Mostrando postagens com marcador Quilombos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Quilombos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Quilombola

Escravo, esboço de
Thomas Ender (*)
Havia fugido do engenho. Quando menino, sempre ouvira a mãe dizer: "Ele é teu pai; quando ele morrer, serás livre". O senhor fora enterrado há meses e nada de alforria. A esperança se convertera em ressentimento.
Uma tarde fora mandado, com vários outros, a tirar lenha na mata próxima, e escapulira. Aos poucos, se afastara do grupo, e quando o feitor deu por sua ausência, já estava longe. Bem que ouvira os gritos dos que o procuravam, assim como o latido dos cães, mas nunca pensaria em voltar. Protegido pela noite, caminhara sem descanso e, vindo o sol, tomara o rumo da serrania distante. Quatro dias depois, mais morto que vivo, chegara ao pequeno quilombo, de cuja existência nunca suspeitara.
Afinal, foi admitido, embora com desconfiança. Agora, terá de provar que pode ser útil, que não irá trair a comunidade. Mas é bom caçador, e sabe disso. A capivara gorducha que assam com faminta expectativa não é mau começo. Vivendo entre outros fugitivos, o respeito e a liberdade serão construídos na luta de cada dia.

(*) O original pertence ao acervo da BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

Veja também:

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Um quilombo junto ao rio Tietê

Quando se fala em quilombo, Palmares vem à mente da maioria das pessoas. Foi, de fato, o mais famoso, tanto pelas proporções alcançadas quanto pela resistência. Mas não foi o único. Muitíssimos outros existiram, nos mais diversos pontos do Brasil. Houve um, de acordo com Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff (¹), às margens do rio Tietê, em algum lugar, portanto, do território que hoje pertence ao Estado de São Paulo:
"[...] passamos pela embocadura do rio Quilombo e, pouco abaixo, pela ilha e cachoeira do mesmo nome. Ali se haviam antigamente refugiado muitos negros, pois quilombo é palavra que designa o asilo onde eles se reúnem nas matas. Foram descobertos por negociantes que voltavam de Cuiabá (²) e que, apenas chegados a Porto Feliz, armaram, por espírito de ganância, uma expedição com a qual atacaram aqueles infelizes, aprisionando mais de cento e vinte. Amontoados em canoas, voltaram os mal-aventurados aos pontos em que sofriam o cativeiro. Foi-nos o fato contado pelo guia." (³)
Florence foi didático em suas explicações. Registrava os acontecimentos para si mesmo, mas é possível que imaginasse que eventuais leitores de seus escritos talvez desconhecessem as circunstâncias do escravismo no Brasil. Quilombos não eram incomuns, tampouco o eram as expedições para destruí-los. Captores de escravos queriam, se possível, encontrar quilombolas vivos, para reconduzi-los à escravidão. Este quilombo das margens do Tietê foi apenas mais um, a abrigar - quem saberá por quanto tempo? -, os sonhos de liberdade de quem fugia do cativeiro.

(1) A Expedição Langsdorff saiu de Porto Feliz no dia 22 de junho de 1826.
(2) Monçoeiros, infere-se. 
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 38

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Quilombolas capturados eram marcados a ferro quente e tinham uma orelha cortada

Tempos sombrios no Brasil Colonial, em que imperou este bárbaro costume: ao escravo fugitivo que se unisse a um quilombo e fosse capturado era feita a marca de um F com ferro quente, e, se reincidisse, teria uma orelha cortada. E não se imagine que tais práticas decorressem da crueldade pura e simples dos senhores, já que eram autorizadas por um alvará régio datado de 3 de março de 1741. Para que não fique dúvida, vou transcrevê-lo na íntegra:
"Eu el-Rei faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presentes os insultos, que no Brasil cometem os escravos fugidos, a que vulgarmente chamam calhambolas (¹), passando a fazer o excesso de se juntarem em quilombos; e sendo preciso acudir com remédios que evitem esta desordem, hei por bem que todos os negros, que forem achados em quilombos, estando neles voluntariamente, se lhes ponha com fogo uma marca em uma espádua com a letra F, que para este efeito haverá nas câmaras (²); e se quando se for executar esta pena, for achado já com a mesma marca, se lhe cortará uma orelha, tudo por simples mandado do juiz de fora, ou ordinário da terra ou do ouvidor da comarca, sem processo algum e só pela notoriedade do fato, logo que do quilombo for trazido, antes de entrar para a cadeia." (³)
É possível que alguns leitores concluam que estas ordens horripilantes não passavam de ameaça, cujo efeito seria dissuadir, mesmo os mais corajosos entre os escravos, da ideia de fuga para algum quilombo. Mas não. Aconteceu dez anos depois que entrara em vigor a ordem para marcar a ferro quente e cortar uma orelha de quilombolas capturados: "[...] desempenhou tanto o conceito que se formava do seu valor e disciplina da guerra contra esta canalha [sic], que se recolheu vitorioso, apresentando 3.900 pares de orelhas [sic!!!] dos negros, que destruiu em quilombos, sem mais prêmio que a honra de ser ocupado no real serviço [...]." Está na Nobiliarchia Paulistana (⁴), em referência a Bartolomeu Bueno do Prado. A intenção era, evidentemente, elogiar.

(1) O escrivão de Sua Majestade talvez quisesse dizer "quilombolas".
(2) Referência às Câmaras Municipais.
(3) Cf. SANTOS, Joaquim Felício dos. Memórias do Distrito Diamantino da Comarca do Serro Frio. Rio de Janeiro: Typographia Americana, 1868, pp. 70 e 71.
(4) Escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme.


Veja também:

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A fuga de cativos como forma de resistência à escravidão

Que fazia um escravo no Brasil ao sentir-se demasiadamente oprimido? A lista de reações possíveis era grande, e quem estiver interessado no assunto pode, com bastante proveito, consultar a série "Escravos que resistiam à escravidão",  neste blog. Entretanto, uma possibilidade era tentar a fuga.
Como se sabe, muitos escravos que conseguiam escapulir ao férreo controle de seus senhores acabavam por reunir-se em comunidades, os quilombos, em que a possibilidade de lutar contra uma captura era maior. Os quilombos foram muitos numerosos, e Palmares é apenas, dentre eles, o mais popularmente conhecido.
Acontece que há relatos de escravos que, fugindo, refugiaram-se nas matas,  sozinhos ou em pequenos grupos - três, quatro ou cinco pessoas, por vezes um casal isolado - e aí permaneceram por muito tempo, acobertados pelo gigantismo do território que, aliás, era parcamente conhecido, até mesmo dos senhores. Eu arriscaria dizer que, em se tratando do conhecimento do território do Brasil Colonial, por muito tempo os escravos souberam muito mais que os senhores, e isso se considerarmos apenas os cativos oriundos da África, já que os indígenas eram os verdadeiros mestres do saber em relação ao terreno, às florestas e, portanto, também no que tocava à sobrevivência longe das povoações de colonizadores.
O outro lado dessa história é que muitos escravos fugitivos eram capturados e reconduzidos aos seus senhores. As autoridades policiais que agiam nas matas, os capitães de mato, não hesitavam em cumprir seus deveres de ofício e os fujões eram, via de regra, submetidos aos mais desumanos castigos pela audácia que tiveram de negar-se ao trabalho, ao qual eram necessariamente reconduzidos, isso quando sobreviviam às torturas dos açoites, aprisionamento no tronco e muito mais, não desprezando o fato de que, de novo na labuta, eram obrigados a portar horrendos colares de metal que identificavam sua condição de recapturados.

Escravos usando o colar de ferro, castigo para os fugitivos, de acordo com Debret (*)

A questão é que os capitães de mato agiam fora das vilas e cidades. O que acontecia quando um escravo fugitivo era capturado em área urbana, sendo desconhecido o proprietário? Tem-se uma ideia do procedimento habitual, ao menos quando os jornais já circulavam com certa popularidade durante o Império, por este anúncio que apareceu no jornal Aurora Paulistana, em edição de 31 de julho de 1852:
"DECLARAÇÃO - Por esta repartição se faz público que foi recolhido à Casa de Correção um preto que declarou chamar-se Mateus, e ser escravo de Antônio de tal, morador na Venda Grande, do Rio de Janeiro. Quem tiver direito ao dito escravo compareça munido de documentos legais que provem o seu domínio, aliás se procederá na conformidade da lei. Secretaria da polícia de S. Paulo, 24 de julho de 1852. O amanuense, Antônio Louzada Antenes."
Portanto, a polícia encarregava-se do escravo fugitivo, recolhendo-o à prisão até que o proprietário, informado pela imprensa que sua "propriedade" fora localizada, comparecesse, em pessoa ou por representante legal, para reavê-lo. Toda a estrutura repressora de que dispunha o Estado estava, pois, inequivocamente, a serviço da manutenção da ordem escravocrata firmemente estabelecida. Chega a ser quase um prodígio que alguns conseguissem escapar aos seus tentáculos.

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.