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terça-feira, 4 de maio de 2021

Tiros de canhão para combater uma epidemia de varíola

Foi no ano de 1867. Estava em curso a chamada Guerra do Paraguai (¹). Tropas brasileiras que retornavam de Corumbá para Cuiabá, a capital da Província de Mato Grosso, trouxeram consigo a terrível varíola. No dizer de João Severiano da Fonseca, médico veterano da Guerra do Paraguai, "a varíola foi desconhecida ou pelo menos nunca se propagou na Província [de Mato Grosso] até o ano de1867 [...]; mas, naquele ano, desenvolvendo-se essa enfermidade em Corumbá, de pronto estendeu-se a Cuiabá e aos outros povoados, exceção feita, dizem, de S. Luís de Cáceres, onde se estabelecera um rigoroso cordão sanitário" (²).
De acordo com Joaquim Ferreira Moutinho, português que residiu por dezoito anos em Cuiabá e foi testemunha ocular desses acontecimentos, em 1º de julho foi hospitalizado um soldado que, em seguida, morreu, e "todas as pessoas que se comunicaram com os recém-chegados caíram logo com a mesma moléstia, e o número foi gradualmente crescendo [...]" (³). A doença espalhou-se rapidamente entre os moradores de Cuiabá, que, em sua maioria, não eram vacinados. Por que não, se a vacinação era praticada há muito tempo no Brasil? Pode-se facilmente imaginar o argumento: "Bem, nunca tivemos varíola por aqui; por que deveríamos estar preocupados com vacinação?" 
A consequência dessa "lógica" foi absolutamente desastrosa. "A cidade tomou um aspecto indescritível", conforme expressão de Ferreira Moutinho, e "de todas as casas via-se saírem cadáveres, que eram conduzidos em redes para os campos, e de muitas fecharam-se as portas, porque os seus habitantes haviam perecido, desde o chefe da família até o último escravo!" (⁴). Nas palavras do mesmo autor, "[...] de uma população de doze mil almas, mais da metade sucumbiu, e parte levantou-se disforme" (⁵).
Os poucos vacinados que lá estavam mal podiam prestar algum socorro para conforto dos doentes. Não havia recursos médicos realmente efetivos contra a enfermidade. No entanto, parece que o comandante das armas de Cuiabá teve uma ideia brilhante. Vejam, leitores, o que contou Joaquim Ferreira Moutinho, mas leiam com atenção, porque é notável:
"O comandante das armas, nos dias mais lutuosos, mandou colocar peças de artilharia em diversas ruas da cidade, e dar fogo de manhã e à tarde.
Ignoramos também o fim dessa medida.
Pretenderia afugentar a epidemia com tiros de canhão? Esse pretendido recurso higiênico foi a causa de tornar-se mais grave o estado de muitos enfermos, pois ao primeiro estampido levantavam-se em delírio e procuravam fugir, julgando que eram os paraguaios que se achavam na cidade." (⁶) 
Moutinho não soube explicar para que serviam os tiros de canhão. Também desconheço seu propósito terapêutico. Alguém saberia dizer?

(1) 1864 - 1870.
(2) FONSECA, João Severiano da. Viagem ao Redor do Brasil 1875 - 1878 Volume 1. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro e C., 1880, p. 186.
(3) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Notícia Sobre a Província de Mato Grosso. São Paulo: Typographia de Henrique Schroeder, 1869, p. 100.
(4) Ibid., p. 102.
(5) Ibid., p. 104.
(6) Ibid., pp. 105 e 106.


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