Mostrando postagens com marcador Guaicurus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guaicurus. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Índios guaicurus - Parte 2

Os guaicurus estavam para a América do Sul como os comanches para a América do Norte. Ferozes e destemidos, afeiçoaram-se grandemente aos cavalos, animais que não eram nativos do Continente Americano (foram trazidos pelos colonizadores europeus) e que tanto comanches como guaicurus passaram a apreciar, desenvolvendo método próprio de conduzi-los. Se devemos crer em testemunhos de contemporâneos, pensavam que tinham pleno direito a todos os cavalos do Universo. Portanto, assumindo que os cavalos eram seus, nada mais justo que capturá-los de quem estivesse com eles. Não constituiria roubo. Os outros é que os roubavam...
Devemos, todavia, como já afirmei na postagem anterior, ser cautelosos, mesmo com relatos provenientes dos tempos coloniais. Tanto comanches quanto guaicurus tiveram as terras nas quais viviam sistematicamente ocupadas por colonizadores, que tinham voz, através de seus escritos, de modo que podemos, ainda hoje, saber seu ponto de vista nos confrontos com indígenas; já os nativos da América, muitos deles não dispondo de escrita e muito menos de registros sistemáticos, não deixaram testemunhos equivalentes aos dos colonizadores. É difícil, pois, estabelecer uma avaliação imparcial. Certo, mesmo, é que os confrontos foram sangrentos, tanto na América do Norte quanto na América do Sul.

*****

No Brasil do Século XIX os enfrentamentos entre gente de origem europeia e índios guaicurus já haviam diminuído bastante de intensidade, quando comparados a combates ocorridos no século precedente, durante o período das chamadas monções cuiabanas. Não obstante,  o relato feito por Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, é ainda muito similar aos que aparecem em obras mais antigas. Embora seja razoável supor que Florence tenha lido Ayres de Casal e outros autores, ele deveria ter também material de primeira mão a apresentar a seus leitores:
"Estão, com efeito, os anais de Mato Grosso cheios das traições desses infiéis. Errantes nas margens do Paraguai e Taquari e estendendo suas excursões em vastíssimo território, fizeram no princípio do descobrimento grande dano às monções que por entre eles passavam. Foram já por vezes até Camapuã e, não há muito tempo, arrebataram de lá perto de 500 cavalos. Costumam também entranhar-se pelo país dos caiuás e caiapós perto do Paraná, a fim de reduzi-los à escravidão."(¹)
"Não poupam em suas devastadoras correrias nem sequer os espanhóis das margens do Paraguai, indo mesmo em tempo de paz saquear-lhes as povoações, cujos despojos vendem aos brasileiros. Não sei se depois de pacificados continuam nessas práticas." (²)
Não deixa de ser curioso que um europeu, francês, supusesse que os indígenas da América tinham a obrigação de respeitar as fronteiras que representantes de países europeus (no caso, Portugal e Espanha), haviam combinado entre si ainda no Século XVIII. Aliás, fronteiras combinadas depois de uma quantidade de tratados e guerras... Isso demonstra o quanto pode ser difícil romper com a mentalidade reinante.

Guaicurus indo ao comércio com europeus, de acordo com Debret (³)

Segue H. Florence contando sobre uma menina branca que fora raptada e criada pelos guaicurus:
"Esses bárbaros levam tão longe a ousadia que não trepidam meter nos ferros da escravidão até os próprios espanhóis. Vi chegar a Cuiabá uma menina branca dessa nacionalidade e de 12 anos de idade, que o Tenente-Coronel Jerônimo tinha tirado de entre os guaicurus, onde vivia em cativeiro. Fora com a mãe raptada de sua aldeia natal no Paraguai, ainda criança de peito, ficara só no mundo e tomara todos os hábitos dos índios, cuja língua se tornara a dela." (⁴)
Finalmente, passa a tratar da notável habilidade que havia levado os colonizadores a atribuírem aos guaicurus o apelido de “gentio-cavaleiro”:
"Os guaicurus são todos cavaleiros e bons corredores. Possuem numerosa cavalhada roubada aos espanhóis ou criada nos campos. Às vezes vão vender em Cuiabá animais de sela por 9$000 ou 10$000. Há índios que têm dois, três e mais. Montam na anca, o que faz com que usem de rédeas muito compridas." (⁵)
Nesse aspecto é possível outra comparação entre guaicurus e comanches: aos europeus e/ou seus descendentes causava estranheza o método pelo qual os indígenas controlavam e conduziam os cavalos.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 83.
(2) Ibid., pp. 83 e 84.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) ,FLORENCE, Hércules. Op. cit., p. 84.
(5) Ibid., p. 84.


Veja também:

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Índios guaicurus - Parte 1

Os guaicurus estavam entre os indígenas mais temidos do período colonial - a própria menção a seu nome era suficiente para provocar calafrios entre os monçoeiros, que eram frequentemente por eles atacados - era o "gentio cavaleiro", como então se dizia, gente que montava de um modo estranho, ao menos segundo as regras de equitação seguidas por europeus e seus descendentes. Não causa espanto, pois, que Ayres de Casal não tivesse, sobre esses indígenas, uma visão lá muito favorável, como, de resto, não a tinham muitos dos autores da época sobre quaisquer dos povos nativos da América:
"São os guaicurus de mediana estatura, bem feitos, sadios, nutridos, e ao parecer adaptados a qualquer trabalho penoso; mas poltrões. Comem muitas vezes no dia, e mui devagar; seus manjares são muito cozinhados e sem asseio. Jamais padecem indigestões. É notável a dieta de que usam nas suas raras moléstias. Jamais apareceu um escorbutado entre eles, nem memória de mortes repentinas.
[...].
Pintam o corpo com tinta de urucum e jenipapo, no que guardam assaz de simetria. No cabelo os moços não têm uso certo; os velhos trazem a cabeça rapada em roda à semelhança dos leigos franciscanos. As mulheres também rapam a cabeça em redondo e despontam o cabelo [...]." (¹)
Depois, prossegue o padre Ayres de Casal:
"Os homens cuidam na caça, pesca, em tirar mel, frutas silvestres, palmitos, dos cavalos, feitura de armas e canoas [...]; as mulheres fiam, tecem panos e cintas de algodão, fazem cordas, louça e esteiras. Ambos os sexos se ocupam igualmente no mister da cozinha." (²)

Carga de cavalaria guaicuru, de acordo com Debret (³)

E, se devemos crer no que escreveu Ayres de Casal, não era apenas com os portugueses colonizadores que os célebres guaicurus entravam em confronto:
"São tão soberbos que a todas as nações dos gentios confinantes tratam com desprezo; a todas fazem crua guerra, sendo delas de alguma sorte respeitados e temidos pela vantagem que têm na cavalaria e armas de que usam [...]." (⁴)
Lembro aqui, no entanto, que, sem escrita, os guaicurus não deixaram seus próprios relatos para que pudéssemos compará-los aos dos colonizadores. De qualquer modo, percebe-se que havia interesses conflitantes: europeus e seus descendentes buscavam explorar novos territórios e riquezas, não importando, muitas vezes, os métodos empregados na execução de seus projetos; populações indígenas aí anteriormente estabelecidas sentiam-se ameaçadas e viam os colonos como invasores, passando então à defesa e/ou tomando a iniciativa do ataque. Nada muito diferente do que tem ocorrido em boa parte da história da humanidade neste planeta. Como sempre, quem tinha melhores armas acabou levando vantagem - não sem muitas perdas, porém.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 277.
(2) Ibid., pp. 278 e 279.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Op. cit., p. 279.


Veja também: