segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Quantas Embarcações um Engenho Colonial Devia Ter

Não bastava a um engenho colonial produzir açúcar de boa qualidade. Para que o senhor de engenho pudesse comemorar os lucros, era preciso que a mercadoria, acondicionada em caixas de madeira, fosse vendida e levada ao porto, de onde, em navios, partiria para a Europa. 
No Brasil colonial quase não havia estradas. No melhor dos casos, havia caminhos cheios de buracos ou, em época de chuvas intensas, cheios de lama. Por causa disso, considerava-se que o melhor lugar para a instalação de um engenho era bem perto do mar, se possível; não sendo assim, devia, ao menos, não estar longe de um rio que possibilitasse acesso ao Atlântico. Em carros de bois, as caixas de açúcar eram levadas a um pequeno cais ou à margem do rio e, em embarcações apropriadas, conduzidas, então, ao porto que recebia navios capazes de cruzar o oceano.
Sendo assim, quantas embarcações um engenho deveria ter, a fim de garantir a remessa, sem atrasos, do açúcar produzido? Na segunda metade do Século XVI, de acordo com Gabriel Soares (ele próprio um senhor de engenho), deviam ser quatro, no mínimo:
"E são tantas as embarcações na Bahia, porque se servem todas as fazendas por mar;  e não há pessoa que não tenha seu barco ou canoa pelo menos, e não há engenho que não tenha de quatro embarcações para cima; e ainda com elas não são bem servidos." (*)
Esse era o padrão no Século XVI, mas é presumível que posteriormente os engenhos, com mais trabalhadores cativos e maiores áreas de cultivo, e, portanto, com maior produção, passassem a necessitar de mais embarcações. 
Bahia e Pernambuco, em fins do Século XVI e primeira metade do Século XVII, eram os maiores produtores de açúcar, ainda que os empreendimentos açucareiros fossem também significativos no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. Sempre em áreas litorâneas, já se nota, uma vez que o foco de quase toda a produção de açúcar estava na exportação; a fabricação de aguardente de cana, ainda que em parte destinada ao consumo interno, era também voltada ao infame comércio de seres humanos para a escravização, que se fazia na costa da África. 
Notem, leitores, que há, aqui, um jogo sinistro na lógica de produção e troca: africanos escravizados e trazidos ao Brasil trabalhavam na lavoura de cana, nos engenhos em que se fabricava a cachaça e nas plantações de tabaco, cujo produto era destinado, em parte, à compra de outros escravos. Mais uma dessas tragédias de que a história da humanidade está repleta.

(*) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 151

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