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quinta-feira, 21 de abril de 2022

A morte de D. Maria I

D. Maria I não é personagem histórica pela qual os brasileiros morrem de amores, seja pela repressão à Inconfidência Mineira, seja pela proibição de fábricas no Brasil. Portanto, o título de "a Piedosa", como foi chamada, não faz, por aqui, muito sentido, ainda que, sob certos aspectos, talvez o merecesse.
Nascida em 1734, foi, desde 1792, considerada mentalmente incapaz para conservar o reinado, e, desde então, substituída pelo filho D. João, que passou a exercer o governo na condição de príncipe-regente. Mas o mundo da época passava por mudanças acentuadas, e Maria I também teve de se mudar (em outro sentido), vindo viver no Brasil, a cuja capital, o Rio de Janeiro, chegou em 1808, como parte da Família Real que deixara o Reino para fugir das pretensões napoleônicas. E foi no Rio mesmo que D. Maria faleceu, em 20 de março de 1816. 
No mês seguinte, a informação oficial de sua morte chegou à Câmara de São Paulo, mediante ofício do capitão-general Conde da Palma, incluindo uma ordem para que o luto fosse observado com todas as formalidades e demonstrações públicas de tristeza. Não vinha ao caso a opinião popular sobre a rainha: era cumprir a ordem, e pronto. Assim, em 20 de abril, os oficiais da Câmara e mais funcionários públicos da localidade, "todos de capas de baetas pretas até os pés, chapéus desabados e fumos (¹) caídos [...], pegando cada um dos vereadores em seu escudo preto e varas pretas [...], montaram todos a cavalo, todos os quais cavalos iam cobertos de baeta preta até ao chão [...]" (²), e trataram de cumprir o ritual que deles se esperava, diante da população, cuja reação, ainda que não registrada, bem se pode imaginar:
 "[...] logo no pátio deste Concelho (³), onde estava postado um corpo de tropas, e no meio da praça um arquibanco de madeira coberto de baeta preta, subiu o vereador mais velho, e proferindo três vezes esta legenda - Chorai, Nobres, chorai, Povo, que é morta a Augustíssima rainha Senhora Dona Maria Primeira do Reino Unido de Portugal e Brasil e Algarves - e quebrou o escudo e atirou ao chão, findo o qual ato deu a tropa três descargas e daí foi indo a Câmara acompanhada pelo dito corpo de tropas para o largo e pátio da Câmara, onde estava postado outro corpo de tropas, ao qual se reuniu o corpo que acompanhava a Câmara, e em outro arquibanco que se achava quebrou o escudo o segundo vereador, proferindo três vezes a referida legenda - e deu o corpo de tropas três descargas; daí seguiu a Câmara acompanhada da referida tropa para o largo da Sé, onde estava postado outro corpo de tropas, a que se reuniram o primeiro e o segundo, e deram juntamente três descargas, depois de quebrado terceiro escudo pelo terceiro vereador em outro arquibanco que aí estava armado; daí seguiu a Câmara acompanhada dos três corpos de tropas referidos para o largo do Colégio, onde estava postado outro corpo de tropas, ao qual se reuniram outra vez os primeiros corpos que acompanhavam a Câmara, e quebrando o procurador o último escudo, proferindo três vezes a referida legenda, toda a tropa deu três descargas, [...], e daí voltando para os Paços do Concelho se mandou lavrar este termo para a todo tempo constar [...]" (⁴).
Não devia haver dúvida de que a Câmara levara a efeito o que dela se esperava. Cerimônias como essa, com um simbolismo que hoje nos parece estranho, até ridículo, na época eram feitas com toda a seriedade.
Cinco dias mais tarde, em 25 de abril de 1816, portanto, a Câmara fez outro "ajuntamento", como se dizia. Era aniversário de D. Carlota Joaquina, e lá se foram os vereadores e mais oficiais a caminho da Sé, para um Te Deum Laudamus "pelos felizes anos" da princesa que detestava o Brasil e que, pela morte da sogra, passaria a ser chamada rainha. Do luto às festas, cumpriam-se à risca as formalidades. Quanto à vida da gente comum, seguia tudo como sempre.

(1) Faixa usada em sinal de luto.
(2) Os trechos citados da ata da Câmara de São Paulo de 20 de abril de 1816 foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) "Concelho" com "c" é o nome da unidade municipal portuguesa, que, nesse tempo, ainda era usado no Brasil. 
(4) Cf. Ata da Câmara de São Paulo de 20 de abril de 1816.


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terça-feira, 20 de outubro de 2020

O que os príncipes Dom João e Dona Carlota Joaquina vestiam quando desembarcaram no Rio de Janeiro em 1808

A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro provocou um rebuliço. No dia do desembarque, 8 de março de 1808, a população, em massa, postou-se nas ruas por onde o cortejo deveria passar. Quem é que deixaria, por vontade própria, de presenciar tal espetáculo? Por outro lado, era conveniente que os recém-chegados tratassem de fazer boa figura diante dos leais súditos, que, eufóricos, quase não se continham de tanto entusiasmo. Talvez em poucos dias mudassem de parecer, mas isso já é outra história.
D. Carlota Joaquina,
retratada por Debret (²)
Nessa ocasião D. João ainda não era rei. Governava na condição de príncipe regente, porque D. Maria I, a rainha, fora considerada incapaz, por questão de saúde, para o exercício do cargo. De qualquer modo, cumpridas certas formalidades ainda no navio, D. João pôde, afinal, pôr os pés em terra (¹), certamente com uma sensação de alívio. De acordo com José Vieira Fazenda em Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro, "[...] trajava casaca comprida, de gola muito alta, colete branco bordado, calções de cetim, botas curtas, dragonas, e levava à cabeça enorme chapéu armado, ornado de arminho, e grande espadagão pendente de cordões de fios de ouro, com as competentes borlas". Não era grande coisa, em comparação ao que se via nas cortes europeias anteriores à Revolução Francesa. Mas, para o povo do Rio de Janeiro, não acostumado a tanto brilho, ostentava uma aparência quase mágica.
Por outro lado, sua nobre consorte não parecia nada satisfeita. Que surpresa! Nas palavras de Vieira Fazenda, Carlota Joaquina estava "vivamente contrariada". Prossegue o mesmo autor: "Contou-nos testemunha ocular, que a viu passar na Rua do Rosário, que ia ela vestida simplesmente de preto, cabelos cortados e não empoados (³), sem joia alguma e sem mais ornato". 
D. Maria I, que, afinal de contas, ainda era a rainha, somente desembarcou, ou melhor, foi desembarcada, no dia seguinte, com muita discrição.

(1) D. João já estivera na Bahia, depois de viagem atribulada para cruzar o Atlântico.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Contrariando, portanto, a moda da época. Pensem, leitores no trajar das ilustres damas que, entre 1814 e 1815, lotavam os salões de baile durante o Congresso de Viena.