viver na colônia que protestantes tentavam fundar no litoral do Rio de Janeiro. A colônia fracassou, mas Léry, que assim como Hans Staden, retornou à Europa, publicou um livro muitos anos depois, ao qual deu o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil (²). Como os franceses andavam em boa paz com os tupinambás, Léry pôde viver tranquilamente entre eles, sem que seu relato fosse afetado pela sensação de medo inerente a quem corria o risco de, a qualquer momento, ser abatido para o jantar, como era o caso de Staden. Apesar disso, ambos os autores concordam na maioria dos pontos que descrevem em relação aos hábitos e costumes dos indígenas com quem, voluntariamente ou não, conviveram.
Sabemos, assim, que os tupinambás praticavam uma agricultura rudimentar; quando ao estabelecimento de aldeias, deveriam ser considerados seminômades, porque, quando esgotavam os recursos alimentares que podiam ser obtidos mediante a caça e a coleta, construíam novas habitações em um lugar não muito distante daquele que ocupavam (meia légua, quando muito, segundo Léry). A construção de novas casas era, além disso, uma necessidade, já que os materiais empregados habitualmente não eram muito duráveis.
Por outro lado, o fato de que Jean de Léry podia andar com liberdade entre os tupinambás favoreceu a obtenção de informações detalhadas quando ao quotidiano dos indígenas: tinham por hábito guardar estrito silêncio durante as refeições, que nunca eram acompanhadas da ingestão de líquidos; se desejavam manifestar grande respeito por alguém, jamais comiam em sua presença. Parece estranho? Talvez, e até mesmo o oposto do que pode ser dito em relação a muitas outras culturas - sem esquecer que os tupinambás eram também adeptos da famosa choradeira quando alguém retornava de uma viagem, fenômeno já mencionado em outra postagem neste blog.
Então, leitores, não há dúvida de que os registros feitos por Hans Staden e Jean de Léry são, ainda hoje, de muito interesse, até porque, como não estavam sujeitos às implicâncias e à censura do Desembargo do Paço e da Inquisição, foram escritos com uma liberdade da qual os autores portugueses contemporâneos não desfrutavam.

(1) Duas Viagens ao Brasil.
(2) História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil.


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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Jean de Léry, a França Antártica e as galinhas brancas criadas pelos tupinambás

Jean de Léry era francês. Protestante calvinista. Pelo primeiro motivo, indesejado no Brasil, ao menos sob o ponto de vista das autoridades portuguesas. Pelo segundo motivo, era visto com horror pelos missionários jesuítas, que o tinham na conta de uma praga ou doença contagiosa. Uma espécie de varíola ideológica, digamos.
A despeito de tudo isso, Léry chegou ao Brasil em 10 de março de 1557. Tendo participado da fracassada tentativa de estabelecimento de uma colônia francesa no Rio de Janeiro - a França Antártica - fez, do que viu em quase um ano na América do Sul, um relato inteligente e cuidadoso, pelo qual lhe somos, ainda hoje, muito agradecidos. Publicou-se esse relato na forma de livro com o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil, e é através dele que sabemos de muita coisa interessante sobre os índios tupinambás. Detalhe: como os tupinambás tinham os franceses como seus aliados, permitiam que circulassem livremente por suas aldeias, sem que corressem o risco de virar petisco em algum festim antropofágico. Foi em virtude dessa convivência pacífica que Léry, um jovem artesão quando chegou ao Brasil, pode aprender alguma coisa do vocabulário dos indígenas, de suas cantigas (que teve o cuidado de registrar) e dos hábitos que pautavam sua vida diária. 
Lembram-se os leitores do que aconteceu aos primeiros indígenas que foram à embarcação que trouxe Cabral ao Brasil? Sim, falo do episódio relatado por Pero Vaz de Caminha, de acordo com o qual os jovens índios ficaram apavorados quando viram uma galinha... É que essas aves eram ainda desconhecidas na América, mas não para sempre. Segundo Léry, os tupinambás que viviam nas redondezas da França Antártica, tendo obtido dos europeus algumas galinhas brancas, passaram a criá-las, não pela carne (que detestavam), e nem pelos ovos (achavam que eram venenosos), e sim pelas penas. Tingidas de vermelho com a tinta extraída do pau-brasil, as penas eram usadas não somente para enfeitar tacapes, arcos e flechas, mas também para adornar o corpo dos nativos. Léry assegurou ter visto um tupinambá, no maior garbo, completamente coberto por penas vermelhas. 
Que dizer? Tanto melhor para as araras-vermelhas que voejavam na Mata Atlântica!
A permanência de Léry no Brasil não chegou a durar um ano. Como se sabe, Villegagnon, o francês que comandava a França Antártica, decidiu "mudar de lado" quanto à religião, e a ideia de uma colônia calvinista de povoamento foi por água abaixo. Algum tempo depois, os franceses seriam expulsos pelos portugueses, que passaram a ver o Rio de Janeiro com outros olhos: não apenas um belo lugar, mas também um porto muito conveniente, em se tratando de conservar a posse das preciosas terras na América.
Quando isso aconteceu, porém, Jean de Léry já estava longe do Brasil. Depois de uma viagem trabalhosíssima, retornou à França, viveu mais aventuras e, indo a Genebra, onde estudou Teologia, veio a ser um pastor protestante. Morreu em Berna no começo do Século XVII.

Combate entre indígenas, de acordo com a edição de Histoire d'un Voyage Faict
en la Terre du Brésil
publicada em Genebra no ano de 1580


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