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quinta-feira, 6 de julho de 2023

Pequeno monçoeiro

Um pedaço de madeira, uma faca velha meio cega. O menininho luta para entalhar a forma de um barco, como aqueles que, de vez em quando, vê partir pelo Tietê, no rumo do sertão. 
Ainda é muito cedo e a neblina cobre o rio. Deixando de lado a ferramenta improvisada, corre até o barranco, e olha, e olha... 
Quem sabe? Parece ver movimento ao longe. Seriam os batelões que, há dois anos, haviam partido, levando-lhe o pai, entre tantos outros aventureiros?
A névoa não se dissipa, só um ligeiro ruído na água reacende a esperança. Por pouco tempo. Manejando o varejão, um desconhecido se aproxima, em pé sobre a canoa, e passa adiante, acenando aos olhinhos que o espreitam.
Com persistência grande para pequena idade, volta ao trabalho. Quer fazer o seu barquinho, colocá-lo na água e pensar no dia em que também partirá. Na imaginação de menino, talvez seja isso o significado de ser homem. Abrirá caminho nas florestas, achará ouro, será rico e respeitado. De que mais não será capaz?
Esse sonhar acordado logo acaba, já a mãe é quem grita:
- Anda, menino, vem me ajudar a tirar a palha do milho!...
Pés descalços, corre à casinha em que sós, moram agora a mãe e ele. Manejar o pilão requer uma força que seus braços ainda não têm. Mas, em um acesso de valentia, quer ser grande, quer proteger a mãe, e se esforça para fazer do milho a farinha de que tanto precisam para viver.


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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Viajando com os monçoeiros paulistas do Século XVIII

As árvores já fazem sombra nas águas do Tietê, e o céu, a oeste, dá sinais de mudar de cor. Na densa floresta, a cantoria vespertina da passarada está por começar.
Os remeiros dos batelões se entreolham, à espera de um sinal dos respectivos proeiros, que param de marcar o ritmo. Diminuem a marcha, enxugam o suor que escorre pelo rosto e procuram, junto à margem, um lugar seguro em que amarrar as embarcações. Ligar cada uma delas a um tronco resistente é mais fácil, porém arriscado. Não correm de boca em boca os casos de canoas que, em meio a uma tempestade, foram levadas, com árvore e terra, pela correnteza reforçada com a água da chuva? Os batelões serão, portanto, arrastados mata adentro, o que é inevitável sacrifício em uma hora na qual os viajantes, já cansados, ainda terão de enfrentar o preparo da comida para o jantar e para o dia seguinte.
Os homens saltam em terra primeiro, tratando logo de ajudar no desembarque das poucas mulheres que acompanham a expedição. Em pouco tempo, ouvem-se os sons secos dos machados derrubando árvores, para abrir algum espaço onde cozinhar. Cada grupo de parentes ou conhecidos se reúne para cuidar da própria subsistência. A solidariedade é importante nessas circunstâncias. Acende-se fogo, e, entre duas forquilhas, um galho forte sustenta o caldeirão onde o feijão é posto a ferver. Alguns saem à caça. Se tiverem sorte de apanhar uma anta, o jantar acabará virando um festim, mas qualquer coisa que trouxerem será bem-vinda. Na falta de comida extra, o feijão será acompanhado por farinha de milho. 
Enquanto isso, já começa a procura por um lugar entre as árvores em que armar as redes para dormir. Gente de mais recursos traz também uma proteção contra chuva e mosquitos. Os outros torcem por não haver desses minúsculos seres sanguinários, que bem poderiam fazer parte dos suplícios do inferno, se Dante tivesse sabido de sua existência. E há, ainda, monçoeiros que nem uma simples rede têm, e irão buscar abrigo como for possível, no chão, perto da fogueira.  Ali, pelo menos, as cobras não costumam chegar.
Algumas horas depois, não havendo mais sol, os caçadores retornam. Não foram muito felizes, só trazem caça pequena, mas já é alguma coisa... O feijão borbulha nos caldeirões. Para os monçoeiros famintos, o aroma parece bom.
Enquanto todos jantam, sentados no chão, ouve-se um trovejar distante. Um murmúrio de desaprovação percorre o grupo. Com a roupa molhada e a água a cair sobre o rosto, poucos são os que conseguem conciliar o sono. Os sortudos que têm uma rede com proteção são os únicos que pouco sofrem. Mas o susto é passageiro. As nuvens se dispersam e logo a lua é perfeitamente visível por entre as árvores. 
Ao redor da fogueira, alguns arriscam uma canção. Há monçoeiros veteranos que se dispõem a contar casos que, por sua vez, também foram contados por outros monçoeiros. A maioria, porém, desgastada pela viagem, só pensa agora em descansar, e logo, no acampamento, serão ouvidos somente o crepitar do fogo e os sons de aves noturnas. 
Monçoeiros de primeira viagem tremem a qualquer ruído. Os mais experientes sabem disso, e, às vezes, algum gaiato resmunga: Olha, é miado de onça...
Os mais afoitos tratam de ter certeza de que as armas estejam ao alcance da mão, se, por acaso, precisarem delas. Para piorar, ouvem-se os latidos dos cachorros que acompanham a monção. Presos para não tentarem alguma aventura na mata, levantam a cabeça, rosnam, farejam o ar, tornam a latir. Depois de algum tempo, de novo o silêncio, apenas quebrado pelos ruídos monótonos da floresta, ou pela interjeição mais do que irritada de alguém que já não suporta piuns e borrachudos.
Amanhece. Uma névoa fina repousa sobre o rio. Sonolentos, os monçoeiros vão deixando as redes. Os remeiros já estão junto à margem, e, apontando para o chão, tagarelam entre si, com entusiasmo pouco usual. Os outros vão chegando perto. Na terra barrenta e repisada, as evidentes pegadas de um felino de grande porte não deixam dúvidas quanto à visitante que passeou pelas redondezas enquanto todos dormiam.
Mas é hora de levantar acampamento e seguir viagem. À frente, os rios com suas cachoeiras, as florestas, com sua beleza, mistério e perigos sem conta; muito longe, a miragem do ouro do Cuiabá.


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quarta-feira, 18 de março de 2015

A tripulação usual de um batelão monçoeiro

"Batelão" era o nome dado a cada uma das enormes canoas que, ao tempo das monções cuiabanas, eram usadas nas viagens pelo Tietê, Paraná e outros rios. Partia-se de Porto Feliz - então chamada Araraitaguaba (*) - mas o retorno podia ser pelo próprio Tietê ou, em época de grandes chuvas, pelo rio Piracicaba.
Os batelões eram, com frequência, construídos a  partir do tronco de uma única árvore, o que era possível porque, naquela época, havia ainda matas em São Paulo com árvores enormes.
Habitualmente, a tripulação de um desses batelões era composta por oito homens com prática na navegação dos rios, incluindo um piloto (que viajava na popa), um proeiro e seis indivíduos de muita força para remar contra a corrente, habilitados, inclusive, para o uso de varejões em lugar de remos, quando era preciso atravessar as perigosas corredeiras. Entendam os leitores que o número de tripulantes podia variar, ainda que oito fosse o padrão.
Ora, cada uma dessas embarcações devia levar, também, os respectivos monçoeiros e sua bagagem. Em alguns casos, até animais eram transportados. Vê-se, pois, quão árdua era a tarefa dos remadores que, não raro, eram escravos. Assim carregado, um  batelão deslizava pelo leito dos rios, rumo ao interior do Brasil, ficando a borda apenas uns poucos centímetros acima do nível da água. 
Era preciso coragem, mas a esperança de enriquecimento com o ouro levou muita gente a correr todos os riscos, que não eram relacionados somente à navegação. Havia também as doenças, a fome, os ataques de indígenas (paiaguás e guaicurus, entre outros), as chuvas torrenciais e, pequenos mas insuportáveis, mosquitos que tornavam a viagem uma rota infernal. 
Foi assim que se explorou e povoou uma parte considerável do interior do Brasil. Quem ia, queria enriquecer. Voltar? Era apenas incerteza.

Parte que resta de um batelão monçoeiro (Parque das Monções, Porto Feliz - SP)

(*) Os leitores não terão muita dificuldade em compreender a razão para a mudança de nome dessa localidade...


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quarta-feira, 31 de julho de 2013

As aranhas do padre Anchieta


"Umas são um pouco ruivas, cor de terra..."

Quem dentre meus leitores gosta de aranhas? Imagino que poucas pessoas, excetuando, por certo, os pesquisadores que se dedicam a elas - para bem da humanidade, felizmente.
"...outras pintadas, todas cabeludas"
Os monçoeiros que iam pelo Tietê e outros rios rumo ao interior do Brasil no Século XVIII eram acossados de contínuo por montes de aranhas que, caindo das árvores que margeavam os cursos d'água, iam dar nas embarcações - coisa que suscitava, neles, expressões constantes de desagrado, que beiravam ao horror, em alguns casos.
Muito antes dos monçoeiros, no entanto, o Padre José de Anchieta, missionário jesuíta no Brasil, instado a descrever a colônia portuguesa na América e suas particularidades, assim se referiu às aranhas, em uma carta ao Geral de sua Ordem:
"O que direi das aranhas, cuja multidão não tem conta? Umas são um pouco ruivas, outras cor de terra, outras pintadas, todas cabeludas; julgarias que são caranguejos, tal é o tamanho do seu corpo: são horríveis de ver-se, de maneira que só a sua vista parece trazer diante de si veneno." (*)
A carta da qual fazia parte o trechinho acima foi escrita em São Vicente, no fim de maio de 1560. Não se pode, por ela, concluir que Anchieta fosse um apreciador de aranhas, não é mesmo?

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 115.


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