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sexta-feira, 25 de março de 2016

Escravas vendiam doces por conta própria na Quinta-feira Santa

Escravas vendedoras no Rio de Janeiro (¹)

Escravos urbanos eram muito frequentemente ocupados por seus senhores na tarefa de vender pelas ruas uma grande variedade de mercadorias, nas quais se incluíam verduras, café, limonada e, para encanto da criançada, doces. É óbvio que o dinheiro resultante das vendas pertencia aos proprietários dos escravos, ainda que haja relatos de arranjos entre senhores e cativos para que esses últimos recebessem uma pequena "comissão", proporcional ao lucro obtido.
Havia, porém, ao menos uma ocasião no ano (²) em que as escravas que vendiam doces podiam fazê-lo por conta própria: era a quinta-feira da Semana Santa.
Descrevendo como a população da capital do Império celebrava a data, o missionário e pastor metodista Daniel P. Kidder, que andou pelo Brasil entre 1837 e 1840, observou:
"Não se tocam sinos nem se queima foguetes nesse dia. As igrejas são vedadas à luz do dia e seu interior profusamente iluminado por velas de cera, no meio das quais fica exposta, no altar-mor, a Sagrada Hóstia. Dois homens paramentados em seda roxa postam-se de guarda. Em algumas igrejas fica exposta a imagem do Senhor morto, sob um pequeno dossel, tendo apenas uma das mãos para fora, de maneira que o povo possa beijá-la. Numa salva de prata que fica ao lado da imagem, depositam óbolos em dinheiro." (³)
E o que é que esse ritual fúnebre tinha a ver com a venda de doces? Não se esqueçam os leitores que era Quinta-feira Santa, sim, mas no Brasil. Sigamos com Kidder:
"À noite o povo passeia pelas ruas e visita as igrejas. Por essa ocasião, há geralmente profusa troca de presentes, o que redunda em benefício das escravas que nesses dias têm licença para vender doces por conta própria." (⁴)
À parte todo o horror da escravidão, é bem possível que, sob o aspecto festivo, venhamos até a ter saudades de um tempo no qual não vivemos...

(1) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Não desconsiderando, por certo, outros costumes regionais.
(3) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 133.
(4) Ibid.


Veja também:

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A substituição dos escravos domésticos por criadagem livre

Escravo doméstico fazendo compras para a
família de seu proprietário (¹)
Durante muito tempo, ter um bom número de escravos dentro de casa, para a realização das tarefas quotidianas, foi visto como sinal de riqueza - uma vasta escravatura doméstica era coisa que gente de alta posição social gostava de ostentar. O tempo, porém, trouxe mudanças importantes, de modo que aquilo que era visto como um luxo passou a ser motivo de constrangimento. Em poucas palavras, a escravidão começou a ser considerada como aquilo que realmente era, uma vergonha nacional, que precisava desaparecer e, quanto mais cedo, melhor. 
Nesse cenário, era óbvio que famílias abastadas continuariam a ter servidores, não mais escravos, é verdade, mas criados de condição livre, que recebiam salários pelo trabalho que realizavam.
Os leitores que tiverem alguma familiaridade com a Literatura hão de recordar que em Quincas Borba (²) Machado de Assis situa muito bem o momento em que a gente urbana começava a ter orgulho por manter criadagem livre. Rubião, um sujeito afeiçoado aos hábitos simples de Minas Gerais, vem viver na capital do Império, após receber uma inesperada fortuna, condicionada à obrigação de zelar por Quincas Borba (o cão). Por conselho de novos amigos, aceita criados europeus, ainda que a contragosto:
"O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da Província, nem o pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços."
Ora, como sabem os leitores, o tal criado espanhol era aquele mesmo que, às escondidas, agarrava Quincas Borba pelas orelhas (o cão, naturalmente), a quem chamava "perro del infierno!"...
Mas trataremos agora do interesse que se ocultava atrás da ideia da substituição dos escravos domésticos por criadagem livre. Em um número publicado em 1853, o periódico O Agricultor Brasileiro argumentava, defendendo a vinda de colonos livres para trabalhar nas cidades:
"O número de escravos existentes presentemente no Rio de Janeiro é calculado aproximadamente em cem mil; e sendo certo que nas cidades onde não há escravos um criado faz tanto serviço como entre nós fazem dois ou três escravos, acreditamos que quarenta mil colonos serão suficientes para ocorrer a todas as necessidades de serviços urbanos." (³)
Para forçar a substituição, o jornal propunha taxar a propriedade de escravos urbanos com impostos elevados; deixava claro que a ideia não era indicada para a lavoura, onde se entendia que os escravos eram ainda indispensáveis. Sugeria, então, que os escravos urbanos deveriam ser direcionados à agricultura, sem levar em conta que era pouco provável sua adaptação às duríssimas condições de vida impostas aos cativos nas fazendas.
Será útil também salientar que essa curiosa proposta nasceu após a Lei Eusébio de Queirós, que bania em definitivo o tráfico de africanos para o Brasil; assim, a ideia de levar os escravos urbanos para as áreas de cultivo não deixava de ser uma tentativa de burlar, ou, pelo menos, de fugir às consequências da Lei de 1850.
Aventava-se, além disso, que a taxação da propriedade de escravatura doméstica urbana, virtualmente obrigando à venda para a lavoura, faria cair um pouco o preço dos escravos, o que acabaria por favorecer fazendeiros que se candidatassem a comprá-los.
É fácil perceber que, ao menos temporariamente, estavam tentando "dar um jeitinho" para prolongar a vida da maldita escravidão. Se os escravos urbanos iriam ou não gostar da ideia era coisa que não passava pela cabeça de (quase) ninguém. Eles eram escravos, não eram? Então, na lógica da época, deviam fazer aquilo que seus respectivos proprietários mandassem. A consideração por questões humanitárias chegava a ser avaliada, às vezes, como ocupação para cérebros ociosos.

(1) Desenho aquarelado de Joaquim Lopes de Barros (1840 - 1841). O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Antes de ser publicado na forma de livro, Quincas Borba foi apresentado ao público como folhetim, nos anos finais da escravidão no Brasil.
(3) O AGRICULTOR BRASILEIRO nº 2. Rio de Janeiro: Typographia de Nicolau Lobo Vianna Junior, 1853, p. 6.


Veja também:

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Com que frequência os escravos mudavam de roupa

Às vezes subestimamos a liberdade. Nem percebemos que esse bendito direito de fazer o que nos dá na telha (com algumas restrições, é claro), nem sempre existiu e, mesmo hoje, não é compartilhado por toda a humanidade. 
Escrava voltando da roça (¹)
O indivíduo que vivia na condição de escravo em uma fazenda no Brasil tinha a sua rotina diária estritamente regulada pelo proprietário e pelos comandos do feitor. Havia hora para acordar, para ir em fila ao trabalho, para as magras refeições, para voltar à sede da fazenda, para os trabalhos da noite, para se recolher à senzala (ainda que, lá dentro, nas habitações coletivas, a conversa, contrariado as regras, seguisse por várias horas). O controle era quase absoluto.
É verdade que todo senhor devia conceder descanso aos escravos aos domingos e feriados religiosos, mas é também verdade que nem todos os senhores assim procediam, e há registros de queixas amargas dos escravos que eram obrigados a trabalhar continuamente, em particular nos tempos coloniais. Muitos proprietários tinham verdadeira obsessão em impedir que os seus cativos tivessem oportunidades para encontros com escravos de outras fazendas, receando que tramassem alguma revolta. 
Os "regulamentos" para controlar a vida dos escravos iam ao ponto de determinar quando lhes seria permitido ou imposta a obrigação de mudar de roupa. Escreveu o segundo barão de Paty do Alferes:
"No domingo de manhã, deve o escravo vestir roupa lavada, e a suja deve na segunda-feira ir para a barrela  e enxaguar-se na terça. Quando por motivo de chuva molharem-se, devem os escravos mudar logo de fato, e estender mesmo na sua senzala o que se molhou, para o tornarem a vestir no dia seguinte, quando saírem para o serviço, pondo de reserva a outra muda." (²)
Tentem lembrar-se disso, leitores, quando mudarem de roupa meia dúzia de vezes em um só dia...
Há mais. A situação de terem dois conjuntos de roupas, descrita por Lacerda Werneck, era quase um luxo, coisa dos tempos imperiais, quando os costumes, bem ou mal, já andavam algo mais decentes. Com o produto das pequenas roças que plantavam para si mesmos, havia escravos que compravam alguma roupa extra, que podiam usar nos feriados e cerimônias da Igreja. Mas, se voltarmos ao Período Colonial, será fácil encontrar autores que não vacilavam em afirmar que os escravos andavam seminus, cobertos por verdadeiros andrajos, em particular quando trabalhavam em engenhos de açúcar. Não poucos religiosos eram enfáticos em lembrar aos senhores que as penas do inferno lhes eram devidamente asseguradas por não vestirem e alimentarem os escravos com o mínimo da caridade que se esperava de cristãos professos.
A situação dos escravos urbanos, quanto ao vestuário, também não era das melhores, pelo menos até o começo do Século XIX. Há desenhos e aquarelas de Thomas Ender, por exemplo, nos quais escravas podem ser vistas precariamente vestidas. No entanto, o estabelecimento da Corte no Rio de Janeiro, tanto no Período Joanino como após a Independência, acarretou uma gradual mudança de costumes, de modo que os escravos que viviam na capital do Império principiaram a aparecer em público trajados com alguma decência. Como muitas vezes acompanhavam seus senhores nas idas e vindas pela cidade, tomavam-se providências para que os cativos usassem roupas apresentáveis. Esses escravos eram, também, menos estritamente controlados quanto a horários. Percebe-se que a gradual urbanização, mesmo não sendo o fator decisivo, acabou por contribuir para que a ordem escravista fosse desmantelada.

Escravos urbanos, usando libré, conduzem sua senhora à missa
em uma cadeirinha de arruar (³)

(1) RIBEYROLLES, Charles. Brazil Pittoresco. Paris: Lemercier, 1861. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 39 e 40.
(3) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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