domingo, 2 de fevereiro de 2014

O "Fogão" dos Tropeiros


Fogão tropeiro, de acordo com o Museu Histórico
e Geográfico de Monte Sião - MG
Os ranchos eram essenciais aos tropeiros que, com suas mulas, garantiam a circulação de mercadorias pelo Brasil antes que, na segunda metade do Século XIX, as ferrovias fossem, gradualmente, permitindo a substituição do transporte feito por animais pelos vagões tracionados por locomotivas a vapor. Mas, na falta de um rancho para pouso, era necessário fazer algum tipo de acampamento, no qual se preparava o alimento para a noite e para consumo no dia seguinte.
Podemos ter uma ideia de como seriam esses acampamentos por este relato feito pelo Príncipe Adalberto, da Prússia, que esteve no Brasil em 1842:
"Depois de Macacu as plantações alternam-se com as capoeiras. Encontramos também alguns bivaques de tropas. Os muares estavam amarrados a altos moirões; as peneiras contendo o café e as selas ficavam empilhadas num montão quadrado. Por cima estavam estendidas peles que, excedendo-o de um lado e sustentadas por estacas, formavam tenda para os homens seminus, servindo durante a marcha para cobrir as cargas. Diante dela os tropeiros tinham levantado três estacas (*), como se faz com as espingardas ensarilhadas, atadas no topo e entre elas pendia um caldeirão por cima do fogo." (**)
Tem-se, portanto, a descrição desse fogão improvisado de que se serviam os tropeiros: três estacas, distantes na base mas atadas na parte superior, para que o caldeirão de feijão com alguma carne pudesse ser cozido.
Fogão dos bandeirantes e tropeiros, de acordo com
o Museu da Mina de Ouro de Araçariguama - SP
A técnica era a mesma nos ranchos, quando não havia algum enorme fogão a lenha disponível. Isso sabemos por informação de Saint-Hilaire, datada de 1822, na qual se descreve também o cuidado na arrumação da bagagem a cada nova tropa que chegava a um rancho no final de mais um dia de jornada:
"Quando chegam, os tropeiros arrumam as bagagens em ordem e de modo a ocupar o menor lugar possível (*). Cada tropa acende fogo, à parte, no rancho e faz cozinha própria; antes e depois das refeições, conversam os tropeiros sobre as regiões que percorrem e falam de aventuras amorosas; cantam, tocam violão ou dormem envoltos em cobertas estiradas no chão sobre couros." (***)
O fato é que, a qualquer momento, outras tropas poderiam chegar e, sem esse cuidado, talvez não houvesse lugar para todos. Era um tipo de solidariedade entre gente acostumada às vicissitudes da profissão, além de evitar transtornos se, depois de feitas as acomodações, fosse necessário remover toda a bagagem devido à chegada de mais gente com suas mulas e cargas. Em todo o caso, a parada, à noite, em um rancho, atendia não apenas a necessidades de sobrevivência, como repouso e preparo de alimentos. Era também uma ocasião de sociabilidade, de dar e receber notícias, de pedir informações - não se podia, é claro, contar naquela época com guias impressos e mapas. Tropeiros experientes, hábeis nas rotas por estradas e trilhas tortuosas eram, portanto, muito valiosos.
 

(*) Técnica semelhante era usada em bandeiras e monções.
(**) ADALBERTO, Príncipe da Prússia Brasil: Amazônia - Xingu
Brasília: Senado Federal, 2002, pp. 107 e 108
(***) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 57


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