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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Carros de passageiros e vagões de carga em ferrovias paulistas no Século XIX

Locomotiva a vapor e carros ferroviários

"Sempre se viaja com mais facilidade e comodidade em um wagon de primeira do que no melhor carro de bois do tempo de Jacó."
Coelho Neto, A Bico de Pena

Voltem no tempo, leitores: vocês estão, agora, viajando em uma ferrovia paulista do Século XIX. Conseguem imaginar a potência da locomotiva e, como resultado, quão veloz é o deslocamento do trem? Não se esqueçam da fumaça, com o odor correspondente...
Mas o conforto, mesmo, ficava por conta dos bancos em que os passageiros eram acomodados. Para ajudar quem está, corajosamente, tentando formar uma imagem mental do que era uma viagem ferroviária naquela época, pode-se ler alguma coisa escrita em 1875 por J. Ewbank da Câmara. Comecemos pela célebre Companhia Paulista:
"Os carros de passageiros são ingleses da conhecida fábrica de J. Ashbury, de Manchester.
Os wagons de carga são abertos e fechados, da mesma fábrica inglesa, e de 7000 quilogramas de lotação." (¹)
Mais interessante, ainda, é o que foi dito quanto aos carros da Companhia Mogyana:
"Os carros salões de 1ª classe são elegantes, confortáveis, contém água e compartimento privado.
Além das molas comuns aos trucks, adotaram-se [...] espirais de ferro; os bancos de palhinha, por seu turno, descansam sobre pequenas espirais de ferro, que compensam os choques.
Na 2ª classe os bancos são dispostos longitudinalmente, e nos carros mistos, simples compartimento separa as duas classes." (²)
"Bancos de palhinha"... "Compensam os choques"... Querem ter uma experiência concreta de volta ao passado, leitores? Planejem um passeio de final de semana por uma das ferrovias turísticas, que têm locomotivas e carros perfeitamente restaurados. Depois disso, ficarão em extremo agradecidos por estarmos no Século XXI.

(1) CÂMARA, J. Ewbank da. Caminhos de Ferro de S. Paulo e a Fábrica de Ipanema em Agosto de 1875. Rio de Janeiro: G. Leuzinger & Filhos, 1875, p. 6.
(2) Ibid., p. 15.


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terça-feira, 22 de agosto de 2017

O furto de mulas nos ranchos para pouso de tropeiros

Há diferença, tecnicamente, entre roubo e furto: no primeiro caso, entende-se que algo é subtraído de seu legítimo proprietário com emprego de violência; no segundo, o dono pode nem perceber, num primeiro momento, que algo desapareceu... No assunto de que trataremos hoje, porém, tanto caberia, em alguns casos, o termo "roubo", como, em outros, a palavra "furto". O que interessa é que ambas as situações não eram de todo incomuns nos ranchos que, à beira de estradas, recebiam, antigamente, os tropeiros e viajantes. Portanto, quando for mencionado um delito, entendam também a possibilidade do outro.
Será ótimo se deixarmos de lado, leitores, qualquer tendência de tornar romântico o passado. Viajar pelas péssimas estradas existentes no Brasil entre os Séculos XVIII e XIX era bastante perigoso, sendo invulgares, senão desconhecidas, as viagens turísticas (¹). Como regra geral, só viajava quem tinha necessidade estrita. O brigadeiro Cunha Matos (²) anotou, em seu Itinerário, o caso de um oficial militar assassinado por um tropeiro que contratara. O motivo - óbvio - é que esse indivíduo pretendia roubá-lo:
"Às 11 horas e 10 minutos (³) cheguei ao Córrego da Sepultura por se achar enterrado ao pé de uma cruz o Major Raimundo de S. Paulo, que aí foi assassinado pelo seu tropeiro, auxiliado segundo dizem, pelos Pereiras do Porto do Paranaíba, a fim de o roubarem." (⁴)
Menos drástico e mais frequente era o sumiço de animais de carga, das próprias cargas e de pertences de uso pessoal de tropeiros e viajantes. Sendo escasso o policiamento, até mesmo nas povoações maiores, pode-se bem imaginar o que acontecia nesses ranchos precários, à margem de precaríssimas estradas. É também por um registro feito por Cunha Matos em maio de 1823 que podemos ter uma ideia do grau de vigilância necessário a quem se aventurava por rotas terrestres:
"O número de bestas que aqui [em Barbacena - MG] se furta é incrível, e não se passam horas sem que o comandante do distrito receba queixas e reclamações, não só dos moradores da vila, mas também dos viandantes que se acomodam nos [...] ranchos." (⁵)

Mula de tropeiro, desenho de Thomas Ender (⁶)

Cabe esclarecer que situação análoga pode ser admitida, na mesma época, para quase todo local de pouso. Uma questão, todavia, se impõe: por que era tão fácil surrupiar mulas? 
A cada entardecer formava-se nos ranchos um ajuntamento de pessoas tão variado quanto numeroso, sujeitas a um convívio forçado que não passava de uma noite. Na manhã seguinte, tropas de muares e viajantes se dispersavam, seguindo cada qual seu rumo, sendo restrita a probabilidade de um novo encontro. Situação perfeita para os ladrões, portanto, que, na escuridão noturna, desapareciam por entre terras incultas, indo, talvez, a algum outro rancho, para vender os animais roubados, enquanto se mantinham à espreita de ocasião favorável para nova pilhagem.

(1) A melhoria de algumas estradas e, principalmente, a implantação de ferrovias, tornaram mais frequentes as viagens como passeio.
(2) 1776 - 1839.
(3) No ano de 1823.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 91.
(5) Ibid., pp. 37 e 38. 
(6) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Como eram as viagens terrestres antes da existência de ferrovias

Quem de vocês, leitores, gosta de viagens? Com elas, é possível conhecer pessoas, ampliar a visão de mundo, experimentar outras culturas. Entretanto, nem sempre as viagens foram vistas como uma opção interessante de lazer. Ao contrário, eram consideradas perigosas, e mesmo um risco à vida de quem tinha de fazê-las. É exatamente dessa época, anterior à implantação de ferrovias no Brasil, que veremos, agora, alguns fatos interessantes:
  • Havia viajantes ocasionais e viajantes profissionais. Entre os últimos estavam, certamente, os tropeiros, que conduziam mulas carregadas de mercadorias; entre os primeiros, iam, por exemplo, aqueles que precisavam tratar de algum negócio na Corte, estudantes que saíam do interior para frequentar instituições nas cidades maiores, políticos que iam exercer mandatos nas capitais das províncias ou no Rio de Janeiro, a capital do Império. Alguns iam a cavalo, mas as mulas, por sua resistência e preço geralmente baixo, tinham a preferência de muita gente como montaria para longos percursos.
  • Era mau negócio ser mula de tropeiro: além de terem de levar uma enorme carga às costas, as mulas corriam o risco de cair nos buracos que havia nas estradas. As infelizes que caíam, lá ficavam, e acabavam morrendo.
  • Poucas estradas tinham estalagens decentes em que os viajantes pudessem encontrar hospedagem: a maioria contava apenas com os ranchos de tropeiros, mas em alguns casos nem ranchos havia, só restando aos viajantes tentar abrigo em casa de alguma família. Se isso também falhasse, a única solução era acampar ou passar a noite ao relento, na expectativa de que não viesse tempestade.
  • As mulas eram usadas como cavalgadura por uma parte considerável dos viajantes do Século XIX. Nesse tempo, o costume de viajar em redes carregadas por dois escravos já não era tão frequente, a não ser no interior do Brasil. Entretanto, liteiras puxadas por cavalos ou mulas ainda tinham uso, principalmente para o transporte de pessoas doentes ou de senhoras que desconheciam a equitação.
  • Uma dificuldade grande surgia quando era preciso atravessar um rio que não tinha ponte. Nos lugares em que o movimento era intenso havia, às vezes, barqueiros com prática no transporte de passageiros; já os cavalos e outros animais eram, com a guia de gente experiente, conduzidos através da água. Acidentes não eram incomuns.
  • Vários autores do Século XIX mencionam o fato de que, ao contrário do que seria razoável supor, os piores pontos das estradas estavam perto das cidades e vilas. É que nesses lugares o movimento era maior, e, principalmente na estação das chuvas, havia lama e buracos monstruosos, de difícil transposição. Entretanto, pouca gente parecia se importar com o problema, e nem mesmo as autoridades administrativas cogitavam tomar providências para a instalação de algum tipo de calçamento apropriado.
  • Como o policiamento nas estradas do interior do Brasil era diminuto (quando chegava a existir), um dos maiores medos de quem viajava estava relacionado à possibilidade de encontrar um bando de salteadores, ou seja, ladrões "especializados" em roubar viajantes. Por esse motivo, sempre que possível, quem tinha a necessidade de fazer uma viagem procurava unir-se a alguma caravana. Ainda assim, uma vez ou outra, os furtos aconteciam, e o viajante lesado acabava descobrindo que o ladrão era algum acompanhante que parecia muito honesto.
  • Não havendo mapas confiáveis, os viajantes que desconheciam o caminho procuravam contratar guias. O problema é que muitos viajantes acabavam, tarde demais, descobrindo que seus guias não eram tão competentes quanto alardeavam, de modo que, às vezes, acabavam todos perdidos em meio às densas florestas que recobriam grande parte do Brasil. Essa era, leitores, uma situação de real perigo, principalmente se quem viajava não tivesse o cuidado de ter um suprimento de alimentos, roupas extras, alguns medicamentos e uma boa arma.
  • Comprar alimentos ao longo das estradas e rotas de tropeiros significava, quase sempre, pagar preços exorbitantes: quem tinha alguma coisa para vender sabia muito bem que os viajantes famintos acabariam pagando o que se pedia, mesmo porque não tinham alternativa. 
  • Não era bom negócio adoecer durante uma viagem. Se até nas cidades os cuidados médicos eram escassos, calcule-se então o que acontecia sertão adentro! Todo cuidado era pouco quando se tratava de evitar a picada de animais peçonhentos, que não eram nenhuma raridade nas estradas e trilhas no meio do mato.
Os leitores mais acomodados devem estar pensando que, se vivessem nesse tempo, provavelmente nunca sairiam de casa. De fato, a maioria das pessoas passava a vida toda na mesma localidade em que nascera, e os poucos que se atreviam a viajar eram vistos com admiração, em virtude das histórias que contavam. Podiam até exagerar um pouco, tão improvável era que aparecesse alguém para desmentir os tagarelas. A implantação de ferrovias iria, gradualmente, mudar esses hábitos tão forçosamente pacatos.


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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Equipamento básico de viagem no Brasil do Século XIX

O que é que não pode faltar em sua mala ou mochila para uma viagem? Pense um pouco e compare com o que seria preciso levar se vivesse no Século XIX.

Liteira para viagens, Século XIX, construída em madeira e couro (¹)
Viajar pelo Brasil, antes da existência de ferrovias, era coisa que pouca gente fazia. As dificuldades eram enormes. Supondo que a viagem fosse terrestre, era preciso considerar que as distâncias deviam ser cobertas em lombo de animais, e, às vezes, a pé. Sim, havia quem viajasse em liteira, e até em rede. Nesse caso, seria indispensável ter escravos carregadores, embora algumas liteiras pudessem ser carregadas por animais. Eram poucas as estradas, e as que recebiam esse nome não passavam, como regra geral, de caminhos péssimos, repletos de buracos. Eventualmente era necessário atravessar trechos de mata, nos quais toda a confiança devia ser depositada nos conhecimentos de um guia experiente. Mas, se o guia cometesse um erro, os resultados podiam ser desastrosos. 
Hotéis, ao longo do caminho, simplesmente não existiam. Em alguns lugares havia os quase sempre imundos pousos de tropeiros, ou, com sorte, seria possível encontrar abrigo em casa de alguma família. Senão, era preciso acampar, sobre terreno nem sempre favorável.
Tendo andado pelo interior do Brasil um pouco depois da Independência, o Brigadeiro Raimundo José da Cunha Matos deixou um livro de apontamentos de viagem, cujo propósito era auxiliar àqueles que, depois dele, tivessem de enfrentar dificuldades semelhantes às que encontrara. Nessa obra teve o cuidado de anotar sugestões quanto àquilo que considerava ser o equipamento básico para a viagem de um "indivíduo abastado". Sigamos com ele:
"Um toldo ou barraca de brim; cama de campanha com armação de oleado; mesa elástica; uma cantina com um terno de quatro ou seis caçarolas, que tenham malhete para se introduzir o cabo, e possam acomodar-se umas dentro das outras; uma terrina redonda de folha de Flandres dobrada, dentro da qual se acomodem os pratos de folha de sopa e guardanapos; chaleira de ferro, bule, xícaras, pires, facas, colheres e garfos [...]." (²)
A lista incluía, ainda, castiçais, velas e, naturalmente, alimentos. Vê-se, portanto, que não era nada que um homem pudesse carregar sozinho. O tal "indivíduo abastado", para retomar a expressão usada por Cunha Matos, precisaria dispor de vários animais de carga, escravos e/ou tropeiros assalariados e, por suposto, de um guia tarimbado. Além de perigosas e cansativas, as viagens nessa época eram, já se nota, bastante dispendiosas. Correr mundo, como turismo, era coisa que passava pela cabeça de muito pouca gente.

(1) A liteira fotografada para esta postagem pertence ao acervo do Museu Histórico de Itapira - SP.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 18.


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