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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O que você veria se chegasse a uma pequena povoação no Brasil Colonial

Você, leitor, e eu, não podemos voltar ao passado. Mas podemos, com o uso de documentos antigos, reconstruir, até certo ponto, como era a vida em outros tempos. Se chegássemos, por exemplo, a uma pequena povoação no Brasil Colonial, em algum momento entre os Séculos XVI e XVIII, veríamos uma realidade muito diferente daquela que encontramos atualmente em centros urbanos. 
As ruas dos vilarejos coloniais eram, em sua maioria, tortuosas, nascidas sem qualquer planejamento. Poucas eram calçadas. A poeira, no estio, e a lama, em tempo de chuva, eram inevitáveis. Seria comum, andando por elas, ver porcos, galinhas e, às vezes, alguma cabra que houvesse escapulido de um quintal. As casas eram muito simples, feitas de taipa. Os muros, com frequência, eram construídos com tijolos de adobe, mas cercas de bambu eram também corriqueiras.
Em sua viagem mental, leitor, você chega a cavalo, depois de uma noite chuvosa, entra por uma dessas ruas e não vê quase ninguém. Tem, no entanto, a sensação de que está sendo observado. É que, por trás das gelosias, sempre há olhares à espreita... 
Siga em frente. Em toda vila colonial que se preza, o ponto de convergência é uma pequena igreja ou capela, usualmente construída no ponto mais alto da localidade. Ao redor dela, estão umas poucas oficinas - um ferreiro, alguém capaz de fazer e consertar calçados, talvez um alfaiate. Algum comércio de gêneros alimentícios produzidos nas redondezas também pode ser encontrado, mas não se deve esperar muito mais que isso. As hortas estão em quase todos os quintais e ajudam a suprir a mesa das poucas famílias residentes.
Sua primeira preocupação é dar água ao cavalo. Com sorte, esta vila terá um chafariz, e lá você poderá matar a sede e deixar que seu cavalo faça o mesmo. Não há nenhum problema, já que, nos dias coloniais, ninguém dirá ser falta de higiene que humanos e animais bebam água no mesmo lugar. Dois escravos, com grandes vasilhas de barro, recolhem a água que jorra, conversam entre si, olhando com curiosidade para o estranho que acaba de chegar (você!), e depois se vão. Aqui, quem não tem um poço, depende do chafariz para abastecimento, e mandar escravos em busca de água é um hábito. 
Um breve descanso e você vai em direção à "venda", o pequeno comércio local. Do lado de fora, grandes argolas de ferro servem para prender cavalos. Você desmonta, amarra seu animal perto de três outros que lá estão, e entra. O interior é meio escuro, mas não impede que você veja, ao fundo, alguns homens entretidos com um jogo de cartas (o jogo é proibido, mas, como se sabe, ninguém teria o trabalho de proibir aquilo que não se faz). Ao centro da mesa, uma cachaça de má qualidade. 
Você vai ao rústico balcão e pergunta ao vendeiro se há milho para o cavalo. Sem tirar o cigarro de palha do canto da boca, ele resmunga alguma coisa ininteligível e aponta para um jacá perto da porta. Depois, contraindo o nariz, indaga se você mesmo quer comer. O aspecto do lugar não inspira confiança, mas a fome não lhe deixa escolha. No fogão a lenha está um enorme caldeirão fumegante, que, pelo aspecto externo, não é lavado há muito tempo. Logo lhe é apresentado um cozido cujos componentes você nem tenta identificar. Melhor assim...
Enquanto você come, umas poucas pessoas entram, sem pressa, fazem suas compras e, sem tomar conhecimento do grupo envolvido com o jogo, lá se vão. Um breve aceno de cabeça em sua direção mostra que você não passa despercebido.
É hora de ir. A vila não tem uma estalagem em que se possa passar a noite. Você coloca em um saco de couro as espigas de milho que comprou para o cavalo, paga a conta e sai. Já na rua, vê passar uma criatura coberta por uma pesada capa escura, que só deixa à vista parte do rosto. As mulheres "de bem" que vivem nas vilas e cidades coloniais só saem à rua cobertas desse jeito, ou seja, usando mantilha. Você desamarra o cavalo, monta, contorna a igrejinha e sai da vila pela mesma rua por onde entrou. Já quase chegando à trilha, vê passar um sujeito escarrapachado em uma rede que dois escravos suam para carregar. Deve ser algum proprietário rural das redondezas. 
Logo depois, o som das patas e o resfolegar de animais parece mostrar que uma tropa de mulas está por perto. Você não está enganado. Desta vez, haverá companhia para seguir viagem.


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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Tabernas e vendas

Comecemos por esclarecer a quem for preciso que o significado de taberna ou taverna é exatamente o mesmo. Isto posto, acrescentemos que, no Brasil, antes que ferrovias e rodovias mudassem o perfil do transporte de carga e mesmo do deslocamento de pessoas, todo o transporte terrestre de mercadorias era feito por tropas de muares. Ao final de cada dia de viagem os tropeiros procuravam acomodar-se em ranchos, nos quais podiam descansar e preparar alguma comida. É exatamente aí que entra a taberna (ou taverna...). 
Ao relatar uma viagem feita do Rio de Janeiro a Goiás em 1823, o Brigadeiro Cunha Matos observou, em relação a um determinado ponto do trajeto:
"Junto ao rancho existe uma taverna, que estava cheia de tropeiros e outros indivíduos de todas as cores, empregados em diversos serviços de jornada, e alguns cantavam e tocavam nas suas violas." (¹) 
É certo que nem toda taberna estava fixada à beira de uma estrada ou trilha, nem mesmo funcionava, obrigatoriamente, junto a um rancho de tropeiros. Havia não poucas tabernas urbanas. Ocorre, porém, que os ranchos eram pontos privilegiados de venda, porque os viajantes, exaustos, estavam quase sempre dispostos a pagar por um gole de cachaça ou um petisco qualquer os valores exorbitantes que o taberneiro ousava extorquir. Não raro o dono de um rancho ou pouso de tropeiros concedia abrigo grátis a quem chegava, sabendo que iria faturar alto com a taberna que tinha ao lado. 
Já as vendas tinham um repertório mais variado, e atendiam não apenas tropeiros e outros viajantes, mas também às pequenas necessidades da população fixa das redondezas. Descrevendo o "Rancho do Almeida", o mesmo autor, Cunha Matos, depois de dizer que tinha uma "venda imunda", explicou:
"Na venda do rancho existia pão, bolacha, queijo, doce de goiaba em tijolos, farinha e milho; não faltava aguardente, vinho e mais alguns gêneros." (²)

Tropeiros conversando diante de uma venda (³)
Uma descrição mais abrangente vem do inglês Richard Burton, em mais de um sentido um sujeito algo excêntrico. Burton, que esteve no Brasil durante a década de sessenta do Século XIX, afirmou que uma venda "vende de tudo, desde alho e livro de missa, até cachaça, doces e velas; às vezes é dupla, com um lado para secos e outro para molhados. Um balcão, sobre o qual se embalança uma grosseira balança, divide-a no sentido do comprimento. Entre ele e a porta, ficam tamboretes, caixas e barris virados para baixo. [...] As prateleiras de madeira sem verniz estão cheias de latas, canecas e outros recipientes, e, em ambos os lados, garrafas cheias e vazias, em pé ou deitadas. No chão, há sacos de sal e barris abertos, com rapadura e feijão, um caixote ou dois com milho, pilhas de toucinho e carne salgada, a popular "carne-seca", uma corda de fumo preto enrolada em uma estaca e garrafas e garrafões de cachaça. As mercadorias são guarda-chuvas, ferraduras, chapéus, espelhos, cintos, facas, garruchas, espingardas baratas, munição e linha de costura - na verdade tudo de que podem precisar homens ou mulheres rústicos. (...)." (⁴)
Tabernas e vendas não eram, porém, as únicas fontes possíveis de renda para o dono de um rancho. Era possível lucrar, também, com a forragem que era fornecida aos animais de carga. Além disso, outra coisa mais ou menos comum era a existência, ao lado dos ranchos, de uma "loja de ferrador", como se dizia na época - a oficina de alguém que instalava ou ajustava ferraduras em cavalos, mulas, etc.  - mais uma fonte de lucro para o dono de um rancho, portanto.
Senhores de escravos odiavam as tabernas e vendas (a menos, é claro, que fossem os donos delas). Era para lá que os cativos escapuliam, a fim de gastar o pouco dinheiro de que dispunham. Mas era nelas, também, que tinham a oportunidade de entrar em contato com escravos de outros senhores, sendo, desse modo, lugares favoráveis à fermentação de planos para fugas e rebeliões. 

(1) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 7.
(2) Ibid., p. 13.
(3) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 138.


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