quarta-feira, 15 de julho de 2015

Professores de Primeiras Letras no Brasil Colonial

Era aos jesuítas, nos tempos coloniais, que se atribuía a responsabilidade de ministrar instrução primária no Brasil. Porém, os padres da Companhia não eram nem de longe numerosos o bastante para o atendimento às vilas e cidades de um território tão vasto. Não é, portanto, necessário um grande esforço mental para perceber que a maioria das localidades via seus meninos crescendo na mais sórdida ignorância, até mesmo dos rudimentos de escrita. Não menciono as meninas porque, quanto a elas, geralmente se considerava que toda a instrução necessária tinha a ver com a administração da cozinha e trabalhos de agulha. Raríssimo era o pai que se preocupava com a educação de suas filhas, providenciando para elas um professor particular.
Acontece que em 1759, no reinado de D. José I, sendo ministro o Marquês de Pombal, os jesuítas foram expulsos de Portugal e de seus domínios de ultramar. Em se tratando de educação no Brasil, aquilo que já era deficiente ficou muito pior. As escolas de primeiras letras, mantidas supostamente pelo chamado "Subsídio Literário" (*), salvo alguma honrosíssima exceção, revelaram-se autênticos desastres, empregando, para a função de professores, indivíduos que quase sempre primavam pela falta de tato em lidar com crianças e que, de conhecimentos, não eram de modo algum espécimes de destaque.
Foi ainda antes da Independência que Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês, andou pelo Rio Grande do Sul. Teve então a oportunidade de observar o estrago, em se tratando de educação, que a expulsão dos jesuítas ocasionara no território das Missões. O salário que o governo joanino destinava aos professores era tão baixo que simplesmente fazia com que ninguém quisesse dar aulas, de modo que as escolas permaneciam fechadas e as crianças cresciam sem qualquer instrução:
"Outrora, ensinava-se a ler e a escrever em todas as aldeias, mas essas lições cessaram há muito tempo. Porém, acaba de ser criado lugar de mestre-escola para todas as vilas reunidas; mas como não se quer pagar mais de 100$000 réis (...) parece que não se encontrará ninguém capaz de ocupar o lugar por esse preço e, realmente, a quantia é muito módica para uma região onde o alqueire de farinha custa 40$000 réis e tanto, e tudo o mais nessa mesma proporção." (**)
Não há, pois, senhores leitores, como questionar a velhice dos problemas relativos à instrução fundamental no Brasil. Estes, como muitos outros, ainda esperam, séculos depois, por uma solução decente.

(*) O Subsídio Literário era cobrado sobre algum produto de destaque na economia de um determinado lugar - cachaça, por exemplo.
(**) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 341

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