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terça-feira, 9 de março de 2021

Aferição de pesos e medidas no Brasil Colonial

Se vocês, leitores, quiserem algum instrumento de medida - uma régua para uso escolar ou para escritório, digamos - irão à loja mais próxima que venda o dito objeto e lá comprarão um, não é verdade? Supõe-se, a partir daí, que terão confiança nessa régua, crendo que, quando necessário, fornecerá a medida com exatidão. Vale o mesmo para medidas usadas na cozinha, ou talvez em uma oficina. As balanças e outros instrumentos empregados no comércio são regularmente aferidos, como se sabe, pelo órgão público competente.
Imaginem, agora, a situação de quem usava instrumentos de medida no Brasil Colonial. Como ter certeza de que ofereciam o resultado correto? Como saber que, afinal, medidas de capacidade, usadas nas vendas por pequenos comerciantes, não eram, em última análise, um instrumento de fraude?
A resposta é esta: medidas consideradas padrão ficavam em poder da Câmara Municipal de cada localidade, e era ela que, periodicamente, devia providenciar a aferição dos pesos e medidas empregados no comércio, indicando, para isso, uma pessoa qualificada. A Câmara de São Paulo, por exemplo, decidiu, em julho de 1584:
"Aos dois dias do mês de julho, era de mil e quinhentos e oitenta e quatro anos, foi mandado [...] apregoar as posturas neste livro contidas [...] e que quem tivesse medidas ou varas de medir ou pesos os trouxesse para aferir, com pena de dois tostões [...]."
A multa estipulada era pequenina em termos absolutos, mas quase não havia dinheiro amoedado circulando na vila. Curioso, mesmo, era o modo como se avisava a população quanto à obrigatoriedade de apresentar pesos e medidas para aferição, conforme se vê em outra ata, datada de 14 de setembro de 1585:
"[...] o almotacel Jerônimo Maciel mandou deitar pregão pelo porteiro [...] e assim mandou que todas as pessoas que tivessem pesos e medidas as trouxessem perante ele [...] tudo para ser visto e examinado se estavam certas e boas [sic], e o dito porteiro deitou o dito pregão em altas vozes, que ouviu a gente do povo a que o quis ouvir, e que as tais medidas, pesos e meios alqueires (¹) trouxessem dentro em três dias perante ele para o dito efeito, sob pena de duzentos réis [...]." (²)
A reunião dos oficiais da Câmara acontecia habitualmente aos sábados. Havendo alguma coisa a ser comunicada ao povo, o porteiro, concluída a missa no domingo imediato, punha-se do lado de fora da igreja, a fim de ler a proclamação, porque nesse dia estavam presentes não só aqueles que residiam dentro dos muros da vila, como quem morava em fazendas nos arredores. Pode-se bem imaginar quanto essa prática contribuía para preservar os sentimentos religiosos entre a população...

(1) Um alqueire, como medida de volume, equivalia, nesse tempo, a pouco mais de treze litros.
(2) As atas aqui citadas foram transcritas na ortografia atual, com adição da pontuação indispensável.


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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Unidades de medida de uso culinário no Século XVIII e início do Século XIX

Quem folheia hoje um livro de receitas culinárias percebe facilmente que muitas das medidas empregadas pertencem ao Sistema Métrico Decimal, que é usado quase no mundo todo. A padronização é vantajosa, pois torna possível a fácil compreensão das medidas, mesmo em textos escritos dentro de culturas muito diferentes entre si. A utilização das chamadas "unidades imperiais" britânicas em poucos países não invalida esse fato.
Entretanto, antes que o uso do sistema métrico se generalizasse, consultar um livro de receitas podia ser uma aventura de resultados práticos um tanto desastrosos, se o cozinheiro ou cozinheira não estivesse devidamente familiarizado com o uso das medidas ali mencionadas. Para ter uma ideia do que isso realmente significava, veja abaixo uma pequena lista de medidas culinárias que estiveram em uso até meados do século XIX, e descubra quantas conhece:

Alcatruz - Concha, balde, colher.

Almude - equivalente a 16,8 litros.

Arrátel - equivalente a 0,459 quilogramas.

Canada - equivalente a 1,4 litros.

Covilhete - pratinho usado para sobremesas ou doces.

Libra - aproximadamente o mesmo que um arrátel, a libra é proveniente do sistema britânico de medidas, valendo aproximadamente 0,453 gramas.

Quartilho - 0,35 litros.

Balança Antiga (*)
O aparecimento no mercado, particularmente desde fins do século XIX, de balanças mais precisas, tanto de uso geral quanto especificamente culinário, bem como a generalização do emprego do sistema métrico decimal, mais prático e lógico, permitiram que gradualmente essas ambiguidades nas medidas fossem acabando. Ainda assim, são ainda usuais em muitos livros de receitas algumas expressões do tipo "uma colher de sopa", "um copo", "uma xícara", "uma colher de café" ou, pior ainda, "uma pitada", "um pouco de" ou "uma porção de". Qual o problema? Há copos e xícaras de diversos tamanhos, as colheres podem estar mais ou menos cheias e a pitada depende da percepção que cada um tem do que seja isso. E pensar qual foi a origem dessa expressão...

(*) A balança da foto pertence ao Museu da Cidade de São Pedro, SP.


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