sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

"Thy kingdom come..."

Oliver Cromwell, os Puritanos e a Experiência Republicana na Inglaterra do Século XVII


1649. Um rei, Charles I,  perde a cabeça (*) - literalmente - e, em seu lugar, à frente do novo governo republicano, denominado Commonwealth of England, está Oliver Cromwell.
Cromwell foi uma dessas personagens que, em seu próprio tempo, e mesmo mais tarde, despertou as mais controvertidas opiniões. Para o grupo político que representava, o dos puritanos, com notável viés religioso, como aliás era comum na época, foi um verdadeiro herói, e assim também foi considerado pelos que, mesmo fora da Inglaterra, simpatizavam com suas ideias. Entre os opositores, no entanto, foi visto como o mais completo tirano, capaz de atrocidades que nem mesmo os mais sanguinários monarcas absolutistas haviam tentado. Acabou por dissolver o parlamento e chamar todo o governo para si, como Lorde Protetor da Inglaterra, Escócia e Irlanda.
É verdade que, politicamente, seu governo teve muito de questionável, em particular no trato com grupos discordantes. Escoceses e irlandeses não têm, por certo, razões para muito apreço por sua memória. Como negar, porém, o tino comercial embutido nos Ato de Navegação de 1651, decisivo que foi para tornar a Inglaterra, por séculos, uma verdadeira senhora dos mares? Explicando de um modo muito simples, ele determinava, entre outras disposições, que produtos importados somente poderiam ser trazidos até portos da Inglaterra por navios dos países produtores ou por navios de bandeira inglesa. Isso desbancava a concorrência holandesa, e foi uma prática que, dentro do contexto mercantilista que andava na moda, funcionou muito bem.
Oliver Cromwell morreu em 1658. Sim, eis aí um fato que é, às vezes, indevidamente esquecido: os poderosos também morrem.
Mas voltemos, leitores, ao assunto do governo republicano estabelecido após a execução de Charles I. Segundo uma antiga tradição, sendo nesse tempo violenta a aversão à monarquia (ao menos entre os adeptos de Oliver Cromwell), os puritanos, tão intensamente religiosos como eram, sempre que iam repetir o Pai Nosso, e para evitar a palavra "reino", diziam "Thy commonwealth come", em lugar de "Thy kingdom come". Seja isso fato ou lenda, revela com perfeição o clima que reinava (ai!) durante a breve experiência republicana vivida pela Inglaterra no Século XVII.

(*) Naquele tempo a guilhotina ainda não havia sido inventada, de modo que o rei foi decapitado segundo o método corrente em seus dias: o carrasco usava um enorme machado, cuja lâmina era muito bem afiada. Sabe-se que, para fazer o serviço completo, um carrasco experiente precisava, como regra, acionar o dito machado de três a cinco vezes.

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