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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Roupas finas da Babilônia

Ao contrário do que alguns imaginam, a Babilônia, conquistada por um vasto exército sob a liderança dos persas em 539 a.C., não virou poeira instantaneamente. Perdeu importância política, é fato, mas era, ainda, bela e admirada, e, a despeito de algumas rebeliões contra dominadores estrangeiros, os sábios que nela havia, peritos em investigar o céu, puderam, por muito tempo e sem grandes perturbações, continuar em seus afazeres, um misto de ciência e superstição, à moda da Antiguidade. Assim, a grande cidade foi definhando aos poucos, de tal modo que, no Século I a.C., Plínio, o Velho, pôde escrever, sobre as construções pelas quais era famosa: "Ainda permanece o templo de Bel, inventor da ciência do céu (¹), porém tudo o mais caiu no abandono [...]." (²) 
Contudo, durante algum tempo a região conservou certa importância econômica, ainda que, passo a passo, a população declinasse, com o crescimento de outros centros urbanos não muito distantes. Os romanos, apaixonados por tudo quanto era exótico, não desdenhavam a qualidade das roupas tecidas segundo uma técnica originária da Babilônia. Depois de afirmar a crença geral de que bordados com agulha haviam sido invenção dos frígios, Plínio referiu que "[...] tecer cores diferentes, formando um desenho, foi invenção dos babilônios, e, por isso, esse processo é celebrado com seu nome" (³). Nem mesmo alguma lei suntuária seria capaz de impedir o uso de trajes tão refinados.  
O correr dos séculos se encarregou de juntar poeira e entulho sobre o que restara da Babilônia que, abandonada e esquecida, só acordou no Século XIX do sono em que fora prostrada, quando arqueólogos deram com ela e, com algum esforço, foram capazes de identificá-la, deslumbrando o mundo instruído com o que ainda podia ser encontrado de suas antigas maravilhas. 

(1) Astronomia, que, para os antigos babilônios, era também astrologia.
(2) PLÍNIO, o Velho. Naturalis Historia, Livro VI. 
(3) Ibid., Livro VIII. 
Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A roca e o fuso d'A Bela Adormecida e os teares da Revolução Industrial

"E Ana Margarida, ama de mestre Afonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cinta, e o fuso espetado entre o linho e o ourelo que o apertava."
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas

A princesa prestes a tocar o fuso, ilustração
de Wilhelm Jordan (²)
As versões da história são muitas, mas o que importa é que a linda princesinha, ao nascer, cai no desagrado de uma bruxa ou fada invejosa (¹), e, em consequência, é predestinada a um sono de cem anos, tão logo tenha seu lindo dedinho picado pelo fuso de uma roca. Desesperado, o rei, pai da menininha, ordena que todas as rocas sejam destruídas. Mas (conto de fada ou de bruxa que se preza sempre tem um "mas"...), um dia, o inevitável acontece. A menina curiosa vê escorrer uma gotinha de sangue e logo adormece. O reino todo resolve dormir também, até que (sim, todo conto de fadas também costuma ter um "até que") um príncipe maravilhoso, cem anos mais tarde, removendo a floresta cerrada e as teias de aranha que haviam crescido por toda parte, chega até a princesa e, com um beijo, a faz despertar, bem como a todo o seu séquito de dorminhocos. Como é óbvio, acontece uma festa de casamento e todos vivem felizes para sempre.
Dornröschen, para os Irmãos Grimm, ou A Bela Adormecida, como o conto é costumeiramente chamado em português, pode ser muito instrutivo para quem se interessa por História. É o que veremos agora mesmo, leitores.
Roca e fuso eram usados para transformar linho, cânhamo, flocos de lã, etc., em fios, que, depois, em um tear, seriam usados para fazer tecido. Não é sem causa que uma das imagens mais frequentemente associadas à ocupação de mulheres na Idade Média seja justamente a de alguém fiando. Independente de condição social, saber fiar e tecer era uma questão de sobrevivência. Nesse tempo, todo o processo de produção de fios e tecidos era extremamente moroso, o que explica, ao menos em parte, por que as pessoas tinham, em geral, poucas roupas, que eram consertadas repetidas vezes. O tempo do tear a vapor, uma verdadeira marca da chamada Revolução Industrial inglesa, ainda estava distante: a spinning jenny, capaz de fiar oito fios ao mesmo tempo, é datada de 1764, enquanto que o primeiro tear a vapor somente foi registrado em 1780. Com esses inventos, perdia-se a serenidade de fiar lentamente, ao modo medieval, e entravam em cena os trabalhadores reunidos em enormes galpões - as fábricas - em que, ao ritmo das máquinas, e não mais segundo a capacidade individual dos seres humanos, os fios e tecidos eram fabricados em larga escala, para atender a mercados em expansão, bem perto, no próprio país, ou muito longe, além do oceano.

(1) Haverá alguma diferença entre uma bruxa e uma fada perversa?
(2) WEGENER, Friedrich. Dornröschen. Berlin: Globus Verlag, 1901.


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