sexta-feira, 25 de abril de 2014

Como Foi Construída a Primeira Capital do Brasil

Brasília não foi, no Brasil, a primeira cidade construída para ser Capital. Essa primazia pertence a Salvador, então "Cidade da Bahia", estabelecida sob as ordens do primeiro governador-geral português, Tomé de Sousa.
Não havia nenhum prédio público esperando o primeiro governador quando este chegou à colônia. Era o que se poderia chamar de "começar do zero", conforme explicou Gabriel Soares em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, já que as primeiras providências estavam relacionadas a encontrar um lugar satisfatório para a nova (e primeira) cidade (*) do Brasil:
"Como Tomé de Sousa acabou de desembarcar a gente da armada e a assentou na Vila Velha, mandou descobrir a baía, e que lhe buscassem mais para dentro alguma abrigada melhor que a em que estava a armada (...); e por se achar logo o porto e ancoradouro (...), mandou passar a frota para lá por ser muito limpo e abrigado (...); mandou descobrir a terra bem, e achou que defronte do mesmo porto era o melhor sítio que por ali havia para edificar a cidade (...), por defronte deste porto estar uma grande fonte bem à borda da água que servia para aguada dos navios e serviço da cidade (...)." (**)
Acertou Tomé de Sousa em estabelecer a povoação onde havia água. Para a segunda providência as informações dos colonos devem ter sido decisivas:
"E tomada esta resolução se pôs em ordem para este edifício, fazendo primeiro uma cerca muito forte de pau a pique, para os trabalhadores e soldados poderem estar seguros do gentio." (***)
Não venham os meus leitores questionar quão segura podia ser uma cerca de pau a pique; a coisa era provisória e, além disso, usual no Brasil - os próprios índios a usavam para proteger suas aldeias.
Vamos em frente.
Tomé de Sousa tomou, a seguir, uma providência verdadeiramente inaudita no Brasil, mandando fazer um arruamento organizado, coisa que quase não se acha entre as cidades coloniais portuguesas na América, ainda que fosse muito frequente na América Espanhola; estando prontas as ruas, fizeram-se as primeiras casas para alojar soldados, marinheiros e os mais que tinham vindo:
"(...) Arrumou a cidade dela para dentro, arruando-a por boa ordem, com as casas cobertas de palma ao modo de gentio, nas quais por entretanto se agasalharam os mancebos e soldados que vieram na armada." (****)
Iam aqui os portugueses seguindo os hábitos da terra, ao fazer as casas com cobertura "ao modo do gentio". Daí, estando o mais básico concluído e, ainda segundo Gabriel Soares, cuidou Tomé de Sousa da fortificação da nascente cidade, com o duplo propósito de defendê-la de ataques dos povos nativos (o que nos mostra que, nesse tempo - 1549 em diante - os confrontos entre índios e portugueses já eram encarniçados naquela região), bem como de piratas e corsários estrangeiros, o que, em geral, equivalia a dizer ingleses e/ou franceses. Conta, sobre isso, o mesmo Gabriel Soares:
"(...)Ordenou de cercar esta cidade de muros de taipa grossa, o que fez com muita brevidade, com dois baluartes ao longo do mar e quatro da banda da terra, em cada um deles assentou muito formosa artilharia que para isso levava, com o que a cidade ficou muito bem fortificada para se segurar do gentio." (*****)
Quatro baluartes na direção da terra, dois na do mar - já se vê onde estava a maior preocupação!
Por último, como a Cidade da Bahia se edificava para ser a residência do governador-geral, deviam ser construídos prédios públicos. E foi exatamente o que aconteceu:
"(...) O governador fundou logo um colégio dos padres da Companhia e outras igrejas, e grandes casas para viverem os governadores, casas da Câmara, Cadeia, Alfândega, Contos, Fazenda, armazéns e outras oficinas convenientes ao serviço de Sua Alteza." (******)
Recapitulando, a ordem no estabelecimento da primeira capital do Brasil foi:

a) Procurar um bom porto, no qual houvesse água para abastecer os navios e a nova cidade;
b) Fazer uma fortificação provisória (de pau a pique) para defesa dos colonos;
c) Fazer o arruamento, ordenadamente;
d) Construir casas para acomodar a população que, vinda do Reino, acompanhava o primeiro governador-geral;
e) Estabelecer uma fortificação de melhor qualidade, inclusive com artilharia;
f) Edificar os prédios públicos necessários.

Obrou bem esse Tomé de Sousa. Bom mesmo seria se sua lógica houvesse atravessado os séculos e chegado, efetiva, até nossos dias.


(*) As povoações fundadas antes de Salvador não tinham legalmente, o status de cidades.
(**) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 113
(***) Idem
(****) Id., pp. 113 e 114
(*****) Id., p. 114
(******) Id.

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