quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O Cavalo que Achou um Tesouro

Na postagem anterior foi mostrada a dificuldade que havia para se fazer transportar um cavalo até as minas de Cuiabá, no século XVIII, já que o animal devia passar meses viajando em uma canoa, pelo Tietê e outros rios, além de trechos que eram feitos por terra. A arca de Noé devia ser mais confortável aos equinos!
Apesar disso, relata Pedro Taques de Almeida Paes Leme na sua Nobiliarchia Paulistana que Antônio de Almeida Lara tinha, nas minas, excelentes cavalos, o que indicava ser ele um rico minerador.
Sim, era. E, além disso, perdulário, com um estilo de vida muito extravagante. Lembrem-se, senhores leitores, tudo nas minas custava muito caro...
As despesas foram tantas que o tal homem, por tanto gastar, de riquíssimo que era, acabou terrivelmente endividado. Diante disso, foi, a cavalo (fato de muita relevância), tentar a sorte em outra área, conforme conta Pedro Taques:
"Montado em um formoso bruto muito valente, indo de jornada para o novo descobrimento de Mato Grosso, de repente tropeçou o cavalo, e se foi abaixo. Estranhou a novidade o cavaleiro, por ter experiência das forças daquele animal e, sacando-se da sela e examinando em terra a causa da violenta queda, achou um escondido tesouro de ouro bruto; porque o cavalo havia posto o casco de uma mão em cima de uma aguda folheta, que já estava na superfície da terra. Naquele mesmo lugar estava toda a grandeza de folhetas não pequenas, de sorte que ali logo chegaram os escravos, que vinham na marcha, e dentro da tarde daquele dia se extraíram algumas arrobas de ouro, de cujo Batatal (assim se ficou chamando, por serem as suas folhetas semelhantes a este legume (*)) veio em breve tempo a extrair acima de onze arrobas, todas de folhetas."
E que é que fez Antônio de Almeida Lara, ao ver-se dono de tamanha riqueza?
Continua a narração da Nobiliarchia:
"Recolhido para o Cuiabá e fazenda da Chapada, mandou afixar cartazes em que avisava a todos a quem fosse devedor que viessem ou mandassem receber as quantias de que eram credores."
Talvez alguns dos que leem esta postagem estejam achando nisto tudo um grande exagero. É possível, porque as histórias "boas demais para serem verdadeiras" espalham-se depressa, ganham anexos e logo se transformam em autênticas lendas. Há, no entanto, a favor da veracidade, ao menos do cerne deste caso, alguns argumentos.
Pedro Taques não é o único que menciona o acontecimento. Outros autores também o fazem, e muito provavelmente não tiveram acesso ao manuscrito da Nobiliarchia Paulistana. Além disso, deve-se recordar que, sobre todo o ouro encontrado no Brasil, incidia um imposto de 20% (os "Reais Quintos"). Se alguém fizesse espalhar a lorota de que numa única tarde fora capaz de extrair nada menos que onze arrobas de ouro, o Fisco, absolutamente esfomeado por remeter a Portugal tudo o que fosse possível, cairia sobre tal indivíduo, a exigir-lhe a parte devida, e seria bastante difícil demonstrar que o suposto tesouro simplesmente não existia. Por isso, exageros à parte, o homem deve ter mesmo encontrado uma boa quantidade de metal precioso, até porque acabou a vida honradamente, exercendo cargo importante - foi brigadeiro e juiz na vila de Cuiabá - ainda que nunca tenha se casado, sempre conforme o relato de Pedro Taques:
"Nunca casou, porque estando justo para casar com sua prima D. Leonor, filha de Timóteo Corrêa de Góes, terceiro provedor e contador proprietário da fazenda real, se desvaneceu este intento pela demora que teve no Cuiabá, aonde faleceu."
Neste caso, talvez coubessem bem palavras semelhantes às do "Defunto-Autor" ou "Autor-Defunto", personagem machadiana, ao encerrar as suas célebres Memórias. (**)


(*) Obviamente, Pedro Taques não se prende aqui ao sentido técnico da palavra "legume".
(**) "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)


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