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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Natal no verão

A imagem clássica do Natal, retratada em cartões de boas-festas, é a de casas, igrejas e pinheiros cobertos de neve. Bonecos e crianças esquiando também são frequentes. Tudo isso no Brasil, onde o Natal acontece em pleno verão. 
Tendo a colonização começado no Século XVI, não demorou para que navegadores e colonos que vinham ao Brasil percebessem que, "passando a linha", as estações do ano eram invertidas em relação ao Hemisfério Norte. Neve no Brasil, portanto, só em poucas ocasiões a cada ano, nos meses mais frios, ou seja, entre junho e setembro. Fora disso, é uma raridade. Anchieta, missionário jesuíta, escreveu, em maio de 1560, em uma carta destinada ao Geral da Companhia de Jesus: "A divisão das estações do ano (se se considerar bem) é totalmente oposta à maneira por que aí se compreende [...]." (¹) E, em outro documento, datado de 1585 e também atribuído a Anchieta (²), pode-se ler: "O inverno começa cá em março e acaba em agosto; o verão começa em setembro e acaba no fim de fevereiro, e por isso o Advento e o Natal são em sumo estio." (³) Vê-se, pois, que, ao menos quanto a ser o Natal no verão, Anchieta estava certíssimo.
Por conta disso, mesmo sob temperaturas elevadas, em torno de 30º C, toda a propaganda voltada para as vendas de Natal é feita como se o Brasil estivesse quase no Polo Norte. Há até shopping centers que anunciam quedas de neve artificial em horários pré-definidos, tudo para atrair clientes e, com tamanha inspiração, ensejar um volume maior de vendas.
Alguns amigos meus chegam a queixar-se de que é uma injustiça que não haja neve no Brasil em dezembro. Até já vi gente dando rédea solta à fantasia e imaginando como seria se, de repente, viesse uma frente fria pesada e tudo ficasse branquinho...
Sim, sim, o clima deste planeta está maluco, mas (ainda) não a esse ponto (⁴). Portanto, quem quiser um verdadeiro white christmas, vai ter que viajar para bem longe do Brasil.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 106.
(2) Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre. Nessa ocasião Anchieta era o Provincial da Companhia de Jesus no Brasil. 
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J.  Op. cit. pp. 424 e 425.
(4) Talvez alguns leitores ainda se recordem de que, no último dia dos Jogos Olímpicos de 2016, quando era realizada a prova masculina da maratona, a temperatura no Rio de Janeiro era de 22º C; enquanto isso, nevava no Estado de Santa Catarina. De qualquer modo, era inverno - oficialmente - em um e outro lugar. 


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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A celebração do Natal no Brasil do Século XIX

O tipo de celebração do Natal que alguém escolhe depende, ao menos em parte, da tradição religiosa que se tem (ou que não se tem). Em um país multicultural como é o Brasil, existe um verdadeiro amálgama de costumes relacionados aos festejos natalinos, formado principalmente a partir do enorme afluxo de imigrantes desde fins do século XIX até cerca da metade do século XX. Disso resulta uma grande variedade de tradições quanto aos alimentos típicos da data, aos hábitos no presentear e, talvez por algo que já tenha sido uma certa nostalgia da terra de origem, uma tentativa de reviver no verão do Hemisfério Sul o inverno europeu, tentativa essa que, reforçada por interesses comerciais, resulta, às vezes, em hilariantes espetáculos de neve artificial sob o mais tórrido sol de dezembro. Isso explica, também, porque em muitos presépios, por exemplo, as personagens vestem trajes típicos do início da era moderna, não relacionados, pois, às origens do Natal.
Como descobrir, no entanto, quais eram, no Brasil, os hábitos associados ao Natal antes disso, antes que o fenômeno da imigração e a aceleração das comunicações tornasse a celebração do Natal um tanto padronizada, ao menos no Ocidente?
Há vários caminhos possíveis, e seguiremos, nesta postagem, dois deles: as imagens da época e a literatura.
Começando pela literatura, selecionei dois trechinhos, um de Alencar, outro de Machado. O primeiro deles, que aparece em O Tronco do Ipê, é interessantíssimo por mostrar toda a azáfama da preparação da festa de Natal em um ambiente rural, de fazenda - quase podemos ver a alegria dos que preparam enfeites, a pressa de quem trabalha na cozinha (o que nos permite investigar o que seria servido); quase podemos ouvir o som das músicas que vão sendo ensaiadas. É só ler:
"Era antevéspera de Natal. Na Casa Grande tudo estava em movimento e rebuliço com os preparativos da festa. À exceção da baronesa, a quem nada podia arrancar de sua fleuma desdenhosa, cada uma das pessoas da fazenda se ocupava em qualquer dos vários arranjos para a função do Natal que esse ano prometia ser ainda mais chibante do que de costume.
Alice, que dirigia os aprestos, distribuíra a cada um sua tarefa, da qual não escaparam nem o dono da casa, nem os hóspedes. O barão fora encarregado de escrever nos rótulos de prata das garrafas os nomes dos vinhos e fazer as encomendas para a Corte. O conselheiro devia dar uns versos para a cantiga do Natal. D. Luísa e Adélia recordavam ao piano as músicas de canto e dança. D. Alina se incumbira do arranjo dos quartos para os convidados. Lúcio e Frederico, armados ambos de tesoura, recortavam papel dourado, prateado e de várias cores, destinado a fazer rosetas para os castiçais, ou mangas para os presuntos e pernas de carneiro."
(¹)

Muito significativo, não? O segundo trecho que escolhi aparece em um conto de Machado de Assis,  e traz em si a revelação de que, ao menos em alguns casos, até mesmo os escravos podiam ser incluídos na celebração de Natal, recebendo algum presente, ainda que modesto:
"Quatro dias antes do dia marcado para o meu casamento, era a festa do Natal. Minha mãe costumava dar festas às escravas. Era um costume que lhe deixara minha avó. As festas consistiam em dinheiro ou algum objeto de pouco valor." (²)
Finalmente, no que se refere às imagens de época, há uma gravura muito curiosa e, para nossos olhos do século XXI, até divertida. É de Debret, e tem por título "Presentes de Natal" (³):


(1) ALENCAR, José de. O Tronco do Ipê.
(2) ASSIS, J. M. Machado de. Mariana.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. 
O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Quando começam os festejos do Natal

Estamos no final de outubro e já vejo lojas oferecendo artigos natalinos. Se isto continua, chegará um tempo em que o ano todo será Natal, e, com isso, perde-se a graça da festa. É mais ou menos o que acontece em relação à Páscoa, quando ovos de chocolate são postos à venda desde fins de janeiro. 
No dizer de Joaquim Manuel de Macedo, referindo-se ao Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, era esta a duração dos festejos de Natal durante o Século XVIII, e mesmo no XIX:
"As festas de Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis." (¹)
De acordo com Macedo, os festejos de Natal eram, então, assinalados por missas, ceias e presépios:
"O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam (²) e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores." (³)
Não havia muita novidade à disposição de quem vivia no Rio de Janeiro - como em todo o Brasil - durante o Século XVIII. Por isso, os presépios que anualmente eram abertos, talvez os mesmos, ano após ano, eram tão atraentes. Macedo referiu a existência de três, que mais se destacavam no Rio de Janeiro:
"No fim do Século passado (⁴), os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. Antônio, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno [sic] que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento.
Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até a de Reis." (⁵) 
Uma coisa é certa; os festejos de Natal eram, em essência, religiosos. O elemento comercial não havia, ainda, se infiltrado neles.

(1)  MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 389.
(2) A missa do galo era celebrada à meia-noite; portanto, as ceias de Natal vinham antes dela.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.
(4) Referia-se ao Século XVIII.
(5) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.


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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Feliz Natal!

"Não é hoje Natal? Quero hoje viver no pleno repouso do espírito.
Demais, esta janela põe-me em comunicação com a natureza. Como está bonito o dia! É em honra do nascimento do Salvador, não? E virá o desejado de todas as gentes. É do profeta."
Machado de Assis, O Último Dia de um Poeta.

A maioria das culturas, tanto do passado quanto da atualidade, teve ou tem um conjunto de celebrações, algumas alegres (talvez até demais), outras tristes. Todas servem, entre várias razões, para afirmar valores e assinalar a passagem do tempo.
O Natal está chegando. Para nós, ocidentais, tem (ainda) um significado religioso, que parece estar perdendo sentido, não só pelo aspecto comercial que cada vez mais se atribui à data (e não é de hoje...), mas pela própria perda da religiosidade, seja no âmbito pessoal ou social. São mudanças, é fato. Inevitáveis? Não sei. 
Então, a vocês que leem este blog, quaisquer que sejam seus motivos para festejar, desejo um feliz Natal, com familiares, amigos queridos. Com presentes - por que não? - e, em meio a tudo isso, um pouco de reflexão quanto ao sentido da data, que possa resultar em mais solidariedade, respeito e compaixão, coisas de que o mundo necessita com urgência. 


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Natal muito triste para um jumentinho

Conta o padre Simão de Vasconcelos em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, que, nos primeiros e difíceis tempos do Colégio dos jesuítas na Bahia, viveu nele um irmão de nome Domingos, mais conhecido entre os religiosos pelo apelido de Pecorela (¹). Segundo escreveu Simão de Vasconcelos, era esse Domingos Pecorela um homem de pouca instrução, mas muito devoto e extremamente dedicado aos afazeres relacionados à manutenção diária do Colégio:
"Cinco anos serviu este servo fiel à Companhia, e em todos eles se teve sempre por um escravo comprado por dinheiro para o serviço da casa, sem mais querer, nem mais pretender, que o de um servo leal. Entre os mais ofícios da obediência, o principal era ter cuidado em um jumentinho, e ir com ele a todas as partes onde era mandado em busca do sustento da casa, que era pobríssima." (²)
É fato que Simão de Vasconcelos fez sua Crônica mais de um século depois da morte do irmão Domingos, mas usava consultar registros escritos e relatos daqueles que tinham algo a contar. Além disso, não constitui grande dificuldade imaginar quanto era complicado fazer provisões para o sustento dos que viviam no Colégio quando a colonização na Bahia estava apenas começando. Assim, o relato segue explicando que, na falta de comida, Domingos Pecorela era mandado às aldeias de índios amigos, para pedir alguma doação:
"Quando faltava de comer na Casa (que era muitas vezes), não desmaiava Domingos Pecorela: ornava seu jumento, ia-se às aldeias dos índios e entrava com eles com tal graça, falando-lhes pela própria língua, em que era perito, que estes lhe faziam a carga do mais estimado de seus haveres, farinha, caça do mato, batatas, bananas, carás, que é o que possui esta gente quando mais rica, e era naquele tempo o comer de mais estima dos padres." (³)
Pecorela, sempre em companhia do fiel companheiro de quatro patas, ia também buscar lenha e água para o Colégio:
"Bastava significar-lhe o Superior: "Irmão Domingos, ide à lenha para a cozinha", e sem mais demora, a pé descalço [...], aparelhava seu jumentinho e ia ao mato a carregar de lenha, e da mesma maneira à fonte e carregar de água." (⁴)
Ora, o que haveria de incomum nesta história? No Século XVI era perfeitamente normal que animais de carga fossem empregados para o transporte de água (não havia encanamento) e de lenha (principalmente para manter aceso o fogão); por outro lado, não é surpreendente que os padres pedissem ajuda aos indígenas quando lhes faltava o necessário à subsistência. De qualquer modo, dirão os leitores, alguém no Colégio teria que cuidar do jumento...
É que Domingos Pecorela era mesmo muito afeiçoado ao animal que estava sob sua responsabilidade:
"Era tal a humildade simples e simplicidade humilde deste bom irmão, que chegava a ter-se por obrigado a servir ao próprio jumento; assim curava ele, assim se compadecia de seu trabalho, como se fora criatura racional; chegava a descuidar de si por cuidar do asninho." (⁵)
Exagero? O padre Simão de Vasconcelos estava disposto a provar que não:
"Pareceu-lhe [a Domingos Pecorela] algumas vezes que vinha carregado sobre suas forças; e logo compadecido tirou parte da carga das costas do jumento, e pôs às suas, e caminharam ambos carregados; e aos que lhe perguntavam por que tomava aquele trabalho, respondia cheio de compaixão: Porque esta pobre criatura não pôde mais, e que se diria de mim, se viesse ela arrebentando com a carga, e o irmão Domingos folgando?" (⁶)
Pecorela faleceu no Colégio da Bahia em 24 de dezembro de 1554, ou seja, na véspera do Natal. Quanto ao jumento, não se têm dele mais notícias, nem sabemos se, acaso, foi colocado, na mesma noite, em algum presépio vivo. Mas deve ter sentido muito a perda de seu melhor amigo.

(1) Provavelmente faziam um trocadilho com o termo italiano Pecorella, ou seja, ovelha.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 105.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid., pp. 105 e 106.
(6) Ibid., p. 106.


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domingo, 16 de dezembro de 2012

As vacas magras do Natal

Como você cumprimenta seus familiares e amigos pelo Natal? Antigamente era comum o envio de cartões pelo correio, mas hoje muita gente prefere usar as redes sociais para isso. De qualquer modo, seus cumprimentos, reais e/ou virtuais, provavelmente incluem a expressão de desejos como "Boas Festas", "Feliz Natal", Próspero Ano Novo", ou coisas semelhantes, que podem variar um pouco segundo as tradições e crenças de cada um, mas que não costumam fugir muito ao padrão. É tudo parte daqueles costumes que pessoas educadas, no mundo ocidental, costumam fazer, sinceramente, algumas vezes, ou apenas por civilidade, em outras.
Há noventa anos, em 16 de dezembro de 1922, a revista carioca O Malho (¹) trazia na capa uma referência nada auspiciosa ao Natal e ao novo ano que se aproximava. Vejam, senhores leitores:
 

A legenda diz:
"JECA - Ó gentes! Pois você "num tá vendo"? Aquilo é o "Natá" que vem trazendo sete "vaca magra"."

Sim, a ideia é que, para o povo brasileiro, o ano seguinte seria de "vacas magras"; mas, numa contradição apenas aparente, o cartunista desenhou vaquinhas não muito franzinas, aliás, devidamente nomeadas: "Finanças Nacionais", "Falência Municipal", "Inquilinos e Proprietários", "Impostos em Perspectiva" (²), "Carestia da Vida" e "Cortes Inevitáveis".
Depois de nove décadas, pergunto: Alguém aí já ouviu falar dessas coisas, em tempos recentes? Pois tanta falta de criatividade já começa a incomodar!

(1) O MALHO, Ano XXI, nº 1057, 16 de dezembro de 1922. O exemplar original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional. Imagem editada para facilitar a visualização.
(2) O Imposto de Renda, estabelecido em definitivo em 1922, começou a ser pago no ano seguinte.


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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Os indígenas do Brasil e o hábito dos banhos frequentes

Crianças indígenas não faziam birra na hora do banho. Habituadas, desde muito pequenas, ao prazer do mergulho na água de um rio, dispensavam qualquer ordem peremptória do pai ou da mãe para que se banhassem. Explicou o jesuíta Fernão Cardim, que percorreu parte considerável do Brasil na penúltima década do Século XVI:
"[Os indígenas], andando caminho, suados, se botam aos rios, os homens, mulheres e meninos, em se levantando se vão lavar e nadar aos rios, por mais frio que faça; as mulheres nadam e remam como homens, e quando parem algumas se vão lavar aos rios." (¹)
Outro que notou o gosto ameríndio pelos banhos foi Yves d'Évreux, capuchinho francês que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614. É dele este relato:
"Têm [os índios] muito cuidado na limpeza de seus corpos: lavam-se muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem muita água sobre si, em que se não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras imundícies." (²)
Por que os banhos frequentes dos indígenas surpreendiam colonizadores? Seria, talvez, porque, vindo de climas frios, não tinham o mesmo costume? Franceses que tentaram estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro insistiram com as índias, inutilmente, para que usassem roupas. É que o vestir-se e despir-se, levando em conta os trajes europeus que lhes queriam impor, tomava tempo demais e era um desagradável empecilho à espontaneidade dos banhos. Jean de Léry, que viveu na França Antártica e, mais tarde, escreveu um livro (³), referiu que, para refrescar-se, ele e outros franceses que estavam no Brasil em 1557 haviam tomado banho no dia de Natal. A ideia era explicar a seus compatriotas que, no Hemisfério Sul, as estações eram inversas às do Hemisfério Norte. Portanto, em lugar de neve, havia o mais esplêndido sol em dezembro. Com o passar do tempo, europeus que vieram viver no Brasil e seus descendentes foram tomando gosto pelo que era, a princípio, um costume indígena, de modo que os banhos frequentes se tornaram um hábito também para a maioria dos brasileiros.

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 41 e 42.
(2) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 96.
(3) Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A celebração do Natal por missionários jesuítas e indígenas catequizados em São Paulo de Piratininga

Os jesuítas, a despeito de métodos inovadores que eventualmente empregavam na catequese, procuravam conformar os catecúmenos às práticas da Igreja quanto ao calendário litúrgico e à administração dos sacramentos. É o que se nota em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga por José de Anchieta, em fins de dezembro de 1556, na qual descrevia práticas associadas à celebração do Natal:
"Antes do dia do Nascimento do Senhor procuramos que [os indígenas] se confessassem, o qual fizeram muitas mulheres e alguns homens, os quais diligentemente examinamos nas coisas da fé, e o que principalmente pretendemos é que saibam o que toca aos artigos da fé, scilicet ao conhecimento da Santíssima Trindade e aos mistérios da vida de Cristo que a Igreja celebra, e que saibam, quando lhes for perguntado, dar conta destas coisas [...]." (¹)
Anchieta diria ainda:
"Neste mesmo tempo do Nascimento do Senhor se confessaram e comungaram muitas mulheres mestiças com muita devoção, o qual em outros tempos muitas vezes fazem." (²)
O que se pode observar é que a catequese não ficava restrita aos indígenas, mas tinha também como objetivo, tanto quanto fosse possível, alcançar o restante da população da aldeia de Piratininga, como se vê pela referência a "mulheres mestiças", ainda que nem sempre os colonizadores estivessem dispostos a dar atenção aos padres da Companhia (³). Em todo caso, era mais frequente que, dentre a população livre, as mulheres se mostrassem mais devotas, embora os homens, até por obrigação social, não deixassem de comparecer aos ofícios religiosos em ocasiões de maior importância. Também quanto à menção de Anchieta relativamente às "mulheres mestiças", será útil recordar que eram poucas, ou melhor, pouquíssimas as mulheres que, nesse tempo, vinham do Reino para viver no Brasil, de modo que não era incomum que colonos portugueses em Piratininga se casassem com índias, nem sempre sob as leis da Igreja. Desses casamentos nasciam os chamados mamelucos, que, nos primeiros séculos de São Paulo, viriam a ser a maioria da população.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 93.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 94.
(3) Não eram incomuns os atritos entre padres e colonizadores, tendo por principal razão as objeções que os jesuítas faziam à escravização de indígenas.


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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Fogões a lenha

"Às nove horas da noite apaguei eu a candeia, e não havia no fogão nem uma brasa: o fogo foi maléfico..."
Joaquim Manuel de Macedo, As Mulheres de Mantilha

Aterrorizados pelo alarido de um burro, de um cachorro, de um gato e de um galo, ladrões fogem, a toda pressa, da casa em que se banqueteavam. Melhor para os animais, que se deliciam com uma esplêndida refeição. Uma vez satisfeitos, apagam as luminárias, e cada um trata de encontrar um bom recanto para dormir, ficando a casa em completo silêncio e às escuras.
Tarde da noite, um dos ladrões retorna. Percebe uma tímida faísca junto ao fogão, e, supondo ser uma brasa ainda viva, se aproxima, pensando em acender um pequeno facho. Mas, ai! É brutalmente arranhado pelo gato, que se encarapitara sobre o fogão. Não havia, naturalmente, brasa alguma, somente o brilho dos olhinhos vigilantes do felino. Em meio à escuridão, o meliante só pensa em fugir, não sem antes receber uma mordida do cão, estacado junto à porta, e, já do lado de fora, um coice do burro e uma valente bicada do galo.
A esta altura os leitores já sabem, suponho, que falo de Die Bremer Stadtmusikanten, um conto dos Irmãos Grimm que está por completar duzentos anos. Eu, quando era criança, amava ouvir contar essa história, mas hoje, aqui no blog, ela nos serve para mostrar que a singela brasa de um fogão a lenha ou a carvão pode ter muita importância. Então, amigos, sorrindo ou zangados, prossigam a leitura, sim? 
Forno de barro (²)
Até bem adiantado o Século XIX, a maioria das casas no Brasil tinha um grande fogão a lenha, construído em um canto da cozinha. Quem, estando fora, olhasse a chaminé, já sabia, pela fumaça, se havia comida em preparo. Panelas e tachos enormes, pesadões, enegrecidos pela fuligem no correr dos anos, eram usados para cozer lentamente os alimentos. Por essa característica do cozimento lento é que há, ainda hoje, muita gente que não hesita em afirmar que a melhor comida vem dos fogões a lenha (¹). Talvez seja mesmo só uma questão de gosto pessoal, mas é fato que em diversas tradições culinárias, distanciadas entre si no tempo e/ou no espaço, há especialidades cujo preparo é melhor em fogo moderado, demandando várias horas para o perfeito cozimento - como nos vetustos fogões a lenha. 
As cozinhas das casas-grandes coloniais ou das fazendas de café do Século XIX eram lugares movimentados, quentes no verão, é verdade, mas acolhedores no inverno e dias chuvosos. Escravas trabalhavam sob a supervisão de uma cozinheira experiente, e mesmo as senhoras não se furtavam a dar palpites. Na rotina diária, era preciso remover as cinzas, e escravos deviam rachar lenha para assegurar que o fogão estaria sempre em plena atividade. Imagine-se, pois, como seria o corre-corre na cozinha de uma fazenda, em ocasiões festivas como o Natal ou um casamento!...


Um fogão a lenha especial


Fogão a lenha do Catetinho (³)
O fogão da foto ao lado pode ser visto no Catetinho: hoje um museu, o Catetinho foi, na segunda metade da década de 50 do Século XX, a residência provisória usada pelo presidente Juscelino Kubitschek, sempre que vinha acompanhar a construção de Brasília. É óbvio que nada obstava a existência de um fogão mais moderno no local, mas quem visita o museu é informado de que o presidente era apreciador da comida feita em fogões a lenha. Para atendê-lo é que este ilustre exemplar foi construído.

(1) Folclore ou não, essa preferência sustenta a fama de muitos restaurantes que preparam comida "como na fazenda". Em lugares remotos no interior do Brasil os fogões a lenha não são, ainda hoje, de todo incomuns, mesmo em residências.
(2) Pertence ao acervo do Museu Histórico e Geográfico de Monte Sião - MG.
(3) Este fogão a lenha pertence ao acervo do Museu do Catetinho (Brasília - DF).


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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Grandes navegadores - Parte II: A coragem ultrapassa o medo

Navegadores dos Séculos XV e XVI corriam grandes perigos em suas viagens


Na primeira postagem desta série abordei a questão das incertezas enfrentadas pelos marinheiros dos séculos XV e XVI em suas viagens marítimas. Que dizer, entretanto, das dificuldades quotidianas de quem navegava? No mesmo Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza, mencionado em Incríveis Navegadores - Parte I, encontramos, à página 14:
"Sábado 14 do dito mês tomei o sol em três graus e três quartos: este dia todo não ventou; senão choveu muita água, e fazia tão grande calma, que não se podia suportar."
Tente imaginar, leitor, as embarcações a vela, retidas em alto mar pela absoluta falta de vento, estando a marujada inteiramente exposta, ora ao sol, ora às tempestades. Sob o sol, na zona equatorial, o calor do verão podia ser quase intolerável; se chovia, porém, o problema não era menor, como vemos por trechos respectivamente das páginas 22, 23, 29 e 30, em que são descritas tempestades, nas quais a água que lhes molhava o corpo talvez fosse o menor dos inconvenientes:
"Sexta-feira oito dias do mês (¹) [...]. À tarde nos deu uma trovoada de muita água; e entre as naus se fizeram duas mangas (²), de que os marinheiros houveram mui grande medo, por no mar ser coisa mui perigosa."
"Sábado (³)  no quarto-d'alva se fez o vento sudoeste; e veio tão súbito e furioso, que quase não deu lugar a amainar as velas; e ventou com tanta força (o qual ainda nesta viagem o não tínhamos assim visto ventar) que as naus sem velas metiam no bordo por debaixo do mar: era tamanha a escuridão e relâmpagos, que era meio-dia e parecia de noite; à tarde se fez o vento sul. Andava o mar tão grosso e tão feio que nos entrava por todas as partes. No quarto da prima ao sair da lua abonançou mais o vento; ficou o mar tão grande que nos não podíamos ter na nau. Da banda de bombordo me arrebentaram os aparelhos, com o jogar da nau."
Amainada a tempestade, ficavam consequências penosas, como equipamento danificado e perda de suprimentos, tão escassos quanto indispensáveis durante as viagens. Sobre isso, veja-se essa breve citação da p. 47:
"A água que choveu me molhou o mantimento todo, que mais não prestou." (⁴)
Sentiam medo os navegadores? Ora, leitor, eram humanos! É verdade que a luta contínua podia, talvez, fazê-los mais destemidos que o comum dos mortais, mas como não ter medo diante da fúria do mar, da possibilidade sempre elevada de doenças letais, da iminência da morte pela fome ou sede excruciantes? Todavia, a despeito de tamanhas dificuldades, esses incríveis navegadores prosseguiam rumo a suas metas, que muitas vezes eram desconhecidas...
O desconhecido que aterrorizava também compelia a prosseguir, mesmo sabendo que a vitória de  um dia podia transformar-se em derrota e morte em ocasião posterior. Não, não exagero: Bartolomeu Dias, o homem que liderou a ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança em 1488, naufragou nas mesmas águas traiçoeiras cerca de doze anos depois; Juan Diaz de Solís foi assassinado por nativos no Uruguai, quando buscava uma passagem do Atlântico ao Pacífico; Fernão de Magalhães, que finalmente conseguiu passar por via marítima entre os dois oceanos, morreu em combate em abril de 1521 nas Filipinas; Juan Sebastián Delcano, o sucessor de Magalhães, morreu de escorbuto em 1526, e mesmo Vasco da Gama, que havia liderado a chegada às Índias em 1498, morreu de malária em Goa, no ano de 1524. Vale ainda acrescentar que, a cada embarcação que naufragava com um grande navegador, perdiam-se também muitos marinheiros anônimos, embora não menos audaciosos. Como um tributo à sua determinação e coragem, citamos, para concluir, os fatos referidos por Pero Lopes de Souza em seu diário (páginas 60 e 61):
"Ajuntamo-nos todos em uma pedra; porque o vento saltou ao mar; e crescia muito a água, que a ilha era quase toda coberta; senão um penedo em que todos estávamos, confessando uns aos outros, por nos parecer que era este o derradeiro trabalho. Assim passamos toda esta noite (⁵) em se todos encomendarem a Deus: era tamanho o frio, que os mais dos homens estavam todos entanguidos, e meio mortos. Assim passamos esta noite com tamanha fortuna, quanta homens nunca passaram."
"E não tínhamos que comer, que havia dois dias que a gente não comia; e muitos homens ficaram tão desfigurados do medo, que os não podia conhecer. Toda esta noite nos choveu e ventou com relâmpagos e trovões: que parecia que se fundia o mundo." (⁶)
Eram os dias  24 e 25 de dezembro de 1531: não deveriam eles celebrar o Natal?...


(1) Março de 1831.
(2) Trombas-d'água.
(3) Sábado, 23 de abril de 1531.
(4) Domingo, 24 de novembro de 1531.
(5) Terça-feira, 24 de dezembro de 1531.
(6) Quarta-feira, 25 de dezembro de 1531.



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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Férias escolares no Século XVI

Nos próximos dias, quase todos os estudantes brasileiros estarão deixando os estabelecimentos de ensino para as férias de verão. Dificilmente haverá tempo mais aguardado no ano, é não é de hoje que é assim. Em um documento datado de 31 de dezembro de 1585 e que é atribuído ao padre José de Anchieta, ficamos sabendo que nos colégios que os jesuítas tinham no Brasil, as férias escolares aconteciam nos meses de dezembro e janeiro:
"Das férias gozam os estudantes em dezembro e janeiro. Os estudos começam em 4 de fevereiro." (¹)
Entre as razões para as férias nessa época estavam os festejos associados ao Natal e ao Ano-Novo e as altas temperaturas de dezembro e janeiro, consideradas desfavoráveis aos estudos (²).
Há mais de quatrocentos anos, portanto, as férias escolares acontecem na mesma época, e é pouco provável que alguém esteja seriamente interessado em introduzir alguma mudança. Quem foi que disse que coisas antigas sempre devem dar lugar a inovações? 

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 425.
(2) Alguém discorda?


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quinta-feira, 14 de abril de 2022

Por que jovens espartanos gostavam de ir à guerra

Os meninos que nasciam em Esparta eram considerados filhos do Estado, não uma propriedade dos pais ou extensão da família. Eram educados para que, quando adultos, se tornassem os melhores soldados. No dizer de Plutarco, "desde a infância os meninos espartanos eram ensinados a pensar que não haviam vindo ao mundo para satisfação própria. [Haviam nascido] para buscar o que fosse favorável à sua cidade natal" (¹).
Nada havia de meigo ou delicado na educação dos jovens espartanos. Usavam roupas muito simples (quando usavam!), dormiam em lugares péssimos e a comida, ao menos para nossos padrões, era detestável. Verão e inverno, com extremos de calor e frio, deviam ser suportados com a mesma indiferença. Aprendiam, também, a obedecer sem questionar. Não deviam ter medo, se fosse necessário caminhar rumo à morte.
A despeito de tudo isso (ou, talvez, por causa disso), os rapazes de Esparta não continham o entusiasmo quando lhes era ordenado que fossem para a guerra. Por quê? Continuemos com Plutarco: "Permitia-se, enquanto durava a guerra, que os jovens espartanos deixassem um pouco da vida rústica para a qual eram treinados e que praticavam durante o tempo em que, havendo paz, permaneciam em Esparta. [Durante a guerra] era-lhes consentido que deixassem os cabelos crescerem, além da autorização para o uso das armas e de um manto. Por isso, os jovens ficavam muito entusiasmados nas ocasiões em que saíam da cidade para ir à guerra [...], ansiosos pelo enfrentamento de inimigos." (²)
Entendem agora, meus leitores, por que alguns Estados totalitários, inclusive no Século XX, fizeram de Esparta uma inspiração para suas pretensões?

(1) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Ibid. 


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