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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A rotina dos tropeiros no final de cada dia de viagem

Ao viajar por lugares distantes no interior do Brasil, tropeiros nem sempre encontravam um rancho em que passar a noite, e, por isso, era necessário acampar.  Mas, com rancho ou sem ele, havia sempre muito trabalho a fazer, antes que homens e animais pudessem dormir. Cada tropeiro tinha uma atribuição, que deveria desempenhar prontamente, a bem de todo o grupo, conforme explicação de Joaquim Ferreira Moutinho, português que, tendo vivido por dezoito anos em Cuiabá no Século XIX, decidiu voltar ao país de origem, e, em viagem a São Paulo, teve ocasião de conviver com tropeiros, cuja rotina observou e descreveu.

Providências imediatas ao chegar ao local de pouso:
" Logo que se chega ao pouso, descarrega-se a tropa, e os camaradas, depois de arranjarem as cargas de cada lote e de cobri-las com ligais, vão armar a tolda do patrão e a competente rede, ao lado da qual deitam as canastras e outros objetos indispensáveis aos viajantes." (¹)

A tropa era acomodada onde podia passar a noite:
"[...] Levam a tropa ao encosto, que é [...] um lugar naturalmente fechado por matas, rios ou brejos, para que a tropa não se espalhe durante a noite." (²)

Ocupações do arreador:
"O arreador fica no lugar do pouso ocupado em atalhar as cangalhas, curar os animais doentes e ferrar os estropiados. [...]" (³)

O cozinheiro preparava o jantar:
"[...] o cozinheiro [...] prepara os arranjos necessários à sua arte, acende o fogo, deita sobre ele uma trempe feita de paus, e nela pendura o caldeirão contendo o feijão e a carne seca, alimentos quase sempre usados pelos viajantes do sertão (⁴). Ordinariamente à noite estende no chão um couro de boi e sobre ele uma toalha na qual coloca os pratos de estanho. Depois com voz de trovão brada: feijão! A este grito acodem todos, e tanto o patrão como os camaradas e arreador fazem honroso ataque a tão saborosas iguarias." (⁵)

Na manhã seguinte, era preciso acordar cedo e preparar os animais e a carga para a partida:
"No dia seguinte os camaradas vão buscar os animais, e os prendem pelos cabrestos às estacas, para depois lhes deitar as cangalhas e os costais de cargas, que cobrem com os ligais, e arrocham com sobrecargas (⁶). Solta-se então a tropa, em cuja frente marcha uma besta escolhida que leva a cabeçada enfeitada de cincerros, e de um penacho ou boneca, com um peitoral de guizos." (⁷)
Isto feito, ia a tropa pelas terríveis estradas da época, até fazer pouso, quilômetros adiante, à hora em que a tarde chegava.

(1) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Itinerário da Viagem de Cuyabá a São Paulo. São Paulo: Typographia de Henrique Schroeder, 1869, p. 12.
(2) Ibid.
(3) Ibid.
(4) Esses alimentos não eram apenas questão de preferência, e sim dentre aqueles que podiam ser mais facilmente conservados em viagem.
(5) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Op. cit., p. 12.
(6) Pobres animais!
(7) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Op. cit., pp. 12 e 13.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

O furto de mulas nos ranchos para pouso de tropeiros

Há diferença, tecnicamente, entre roubo e furto: no primeiro caso, entende-se que algo é subtraído de seu legítimo proprietário com emprego de violência; no segundo, o dono pode nem perceber, num primeiro momento, que algo desapareceu... No assunto de que trataremos hoje, porém, tanto caberia, em alguns casos, o termo "roubo", como, em outros, a palavra "furto". O que interessa é que ambas as situações não eram de todo incomuns nos ranchos que, à beira de estradas, recebiam, antigamente, os tropeiros e viajantes. Portanto, quando for mencionado um delito, entendam também a possibilidade do outro.
Será ótimo se deixarmos de lado, leitores, qualquer tendência de tornar romântico o passado. Viajar pelas péssimas estradas existentes no Brasil entre os Séculos XVIII e XIX era bastante perigoso, sendo invulgares, senão desconhecidas, as viagens turísticas (¹). Como regra geral, só viajava quem tinha necessidade estrita. O brigadeiro Cunha Matos (²) anotou, em seu Itinerário, o caso de um oficial militar assassinado por um tropeiro que contratara. O motivo - óbvio - é que esse indivíduo pretendia roubá-lo:
"Às 11 horas e 10 minutos (³) cheguei ao Córrego da Sepultura por se achar enterrado ao pé de uma cruz o Major Raimundo de S. Paulo, que aí foi assassinado pelo seu tropeiro, auxiliado segundo dizem, pelos Pereiras do Porto do Paranaíba, a fim de o roubarem." (⁴)
Menos drástico e mais frequente era o sumiço de animais de carga, das próprias cargas e de pertences de uso pessoal de tropeiros e viajantes. Sendo escasso o policiamento, até mesmo nas povoações maiores, pode-se bem imaginar o que acontecia nesses ranchos precários, à margem de precaríssimas estradas. É também por um registro feito por Cunha Matos em maio de 1823 que podemos ter uma ideia do grau de vigilância necessário a quem se aventurava por rotas terrestres:
"O número de bestas que aqui [em Barbacena - MG] se furta é incrível, e não se passam horas sem que o comandante do distrito receba queixas e reclamações, não só dos moradores da vila, mas também dos viandantes que se acomodam nos [...] ranchos." (⁵)

Mula de tropeiro, desenho de Thomas Ender (⁶)

Cabe esclarecer que situação análoga pode ser admitida, na mesma época, para quase todo local de pouso. Uma questão, todavia, se impõe: por que era tão fácil surrupiar mulas? 
A cada entardecer formava-se nos ranchos um ajuntamento de pessoas tão variado quanto numeroso, sujeitas a um convívio forçado que não passava de uma noite. Na manhã seguinte, tropas de muares e viajantes se dispersavam, seguindo cada qual seu rumo, sendo restrita a probabilidade de um novo encontro. Situação perfeita para os ladrões, portanto, que, na escuridão noturna, desapareciam por entre terras incultas, indo, talvez, a algum outro rancho, para vender os animais roubados, enquanto se mantinham à espreita de ocasião favorável para nova pilhagem.

(1) A melhoria de algumas estradas e, principalmente, a implantação de ferrovias, tornaram mais frequentes as viagens como passeio.
(2) 1776 - 1839.
(3) No ano de 1823.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 91.
(5) Ibid., pp. 37 e 38. 
(6) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Como eram as viagens terrestres antes da existência de ferrovias

Quem de vocês, leitores, gosta de viagens? Com elas, é possível conhecer pessoas, ampliar a visão de mundo, experimentar outras culturas. Entretanto, nem sempre as viagens foram vistas como uma opção interessante de lazer. Ao contrário, eram consideradas perigosas, e mesmo um risco à vida de quem tinha de fazê-las. É exatamente dessa época, anterior à implantação de ferrovias no Brasil, que veremos, agora, alguns fatos interessantes:
  • Havia viajantes ocasionais e viajantes profissionais. Entre os últimos estavam, certamente, os tropeiros, que conduziam mulas carregadas de mercadorias; entre os primeiros, iam, por exemplo, aqueles que precisavam tratar de algum negócio na Corte, estudantes que saíam do interior para frequentar instituições nas cidades maiores, políticos que iam exercer mandatos nas capitais das províncias ou no Rio de Janeiro, a capital do Império. Alguns iam a cavalo, mas as mulas, por sua resistência e preço geralmente baixo, tinham a preferência de muita gente como montaria para longos percursos.
  • Era mau negócio ser mula de tropeiro: além de terem de levar uma enorme carga às costas, as mulas corriam o risco de cair nos buracos que havia nas estradas. As infelizes que caíam, lá ficavam, e acabavam morrendo.
  • Poucas estradas tinham estalagens decentes em que os viajantes pudessem encontrar hospedagem: a maioria contava apenas com os ranchos de tropeiros, mas em alguns casos nem ranchos havia, só restando aos viajantes tentar abrigo em casa de alguma família. Se isso também falhasse, a única solução era acampar ou passar a noite ao relento, na expectativa de que não viesse tempestade.
  • As mulas eram usadas como cavalgadura por uma parte considerável dos viajantes do Século XIX. Nesse tempo, o costume de viajar em redes carregadas por dois escravos já não era tão frequente, a não ser no interior do Brasil. Entretanto, liteiras puxadas por cavalos ou mulas ainda tinham uso, principalmente para o transporte de pessoas doentes ou de senhoras que desconheciam a equitação.
  • Uma dificuldade grande surgia quando era preciso atravessar um rio que não tinha ponte. Nos lugares em que o movimento era intenso havia, às vezes, barqueiros com prática no transporte de passageiros; já os cavalos e outros animais eram, com a guia de gente experiente, conduzidos através da água. Acidentes não eram incomuns.
  • Vários autores do Século XIX mencionam o fato de que, ao contrário do que seria razoável supor, os piores pontos das estradas estavam perto das cidades e vilas. É que nesses lugares o movimento era maior, e, principalmente na estação das chuvas, havia lama e buracos monstruosos, de difícil transposição. Entretanto, pouca gente parecia se importar com o problema, e nem mesmo as autoridades administrativas cogitavam tomar providências para a instalação de algum tipo de calçamento apropriado.
  • Como o policiamento nas estradas do interior do Brasil era diminuto (quando chegava a existir), um dos maiores medos de quem viajava estava relacionado à possibilidade de encontrar um bando de salteadores, ou seja, ladrões "especializados" em roubar viajantes. Por esse motivo, sempre que possível, quem tinha a necessidade de fazer uma viagem procurava unir-se a alguma caravana. Ainda assim, uma vez ou outra, os furtos aconteciam, e o viajante lesado acabava descobrindo que o ladrão era algum acompanhante que parecia muito honesto.
  • Não havendo mapas confiáveis, os viajantes que desconheciam o caminho procuravam contratar guias. O problema é que muitos viajantes acabavam, tarde demais, descobrindo que seus guias não eram tão competentes quanto alardeavam, de modo que, às vezes, acabavam todos perdidos em meio às densas florestas que recobriam grande parte do Brasil. Essa era, leitores, uma situação de real perigo, principalmente se quem viajava não tivesse o cuidado de ter um suprimento de alimentos, roupas extras, alguns medicamentos e uma boa arma.
  • Comprar alimentos ao longo das estradas e rotas de tropeiros significava, quase sempre, pagar preços exorbitantes: quem tinha alguma coisa para vender sabia muito bem que os viajantes famintos acabariam pagando o que se pedia, mesmo porque não tinham alternativa. 
  • Não era bom negócio adoecer durante uma viagem. Se até nas cidades os cuidados médicos eram escassos, calcule-se então o que acontecia sertão adentro! Todo cuidado era pouco quando se tratava de evitar a picada de animais peçonhentos, que não eram nenhuma raridade nas estradas e trilhas no meio do mato.
Os leitores mais acomodados devem estar pensando que, se vivessem nesse tempo, provavelmente nunca sairiam de casa. De fato, a maioria das pessoas passava a vida toda na mesma localidade em que nascera, e os poucos que se atreviam a viajar eram vistos com admiração, em virtude das histórias que contavam. Podiam até exagerar um pouco, tão improvável era que aparecesse alguém para desmentir os tagarelas. A implantação de ferrovias iria, gradualmente, mudar esses hábitos tão forçosamente pacatos.


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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Faca de tropeiro

Caravana de tropeiros descansando em um rancho, de acordo com Rugendas (¹)

Quando as ferrovias não existiam, o transporte de cargas no Brasil era feito por meio de tropas de muares. À noite, os tropeiros juntavam-se em ranchos muito simples, nos quais podiam preparar a comida e ter algum descanso, mas, invariavelmente, também passavam horas tocando viola e cantando. Daí talvez é que que venha a visão um pouco romântica que vulgarmente se tem deles. 
A verdade, porém, era outra. As estradas da época eram péssimas, isso quando existiam. Percorrer caminhos tão ruins requeria gente rude, capaz de suportar grandes adversidades. O estilo de vida seminômade que levavam favorecia, não raro, que delitos praticados por tropeiros nunca tivessem os responsáveis capturados e punidos. São frequentes os relatos, principalmente do Século XIX, que dão conta de fraudes, furtos e mesmo assassinatos perpetrados pelos condutores de tropas de muares. Não obstante, seria pouco razoável supor que a totalidade dos tropeiros era composta por delinquentes. Longe disso.
Devido às dificuldades dos caminhos que devia percorrer, sendo às vezes preciso desbastar vegetação espessa, todo tropeiro tinha uma ferramenta indispensável, conhecida como "faca de tropeiro". Daniel P. Kidder, missionário e pastor metodista que esteve no Brasil entre 1837 e 1840, descreveu-a assim:
"Todos eles [os tropeiros] trazem grande facão de mato preso à cinta, do lado de trás. Essa faca de ponta talvez seja para eles de maior utilidade ainda que para o marinheiro. Serve para cortar madeira, consertar arreios, cortar carne e, em caso de necessidade, para se defenderem ou mesmo assaltarem. A lâmina tem uma curva toda especial, e, para ser boa, precisa ter resistência suficiente para cortar um bom pedaço de cobre sem quebrar nem entortar." (²)
Cada tropeiro devia ter grande apreço per essa arma/ferramenta, pelo que Kidder ainda diria:
"Sendo a faca sua companheira inseparável, tem esta frequentemente o cabo de prata e às vezes a bainha do mesmo metal, conquanto em geral seja usada nua." (³)
Seria necessário dizer que a tal ferramenta era, afinal, também muito útil para impor respeito?

(1) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização.
(2) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. 
Brasília: Senado Federal, 2001, pp. 177 e 178.
(3) Ibid., p. 178.


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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Tabernas e vendas

Comecemos por esclarecer a quem for preciso que o significado de taberna ou taverna é exatamente o mesmo. Isto posto, acrescentemos que, no Brasil, antes que ferrovias e rodovias mudassem o perfil do transporte de carga e mesmo do deslocamento de pessoas, todo o transporte terrestre de mercadorias era feito por tropas de muares. Ao final de cada dia de viagem os tropeiros procuravam acomodar-se em ranchos, nos quais podiam descansar e preparar alguma comida. É exatamente aí que entra a taberna (ou taverna...). 
Ao relatar uma viagem feita do Rio de Janeiro a Goiás em 1823, o Brigadeiro Cunha Matos observou, em relação a um determinado ponto do trajeto:
"Junto ao rancho existe uma taverna, que estava cheia de tropeiros e outros indivíduos de todas as cores, empregados em diversos serviços de jornada, e alguns cantavam e tocavam nas suas violas." (¹) 
É certo que nem toda taberna estava fixada à beira de uma estrada ou trilha, nem mesmo funcionava, obrigatoriamente, junto a um rancho de tropeiros. Havia não poucas tabernas urbanas. Ocorre, porém, que os ranchos eram pontos privilegiados de venda, porque os viajantes, exaustos, estavam quase sempre dispostos a pagar por um gole de cachaça ou um petisco qualquer os valores exorbitantes que o taberneiro ousava extorquir. Não raro o dono de um rancho ou pouso de tropeiros concedia abrigo grátis a quem chegava, sabendo que iria faturar alto com a taberna que tinha ao lado. 
Já as vendas tinham um repertório mais variado, e atendiam não apenas tropeiros e outros viajantes, mas também às pequenas necessidades da população fixa das redondezas. Descrevendo o "Rancho do Almeida", o mesmo autor, Cunha Matos, depois de dizer que tinha uma "venda imunda", explicou:
"Na venda do rancho existia pão, bolacha, queijo, doce de goiaba em tijolos, farinha e milho; não faltava aguardente, vinho e mais alguns gêneros." (²)

Tropeiros conversando diante de uma venda (³)
Uma descrição mais abrangente vem do inglês Richard Burton, em mais de um sentido um sujeito algo excêntrico. Burton, que esteve no Brasil durante a década de sessenta do Século XIX, afirmou que uma venda "vende de tudo, desde alho e livro de missa, até cachaça, doces e velas; às vezes é dupla, com um lado para secos e outro para molhados. Um balcão, sobre o qual se embalança uma grosseira balança, divide-a no sentido do comprimento. Entre ele e a porta, ficam tamboretes, caixas e barris virados para baixo. [...] As prateleiras de madeira sem verniz estão cheias de latas, canecas e outros recipientes, e, em ambos os lados, garrafas cheias e vazias, em pé ou deitadas. No chão, há sacos de sal e barris abertos, com rapadura e feijão, um caixote ou dois com milho, pilhas de toucinho e carne salgada, a popular "carne-seca", uma corda de fumo preto enrolada em uma estaca e garrafas e garrafões de cachaça. As mercadorias são guarda-chuvas, ferraduras, chapéus, espelhos, cintos, facas, garruchas, espingardas baratas, munição e linha de costura - na verdade tudo de que podem precisar homens ou mulheres rústicos. (...)." (⁴)
Tabernas e vendas não eram, porém, as únicas fontes possíveis de renda para o dono de um rancho. Era possível lucrar, também, com a forragem que era fornecida aos animais de carga. Além disso, outra coisa mais ou menos comum era a existência, ao lado dos ranchos, de uma "loja de ferrador", como se dizia na época - a oficina de alguém que instalava ou ajustava ferraduras em cavalos, mulas, etc.  - mais uma fonte de lucro para o dono de um rancho, portanto.
Senhores de escravos odiavam as tabernas e vendas (a menos, é claro, que fossem os donos delas). Era para lá que os cativos escapuliam, a fim de gastar o pouco dinheiro de que dispunham. Mas era nelas, também, que tinham a oportunidade de entrar em contato com escravos de outros senhores, sendo, desse modo, lugares favoráveis à fermentação de planos para fugas e rebeliões. 

(1) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 7.
(2) Ibid., p. 13.
(3) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 138.


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domingo, 2 de fevereiro de 2014

O "fogão" dos tropeiros


Fogão tropeiro, de acordo com o
Museu Histórico

e Geográfico de Monte Sião - MG
Os ranchos eram essenciais aos tropeiros que, com suas mulas, garantiam a circulação de mercadorias pelo Brasil antes que, na segunda metade do Século XIX, as ferrovias fossem, gradualmente, permitindo a substituição do transporte feito por animais pelos vagões tracionados por locomotivas a vapor. Mas, na falta de um rancho para pouso, era necessário fazer algum tipo de acampamento, no qual se preparava o alimento para a noite e para consumo no dia seguinte.
Podemos ter uma ideia de como seriam esses acampamentos por este relato feito pelo Príncipe Adalberto, da Prússia, que esteve no Brasil em 1842:
"Depois de Macacu as plantações alternam-se com as capoeiras. Encontramos também alguns bivaques de tropas. Os muares estavam amarrados a altos moirões; as peneiras contendo o café e as selas ficavam empilhadas num montão quadrado. Por cima estavam estendidas peles que, excedendo-o de um lado e sustentadas por estacas, formavam tenda para os homens seminus, servindo durante a marcha para cobrir as cargas. Diante dela os tropeiros tinham levantado três estacas (¹), como se faz com as espingardas ensarilhadas, atadas no topo e entre elas pendia um caldeirão por cima do fogo." (²)
Tem-se, portanto, a descrição desse fogão improvisado de que se serviam os tropeiros: três estacas, distantes na base mas atadas na parte superior, para que o caldeirão de feijão com alguma carne pudesse ser cozido.
Fogão dos bandeirantes e tropeiros,
de acordo com 
o Museu da
Mina de Ouro de Araçariguama - SP
A técnica era a mesma nos ranchos, quando não havia algum enorme fogão a lenha disponível. Isso sabemos por informação de Saint-Hilaire, datada de 1822, na qual se descreve também o cuidado na arrumação da bagagem a cada nova tropa que chegava a um rancho no final de mais um dia de jornada:
"Quando chegam, os tropeiros arrumam as bagagens em ordem e de modo a ocupar o menor lugar possível (¹). Cada tropa acende fogo, à parte, no rancho e faz cozinha própria; antes e depois das refeições, conversam os tropeiros sobre as regiões que percorrem e falam de aventuras amorosas; cantam, tocam violão ou dormem envoltos em cobertas estiradas no chão sobre couros." (³)
O fato é que, a qualquer momento, outras tropas poderiam chegar e, sem esse cuidado, talvez não houvesse lugar para todos. Era um tipo de solidariedade entre gente acostumada às vicissitudes da profissão, além de evitar transtornos se, depois de feitas as acomodações, fosse necessário remover toda a bagagem devido à chegada de mais gente com suas mulas e cargas. Em todo o caso, a parada, à noite, em um rancho, atendia não apenas a necessidades de sobrevivência, como repouso e preparo de alimentos. Era também uma ocasião de sociabilidade, de dar e receber notícias, de pedir informações - não se podia, é claro, contar naquela época com guias impressos e mapas. Tropeiros experientes, hábeis nas rotas por estradas e trilhas tortuosas eram, portanto, muito valiosos.
 
(1) Técnica semelhante era usada em bandeiras e monções.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, pp. 107 e 108.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 57.


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domingo, 26 de janeiro de 2014

Vida de tropeiro

Os tropeiros que viajavam pelo Brasil dirigindo os bandos de mulas que transportavam mercadorias, tanto as destinadas ao consumo interno como as que seguiam para exportação, precisavam, ao fim de cada jornada, encontrar um lugar onde pudessem preparar uma refeição e abrigar-se durante a noite. Esse lugar era o pouso de tropeiros.
Não poucas cidades brasileiras têm sua origem relacionada a esses modestos galpões (no melhor dos casos), que não consistiam, em absoluto, em um tipo de hotel: se eram bons, apresentavam-se mais ou menos limpos e cobertos de telhas. Os péssimos tinham coberturas menos confiáveis e eram imundos. Quase sempre pertenciam a algum fazendeiro do lugar, que, aliás, lucrava bastante com a famigerada venda que mantinha ao lado, na qual os produtos disponíveis, quase sempre de qualidade bastante discutível, eram oferecidos a preços escorchantes.
Mas não eram apenas os tropeiros e suas mulas que paravam nos ranchos. Esses abrigos eram, geralmente, a única opção para outros viajantes, fossem eles ricos ou pobres. Também não era incomum a presença de militares que escoltavam os Reais Quintos de Sua Majestade.
Assim, pode-se dizer que um rancho de tropeiros era um espaço algo "democrático" para a época: nele pousavam todos os viajantes que, ao entardecer, achavam-se em viagem por uma dada região e que não pudessem encontrar refúgio em casa de algum conhecido, de modo que sob um mesmo teto reuniam-se homens livres e escravos, gente de origem europeia, africanos ou seus descendentes e índios.
Ninguém, no entanto podia esperar muito conforto. O quase sempre rabugento Saint-Hilaire, naturalista francês que esteve no Brasil pela época da Independência, registrou, em certa ocasião, suas ideias sobre o "cuidado extremo" que o governo (sempre ele...) tinha com a conservação desses locais de pouso:
"Aquele a que chamam Rancho Grande não podia ter nome mais adequado porque incontestavelmente é o maior dos que vi desde que estou no Brasil. É coberto de telhas, bem conservado, alto acima do solo e cercado de balaustrada.
O dono é um homem imensamente rico, possuidor do mais importante cafezal da redondeza. Por um rancho sofrível que se encontra há, no mínimo, dez no mais deplorável estado. Os proprietários os alugam, com a venda contígua, por preços muito altos, e pouco se lhes dá que neles chova por todos os cantos. Tenho quase tanto medo da chuva quando estou num rancho do que quando fora. É verdadeiramente inconcebível que o governo não tome alguma providência a tal respeito e tampouco do que tanto interessa ao comércio, a ponto de nem proporcionar aos que transportam mercadorias pelas mais frequentadas estradas, lugares onde as possam abrigar à noite, sem temer que a chuva as avarie." (¹)
Note-se que, desde a época da mineração, os ranchos tinham-se feito necessários por toda a rota do chamado "Caminho das Minas", e nem por isso a condição deles era lá muito boa. Alguns, no entanto, podiam ser um pouco melhores. Antonil, por exemplo, referindo-se ao Caminho Novo das Minas, relatou haver um rancho importante nas proximidades do rio Paraibuna:
"Daqui se passa ao rio Paraibuna em duas jornadas, a primeira no mato e a segunda no porto, onde há roçaria e venda importante, e ranchos para os passageiros de uma e outra parte. É este rio pouco menos caudaloso que o Paraíba: passa-se em canoa." (²)
À noite, depois que se acomodava a bagagem, provia-se alimento para os animais e os homens e, então, não raro os tropeiros tinham lá seu momento de lazer. É o que se depreende deste relato de Hércules Florence, referindo-se às tropas que se reuniam em Cubatão:
"Acontece que quando muitas delas ali se reúnem, os camaradas se congregam todos para dançarem e cantarem a noite inteira o batuque. Gritam a valer e com as mãos batem cadencialmente nos bancos em que estão sentados. Assim se divertem." (³)

Rancho para pouso de tropeiros de acordo com gravura de M. Rugendas (⁴)

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 122.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 165.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 3.
(4) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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