quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Escravos que Usavam Sapatos

Escravos podiam, no Brasil, ter um profissão específica - já tratei desse assunto aqui no blog. O que vou mostrar, hoje, é que esse costume era muito antigo, não se restringindo apenas aos dias do Império, quando a escravidão, afinal de contas, já declinava.
Pedro Taques de Almeida Paes Leme escreveu a sua Nobiliarchia Paulistana no Século XVIII. Tratando de um sujeito por nome João Pires das Neves, falecido em São Paulo no ano de 1720, informou:
"João Pires das Neves foi nobre cidadão de São Paulo, muito abastado e com grande tratamento. A sua fazenda era um como arraial, pelas casas que tinha, com numerosa escravatura de pretos e mulatos, e estes oficiais de artes fabris e mecânicas, os quais trajavam calçados."
Se tivermos paciência para dissecar esse trechinho, poderemos chegar a algumas constatações interessantes.
Em fins do Século XVII e início do XVIII a escravidão era usual na Capitania de São Vicente, imperando a escravidão de índios, não de negros e mulatos. Temos, portanto, um caso que fugia à regra, uma vez que os escravos de João Pires das Neves, de acordo com Pedro Taques, eram "pretos e mulatos". Para isso era preciso que fosse muito rico, já que a carência de moeda corrente em São Paulo é que, ao menos em parte, levava os colonizadores à escravização de índios, na impossibilidade de comprar africanos.
Acrescenta a Nobiliarchia que os escravos de João Pires eram "oficiais de artes fabris e mecânicas". Para manter cativos especializados em dedicação exclusiva a certas tarefas, devia haver muito trabalho para eles o tempo todo, o que nos leva a conjecturar se não atenderiam a serviços de terceiros, sendo a renda em proveito do ilustre fazendeiro. É certo que não se pode afirmar tal coisa, mas também seria imprudência descartar completamente a possibilidade, uma vez que há registros, ainda que não muito numerosos, de gente que mantinha oficinas nas quais escravos eram os "funcionários".
Finalmente, há o detalhe de que os escravos "trajavam calçados". Pedro Taques não mencionaria este pormenor não fora o fato de que era absolutamente incomum. No Brasil, o costume era que escravos andassem descalços, a fim de evidenciar diante da sociedade a sua condição servil. É bom recordar: o costume não foi inventado na Colônia. Vinha dos antigos romanos, que assim o faziam porque, de outro modo, poderia ser difícil, à primeira vista, distinguir um homem livre de um escravo. Afinal, em Roma não havia a possibilidade, com raríssimas exceções, de estigmatizar escravos com base na cor da pele. Além disso, muitos escravos tinham origem social elevada (gregos, por exemplo, derrotados em combate) e eram ocupados na educação de jovens patrícios romanos. A ausência de calçados era, então, a marca da perda da liberdade.
Por tudo isso, pode-se dizer, em conclusão, que, de fato, João Pires das Neves e seus escravos deviam ser, senão um espanto, ao menos um componente algo incomum na pequena São Paulo de seus dias.


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Debret também retratou uma dessas exceções, em que, aos escravos, permitia-se o uso de sapatos. É o que se vê nesta cena de casamento de escravos de uma família rica (*) no Século XIX. Nela, as personagens não só usam roupas apropriadas para uma ocasião especial como exibem, nos pés, os calçados que sua condição servil habitualmente proibia.



(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3
Paris: Firmin Didot Frères, 1839
O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

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