segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A Roca e o Fuso d'A Bela Adormecida e os Teares da Revolução Industrial

"E Ana Margarida, ama de mestre Afonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cinta, e o fuso espetado entre o linho e o ourelo que o apertava."
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas

A princesa prestes a tocar o fuso, ilustração
de Wilhelm Jordan (**)
As versões da história são muitas, mas o que importa é que a linda princesinha, ao nascer, cai no desagrado de uma bruxa ou fada invejosa (*), e, em consequência, é predestinada a um sono de cem anos, tão logo tenha seu lindo dedinho picado pelo fuso de uma roca. Desesperado, o rei, pai da menininha, ordena que todas as rocas sejam destruídas. Mas (conto de fada ou de bruxa que se preza sempre tem um "mas"...), um dia, o inevitável acontece. A menina curiosa vê escorrer uma gotinha de sangue e logo adormece. O reino todo resolve dormir também, até que (sim, todo conto de fadas também costuma ter um "até que") um príncipe maravilhoso, cem anos mais tarde, removendo a floresta cerrada e as teias de aranha que haviam crescido por toda parte, chega até a princesa e, com um beijo, a faz despertar, bem como a todo o seu séquito de dorminhocos. Como é óbvio, acontece uma festa de casamento e todos vivem felizes para sempre.
Dornröschen, para os Irmãos Grimm, ou A Bela Adormecida, como o conto é costumeiramente chamado em português, pode ser muito instrutivo para quem se interessa por História. É o que veremos agora mesmo, leitores.
Roca e fuso eram usados para transformar linho, cânhamo, flocos de lã, etc., em fios, que, depois, em um tear, seriam usados para fazer tecido. Não é sem causa que uma das imagens mais frequentemente associadas à ocupação de mulheres na Idade Média seja justamente a de alguém fiando. Independente de condição social, saber fiar e tecer era uma questão de sobrevivência. Nesse tempo, todo o processo de produção de fios e tecidos era extremamente moroso, o que explica, ao menos em parte, por que as pessoas tinham, em geral, poucas roupas, que eram consertadas repetidas vezes. O tempo do tear a vapor, uma verdadeira marca da chamada Revolução Industrial inglesa, ainda estava distante: a spinning jenny, capaz de fiar oito fios ao mesmo tempo, é datada de 1764, enquanto que o primeiro tear a vapor somente foi registrado em 1780. Com esses inventos, perdia-se a serenidade de fiar lentamente, ao modo medieval, e entravam em cena os trabalhadores reunidos em enormes galpões - as fábricas - em que, ao ritmo das máquinas, e não mais segundo a capacidade individual dos seres humanos, os fios e tecidos eram fabricados em larga escala, para atender a mercados em expansão, bem perto, no próprio país, ou muito longe, além do oceano.

(*) Haverá alguma diferença entre uma bruxa e uma fada perversa?
(**) WEGENER, Friedrich Dornröschen
Berlin: Globus Verlag, 1901

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