sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

"Boca do Inferno" e "Braço de Prata"

Antônio de Sousa Meneses, que começou mandato como governador-geral do Brasil em maio de 1682, fez um governo absolutamente desastrado e, por isso, sequer chegou a cumprir no cargo os três anos costumeiros. Indispôs-se com gente importante da Bahia, desagradou ao povo em geral, ofendeu clérigos e, como se fora pouco, andava de grande amizade com um seu favorito que exercia o cargo de alcaide-mor, Francisco Teles de Meneses, personagem que, aliás, acabou vítima de assassinato em razão das intrigas políticas em que se envolveu.
O senhor governador tinha o curioso apelido de "Braço de Prata". Explica-se: havia perdido um braço ao lutar em Pernambuco contra holandeses. Como o Século XVII não foi nenhuma era dourada da cibernética, o braço perdido foi substituído por um de prata, daí a alcunha que lhe deram.
Ocorre que, nos dias do Governo-Geral de Antônio de Sousa Meneses, vivia em Salvador ninguém menos que o poeta barroco Gregório de Matos Guerra, esse também de famoso apelido, ou seja, o "Boca do Inferno". Papel e tinta era todo o arsenal necessário para que, em seus versos, Gregório de Matos imortalizasse a vida e a obra do péssimo governador. Vão aqui uns poucos exemplos de quantos louvores andou tecendo o "Boca do Inferno" em honra ao "Braço de Prata".
O primeiro descreve a chegada de Antônio de Sousa Meneses à Cidade da Bahia:

"Quando desembarcaste da fragata,
Meu Dom Braço de Prata,
Cuidei, que a esta cidade tonta e fátua
Mandava a Inquisição alguma estátua
Vendo tão espremida salvajola
Visão de palha sobre um mariola."

Critica, depois, nos dois trechos seguintes, tanto o caráter quanto a administração do governador-geral:

"O certo é seres um caco,
um ladrão da mocidade,
por isso nesta cidade
corre um tempo tão velhaco:
farinha, açúcar, tabaco
no teu tempo não se alcança,
e por tua intemperança
te culpa o Brasil inteiro,
porque sempre és o primeiro
móvel de qualquer mudança."

"Dizem que sou um velhaco,
e mentem por vida minha,
que o velhaco era o Governo,
e eu sou a velhacaria.
Quem pensara e quem dissera,
quem cuidara, e quem diria,
que um braço de prata velha
pouca prata, e muita liga!"

Uma observação final: percebe-se que Gregório de Matos não nutria, também, grande estima pela cidade de Salvador de seus dias...

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