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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Por que jabutis eram considerados peixes no Brasil Colonial

Nos tempos coloniais, prescrições religiosas obrigavam à abstinência de carne em um número elevado de dias. Como as regras de jejum eram severamente observadas (ao menos nas aparências), era usual, havendo peixe, que esse servisse como alimento. Vegetais eram permitidos, mas, em muitos lugares, o principal alimento nos "dias de peixe" era a farinha de mandioca.
Contudo, em algumas áreas, uma saída engenhosa foi encontrada para contornar a regra da abstinência de carne. O jesuíta José de Moraes, que escreveu a História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará, publicada originalmente em 1759, explicou, citando um relato do padre Antônio Vieira (¹), também jesuíta:
"Nascem estes jabutis e vivem sempre na terra, sem nunca entrarem no mar, nem nos rios, e contudo estão julgados por peixe, e como tais se comem nos dias em que se proíbe a carne, por se ter averiguado que têm o sangue frio. [...]." (²)
De fato, jabutis são pecilotérmicos. Daí a se tornarem peixes, vai uma grande distância. Fundamentos de zoologia, porém, não estavam em questão, quando o assunto era burlar a abstinência de carne. Lamentável para os jabutis, é claro.

(1) Famoso por seus sermões, Vieira é conhecido dos estudantes brasileiros que têm contato com sua obra nas aulas de Literatura (espero que ainda seja assim!).
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 460.


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terça-feira, 27 de março de 2018

Jesuítas acampavam quando iam ao sertão

Tendo indígenas como guias, missionários jesuítas foram, em diversas ocasiões, a vanguarda da exploração do território brasileiro por europeus.
Em suas expedições de catequese era frequente que precisassem acampar, uma vez que, sertão adentro, não havia povoações de colonizadores, onde pudessem encontrar abrigo quando anoitecia. Um relato escrito pelo jesuíta José de Moraes em meados do Século XVIII oferece uma ideia de como se arranjava um missionário quando precisava "baixar acampamento":
"Todos os dias antes de ser noite fazia alto com os índios que o acompanhavam, mandava armar o rancho, que era uma casa formada de paus e coberta de palha, que para tudo dão comodidade os matos do Brasil; tratavam de cozinhar o que entredia de caminho tinham morto, ou na caça ou na pesca, de que há abundância nestas terras, por serem muito destros os índios neste exercício em que rara é a vez que voltam sem trazer alguma coisa. Acabada a ceia à luz de muitas fogueiras, que faziam ao redor da casa para se defenderem das feras e de infinidade de mosquitos, que de ordinário se não atrevem a chegar junto do fogo, se deitavam a dormir até o seguinte dia de madrugada, que continuavam a sua viagem." (¹)
A vivacidade da explicação dada pelo padre José de Moraes até nos leva a imaginar, em sua rústica cabana improvisada, o que conversariam, o missionário, usualmente com um companheiro também jesuíta, e os indígenas, nessas horas em que, não fossem as palavras, ficariam apenas a ouvir os sons noturnos da floresta (²). Falariam em coisas da religião? Ouviriam com interesse as lendas e tradições indígenas? Ainda que sem pôr os sentimentos em palavras, teriam receio do caminho adiante? Embora não tenhamos resposta para tais questões, ficamos com a certeza de que os aspectos práticos da jornada deviam ocupar muito do tempo desses expedicionários que estavam dispostos a gastar a vida na propagação de suas convicções religiosas. 
Se o lugar não era favorável para arranchar, era preciso armar as redes (como os indígenas), em algum ponto nas árvores. O modo de fazer fogo era também aquele aprendido com os filhos da terra. Talvez possamos falar, portanto, em um estilo colonial de acampar, comum a jesuítas e bandeirantes, e, mais tarde, a partir do Século XVIII, adotado também por tropeiros, e aprendido, em grande parte, com os mestres ameríndios, verdadeiros especialistas em sobrevivência na variedade de paisagens naturais de que se compunha o Brasil.

(1) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 95.
(2) Que não são exatamente tranquilizantes.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A bagagem de dois missionários jesuítas que pretendiam catequizar indígenas no Ceará e no Maranhão

O Século XVII está no começo. Dois jesuítas, Francisco Pinto e Luís Figueira, saindo do Colégio de Pernambuco, iniciam uma longa caminhada com o propósito de estabelecer uma missão entre indígenas no Maranhão. 
Não vão sozinhos: têm a companhia de alguns índios, já catequizados, que auxiliam no contato com grupos indígenas. Além disso, ajudam a transportar a bagagem dos dois padres. Como somos curiosos, leitores, iremos bisbilhotar o que é que carregam. Como? Há um relato interessante, feito pelo padre José de Moraes em A Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará:
"Caminhavam a pé, sem mais vitualhas que o altar portátil que levavam dois índios, algum vinho, hóstias, cera e uma pouca de farinha de pau (¹), usual sustento da terra, repartida pelas mochilas dos companheiros; sem mais outra vianda que o peixe e caranguejos, que a diligência dos índios encontrava por aquelas praias. Usavam de umas roupetas curtas para lhes ficarem mais desembaraçados os passos [...]; mas porque os charcos, pedras e lodos por onde precisamente haviam de passar eram muitos, consumidos logo nos primeiros dias os sapatos, se viram obrigados a caminhar descalços." (²)
A obra de José de Moraes somente foi escrita uns cento e cinquenta anos depois da missão de Francisco Pinto e Luís Figueira (³). Sabe-se de seu acesso a uma variedade de documentos, mas, conforme ele próprio explicou, em alguns casos seus relatos tiveram por fundamento a tradição, apenas. Apesar disso, podemos estar certos de que, ao empreenderem a viagem, os dois padres a que nos referimos entraram em um rumo de todo desconhecido para eles. Confiavam, pois, na lealdade e experiência dos indígenas já catequizados que tomavam por guias. Para a alimentação, esperavam achar pesca e alguma caça, a fim de complementar a magra dieta de farinha de mandioca. Na bagagem listada por José de Moraes, destacam-se os itens de uso religioso, a começar pela existência de um altar portátil. O mesmo autor, tratando de outras missões de catequese, faria referência ao uso de um móvel semelhante, o que nos leva à conclusão de que seu emprego era prática comum na época. 
Não foi dessa vez, no entanto, que uma missão de jesuítas foi estabelecida no Maranhão. Ao chegar à Serra de Ibiapaba, a pequena caravana foi atacada por tapuias. Francisco Pinto foi morto, assim como alguns dos índios catequizados. Luís Figueira escapou, escondendo-se no mato. Depois de sepultar o companheiro, retornou a Pernambuco. Anos mais tarde, após a expulsão dos franceses do Maranhão, foi mandado a São Luís, onde uma nova luta o aguardava, não contra grupos indígenas que rejeitavam a catequese, mas contra os colonizadores que viam em cada ameríndio um escravo em potencial.

(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 30.
(3) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus.


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